No verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra como vogal da
commissão de exames de instrucção secundaria.
Coimbra, a _terra de encantos_, só então me pareceu tel-os, porque da
primeira vez que a visitei, durante um dia triste e chuvoso, cheio de
incertezas para mim, a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco
agradavel.
Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes verdejavam as suas
galas roçagantes, o Mondego, manso e humilde, amenisava bucolicamente a
paizagem, toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por entre os
sinceiraes e as suaves quebradas dos montes.
Uma delicia!
De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, arduo sempre, e por
vezes doloroso como é. Mas de tarde eu desforrava-me passeando no
Choupal, na Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego.
A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores do Porto, de
Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos uns aos outros nos passeios de
todas as tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem
estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar sósinho: era
o pintor Christino, que fazia parte do juri de desenho.
Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, e, recostado na
prôa do barco, parecia gosar n'um extasi pantheista o bello espectaculo
da natureza que o rodeava.
Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas d'aquella clara
paizagem, lucida e placida como uma vista de stereoscopo.
Pois que o pintor Christino tinha a configuração de um eucalipto, alto e
magro, nós, que da Ponte o ficavamos observando, podiamos distinguir,
até grande distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, que
destacavam á prôa do barco.
Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem do poente que a sua
cabeça descoberta, e mal guarnecida de cabello, pendia scismadora.
Comprehendia-se. Christino reunia mentalmente á belleza do panorama as
tradições romanticas, as memorias lendarias d'aquella margem. D'esse
lado ficava a _Fonte dos amores_ emboscada saudosamente na sombra de
corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a elegia dos
mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, á distancia de dois
kilometros da cidade, a _Lapa dos esteios_, «retiro selvatico sem
aspereza, e como enfeitado sem arte», segundo a phrase de Castilho,
recordava os tempos semi-pagãos em que o poeta da _Primavera_ e os seus
amigos ali foram, em plena mocidade, celebrar, no seio da natureza, a
festa do equinoxio que traz as flores e os canticos, os perfumes e os
amores.
Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, tinha uma
alma de artista, era uma organisação delicada como a de Raphael,
que se devorava nas suas proprias impressões, e ninguem mais
profundamente do que elle poderia sentir toda a poesia d'essa região
encantada, que o Mondego banha, e que as recordações e as arvores povoam.
Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se uma gondola de
Veneza o fosse passeando no canal do Lido ao som da barcarola de uma
gondoleira. _Ó dolce voluttá_! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos
artistas! Que doces horas aquellas que o Christino passou no Mondego
sonhando sobre as aguas!
Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou abençoando do alto
da Ponte como se elle levantasse ferro para uma longa viagem aventurosa
e arriscada. É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto a
gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios ao acaso, que
desgastam a alma, e com ella a vida. Volta-se velho, como se realmente
se tivesse feito uma longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se
envelhece ao cabo de algumas horas de concentração.
Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes tornei a avistar-me com
o pintor Christino.
Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra morrêra, e ouvi dizer
que a luz da sua razão tinha empallidecido primeiro que a dos olhos...
Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles sonhos do Mondego, tão
a miude repetidos, e tão docemente devoradores!...
Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista notavel.
Encontrava-o muitas tardes na alameda de S. Pedro de Alcantara
passeando, quasi sempre só. Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces
morenas, olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado, era
comtudo facil e agradavel.
Amador da natureza, ia procural-a no panorama que d'aquella alameda se
descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo
artistico de que os pintores que copiam do natural precisam
impregnar-se.
Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por S. Pedro de
Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. Os olhos conservavam o
seu brilho agareno. Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por
vinte e quatro horas.
No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação havia morrido
repentinamente.
E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, o panorama
oriental da cidade parecia provocar, na sua belleza tranquilla, a paleta
de um pintor.
Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que, sendo eterna a
natureza, o homem, o mais perfeito dos seus organismos, seja quasi um
ephemero!...
Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente nem com o Christino nem
com o Annunciação. Os cabellos branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia
era aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, parecia
vender saude.
Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, n'uma _soirée_ litteraria
que o visconde de Castilho (Julio) déra na sua casa da rua de S. João da
Matta em honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio.
Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem augmentaram de
intimidade. Mas eu gostava de encontral-o porque elle, que era um
trabalhador, tinha alegria, e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom
de convicção dava-me estimulo.
Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar na rua um homem que
se mostra desanimado por ser obrigado a trabalhar...
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