O scenario era triste.
A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma chuvinha miuda, como se
caisse de um crivo, parecia cristalisar em missangas na copa dos chapeus
de feltro, nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos cocheiros
das berlindas. Das arvores do cemiterio dos Prazeres, e da cimalha do
portico, escorriam gottas de agua como lagrimas. O Tejo, visto da
explanada, estava crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas revôltas
e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e concentrada, esperava.
Algumas senhoras erguiam os seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de
orvalho, que se desfaziam e renovavam a cada momento.
Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo duas filas de padres,
cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas pela chuva, sem brilho e sem
consistencia. Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes de
Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, n'uma oscillação solemne,
através de um silencio lugubre.
Nada mais triste do que o enterro de um homem novo, sobretudo quando
esse homem vivera pelo espirito nas luctas do talento.
A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com effeito, o direito
cruel de matar. Ninguem lhe pergunta por que o fez. Reconhece-se que a
sua missão é extinguir e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se
revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias deixam após
si uma extensa chronica, cheia de opisodios, de alternativas, de
cambiantes e de anecdotas. Recordal-as, é desviar por momentos a
attenção para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir do facto
material do aniquilamento para o mundo pittoresco da imaginação, que se
compraz em reconstruir épocas passadas, em resuscitar homens que já não
existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os actores de
acontecimentos importantes na politica, na litteratura, nas sciencias,
nas artes, na industria, no commercio ou nos salões elegantes da sociedade.
Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o espirito encontra n'esse
mesmo espectaculo motivos de sobejo para accusar a morte por ter
invadido os direitos da velhice e por haver, como um tigre,
surprehendido por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. Depois,
os que morrem novos deixam uma pequena biographia, por maior que haja
sido o seu talento e o seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as
attenções se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado bastante
longo para se demorar reconstruindo-o. De modo que, á força de olharmos
para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da
sua devastação prematura...
Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e tres annos de idade,
foi tres vezes ministro. Não basta isto para o julgarmos velho na
politica, e para imaginarmos que elle tivesse concluido a sua missão de
homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o dizemos, o seu
periodo de verdadeira gloria começava apenas, e as suas qualidades de
estadista principiaram a definir-se durante o ultimo dos seus tres
ministerios, porque os dois primeiros foram mais uma contingencia da
politica do que uma conquista por direito.
Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno periodo de nove dias, que
tantos foram aquelles em que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da
fazenda, quizessemos encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo
poder em 1869.
Então, era Saraiva, como todos os homens da sua idade, um theorico, um
preleccionador, um inexperiente. Vinha do _Gremio Litterario_, onde
mostrára as suas aptidões intellectuaes, que eram já então
incontestaveis. Mas a intelligencia, por mais brilhante que seja,
precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito. É, pelo contrario,
nas intemperies, é nas mil conflagrações da atmosphera social, que elle
se robustece e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva
de Carvalho comprehendeu que precisava justificar no futuro a posição
honrosa que por nove dias occupára. 1869 era para elle um estimulo, e
uma responsabilidade. E como fosse tambem um homem brioso, deixou-se
dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu paiz que servia para mais
alguma coisa do que ser ministro por nove dias, e que o marquez de Sá da
Bandeira não fizera emergir nos conselhos da corôa um homem
completamente inutil.
Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de Carvalho pôz toda a sua
energia e toda a sua intelligencia ao serviço d'este nobre pensamento:
não recuar. Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios
premiaram os seus esforços honrados e justos levando-o de novo ao poder
em 1870.
A politica portugueza estava então n'um periodo agitado, que tornava
ephemera a vida dos ministerios, e as origens revolucionarias do
movimento popular de 1868 deram ás luctas da politica um caracter de
ardor e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente para
tornar friamente reflexiva a cabeça de um homem novo.
Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa, Saraiva de Carvalho
conservou ainda por algum tempo todo o afôgo que a sua proveniencia
politica explicava, e a sua idade mal sabia reprimir.
Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio d'essa coragem que
chega ás vezes a parecer precipitação, cheio d'esse ardor indomavel que
não raro se confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando mais
vehemente era nos seus discursos, e houve alguns em que o foi muito, os
seus proprios adversarios reconheciam que elle não usurpava o logar de
ninguem combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha já
conquistado o seu posto de honra, tinha ganho as suas esporas de
cavalleiro; não era um intruso, um adventicio; achava-se investido do
mais sagrado e do mais glorioso dos direitos--aquelle que o talento
confere.
Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe todavia alguma coisa, a
evolução por que o espirito dos homens passa quando na arvore da sua
experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão para
colhel-o.
E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo havia chegado
agora, definitivamente. Voltando ao poder em 1879, occupára-se dos
assumptos da pasta das obras publicas com uma attenção intelligente e
com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo do meu ponto de vista
politico, não posso concordar com alguns dos seus actos; mas não
posso deixar de reconhecer que o seu espirito havia passado por uma
transformação fructuosa e largamente promettedora. Como orador,
comprehendeu profundamente as exigencias da sua posição official, e
modificou-se notavelmente, sobretudo no discurso que como ministro
proferira na camara dos pares.
Saindo novamente dos conselhos da corôa, não desmerecera por um só acto
ou por uma só phrase, até nas questões mais apaixonadas que se travaram
no parlamento, a opinião que em torno do seu nome principiára a
formar-se, de que seria um dos homens de estado mais notaveis, mais
estudiosos e mais trabalhadores do nosso paiz.
N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou. Amigos e adversarios
protestaram, n'uma tregua lutuosa, contra a usurpação de uma existencia
cuja utilidade todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda, em verdade,
porque perdemos um homem, e deixamos de ter outro. Sempre que a obra de
um homem não está concluida, a sua perda equivale a duas: é um
trabalhador que se ausenta, e que não mais voltará. Faz portanto falta
ao presente e ao futuro.
* * * * *
Emquanto alguns oradores discursavam junto ao jazigo de Saraiva de
Carvalho, dizendo provavelmente coisas bellas, mas por certo muito menos
eloquentes do que a imponencia d'aquella grande manifestação funebre
feita por todos os partidos politicos militantes, eu pensava, um pouco
_bercé_ pela chuva que principiava a cair mais insistentemente sobre a
copa do meu chapeu n'um rithmo monotono.
No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma illusão, talvez; e,
sob este ponto de vista, não podia achar vocabulo mais expressivo do que
o _bercer_ francez, visto que este verbo significa não só o acto
material de baloiçar o berço mas tambem o devanear falsas esperanças.
Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu, bem podiam os partidos
politicos monarchico-liberaes sellar com um juramento sagrado um pacto
solemne.
Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos do paiz andam a
insultar-se quotidianamente nas luctas politicas da imprensa e do
parlamento.
Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se elles a si
proprios. Se se trata de um correligionario, exalçam-n'o ao
sete-estrello nas azas d'esse novo Icáro chamado o elogio-mutuo; se,
porém, se trata de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de
adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle até o deixar amolgado.
Todos os recem-chegados á imprensa ou ao parlamento conhecem este
defeito da politica portugueza, e protestam candidamente contra elle.
Dias depois, o mangoal dos adversarios começa a escacar violentamente os
ovos de paschoa com que na primeira hora o receberam, e o mais doce
rebuçado com que lhe atiram vem sempre embrulhado n'um epitheto tão
amavel como _cretino_ ou tão gentil como _marinelo_.
Algumas semanas depois, o diapasão vae subindo de intensidade, e o
sujeito apparece chrismado em _tolo_ com todas as lettras, sendo
maiuscula a primeira, para que se veja bem de longe.
Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes a urticação da
colera, arranca a gravata com que entrára na arena, despe a sobrecasaca,
empunha o cacete do seu estilo, e principia a atirar bordoada de cego
sobre os contrarios, como um valentão de feira.
E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador de pau, já umas
vezes por outras descarrega o fueiro sobre os seus proprios
amigos--por engano, é claro.
Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes podem fazer-se
rapidamente por meio de um _cliché_ inalteravel; estão sempre feitos, e
o terem redactores é quasi um luxo.
Referindo-se a um orador governamental, dizem as folhas opposicionistas
no dia seguinte:
«_É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. teve a ousadia de
despejar hontem em pleno parlamento. A verdade andou a pontapés pela
sala, e o orador parecia satisfeito de vêr que estava agradando ao
governo que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não pagar._»
Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo que está apreciando
um orador da opposição:
«_A comedia foi bem representada. Como truão, o orador é perfeito.
