ODOR DI FEMINA

Era austero e sisudo; não havia

Frade mais exemplar n'esse convento;

No seu cavado rosto macilento

Um poema de lagrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria

Folheava o triste um livro pardacento,

Viram-n'o desmaiar, cair do assento,

Convulso e torvo sobre a lagea fria.

De que morrera o venerando frade?

Em vão busco as origens da verdade,

Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.

Consta que um bibliophilo comprára

O livro estranho e que, ao abril-o, achára

Uns dourados cabellos de mulher.

Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha

biographia para o _Diario de Portugal_[9]. A sua antiga

amizade foi tão prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a

desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que

principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que

elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu

espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o

interesse de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente agradavel

e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter

honestissimo; a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão de

alguns e das injurias de poucos.

Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrára na

adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica

e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade,

porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonçalves Crespo

por qualquer divergencia de opinião, grave ou insignificante.

O destino, porém, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada

vez mais os nossos velhos laços de amizade, acabara por ser enganador e

perfido.

Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde deviamos trabalhar em

commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e tão

depressa promettera como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves

Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! elle, que tinha

finalmente chegado a uma situação, que lhe permittia viver inteiramente

tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da

sua vida.

A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em

enfeixar esperanças para as despedaçar depois. A sorte havia dado a

Gonçalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna

d'elle pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios de

fortuna, considerações politica e honras litterarias, gloria, amigos e

admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que

entrasse na Terra da Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo

de transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o

cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o

sempre o coração da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de

todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta das _Miniaturas_ e dos

_Nocturnos_.

Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse da abundancia do

coração. Outra coisa não fiz, nem de outra coisa curei. Emquanto

Gonçalves Crespo esteve baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel

das agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores dos

_Contos para os nossos filhos_, colleccionados e traduzidos por

Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem a Deus pela saude de um dos

traductores d'esse livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus

filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa do velho amigo

de seu pae. Não me restava portanto senão o triste desafogo de escrever

com lagrimas estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe

o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero do luto da minha alma.

1883.

[8] ATRAVEZ DO PASSADO: _Na morte de um condiscipulo._

[9] Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o que aliás

duplica o valor d'esta especie bibliographica.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

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Vinte Annos de Vida Litteraria · 第 37 / 68 题