Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais notavel historiador
portuguez do nosso seculo. Avistei-me com Alexandre Herculano em 1874, e
d'essa entrevista deixei memoria no livro que se intitula _O capote do
sr. Braz_. Quando o eminente escriptor morreu, tentei traçar o seu
perfil litterario n'outro livro, que então publiquei, _O Porto por fóra
e por dentro_.
Hoje, porém, desejo apenas procurar na colossal individualidade de
Herculano um outro aspecto, que aliás tem sido pouco explorado: a sua
ephemera vida politica. Mas quer-me parecer que esta pagina, que
acrescento agora á biographia do grande historiador, poderá conter
elementos não de todo inuteis para quem houver de escrever um dia,
definitivamente, a monographia completa da sua brilhante existencia.
Alexandre Herculano padecera as contrariedades da guerra civil, emigrára
na onda dos liberaes que fugiram ao triangulo do patibulo, e voltára com
D. Pedro a Portugal.
Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser um dos primeiros
homens politicos do constitucionalismo, se não fossem naturalmente
subjugados por uma organisação de poeta, com todas as qualidades e os
defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam exhibir no
forum, no parlamento ou nos conselhos da corôa, quando não têem, como
Herculano teve, a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada
passo os contraria e azéda.
Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante a sua ephemera vida
politica, de ser um poeta, no sentido elevado d'esta palavra, um poeta
cujos naturaes caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel ás
conveniencias partidarias, ás manobras do parlamento e ás intrigas de
gabinete.
Elle proprio o confessa quando diz: «Entre os soldados de D. Pedro havia
poetas: militava comnosco o auctor de _D. Branca_, do _Camões_, de _João
Minino_; o sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os
ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil do
Mindello, não tiveram um cantor: _e apenas eu, o mais obscuro de todos,
salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de tanta riqueza
poetica_.»
_A Voz do propheta_, um dos seus mais notaveis escriptos politicos, não
é senão um grito lancinante de poeta contra a revolução de 1836; a
colera sublime de um poeta da _Carta_, deixem-me dizer assim; de um
coração delicado que via ligada á memoria da _Carta_ a recordação dos
seus melhores dias de soffrimento, de lucta e de esperança.
«A carta, escrevia elle em 1867, fôra como a estrella polar da esperança
nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das tempestades, do desalento.
_Vivia depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi
dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas que será
provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações novas._
Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto de vista
exclusivamente politico dos homens que procuravam assaltar o poder,
fazendo a revolução ou defendendo a _Carta_, d'esses homens que
accentuavam agora em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham
principiado a separal-os na emigração, collocava-se no ponto de vista
desambicioso e romantico do homem que sustenta uma causa pelo estimulo
sincero da sua propria convicção e da sua propria fé n'essa causa.
Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente, façamos-lhe essa
justiça, que estava ali um litterato eminente, um espirito superior, mas
que aquelle homem não _fazia sombra_ a ninguem como politico.
Não tinha coração, nem consciencia, nem caracter para isso. Era um
teimoso honrado, um pensador insubmisso. E se Alexandre Herculano entrou
em 1840 no parlamento foi o homem de lettras que levou pela mão o deputado.
Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico amavel de salão,
escrevia cartas sobre cartas para o Porto, a José Gomes Monteiro, que
nada valia como politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleição por
aquella cidade, berço de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se em
pleno parlamento, logo que ali entrou, de que não fizera um pedido, de
que não escrevera uma carta para obter o diploma de deputado.
Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus companheiros de
emigração, poria o fito em escalar o parlamento, fosse como fosse. O
caso era entrar, para _chegar_. Mas ao passo que Garrett comprehendia
isso, Herculano não o comprehendia assim. Por isso Garrett chegou a
ministro, e Herculano abandonou a vida politica.
Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que principiou a 26 de
maio de 1840, Alexandre Herculano usou pela primeira vez da palavra, na
discussão da resposta ao discurso da corôa, em sessão de 6 de julho.
_O sr. Alexandre Herculano_--Sr. presidente, erguendo-me para dar a
minha opinião sobre as graves questões que se têem ventilado n'esta
camara, eu, deputado até aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito
passo que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas cadeiras, para
obter a qual _ninguem ousará dizer que eu gastasse uma rogativa, uma
carta, ou uma palavra_; n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam,
sem se lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em instrumento
de martyrio, se não as queremos tornar recordação de remorsos, que nos
acompanhe por todo o resto da vida.
