Sparta, que no render culto á mocidade sobrelevava toda a mais Grecia,
foi guiada pela legislação de Licurgo ao respeito da velhice. Facto
verdadeiramente extraordinario! N'uma cidade onde as creanças rachiticas
eram afogadas logo que nasciam, como cidadãos inuteis, os velhos, tão
inuteis para o serviço da republica como as creanças votadas á morte,
eram considerados em face da lei dignos do respeito e da estima dos seus
concidadãos.
Desde o momento em que um paiz entra no caminho do progresso social e na
conquista de um ideal de perfectibilidade, começa a ter pela velhice uma
veneração tão carinhosa como delicada. Realmente, offender um velho é
apedrejar uma arvore carregada de fructos. As republicas, como todas as
sociedades, precisam alimentar-se da experiencia dos velhos e do ardor
dos mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina, e a do sol
que se levanta, deslisa toda a existencia da familia e da nação.
Estas duas correntes, em vez de se contrariarem, auxiliam-se, e ás vezes
identificam-se de tal modo na harmonia de um grande progresso
intellectual, que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram
n'uma só alma aspirando ao mesmo ideal. Ditosos os paizes onde este
facto se dá! Em França, por exemplo, Michelet, o velho que morreu moço,
absorvera em si a alma da mocidade, que transparecia nos seus livros
cheia do perfume da primavera, e do colorido _chatoyant_ de tudo quanto
é novo e vigoroso; Victor Hugo, a alma que não envelheceu, conservou na
voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia, que seduz as
imaginações juvenis, arrastando-as para o mundo das auroras, para as
conquistas da luz. Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, não
será possivel marcar limites aos progressos de um paiz, mas será facil
aventar que elle tomará a deanteira a todos os outros para guial-os na
marcha das suas aspirações sociaes.
Em Portugal--digamos cruamente a verdade--a mocidade habituou-se a
caminhar atirando por cima dos hombros, como Deucalião, pedras contra o
passado. A velhice não tem para as gerações modernas o esplendor
magestoso de um occaso. Os velhos foram uns nescios, dizem os novos.
Garrett, Herculano, Castilho, José Gomes Monteiro não desceram ao tumulo
sem ter provado o fel da ingratidão. Esta é a verdade. Por muitas vezes,
a mocidade, enfurecida como um iconoclasta, arremetteu contra elles,
procurando abalar ás mãos ambas o pedestal d'onde já o olhar melancolico
descia a procurar o descanso da sepultura. É triste ter que recordar
estes factos, tanto mais que parece ter havido n'essa enorme
irreverencia o só proposito de derrubar por derrubar. Pois o que nos tem
dado em troca a geração moderna? Um espirito manifestamente demolidor e
dissolvente domina a sociedade em que vivemos. Tentativas de
reconstrucção sérias e proveitosas, poucas. Por cada mil alavancas
que revolvem os alicerces do passado, uma só procura alinhar o blocus
faceado na esquadria do novo edificio.
Por minha parte, trabalhador obscuro, não me farei jámais cumplice da
irreverencia dos meus contemporaneos. Tirarei respeitosamente o meu
chapeu para saudar a velhice, sempre que se não degrade a si mesma. E
quando ella assignala a sua passagem com um rastro de luz, eu não tenho
duvida em confessar publicamente, agora e sempre, que dirijo a minha
rota pelo esteiro do seu leme.
Acatando a velhice, julgo estar na consciencia do dever; escrevendo de
José Gomes Monteiro, colloco-me justamente dentro das circumstancias
especiaes em que me encontro perante a memoria d'esse que me foi mestre,
amigo, conselheiro, durante um periodo de tempo de mais de dez annos,
talvez.
* * * * *
José Gomes Monteiro nasceu na cidade do Porto a 2 de março de 1807.
Aos dezeseis annos de edade matriculou-se em Coimbra nas faculdades de
leis e canones, mas, chegando ao quarto anno do curso, saiu de Portugal
para Inglaterra, talvez por uma poderosa necessidade do seu espirito,
que se sentia asphixiado na atmosphera classica da Universidade, onde
tudo se prendia ainda ao passado pelos élos oxidados da tradição
scientifica, e onde começava a fermentar a discordia politica, que veio
a motivar a emigração de 1828.
