Innocencio Francisco da Silva

Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas provas de estima

pessoal e de consideração litteraria.

Foi elle que me propoz socio correspondente da Academia Real das

Sciencias. E fel-o espontaneamente, penhorando-me sobremodo.

Mantive com Innocencio as melhores relações de amizade, inalteravel entre

nós dois até os ultimos dias da sua attribulada existencia.

Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio não recebeu nunca

do estado os beneficios a que, pela improba canceira a que se dedicou,

tinha inquestionavel direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo entre a

funcção burocratica, que desempenhava no governo civil de Lisboa, e os

seus valiosissimos trabalhos bibliographicos. Nem todos os homens de

lettras lhe faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente

com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe foros de escriptor,

simplesmente pelo facto de não ser um estilista. Alguns

amesquinhavam o seu trabalho, que capitulavam desdenhosamente de _rol de

roupa suja de livros velhos_. Que revoltante injustiça! De mais a mais,

Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos livros, não dispunha de

meios bastantes para poder satisfazer todos os seus caprichos de

bibliophilo.

Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom por vezes azedo e

irritado das suas apreciações litterarias, falando ou escrevendo.

Innocencio devia pouco ao mundo para o qual sempre havia trabalhado

dedicadamente. Tinha a consciencia de merecer mais do que lhe davam, e o

seu espirito justiceiro revoltava-se contra essa flagrante ingratidão.

D'elle é que com propriedade se poderia dizer que fôra um _vencido da

vida_. Viveu atormentadamente; e assim morreu.

Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, que bello coração o

seu e, a sobredoirar a bondade do coração, que excellente caracter de

portuguez antigo!

Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente

infantis. Passava rapidamente da indignação á bonomia, e então era

adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes

liberrima em facilidades de linguagem.

Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. Não sabia enganar

nem fingir. O que era, era. Mas havia na sua alma, repito, um grande e

doce fundo de bondade antiga.

A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida quintilha de Sá

de Miranda:

Homem d'um só parecer,

D'um só rosto, uma só fé,

D'antes quebrar que torcer,

Elle tudo póde ser,

Mas de côrte homem não é.

Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, receberia a

impressão de ter deante de si um velho militar rabujento,--um major

revoltado contra a sua reforma e a decadencia do exercito.

Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão patriarchal,

de--digamol-o assim--bom humor tarimbeiro, ficava-se encantado de

ouvil-o e de tratal-o, porque a sua erudição fazia desculpar as demazias

de linguagem em que ás vezes caía.

Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra que, depois da

_Bibliotheca Lusitana_ do abbade Barbosa, saiu dos prelos portuguezes.

Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas

escripturou com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente

conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados posteriormente á

publicação da _Bibliotheca Lusitana_.

Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação, de buscas

mallogradas ou felizes, de sacrificios pecuniarios, de caminhadas

improductivas ou bem succedidas, de contrariedades vencidas ou

vencedoras representa o _Diccionario Bibliographico Portuguez_ até o

ponto em que o deixou publicado, e apparelhado para a continuação dos

restantes volumes do _Supplemento_!

De mais a mais, a natureza da especialidade em que labutava não lhe

consentia uma hora de descanso. Tarefa interminavel, porque um

diccionario bibliographico não se completa nunca, arrastava-o a uma

aspera applicação ininterrupta.

Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que, ao cabo de uma longa

viagem, avistam a terra desejada: _Emfim!_

O seu _emfim!_ devia ser a morte.

Todos os dias, de toda a parte--graças á actividade febril dos prelos

nos ultimos vinte annos--recebia novos livros, que se iam empilhando em

camadas alterosas á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse

lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a um novo supplemento,

que decerto já não esperaria concluir.

Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia do _Diccionario

Bibliographico Portuguez_, como subsidio para os nossos trabalhos

litterarios. Tem defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não

tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em relação ao seu

tempo, é pouco.

Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não era um avarento, um

Harpagão egoista, que fechasse a sete chaves os seus livros e os seus

manuscriptos. Facultava uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui

obsequiado por elle com a copia de algumas poesias ineditas de Gabriel

Pereira de Castro, que me serviram para architectar sobre ellas o

conto--_Como as borboletas se queimam_--inserto no livro PORTUGAL DE

CABELLEIRA (1875).

Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas em bibliomania.

Era natural que, entre elles, disputasse encarniçadamente a presa. Julio

Cesar Machado conta nas _Mil e uma historias_ o caso interessante de

Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se um ao outro, com o

fim de apanharem um livro raro, que ambos haviam lobrigado no Manuel

Rodrigues, do Pote das Almas.

D'esta vez Innocencio ficou codilhado.

A este ou outros desastres alludia elle certamente quando, escrevendo o

artigo _Bibliophilos e biblomaniacos_, na _Encyclopedia litteraria_,

publicada pelo sr. Antonio Maria Pereira (filho), dizia com visivel

azedume:

«Na classe dos bibliomaniacos _improductivos_, que capricham em

accumular livros sobre livros, um conhecemos sobre todos digno de menção

especial. Fareja este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, as

lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que lhe escapem os

leilões e a classica _feira da ladra_, na diligencia de prover-se de

tudo o que nas diversas provincias da republica litteraria gosa de

algum apreço por merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade dos

livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, arte, litteratura,

prosa e verso, impressos ou manuscriptos em qualquer lingua, e de

qualquer tempo, tudo lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido

reunir copiosissima somma de volumes, e não sem grande dispendio, com

quanto seja de genio naturalmente acanhado, e de uma mesquinhez que toca

as raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel aos

vendedores que o têem por um caustico volante. Pois esta originalissima

creatura, cujo saber parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje

por suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo de vinte e

tantas linhas, servindo de explicação a uma reles lithographia, que

appareceu ha muitos annos em certo jornal artistico de Lisboa, de

ephemera duração!...»

Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle era nas suas

horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, auctor de um vasto

repositorio bibliographico que a todos aproveitaria, comprehende-se e

desculpa-se o desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar

precioso, destinado a tornar-se improductivo para toda a gente, com

excepção, talvez, do seu feliz possuidor.

Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um idolatra, um

fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da rua de S. Filippe Nery

abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E

os que não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a

publicação do _Diccionario_, com a riqueza dos thesouros acumulados por

Innocencio.

O predio em que habitava--e que tem hoje uma lapide

commemorativa--estava completamente cheio de livros, de alto a baixo.

Innocencio e a sua pequena familia habitavam, os peores compartimentos

do predio, unicos disponiveis.

Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu conheci Innocencio.

Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos relações de amizade

cordealissima. Innocencio falava sempre, fumando muito, e habitualmente

maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar para que se tornassem

mais fortes quando os reaccendesse. Em sua casa havia differentes caixas

atulhadas de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava

trabalhando.

Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira para matal-o.

Innocencio morreu de um scirro na lingua, que o fez soffrer

terrivelmente. Não podia falar, não podia comer, não podia descansar com

dores atrocissimas.

Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!

Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa e dolorosa agonia.

Despedaçava o coração vel-o soffrer. E--circumstancia que n'este momento

me está lembrando com viva saudade--foi com o seu collar de academico

que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda em honra do principe de

Galles.

Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi.

_Innocencio._» Mas a sua lettra estava já inteiramente desfigurada. A

morte ia apagando lentamente todos os vestigios da sua viril

individualidade. Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.

Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, sempre trabalhada de

canceiras e desgostos, poderia dizer, pela primeira vez, «_Emfim!_»

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Vinte Annos de Vida Litteraria · 第 41 / 68 题