«É esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos do coração, e as
convicções do entendimento, que me cumpria fazer hoje, tendo de censurar
o ministerio, no qual ha um homem a quem devo grandes obrigações, e mais
que obrigações; antiga amisade. Se alguns serviços eu fizer n'esta
camara á minha patria, que ella não m'o agradeça; mas agradeça-me o
sacrificio que hoje lhe faço do mais santo dos affectos humanos, a boa e
leal amisade. (_Grande attenção_).
«Da exposição do illustre deputado o sr. J. A. de Magalhães, vi eu (e
ainda vejo, porque as razões dos srs. ministros que já fallaram, me não
satisfizeram) que o governo tem deixado peiorar a situação das nossas
relações estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade do ministro
ultimamente encarregado d'este ramo de administração? Esqueceria elle o
bem do paiz para só curar que das mãos lhe não cahisse esse pomo do bem
e do mal, tão tentador, e formoso, chamado a pasta de um ministerio?
Será culpa d'um ou de todos? Não o sei; o que m'importa é o facto para o
haver de censurar como devo: visto que os meus constituintes me mandaram
para este logar.
«Mas esta censura não cahe só sobre o ministerio actual: cahe tambem
sobre o que o precedeu; porque se no tempo d'aquelle houve descuido (ao
que parece) sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha
havido tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo.
«E recordo-me hoje do que ha muito é passado, porque sobre os homens da
minha crença politica se lançaram crueis accusações de falta de
patriotismo; porque eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos
jornaes que advogam a causa da revolução permanente, asselladas com o
ferrete de lista ingleza.»
Muitas passagens d'este discurso foram vivamente applaudidas.
Citaremos as seguintes:
«Nem os homens da revolução quizeram vender Portugal á França; nem o
partido cartista o quiz vender á Inglaterra; nem nenhum ministerio
passado, presente, ou futuro, o vendeu ou o venderá a ninguem.
(_Vivissimos apoiados_).
«E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nação se ergueria como um só homem,
e esmagaria os infames que atraiçoassem a terra da sua infancia; que
chamassem os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas que cobrem
as cinzas dos nossos paes! (_Muitos apoiados_).
«Depois nós iriamos afiar as armas nas campas dos valentes
d'Aljubarrota; e pelejariamos até o ultimo de nós cahir moribundo pela
independencia nacional!
«Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em ess'outras sentam-se
homens, que juntos combateram nas linhas do Porto; juntos velaram noites
longas e dolorosas; juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos
olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes desacompanhado de
esperança, sem que nunca se vissem uns aos outros enfiar ou tremer; sem
que nunca imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse os seus
companheiros d'armas. Como é possivel que hoje irmãos reneguem da
confiança em seus irmãos? Penhor do procedimento presente seja o
procedimento passado. Qual de nós pertenceria a um partido que não
tivesse por bandeira--_independencia e liberdade_?» (Vozes: _Muito bem,
muito bem_).
Este discurso de estreia revela o homem de lettras _depaysé_ no
parlamento. É um academico que fala, encadernando em bons periodos
litterarios uma alma delicada de poeta, que sinceramente presta culto á
terra em que nasceu e á amizade que o liga a um dos ministros. Nada faz
suppôr n'este discurso que esteja ali o argumentador capcioso e sophista
que haja de entrar em todos os debates da politica apaixonada, em todos
os incidentes facciosos e obstruccionistas, o _rabula_, o furão da
politica.
Rodrigo da Fonseca Magalhães, a raposa astuta, conhecia bem Herculano,
sabia por onde havia de dirigir-se para lisonjear o homem de lettras.
Por isso comparou-o a Lamartine, um grande escriptor, tambem poeta da
politica, e falou ao coração de Herculano a linguagem affectuosa da
amizade. Procurou rendel-o tocando todas as fibras mais sensiveis e
impressionaveis da organisação de um homem de lettras que tinha, sob um
feitio ás vezes aspero, um coração de ouro.
Foi pois o ministro do reino que se levantou para responder por parte do
governo.
Começou por prestar calorosa homenagem ao talento e ao caracter de
Herculano.