Demorou dois annos em Inglaterra, e foi depois estabelecer residencia em
Hamburgo, onde fez parte da firma commercial Santos & Monteiro, cujos
revezes absorveram ao cabo de algum tempo todas as esperanças de
vida prospera. Este desastre amargurára o coração do homem; mas o
litterato tirára enorme proveito da residencia em paizes onde a cultura
litteraria captivava os espiritos lucidos, ainda quando as mais graves
complicações da vida positiva os enleavam. No estrangeiro travára
relações de estreita amizade com Almeida Garrett e com todos os
emigrados que, depois da victoria do partido avançado, foram os
primeiros homens de Portugal; do estrangeiro adquirira um vasto
conhecimento dos principaes idiomas da Europa, que elle manejava com
notavel facilidade, penetrando com o seu espirito profundamente
analitico na estructura intima do vocabulo, d'onde extraia ás vezes uma
imprevista luz para a verdadeira interpretação dos textos; no
estrangeiro, onde o suave doer da nostalgia divinisa as memorias da
patria, devotou-se Gomes Monteiro ao estudo dos classicos portuguezes e
foi então que, encontrando na livraria da Universidade de Gottingen um
exemplar da primeira edição dos _Autos_ de Gil Vicente, pôde preparar,
auxiliado por José Victorino Barreto Feio, a edição critica das obras do
fundador do theatro portuguez.
Este trabalho, considerado em si mesmo, tem subido valor, não obstante
quaesquer ligeiros senões que possam apontar-se-lhe, e haver sido
realisado em edade incompativel com a madureza de espirito que requerem
os fastidiosos trabalhos de bibliographia. O sr. Theophilo Braga,
escrevendo de José Gomes Monteiro no 5.º volume da _Revista
Comtemporanea_,[1] dizia a este respeito: «O trabalho d'este
livro pertence-lhe todo; a profundidade da sua critica avalia-se pela
introducção com que precedeu a obra. Quando a escreveu era bastante
creança e é talvez por esta circumstancia, que o auctor hoje não lhe
quer dar o alcance, que esse estudo na realidade tem.» Como quer que
fosse, era incontestavel o valor das investigações biographicas a
respeito de Gil Vicente, e da taboa glossaria dos termos antiquados, _o
que tudo com menos fundamento ha sido por alguns attribuido a Barreto
Feio_, escreveu Innocencio Francisco da Silva.[2] Os irmãos
Castilhos reproduziram na Bibliotheca portugueza o ensaio biographico da
edição de Hamburgo por _convencidos de que a respeito da vida e obras do
nosso poeta não poderiamos dizer mais nem melhor_. Gomes Monteiro
acceitava a responsabilidade d'aquelle trabalho, e era o primeiro a
reconhecer-lhe as imperfeições, postoque ligeiras, algumas das quaes
estavam corrigidas á penna no exemplar da sua livraria. Mas lancem-se
essas pequenas incorrecções á conta da mocidade do auctor, como o sr.
Theophilo Braga indica, e á falta de meios de rigorosa verificação, com
que José Gomes Monteiro luctava fóra de Portugal.
Se considerarmos, porém, a edição critica das obras de Gil Vicente, e
das obras de Camões, na sua influencia sobre a renascença litteraria de
Portugal, qualquer d'esses trabalhos tem um grandissimo valor, porque em
verdade ambos exerceram poderosa acção não só sobre o proprio espirito
de Gomes Monteiro, mas tambem sobre a collectividade illustrada do nosso
paiz. E, a este respeito, não me dispenso de citar mais um vez o sr.
Theophilo Braga, no seu artigo da _Revista Contemporanea_: «Desde que
proferiu este _surge et ambula_, a Allemanha, a Inglaterra, a França,
estudaram para de logo o poeta. Tempo depois Garrett escrevia a Gomes
Monteiro dando-lhe parte de um drama _Um auto de Gil Vicente_, com o
qual havia, por uma notavel coincidencia, dar vida ao theatro portuguez,
apresentando-lhe o vulto do seu creador; n'essa carta dizia-lhe que não
sabia a parte que tinha no que acabava de escrever, nem a quem pertencia
a paternidade. A renascença em Portugal deve-se a tres homens:
Garrett, Alexandre Herculano e José Gomes Monteiro.»