Fingiu-se indignado, bateu murros sobre a carteira, arremessou ao chão
varios papeis, e entornou pelas costas de um collega o copo de agua. No
fim de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, e lhe atira
com uma posta gorda._»
No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, uma pneumonia, um
tipho, uma apoplexia lembram-se de atirar para o cemiterio um homem da
opposição ou um homem do governo.
A mutação de scena é completa, n'este caso.
Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o morto, e quinze
tostões para o acompanhar ao cemiterio. Cada um empunha reverentemente
uma tocha para allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias
empunhava a penna para lhe denegrir a reputação. E quando o prior,
manejando o hissope, borrifa de agua benta o cadaver, não passa pelo
espirito de nenhum dos que ali estão--que lhe fizeram a mesma coisa
com tinta de escrever e lama das ruas.
Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da berlinda, diz-se a
respeito de um ministerial fallecido:
--Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario dedicado, e o
governo não teve coisa nenhuma que lhe désse!
E a respeito de um opposicionista morto:
--Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou um ministro para lhe
pedir qualquer coisa! Isto é raro hoje em dia...
Dizia com graça um homem politico importante, que se achou de uma vez ás
portas da morte:
--Estive tão mal, que já os periodicos começavam a dizer bem de mim!
O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia calcular...
No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada. Os ministros saem do
poder insultados e empenhados. Toda a gente deve. Todos padecem dôr de
colica no dia em que são obrigados a pagar a renda das casas. Os homens
mais poderosos na politica ficam arruinados com os direitos de uma
gran-cruz, e se teem duas já não podem desentalar-se mais. As
repartições de fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro
quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a maior parte das
familias do paiz ficava arruinada de um dia para o outro.
São rarissimas em Portugal as pessoas que podem adormecer sem que uma
espada de Damocles impenda sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna
n'este paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita mais do que os
portuguezes, nenhum outro povo parece fazer maior gosto de passar por
deshonesto aos olhos de si mesmo.
Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar por uma doce illusão.
Parece-me que ia dizendo isto...
O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas, um dos seus homens
mais importantes e populares. Era o Sampaio da _Revolução_. Ninguem mais
apedrejado do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios. Esse
homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se uma enorme manifestação de
respeito.
O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho, um dos seus
mais poderosos esteios. Tambem Saraiva foi muitas vezes aggredido na
imprensa, muitas vezes amesquinhado na sua importancia, que era grande.
Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o vae consumir,
concorreram, n'uma concentração respeitosa, centenas de pessoas de todas
as parcialidades politicas.
Pois bem. Ahi estão dois tumulos que encerram despojos preciosos para
qualquer dos dois partidos. Era talvez chegada a occasião de sobre elles
fazer um pacto solemne--o de entrar n'uma nova vida politica, de mutuo
respeito, e de mutua hostilidade. Para combater os principios, não é
preciso combater os homens. Deixemos á rua a lama que lhe pertence, e
dêmos a Cesar o que é de Cesar, sem que seja preciso darmos a Deus o que
é de Deus, isto é, um cadaver.
Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer uma grande perda,
qualquer dos dois partidos chora um correligionario; ambos elles estão
de luto. Morto por morto, tumulo por tumulo, a dôr nivela as
circumstancias em que nos achamos.
Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece que a Providencia
quiz tornar mais eloquente a sua lição fazendo que sobre o campo neutro
da morte, sobre o mesmo chão sagrado, regeneradores ajoelhassem deante
de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem perante um tumulo
regenerador.
Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso poderia levantar-se
em honra dos dois mortos illustres.
--Opporiamos programma a programma, tradição a tradição, doutrina a
doutrina, mas quando tentassemos oppôr invectiva a invectiva, injuria a
injuria, as flechas disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam
como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os projecteis vibrados do
campo regenerador achariam um óbice á sua passagem no tumulo de Saraiva
de Carvalho.
Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor ou vencido,
porque a calumnia não existiria.
N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria direitos: morto
por morto, tumulo por tumulo, as condições eram iguaes.
.........................................................................
Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prégar no deserto!