José Gomes Monteiro

Sparta, que no render culto á mocidade sobrelevava toda a mais Grecia,

foi guiada pela legislação de Licurgo ao respeito da velhice. Facto

verdadeiramente extraordinario! N'uma cidade onde as creanças rachiticas

eram afogadas logo que nasciam, como cidadãos inuteis, os velhos, tão

inuteis para o serviço da republica como as creanças votadas á morte,

eram considerados em face da lei dignos do respeito e da estima dos seus

concidadãos.

Desde o momento em que um paiz entra no caminho do progresso social e na

conquista de um ideal de perfectibilidade, começa a ter pela velhice uma

veneração tão carinhosa como delicada. Realmente, offender um velho é

apedrejar uma arvore carregada de fructos. As republicas, como todas as

sociedades, precisam alimentar-se da experiencia dos velhos e do ardor

dos mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina, e a do sol

que se levanta, deslisa toda a existencia da familia e da nação.

Estas duas correntes, em vez de se contrariarem, auxiliam-se, e ás vezes

identificam-se de tal modo na harmonia de um grande progresso

intellectual, que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram

n'uma só alma aspirando ao mesmo ideal. Ditosos os paizes onde este

facto se dá! Em França, por exemplo, Michelet, o velho que morreu moço,

absorvera em si a alma da mocidade, que transparecia nos seus livros

cheia do perfume da primavera, e do colorido _chatoyant_ de tudo quanto

é novo e vigoroso; Victor Hugo, a alma que não envelheceu, conservou na

voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia, que seduz as

imaginações juvenis, arrastando-as para o mundo das auroras, para as

conquistas da luz. Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, não

será possivel marcar limites aos progressos de um paiz, mas será facil

aventar que elle tomará a deanteira a todos os outros para guial-os na

marcha das suas aspirações sociaes.

Em Portugal--digamos cruamente a verdade--a mocidade habituou-se a

caminhar atirando por cima dos hombros, como Deucalião, pedras contra o

passado. A velhice não tem para as gerações modernas o esplendor

magestoso de um occaso. Os velhos foram uns nescios, dizem os novos.

Garrett, Herculano, Castilho, José Gomes Monteiro não desceram ao tumulo

sem ter provado o fel da ingratidão. Esta é a verdade. Por muitas vezes,

a mocidade, enfurecida como um iconoclasta, arremetteu contra elles,

procurando abalar ás mãos ambas o pedestal d'onde já o olhar melancolico

descia a procurar o descanso da sepultura. É triste ter que recordar

estes factos, tanto mais que parece ter havido n'essa enorme

irreverencia o só proposito de derrubar por derrubar. Pois o que nos tem

dado em troca a geração moderna? Um espirito manifestamente demolidor e

dissolvente domina a sociedade em que vivemos. Tentativas de

reconstrucção sérias e proveitosas, poucas. Por cada mil alavancas

que revolvem os alicerces do passado, uma só procura alinhar o blocus

faceado na esquadria do novo edificio.

Por minha parte, trabalhador obscuro, não me farei jámais cumplice da

irreverencia dos meus contemporaneos. Tirarei respeitosamente o meu

chapeu para saudar a velhice, sempre que se não degrade a si mesma. E

quando ella assignala a sua passagem com um rastro de luz, eu não tenho

duvida em confessar publicamente, agora e sempre, que dirijo a minha

rota pelo esteiro do seu leme.

Acatando a velhice, julgo estar na consciencia do dever; escrevendo de

José Gomes Monteiro, colloco-me justamente dentro das circumstancias

especiaes em que me encontro perante a memoria d'esse que me foi mestre,

amigo, conselheiro, durante um periodo de tempo de mais de dez annos,

talvez.

* * * * *

José Gomes Monteiro nasceu na cidade do Porto a 2 de março de 1807.

Aos dezeseis annos de edade matriculou-se em Coimbra nas faculdades de

leis e canones, mas, chegando ao quarto anno do curso, saiu de Portugal

para Inglaterra, talvez por uma poderosa necessidade do seu espirito,

que se sentia asphixiado na atmosphera classica da Universidade, onde

tudo se prendia ainda ao passado pelos élos oxidados da tradição

scientifica, e onde começava a fermentar a discordia politica, que veio

a motivar a emigração de 1828.