Pela observação profunda dos textos durante a elaboração das edições
criticas de Gil Vicente e Camões, pelas simultaneas investigações
biographicas que era obrigado a fazer, habituando-se a um uso diuturno
dos processos analiticos, que estavam aliás nas condições phisiologicas
do seu temperamento e no caracter germanico que pela sua longa
residencia em Hamburgo assimilára, chegou Gomes Monteiro á resolução de
reunir subsidios para organisar mais tarde a historia litteraria de
Portugal, que, se tivesse sido levada a cabo, realisaria, pela
consubstanciação com o trabalho de Herculano, depois de concluido, a
historia completa da nossa nacionalidade.
Recolhendo a Portugal, e á terra da sua naturalidade--o Porto--Gomes
Monteiro dedicou a maior parte do tempo á investigação e preparação dos
materiaes necessarios para a historia litteraria. A morosidade com que
na Allemanha se educára a trabalhar pela applicação do criterio
historico, a natural indolencia do seu temperamento, e largas
interrupções devidas a melindres de saude fizeram, porém, que a obra
proseguisse lentamente, e os seus manuscriptos ficassem por sua morte
desatados apenas em memorias preciosas, sem a unidade logica e
chronologica de um corpo de historia.
Portanto, d'essa importantissima tarefa sómente ha pequenas amostras
publicadas, e a origem da publicação deve procurar-se sempre nas
instancias de amigos e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi
assim que em 1849 appareceu em opusculo a _Carta ao illmo. sr. Thomaz
Norton sobre a situação da ilha de Venus, e em defeza de Camões contra
uma arguição, que na sua obra intitulada «Cosmos», lhe faz o sr.
Alexandre de Humbold_.
N'este trabalho, em que os elementos da these são procurados com
notavel paciencia e lucidissima intuição, José Gomes Monteiro sustentou
que a ilha dos Amores não era a de Santa Helena, como alguns opinavam,
nem a de Anchediva, como escrevera Faria e Sousa, nem _fingimento que o
poeta fez_, como dissera Manuel Corrêa, mas a de Zanzibar, ao norte de
Moçambique. José Gomes Monteiro baseou em grande parte a sua
argumentação na concordancia das descripções do episodio com as
particularidades do clima, da fauna, da flora, da situação geographica
da ilha de Zanzibar. Não será decerto um trabalho incontestavel,[3]
mas é seguramente notabilissimo, e como prova de um espirito
sério, predisposto para tarefas d'esta natureza, foi respeitosamente
recebido por todo o paiz.
A esse tempo ainda José Gomes Monteiro estava na firme resolução de
trabalhar na realisação da historia litteraria de Portugal. Com effeito,
como a carta a Thomaz Norton revelava, elle poderia ter sido para a
litteratura portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola, Hipp. Taine
para a ingleza, Emilio Burnouf para a grega, etc. Mas, depois, o gravame
dos annos foi crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos
litterarios fizeram descair em aborrecimento. Era preciso, como já
dissemos, que a amizade o reptasse com dedicado empenho, para que
emittisse a sua opinião sobre importantes assumptos de historia
litteraria. De uma d'essas pressões amigaveis resultou a publicação do
artigo que a _Revista Peninsular_[4] inseriu ácerca da antiga
trova do _Figueiral Figueiredo_, que José Gomes Monteiro suppunha
filiada na lenda gallega de _Val-Doncel_.
* * * * *
Na carta a Thomaz Norton escrevêra José Gomes Monteiro em nota á pag. 17:
«Aproveitarei esta occasião para dizer... que um dos mais famosos
monumentos d'esta litteratura cavalheiresca, e que tão distincto logar
deverá ter na historia litteraria do nosso paiz,--o _Amadis de Gaula_--é
de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos elementos
historicos de que se compõe. Impenetravel até hoje á investigação de
grandes criticos, tem sido considerado como uma _singular excepção_ ao
systema de _decomposição historica_. Eu mostrarei comtudo, em um
trabalho que tenciono publicar brevemente, que o seu maravilhoso, os
seus personagens, os seus episodios, tudo ali é urdido no grande tear da
historia--da historia do seculo XII, o mais rico em aventuras e feitos
d'armas da cavallaria real, de quantos contém os annaes da edade-media.