«Sr. presidente, disse elle, principiarei por dar os parabens ao nobre
deputado, que acaba de falar, pelo seu primeiro discurso n'esta camara,
que nos promette a honra que tem a camara franceza de possuir monsieur
de Lamartine; sem embargo de que lançou censuras sobre o ministerio a
que eu pertenço. Eu sou o amigo a quem o nobre deputado se dirigiu, e
tenho de o contradizer, porque elle quiz persuadir a assembléa de
que me devia alguns obsequios: o nobre deputado nenhuns me deve, e pelo
contrario se em algum de nós ha divida, pesa sobre mim. Estou certo de
que as suas palavras sairam do coração, as ideias da sua intelligencia
na questão de que se trata, questão solemne e solemnissima para mim, a
maior em que me tenho visto até agora.»
Não se enganou Rodrigo da Fonseca Magalhães se, como suppomos, viu em
Alexandre Herculano o homem que, longe de manejar as armas politicas nos
combates de todos os dias, só uma vez por outra havia de tomar a palavra
em assumptos que mais ou menos pudessem lisonjear as tendencias do seu
espirito.
Assim aconteceu; a raposa vira bem.
Na sessão de 1 de agosto, Alexandre Herculano, como membro da commissão
de instrucção publica, pronunciou algumas palavras sobre o projecto da
jubilação dos professores.
Transcrevemos uma passagem d'esse pequeno discurso:
«O homem que ou aquecia as tenazes na inquisição de Evora, ou fazia
cousa similhante está aposentado; e creio que não ha muita justiça em um
tal accumular. (Uma voz--E o que tocava os folles do orgam na
Patriarchal!) É por isto, sr. presidente, que eu requeiro que se approve
o parecer da commissão de instrucção publica, sobre o direito
d'accumulações dos professores, e que as commissões respectivas dêem o
seu parecer sobre as outras classes, para que a essas a quem a mesma
accumulação competir, se torne extensiva a disposição d'esta lei.»
Na sessão de 11 de agosto, Alexandre Herculano tornava a falar sobre o
mesmo assumpto, e dizia:
«Eu entendo que a rasão da lei dar o direito de accumulação aos
professores, é porque estes professores durante 20, 25, 30 annos de
serviço accumularam na mão do Estado um capital productivo. Por exemplo,
o professor de instrucção primaria, converteu um bocado de pedra ou
um bocado de pau n'um homem; um serrenho que desce das montanhas, e vem
para a escola primaria, não dista da animalidade cousa alguma; eu tenho
conhecido alguns, que realmente distam mais de uma creatura humana do
que de uma alimaria: isto é verdade, e o professor de instrucção
primaria converte este ente n'um homem, e em um cidadão productivo para
a sua patria, o que por certo não seria, se não fosse o cuidado do
professor de instrucção primaria. Estes homens passam ás escolas
superiores, e vão ser magistrados, e vão ser militares, vão ser
fabricantes e artistas, e emfim occupar todas as posições sociaes,
tornando-se assim productivos, e augmentando a riqueza nacional, que
como todos sabem (porque todos aqui sabem o que é economia politica)
consiste em capitaes accumulados pela intelligencia, e pelo trabalho.
Esses capitaes são os que os professores accumulam nas mãos do Estado,
porque elles são a origem primordial d'elles.»
Na sessão de 27 de agosto, Alexandre Herculano mandou para a mesa, por
parte da commissão de instrucção publica, uma substituição ou antes nova
redacção do projecto de lei, que restituia os professores da academia do
Porto aos seus respectivos logares, de que haviam sido demittidos em
consequencia dos acontecimentos politicos posteriores ao dia 9 de
setembro de 1836.
Na sessão de 21 de setembro discutiu-se o projecto de lei relativo aos
abusos de liberdade de imprensa.
Alexandre Herculano tomou a mão para falar.
É muito saliente esta passagem d'esse seu discurso:
«Os abusos d'esta liberdade podem reduzir-se a tres classes--abusos
contra a religião, e a moralidade publica--abusos contra a honra dos
cidadãos--e abusos contra a segurança do Estado.--Entendo que qualquer
d'estes crimes é gravissimo, e que as penas contra elles devem ser
tambem gravissimas: eu não tinha duvida nenhuma em votar, que o homem
que calumnia um empregado, ou um particular por via da imprensa,
soffresse até um degredo perpetuo para a Africa; e porque? Porque é um
assassino do espirito, da alma, assim como o homem que ataca com um
punhal na estrada, é o assassino do corpo; e eu não distingo entre estes
dois assassinos; não sei se diga, que detesto mais o assassino da alma,
aquelle que me rouba todas as minhas esperanças sociaes. Era aqui, sr.
presidente, que eu desejava todo o rigor da lei; mas não queria nenhuns
embaraços para o exercicio d'uma garantia, que pela constituição têem
todos os cidadãos; porque, torno a repetir, não tenho a honra de ser
legista, mas entendo, que uma lei que regula não destroe, e eu vejo
destruido este direito para todos os que não tiverem os meios de fazer
este deposito, ou dar esta fiança».