Demorou dois annos em Inglaterra, e foi depois estabelecer residencia em

Hamburgo, onde fez parte da firma commercial Santos & Monteiro, cujos

revezes absorveram ao cabo de algum tempo todas as esperanças de

vida prospera. Este desastre amargurára o coração do homem; mas o

litterato tirára enorme proveito da residencia em paizes onde a cultura

litteraria captivava os espiritos lucidos, ainda quando as mais graves

complicações da vida positiva os enleavam. No estrangeiro travára

relações de estreita amizade com Almeida Garrett e com todos os

emigrados que, depois da victoria do partido avançado, foram os

primeiros homens de Portugal; do estrangeiro adquirira um vasto

conhecimento dos principaes idiomas da Europa, que elle manejava com

notavel facilidade, penetrando com o seu espirito profundamente

analitico na estructura intima do vocabulo, d'onde extraia ás vezes uma

imprevista luz para a verdadeira interpretação dos textos; no

estrangeiro, onde o suave doer da nostalgia divinisa as memorias da

patria, devotou-se Gomes Monteiro ao estudo dos classicos portuguezes e

foi então que, encontrando na livraria da Universidade de Gottingen um

exemplar da primeira edição dos _Autos_ de Gil Vicente, pôde preparar,

auxiliado por José Victorino Barreto Feio, a edição critica das obras do

fundador do theatro portuguez.

Este trabalho, considerado em si mesmo, tem subido valor, não obstante

quaesquer ligeiros senões que possam apontar-se-lhe, e haver sido

realisado em edade incompativel com a madureza de espirito que requerem

os fastidiosos trabalhos de bibliographia. O sr. Theophilo Braga,

escrevendo de José Gomes Monteiro no 5.º volume da _Revista

Comtemporanea_,[1] dizia a este respeito: «O trabalho d'este

livro pertence-lhe todo; a profundidade da sua critica avalia-se pela

introducção com que precedeu a obra. Quando a escreveu era bastante

creança e é talvez por esta circumstancia, que o auctor hoje não lhe

quer dar o alcance, que esse estudo na realidade tem.» Como quer que

fosse, era incontestavel o valor das investigações biographicas a

respeito de Gil Vicente, e da taboa glossaria dos termos antiquados, _o

que tudo com menos fundamento ha sido por alguns attribuido a Barreto

Feio_, escreveu Innocencio Francisco da Silva.[2] Os irmãos

Castilhos reproduziram na Bibliotheca portugueza o ensaio biographico da

edição de Hamburgo por _convencidos de que a respeito da vida e obras do

nosso poeta não poderiamos dizer mais nem melhor_. Gomes Monteiro

acceitava a responsabilidade d'aquelle trabalho, e era o primeiro a

reconhecer-lhe as imperfeições, postoque ligeiras, algumas das quaes

estavam corrigidas á penna no exemplar da sua livraria. Mas lancem-se

essas pequenas incorrecções á conta da mocidade do auctor, como o sr.

Theophilo Braga indica, e á falta de meios de rigorosa verificação, com

que José Gomes Monteiro luctava fóra de Portugal.

Se considerarmos, porém, a edição critica das obras de Gil Vicente, e

das obras de Camões, na sua influencia sobre a renascença litteraria de

Portugal, qualquer d'esses trabalhos tem um grandissimo valor, porque em

verdade ambos exerceram poderosa acção não só sobre o proprio espirito

de Gomes Monteiro, mas tambem sobre a collectividade illustrada do nosso

paiz. E, a este respeito, não me dispenso de citar mais um vez o sr.

Theophilo Braga, no seu artigo da _Revista Contemporanea_: «Desde que

proferiu este _surge et ambula_, a Allemanha, a Inglaterra, a França,

estudaram para de logo o poeta. Tempo depois Garrett escrevia a Gomes

Monteiro dando-lhe parte de um drama _Um auto de Gil Vicente_, com o

qual havia, por uma notavel coincidencia, dar vida ao theatro portuguez,

apresentando-lhe o vulto do seu creador; n'essa carta dizia-lhe que não

sabia a parte que tinha no que acabava de escrever, nem a quem pertencia

a paternidade. A renascença em Portugal deve-se a tres homens:

Garrett, Alexandre Herculano e José Gomes Monteiro.»