Ali, dissolvendo as tabulas do _Amadis_ em factos historicos, darei a
mais completa theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos
trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de _Endriago_, a mais
bella concepção de todos os romances de cavallaria, ficará sendo um
exemplo inapreciavel de como o espirito humano fórma o mytho, nas edades
primitivas da litteratura.»
Gomes Monteiro foi levado á realisação d'este trabalho, que deixou
inedito, pela applicação do mesmo processo que tinha seguido a respeito
da ilha de Venus--o confronto do romance com a historia. Só por um
pacientissimo labor poderia encontrar no grande oceano da historia
universal justamente a época cujos factos capitaes correspondessem aos
episodios do romance. Procurou e achou. _Dissolvendo as fabulas do
«AMADIS» em factos historicos_, como elle proprio escreveu, pôde
localisar a acção do romance no tempo de Ricardo _Coração de Leão_,
enxergando no disfarce da allusão, motivado pelas exigencias da época,
uma perfeita concordancia historica, e logrou chegar á conclusão de que
Vasco de Lobeira não foi o auctor d'essa famosa novella do ciclo
cavalheiresco.
Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era uma edição critica da
_Menina e moça_ de Bernardim Ribeiro, da qual seriam expungidas as
intercalações apocriphas que andam no livro. Calcule-se o dispendio de
paciencia e perseverança que essa reconstrucção custaria ao douto
bibliophilo. Como na edição de Gil Vicente, um estudo biographico sobre
Bernardim Ribeiro e um glossario dos vocabulos antigos completariam a
edição critica da _Menina e moça_.
A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro laboriosamente
investigada, alcançando extrair das proprias composições do poeta
illações luminosas e não esperadas. A este respeito, permitta-se-me
dizer que por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romance _Um
conflicto na côrte_, baseando-me nos documentos que espontaneamente me
facultou, e que claramente revelavam a intervenção do poeta na dramatica
paixão do marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. Foi nas
eclogas _Aleixo_ e _Andrés_ que José Gomes Monteiro encontrou a prova
d'essa intervenção, de que resultou ser preso Sá de Miranda como punição
ás ousadas allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera á perfida
dama. Apraz-me renovar esta declaração que já fiz no segundo volume do
romance. A minha divida para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha,
que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.
Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, enchiam as
suas pastas. Lembro-me agora de um extenso artigo a respeito da _Arte de
monteria_, de D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre
varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos os que podiam
servir á elaboração de uma interessante monographia da cidade do Porto.
Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, temos que retroceder
na biographia de Gomes Monteiro, para completarmos a pequena lista das
suas obras impressas.
Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha de Venus, isto é, em
1848, deu José Gomes Monteiro em volume a traducção de algumas baladas
dos poetas mais populares da Allemanha, sob o titulo de _Eccos da lyra
teutonica_.
Este livro está completamente fóra do grande programma dos seus estudos
predilectos, e dos seus trabalhos habituaes. São recordações da sua vida
na Allemanha, enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente
conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente um poeta, mostrava
que os processos de metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em
muitos relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia da fórma,
á fidelidade da traducção. Procedendo assim, obedecia simplesmente aos
seus escrupulos de investigador litterario. Queria dar a conhecer ao
nosso paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo a
exactidão dos textos, como quem perfeitamente conhecia o justo valor das
palavras, e por elle fazia obra. A sua lealdade de traductor póde ser
confirmada por todos quantos saibam allemão, porque em muitas das
poesias a traducção vem a par do original.
Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice de
Castilho--desaffrontando-a de accusações que lhe foram feitas--com a
publicação do livro _Os criticos do Fausto do sr. visconde de Castilho_.
