Mendes Leal

Dois escriptores da geração que nos precedeu não estão tendo desde já a

celebridade posthuma, que ás vezes começa para outros escriptores no

proprio dia dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes Leal.

Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade litteraria, não

se dá o seu nome a qualquer instituição, a qualquer philarmonica ou club

de operarios em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido que

não appareça logo um gremio de classe, musical ou dançante, a

adoptar-lhe o nome.

E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci pessoalmente,

foi o mais brilhante estilista que até então floresceu em Portugal.

Nunca ninguem antes d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão

rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão elegantemente colorida.

Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as suas primicias

litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas foi o romance historico

_Ráusso por homizio_, publicado em 1842 na _Revista universal

Lisbonense_. Com razão dizia a _Revista_ referindo-se a este romance:

«Damol-o sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de seu

auctor:--que seria sacrilegio tocar, nem de leve, nas primicias que á

sua patria offerece um tal espirito--¡quem no acreditaria!--¡de vinte

annos!»

Assombroso, em verdade.

Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas meu patrono, tratei-o

particularmente, tive sobeja occasião de avaliar a vasta erudicção do

seu espirito e a fidalga grandeza do seu coração.

Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, e n'ella bem

attentar, reconhecerá que poucas vezes póde um escriptor reunir em si

tantas e tão variadas aptidões como Mendes Leal.

Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam pelas cumiadas da

epopea: hajam vista o _Pavilhão negro_, _Ave Cesar_, _Napoleão no Kremlin_.

Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel continuador da obra

de Garrett. Tudo quanto escreveu para o theatro--e foi muito--póde ter

defeitos, mas affirma riqueza de imaginação, talento de _savoir faire_,

opulencia de linguagem. Percorram toda essa vasta galeria de producções

dramaticas, que vae desde os _Dois renegados_ até aos _Primeiros amores

de Bocage_, e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol,

engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás exigencias de cada genero

e de cada época.

Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade tão

accentuada como dramaturgo, não deslisou comtudo um ápice dos seus bons

creditos de homem de lettras.

Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com notavel seriedade de

espirito.

Como orador politico, deixou discursos parlamentares que podem servir de

modelo aos que, dentro e fóra da camara, presam a lingua portugueza

através dos arrebatamentos da paixão partidaria.

Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado a consagrar aos

negocios administrativos, aos negocios politicos, aos negocios

diplomaticos, e á vida de salão. Com uma organisação tão debil, com uma

tão embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de occupações e

distracções, ninguem seria capaz de trabalhar mais do que elle.

Estive durante alguns annos em relação epistolar com Mendes Leal. Creio

que foi Castilho que recommendou á sua benevolencia de mestre as minhas

palidas estreias litterarias. Castilho tinha uma grande consideração por

Mendes Leal--a quem, na dedicatoria do primeiro livro das _Georgicas_,

divinamente traduzidas, chamou--_caro Leal, gloria da terra lusa_.

Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, em missão

diplomatica. Só em 1882, vindo elle a Lisboa, o pude conhecer

pessoalmente. Visitei-o frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda,

conversamos largamente, e era encantadora a simplicidade bondosa do seu

trato. Mendes Leal dera-me provas de muita estima, tornando-se meu

dedicado amigo.

Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades do mundo politico e do

mundo litterario, quasi todos os ministros estrangeiros acreditados em

Portugal, e grande numero de pessoas que mais lustravam em pompas de

_high life_.

A ultima vez que me demorei conversando largo tempo com Mendes Leal foi

em dezembro d'esse mesmo anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.

O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de Santa Isabel até ao

cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal encontrou-me n'aquelle ondular de

pessoas de todas as classes sociaes, que foram prestar a derradeira

homenagem ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se ao meu braço.

Assim fomos conversando até ao cemiterio occidental no meio da

multidão immensa.

Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado ao prelo, n'uma brochura

intitulada _Hommage aux lettres latines_, as suas ultimas composições

poeticas. Ahi se póde ver com que primor elle manejava a lingua

franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia envelhecendo e

pendendo á terra.

A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata com este homem

superior, que tão poderosamente contribuiu para impulsionar os

progressos litterarios do seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da

Silva, e é caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que a opinião

publica passa por uma evolução demorada tanto para apreciar como para

depreciar um escriptor fallecido--especialmente para aprecial-o. Quanto

tempo não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria de Fernão

Mendes Pinto? E o proprio Camões teve que esperar trezentos annos por

uma apotheóse nacional.

No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma honrosa, postoque

modesta, homenagem que lhe prestou a villa da Ericeira. Ha ali uma rua

com o seu nome. Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que elle

cantou em 1857 na poesia _Mare magnum_. A descripção das _furnas_, tão

bellas e tão agrestes, é de mão de mestre:

Não vos lembraes?--Além do manso pego,

O mar, que vem do largo, e que não cessa,

Da vaga arquea a cuspide irritada,

E, com impeto cego,

Á insensata escalada

Dos immoveis penhascos se arremessa.

Quem ha de commetter a louca empresa

De tentar a passagem tortuosa

Que alguma convulsão da natureza

Abriu sobre a voragem tenebrosa?

Do rolo immenso a curva ameaçadora

Investe, galga, apruma-se, desaba;

E quando o turbilhão que o ar devora,

Trovejando rebenta,

Parece que á tormenta

A terra não resiste e o mundo acaba.

Pelas rugas da penha sacudida,--

De niveos flocos inda guarnecida,--

Depois que o mar bramindo atraz volvêra,

Um veio d'agua, rapido e sombrio,

Deslisa; qual em rude face austera

De um triste ancião, que a idade encanecêra,

O pranto corre em fio.

Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas contra as _furnas_

da Ericeira, recordará eternamente a verdade sublime, a hipotiposis

felicissima d'este notavel trecho de poesia descriptiva, e

simultaneamente o nome de Mendes Leal.

O oceano vingará a ingratidão dos homens.

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Vinte Annos de Vida Litteraria · 第 34 / 68 题