Pela observação profunda dos textos durante a elaboração das edições

criticas de Gil Vicente e Camões, pelas simultaneas investigações

biographicas que era obrigado a fazer, habituando-se a um uso diuturno

dos processos analiticos, que estavam aliás nas condições phisiologicas

do seu temperamento e no caracter germanico que pela sua longa

residencia em Hamburgo assimilára, chegou Gomes Monteiro á resolução de

reunir subsidios para organisar mais tarde a historia litteraria de

Portugal, que, se tivesse sido levada a cabo, realisaria, pela

consubstanciação com o trabalho de Herculano, depois de concluido, a

historia completa da nossa nacionalidade.

Recolhendo a Portugal, e á terra da sua naturalidade--o Porto--Gomes

Monteiro dedicou a maior parte do tempo á investigação e preparação dos

materiaes necessarios para a historia litteraria. A morosidade com que

na Allemanha se educára a trabalhar pela applicação do criterio

historico, a natural indolencia do seu temperamento, e largas

interrupções devidas a melindres de saude fizeram, porém, que a obra

proseguisse lentamente, e os seus manuscriptos ficassem por sua morte

desatados apenas em memorias preciosas, sem a unidade logica e

chronologica de um corpo de historia.

Portanto, d'essa importantissima tarefa sómente ha pequenas amostras

publicadas, e a origem da publicação deve procurar-se sempre nas

instancias de amigos e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi

assim que em 1849 appareceu em opusculo a _Carta ao illmo. sr. Thomaz

Norton sobre a situação da ilha de Venus, e em defeza de Camões contra

uma arguição, que na sua obra intitulada «Cosmos», lhe faz o sr.

Alexandre de Humbold_.

N'este trabalho, em que os elementos da these são procurados com

notavel paciencia e lucidissima intuição, José Gomes Monteiro sustentou

que a ilha dos Amores não era a de Santa Helena, como alguns opinavam,

nem a de Anchediva, como escrevera Faria e Sousa, nem _fingimento que o

poeta fez_, como dissera Manuel Corrêa, mas a de Zanzibar, ao norte de

Moçambique. José Gomes Monteiro baseou em grande parte a sua

argumentação na concordancia das descripções do episodio com as

particularidades do clima, da fauna, da flora, da situação geographica

da ilha de Zanzibar. Não será decerto um trabalho incontestavel,[3]

mas é seguramente notabilissimo, e como prova de um espirito

sério, predisposto para tarefas d'esta natureza, foi respeitosamente

recebido por todo o paiz.

A esse tempo ainda José Gomes Monteiro estava na firme resolução de

trabalhar na realisação da historia litteraria de Portugal. Com effeito,

como a carta a Thomaz Norton revelava, elle poderia ter sido para a

litteratura portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola, Hipp. Taine

para a ingleza, Emilio Burnouf para a grega, etc. Mas, depois, o gravame

dos annos foi crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos

litterarios fizeram descair em aborrecimento. Era preciso, como já

dissemos, que a amizade o reptasse com dedicado empenho, para que

emittisse a sua opinião sobre importantes assumptos de historia

litteraria. De uma d'essas pressões amigaveis resultou a publicação do

artigo que a _Revista Peninsular_[4] inseriu ácerca da antiga

trova do _Figueiral Figueiredo_, que José Gomes Monteiro suppunha

filiada na lenda gallega de _Val-Doncel_.

* * * * *

Na carta a Thomaz Norton escrevêra José Gomes Monteiro em nota á pag. 17:

«Aproveitarei esta occasião para dizer... que um dos mais famosos

monumentos d'esta litteratura cavalheiresca, e que tão distincto logar

deverá ter na historia litteraria do nosso paiz,--o _Amadis de Gaula_--é

de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos elementos

historicos de que se compõe. Impenetravel até hoje á investigação de

grandes criticos, tem sido considerado como uma _singular excepção_ ao

systema de _decomposição historica_. Eu mostrarei comtudo, em um

trabalho que tenciono publicar brevemente, que o seu maravilhoso, os

seus personagens, os seus episodios, tudo ali é urdido no grande tear da

historia--da historia do seculo XII, o mais rico em aventuras e feitos

d'armas da cavallaria real, de quantos contém os annaes da edade-media.