Na sessão de 3 de outubro, discutindo-se o orçamento do estado,
Herculano occupou-se da verba destinada á conservação dos monumentos
nacionaes.
«Desejava agora saber, disse elle, o que se ha de fazer só com oito
contos, quando para o convento de Mafra vejo que são precisos treze;
isto é, só para este edificio; propondo-se agora oito contos para os
reparos de todos os monumentos, pretendia eu saber como ha de o sr.
ministro repartir esse dinheiro? Por tal motivo parece-me mais
conveniente que se espere pela presença do sr. ministro para vermos o
que elle diz a este respeito.»
Tornando ainda a usar da palavra na mesma sessão, conformou-se com as
explicações dadas pela commissão.
«Não queria eu decerto que estes monumentos se concluissem com o que nós
lhe vamos dar; queria que se reparassem, que se evitasse a sua ruina,
mesmo porque hoje não ha em todo o reino artifices que sejam capazes
de os acabar. Contento-me pois com isto, e muito mais com esta ultima
declaração da commissão; porque ha muitos monumentos que não estão
incluidos no numero d'estes que se chamam monumentos historicos, e posso
citar o castello da Feira que se está arruinando e deitando abaixo, e
pouco a pouco se vae apossando d'elle um sujeito que é dono das terras
visinhas ficando d'aqui a poucos dias perdido para a nação esse primor
d'arte. Muitos outros ha que têem a mesma sorte.»
Até aqui temos visto apenas o orador desambicioso, que não mira a fins
politicos, que expõe parcimoniosamente a sua opinião, até com certa
hesitação algumas vezes, mas sempre impellido por generosos sentimentos;
e através do orador parlamentar, que o é sobreposse, descobrimos
perfeitamente o gosto, a predilecção, a tendencia do homem de lettras,
que faz a apologia do professor de instrucção primaria, o primeiro
cabouqueiro do espirito humano, e dos monumentos historicos, que são a
genuina expressão da arte nacional na serie dos tempos.
Em fevereiro de 1841 discutiu a camara dos deputados a celebre questão
da propriedade litteraria, em que Almeida Garrett tão activa parte
tomou, sendo sua a iniciativa do projecto.
Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observações.
Esta famosa questão, que tão discutida tem sido sob o regimen liberal,
veio surprehender Herculano, queremos crêl-o, no parlamento. Ella não
tinha passado ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras,
impondo-se profundamente á sua attenção. Só onze annos depois foi que
Alexandre Herculano escreveu a celebre carta a Almeida Garrett, e ha
n'essa carta alguns periodos significativos, referentes á discussão de
1841. Diz Herculano a Garrett:
«Se, porém, v. ex.ª quer que por esse facto eu mostrasse seguir as
ideias de v. ex.ª declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de
mim qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa
provir-me. _Dez annos não passam debalde para a intelligencia humana, e
eu não me envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não
me envergonho de raciocinar e aprender._»
Estamos persuadidos de que o debate parlamentar ácerca da propriedade
litteraria encontrára Alexandre Herculano sem opinião definida sobre
esse assumpto. Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo
faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos de que o
sistema nervoso de um homem de lettras é ás vezes susceptivel, e que os
proprios factos da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica.
Herculano, o irritado contradictor da propriedade litteraria,
reconheceu-a nas transacções honestas que fizera com o seu editor,
reconheceu-a no seu proprio testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros.
Os grandes talentos têem d'estas aberrações nervosas. São o claro-escuro
das suas concepções geniaes.
Espirito que a meditação de uma vida repousada tornára cada vez mais
avesso ás promptas soluções dos negocios publicos, poeta da solidão, mas
sempre poeta, Herculano, desfolhadas as ultimas illusões, aborrecêra a
vida publica, e creára pelo parlamento a repugnancia que se deve sentir
por um paiz onde a nostalgia nos acommetteu e pungiu.
Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo circulo de Cintra.
Este circulo, segundo o decreto eleitoral de 1852, dava dois deputados.