Estava já a esse tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma
resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para escrever
rapidamente um livro de 190 paginas, que Camillo Castello Branco e eu
vimos nascer quasi dia a dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio
o explicava, sempre que na redacção do _Primeiro de Janeiro_ recebia
um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido n'estes termos: «Ámanhã, a tal
hora, em casa do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com
auctoridade ao azedume com que os criticos de Castilho cairam sobre a
traducção do _Fausto_, lavrava um protesto energico em nome da velhice
desconsiderada, e desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as
maguas intimas que as ingratidões de que a vida das lettras está eriçada
tinham posto no seu coração. Esse livro era o seu testamento litterario,
resalta d'elle a indignação da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe
de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, e do outro o
respeito da gente moça. N'este caso a velhice morre como os dois
Carvajal, que emprazaram Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a
velhice empraza a mocidade irreflectida a comparecer no tribunal da
Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante do que o d'um mancebo
insultando um ancião benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um
parricidio moral de que todo o homem honesto affasta a vista com
horror.» A sua alma precisava d'este desafogo--a tão pequena distancia
da sepultura. Alexandre Herculano, movido por igual impulso, escrevia,
do fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação a José
Gomes Monteiro a proposito da publicação dos _Criticos do Fausto_. Essa
carta, era breve, mas profundamente energica. _Nunca as mãos lhe doiam_,
dizia o auctor da _Historia de Portugal_ áquelle que muitas pessoas
denominavam o _Alexandre Herculano do Porto_.
Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma ficou tranquilla mas
fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, nunca mais escreverei. Vivendo
unicamente de recordações, parecia esperar serenamente a noite
misteriosa da morte...
Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces, das mais gratas
recordações da sua vida. O sr. Emilio Biel, do Porto, appellando para os
seus antigos estudos sobre Camões, convidára-o a rever a edição dos
_Lusiadas_, que foi publicada n'aquella cidade por occasião do terceiro
centenario da morte do grande epico. A este nome prestigioso, a alma de
José Gomes Monteiro teve ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela
sua preciosa _camoneana_, pondo diante de si as suas excellentes notas
sobre a vida e a obra de Camões, José Gomes Monteiro pretendeu encerrar
a sua carreira d'escriptor honrando a memoria do maior poeta que tem
tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio de luz do seu
espirito, estrella cadente que sulcando a noite da velhice foi
abismar-se na sepultura já aberta para receber o douto bibliophilo.
A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia na traquillidade
dos mortos.
* * * * *
Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, a todos os homens
importantes de Portugal, elle poderia ter-se saciado de honras, se fôra
um espirito vulgar. Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções
litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era socio
correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa e membro de
varias academias estrangeiras. O seu nome apparecia pouco, occultava-se
como elle proprio, e todavia, outros muitos que ajudára a crear com o
seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção passavam por
diante d'elle, na pompa do triumpho, sem que o menor assomo de inveja
viesse perturbar-lhe a habitual serenidade de animo.
Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio da sua vasta
livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades de mortos, onde os
livros falam como os tumulos. A paz creadora, a meditação tranquilla, o
descanso productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando
dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; mas os livros,
amigos inalteraveis, não faltam nem atraiçoam. Na saude ou na doença, no
trabalho ou no ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu
silencio, são sempre uma companhia, uma guarda, uma força. O velho
Castilho tinha o seu leito entre elles. Não os via, mas sentia-os. Não
tinha olhos para os procurar, mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes
me pareceu que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? Aqui
estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre elles morreu. O seu cadaver
depositado na livraria parecia escutar, na concentração placida dos
cegos, o que Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio
eterno dos livros.
A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole immensa. A antiguidade
tinha ali, fechados em pergaminho, os seus thesouros classicos. A
renascença enfileirava os seus volumes em linha de batalha. A um lado, a
Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro lado, Roma, a Grecia
italiana, pendurava as suas liras coroadas de mirtho e louro. Os paizes
do norte da Europa combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos dos
seus climas. O occidente punha os seus trovadores a par dos seus
cavalleiros. A central Allemanha entoava as suas baladas vaporosas como
o véu azul do seu Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de luz
os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus codigos religiosos e
austeros.
--Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes Monteiro com certa alegria
lisonjeada, a todos quantos lhe perguntavam se possuia este ou aquelle
livro.
Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito dos bibliophilos: a
avareza. Os seus livros pareciam-se n'isto com as flores, que pertencem
principalmente a quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe de
ser aspirado pelos estranhos.
[1] Pag. 236.
[2] _Diccionario bibliographico portuguez_, vol. 4.º, pag. 363.
[3] O sr. conde de Ficalho contradictou na _Flora dos Lusiadas_, em
1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes Monteiro,
mas honra-o dizendo que a sua _carta_ contém, na parte
exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.
[4] Vol. 2.º, pag. 401.
* * * * *
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