Ali, dissolvendo as tabulas do _Amadis_ em factos historicos, darei a

mais completa theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos

trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de _Endriago_, a mais

bella concepção de todos os romances de cavallaria, ficará sendo um

exemplo inapreciavel de como o espirito humano fórma o mytho, nas edades

primitivas da litteratura.»

Gomes Monteiro foi levado á realisação d'este trabalho, que deixou

inedito, pela applicação do mesmo processo que tinha seguido a respeito

da ilha de Venus--o confronto do romance com a historia. Só por um

pacientissimo labor poderia encontrar no grande oceano da historia

universal justamente a época cujos factos capitaes correspondessem aos

episodios do romance. Procurou e achou. _Dissolvendo as fabulas do

«AMADIS» em factos historicos_, como elle proprio escreveu, pôde

localisar a acção do romance no tempo de Ricardo _Coração de Leão_,

enxergando no disfarce da allusão, motivado pelas exigencias da época,

uma perfeita concordancia historica, e logrou chegar á conclusão de que

Vasco de Lobeira não foi o auctor d'essa famosa novella do ciclo

cavalheiresco.

Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era uma edição critica da

_Menina e moça_ de Bernardim Ribeiro, da qual seriam expungidas as

intercalações apocriphas que andam no livro. Calcule-se o dispendio de

paciencia e perseverança que essa reconstrucção custaria ao douto

bibliophilo. Como na edição de Gil Vicente, um estudo biographico sobre

Bernardim Ribeiro e um glossario dos vocabulos antigos completariam a

edição critica da _Menina e moça_.

A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro laboriosamente

investigada, alcançando extrair das proprias composições do poeta

illações luminosas e não esperadas. A este respeito, permitta-se-me

dizer que por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romance _Um

conflicto na côrte_, baseando-me nos documentos que espontaneamente me

facultou, e que claramente revelavam a intervenção do poeta na dramatica

paixão do marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. Foi nas

eclogas _Aleixo_ e _Andrés_ que José Gomes Monteiro encontrou a prova

d'essa intervenção, de que resultou ser preso Sá de Miranda como punição

ás ousadas allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera á perfida

dama. Apraz-me renovar esta declaração que já fiz no segundo volume do

romance. A minha divida para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha,

que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.

Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, enchiam as

suas pastas. Lembro-me agora de um extenso artigo a respeito da _Arte de

monteria_, de D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre

varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos os que podiam

servir á elaboração de uma interessante monographia da cidade do Porto.

Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, temos que retroceder

na biographia de Gomes Monteiro, para completarmos a pequena lista das

suas obras impressas.

Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha de Venus, isto é, em

1848, deu José Gomes Monteiro em volume a traducção de algumas baladas

dos poetas mais populares da Allemanha, sob o titulo de _Eccos da lyra

teutonica_.

Este livro está completamente fóra do grande programma dos seus estudos

predilectos, e dos seus trabalhos habituaes. São recordações da sua vida

na Allemanha, enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente

conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente um poeta, mostrava

que os processos de metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em

muitos relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia da fórma,

á fidelidade da traducção. Procedendo assim, obedecia simplesmente aos

seus escrupulos de investigador litterario. Queria dar a conhecer ao

nosso paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo a

exactidão dos textos, como quem perfeitamente conhecia o justo valor das

palavras, e por elle fazia obra. A sua lealdade de traductor póde ser

confirmada por todos quantos saibam allemão, porque em muitas das

poesias a traducção vem a par do original.

Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice de

Castilho--desaffrontando-a de accusações que lhe foram feitas--com a

publicação do livro _Os criticos do Fausto do sr. visconde de Castilho_.

Estava já a esse tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma

resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para escrever

rapidamente um livro de 190 paginas, que Camillo Castello Branco e eu

vimos nascer quasi dia a dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio

o explicava, sempre que na redacção do _Primeiro de Janeiro_ recebia

um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido n'estes termos: «Ámanhã, a tal

hora, em casa do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com

auctoridade ao azedume com que os criticos de Castilho cairam sobre a

traducção do _Fausto_, lavrava um protesto energico em nome da velhice

desconsiderada, e desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as

maguas intimas que as ingratidões de que a vida das lettras está eriçada

tinham posto no seu coração. Esse livro era o seu testamento litterario,

resalta d'elle a indignação da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe

de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, e do outro o

respeito da gente moça. N'este caso a velhice morre como os dois

Carvajal, que emprazaram Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a

velhice empraza a mocidade irreflectida a comparecer no tribunal da

Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante do que o d'um mancebo

insultando um ancião benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um

parricidio moral de que todo o homem honesto affasta a vista com

horror.» A sua alma precisava d'este desafogo--a tão pequena distancia

da sepultura. Alexandre Herculano, movido por igual impulso, escrevia,

do fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação a José

Gomes Monteiro a proposito da publicação dos _Criticos do Fausto_. Essa

carta, era breve, mas profundamente energica. _Nunca as mãos lhe doiam_,

dizia o auctor da _Historia de Portugal_ áquelle que muitas pessoas

denominavam o _Alexandre Herculano do Porto_.

Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma ficou tranquilla mas

fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, nunca mais escreverei. Vivendo

unicamente de recordações, parecia esperar serenamente a noite

misteriosa da morte...

Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces, das mais gratas

recordações da sua vida. O sr. Emilio Biel, do Porto, appellando para os

seus antigos estudos sobre Camões, convidára-o a rever a edição dos

_Lusiadas_, que foi publicada n'aquella cidade por occasião do terceiro

centenario da morte do grande epico. A este nome prestigioso, a alma de

José Gomes Monteiro teve ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela

sua preciosa _camoneana_, pondo diante de si as suas excellentes notas

sobre a vida e a obra de Camões, José Gomes Monteiro pretendeu encerrar

a sua carreira d'escriptor honrando a memoria do maior poeta que tem

tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio de luz do seu

espirito, estrella cadente que sulcando a noite da velhice foi

abismar-se na sepultura já aberta para receber o douto bibliophilo.

A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia na traquillidade

dos mortos.

* * * * *

Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, a todos os homens

importantes de Portugal, elle poderia ter-se saciado de honras, se fôra

um espirito vulgar. Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções

litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era socio

correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa e membro de

varias academias estrangeiras. O seu nome apparecia pouco, occultava-se

como elle proprio, e todavia, outros muitos que ajudára a crear com o

seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção passavam por

diante d'elle, na pompa do triumpho, sem que o menor assomo de inveja

viesse perturbar-lhe a habitual serenidade de animo.

Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio da sua vasta

livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades de mortos, onde os

livros falam como os tumulos. A paz creadora, a meditação tranquilla, o

descanso productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando

dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; mas os livros,

amigos inalteraveis, não faltam nem atraiçoam. Na saude ou na doença, no

trabalho ou no ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu

silencio, são sempre uma companhia, uma guarda, uma força. O velho

Castilho tinha o seu leito entre elles. Não os via, mas sentia-os. Não

tinha olhos para os procurar, mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes

me pareceu que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? Aqui

estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre elles morreu. O seu cadaver

depositado na livraria parecia escutar, na concentração placida dos

cegos, o que Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio

eterno dos livros.

A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole immensa. A antiguidade

tinha ali, fechados em pergaminho, os seus thesouros classicos. A

renascença enfileirava os seus volumes em linha de batalha. A um lado, a

Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro lado, Roma, a Grecia

italiana, pendurava as suas liras coroadas de mirtho e louro. Os paizes

do norte da Europa combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos dos

seus climas. O occidente punha os seus trovadores a par dos seus

cavalleiros. A central Allemanha entoava as suas baladas vaporosas como

o véu azul do seu Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de luz

os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus codigos religiosos e

austeros.

--Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes Monteiro com certa alegria

lisonjeada, a todos quantos lhe perguntavam se possuia este ou aquelle

livro.

Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito dos bibliophilos: a

avareza. Os seus livros pareciam-se n'isto com as flores, que pertencem

principalmente a quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe de

ser aspirado pelos estranhos.

[1] Pag. 236.

[2] _Diccionario bibliographico portuguez_, vol. 4.º, pag. 363.

[3] O sr. conde de Ficalho contradictou na _Flora dos Lusiadas_, em

1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes Monteiro,

mas honra-o dizendo que a sua _carta_ contém, na parte

exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.

[4] Vol. 2.º, pag. 401.

* * * * *

V

Vinte Annos de Vida Litteraria · 第 20 / 68 题