Alexandre Herculano saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco de
Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente se notabilisára no
parlamento como _apagador_ encartado. A lenda ridicularisava-o. Disse-se
que Herculano não quizera ir á camara de braço dado com um _apagador_
satirisado. Não acceitamos esta versão. É certo que elle renunciou o
logar de deputado, e que a razão adduzida na sua _Carta aos eleitores de
Cintra_, agora reimpressa no II volume dos Opusculos, é pouco menos de
futil.
Essa razão era--_que nenhum circulo eleitoral deve escolher para seu
representante individuo que lhe não pertença_.
Politicamente o argumento é frivolo. Mas foi decerto o primeiro que
Alexandre Herculano pôde encontrar para desculpar o seu aborrecimento
por a vida politica, onde sempre estivera, postoque pouco tempo,
contrariado e constrangido.
O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores, do que entre
politicos interesseiros que punham a sua candidatura a ministros.
Na sessão de 13 de agosto d'aquelle anno foi discutido o parecer da
primeira commissão de verificação de poderes acceitando a renuncia do
logar de deputado, para o qual Alexandre Herculano havia sido eleito
pelo circulo 26, sem que chegasse a tomar assento na camara.
O sr. Pegádo propoz a seguinte substituição ao parecer da commissão:
«A camara, considerando que a renuncia pedida pelo sr. deputado
Alexandre Herculano não está exacta e rigorosamente no caso da lei,
convida-o a acceitar o logar de deputado.»
Entendia o sr. Pegádo que Alexandre Herculano, tendo expendido pela
imprensa as razões da sua renuncia, não julgaria logico mudar da
opinião, mas que a camara podia tiral-o da posição melindrosa em que se
achava, convidando-o a ir occupar o seu logar no parlamento.
Por parte da commissão, o sr. Mello Soares disse que se o sr. Pegádo
tinha em mente fazer o elogio de Alexandre Herculano, a camara estava de
accordo com as suas palavras, _porque o sr. Alexandre Herculano faz
uma época ao paiz, pelo menos uma época litteraria_; mas a questão era
outra, havia uma lei a cumprir e uma vontade a respeitar.
A requerimento do sr. Coelho do Amaral, julgou-se a materia discutida, e
o parecer foi approvado.
Os animos generosos e fidalgos saboreiam ás vezes com agreste
voluptuosidade o sentimento da resistencia obstinada ás correntes
sociaes que em sentido contrario ás suas tendencias os solicitam.
Foi o que aconteceu a Alexandre Herculano. Elle cristallisára no seu
aborrecimento pelo mundo politico, pelo scenario avariado do parlamento,
onde se reconhecêra inferior aos outros, talvez mesmo a si proprio.
El-rei D. Pedro V, amigo particular do grande historiador, quiz
fazer-lhe mais uma distincção nobiliaria do que dar-lhe um premio
politico: nomeou-o par do reino. Transcrevemos o diploma official da
nomeação, que foi publicado no _Diario do Governo_:
_Ministerio dos negocios do reino_
«Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das
Sciencias, antigo deputado da nação portugueza. Eu El-rei vos envio
muito saudar. Tomando em consideração os vossos merecimentos e
qualidades, hei por bem, tendo ouvido o conselho d'Estado, nomear-vos
par do reino, o que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e
effeitos devidos. Escripta no Paço das Necessidades em 17 de maio de
1861.--Rei.--_Marquez de Loulé._--Para Alexandre Herculano de Carvalho,
socio effectivo da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da nação
portugueza.»
Alexandre Herculano recusou, talvez ainda porque essa mercê tinha
resaibos de iguaria politica, para apreciar a qual o seu paladar
estava desde muito tempo embotado.
Habituara-se a depreciar as galas que podem ensanefar, como elle dizia,
o pedestal dos homens politicos. Fizera-se lavrador, quasi misanthropo.
A sua prosa tinha por vezes, quando de longe a longe escrevia, tons
duros de mau humor para com a sociedade.
Recusou a mercê regia.
Temos fortes razões para crêr que o requerimento em que renunciou o
pariato fomos nós arrancal-o pela primeira vez ao archivo do ministerio
do reino.
Diz assim:
«Illmo. e Exmo. Sr.
«Sua Magestade El-Rei, usando das attribuições do poder moderador, Houve
por bem honrar-me com a nomeação de membro da Camara dos Dignos Pares do
Reino. Será ocioso significar a v. ex.ª quanto aprecio esta demonstração
de confianca d'um Soberano, que a historia póde qualificar como a mais
nobre e pura intelligencia que tem resplandecido no throno portuguez, e
que sabe ainda mais obrigar á affeição como homem do que ao respeito
como magistrado supremo.
Mas as condições da humanidade alcançam reis e subditos: reis e subditos
estão sujeitos a fazer apreciações inexactas ou incompletas. Podem
illudir-se ás vezes tomando os impulsos da benevolencia pelas
inspirações da justiça e é possivel que em relação a mim se désse uma
circumstancia d'essas.
Désse ou não désse, o que sei, o que me diz a consciencia com voz
sobradamente intelligivel é que o meu concurso nas deliberações da
camara dos Dignos Pares do Reino seria inutil, quando não inconveniente.
Dispense-me v. ex.ª de expôr as razões d'esta intima e invencivel
persuasão, razões tristes para mim, e porventura demasiado longas e
tediosas para v. ex.ª
Não creio que faltem em Portugal homens de saber e virtude que
tenham esperança e fé. São esses que pódem, sem a temeridade de Ora,
erguer a mão para amparar a arca santa das instituições. É provavel que
saibam fazel-o aquelles que n'esta conjunctura foram tambem honrados com
a confiança da corôa.
Queira v. ex.ª levar a minha escusa de membro da camara dos Dignos Pares
do Reino á presença de Sua Magestade El-Rei, que, acceitando-a
benignamente, ajuntará uma prova mais ás muitas que já tenho da sua
inexgotavel indulgencia para comigo.
Deus Guarde a v. ex.ª--Lisboa, 18 de maio de 1861.--Illmo. e exmo. sr.
Marquez de Loulé, ministro e secretario d'estado dos negocios do reino.
_A. Herculano._»
O decreto acceitando a renuncia pedida, tambem, que nos conste, não fôra
integralmente publicado no _Diario do Governo_, posto que a elle se
alluda em outro diploma official.
«Attendendo ao que me representou Alexandre Herculano de Carvalho, socio
effectivo da Academia Real das Sciencias, Hei por bem acceitar a
renuncia por elle feita nas Minhas Reaes Mãos da Dignidade de Par do
Reino, a que fôra elevado por Carta Regia de 17 de maio proximo findo. O
Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Reino assim o tenha
entendido e faça executar. Paço das Necessidades em 4 de junho de
1861.--Rei.--_Marquez de Loulé_.»
Do mesmo modo não foi publicada a portaria que acompanhou a remessa do
decreto real.
«Para Alexandre Herculano de Carvalho:
«Manda Sua Magestade El-Rei pela Secretaria d'Estado dos Negocios do
Reino, remetter a Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da
Academia Real das Sciencias, para seu conhecimento, a inclusa copia
authentica do decreto de 4 de junho corrente, pelo qual Houve por
bem acceitar a renuncia por elle feita nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto
Senhor, da Dignidade de Par do Reino, a que fôra elevado por Carta Regia
de 17 de maio proximo findo, o que na data de hoje se participa á Camara
dos Dignos Pares do Reino. Paço das Necessidades, em 8 de junho de
1861.--_Marquez de Loulé_.»
O unico documento que encontramos estampado no _Diario do Governo_ é o
seguinte aviso da presidencia do conselho de ministros á camara dos pares:
_Ministerio do Reino_
«Direcção geral da administração politica--1.ª repartição--Livro 15 n.º
143==Illmo. e Exmo. Sr.--Tenho a honra de participar a V. Ex.ª para
conhecimento da Camara dos Dignos Pares do Reino, que Sua Magestade
El-Rei, attendendo ao que lhe foi representado pelo conselheiro d'estado
effectivo João de Souza Pinto Magalhães, e pelo socio effectivo da
Academia Real das Sciencias Alexandre Herculano de Carvalho, Houve por
bem, por decreto de 4 de junho corrente, acceitar a renuncia, por elles
feita nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto Senhor, da dignidade de pares do
Reino a que haviam sido elevados por cartas regias de 17 de maio proximo
findo.
«Deus Guarde a V. Ex.ª. Secretaria d'estado dos negocios do Reino, em 8
de junho de 1861.--Illmo. e Exmo. Sr. Presidente da camara dos Dignos
Pares do Reino.--_Marquez de Loulé._»
As dimensões de uma pequena brochura obrigam-nos a circumscrever este
capitulo, a que poderiamos dar comtudo bem mais amplas proporções.
* * * * *