Publiquei o livro _Atravez do passado_, receoso de que não agradasse por
ser excessivamente pessoal. Mas Pinheiro Chagas, escrevendo na
_Illustracão Portugueza_ um artigo muito amavel para mim, a respeito
d'aquelle livro, preconisava a vantagem de todos os escriptores reunirem
as memorias jornalisticas e litterarias do seu tempo, como subsidio
indirecto para a historia completa da sociedade a que pertencem. Este
ponto de vista e a auctoridade de tão abalisado homem de lettras
deram-me estimulo, confesso-o francamente, para colleccionar um segundo
livro de memorias.
De mais a mais, trabalhando n'este genero de escriptos, eu obedeço
gostosamente a uma natural inclinação do meu espirito para a
reconstrucção do passado, que a saudade illumina. Sinto-me bem remexendo
as cinzas e contemplando as ruinas que o tempo deixou. Não sei se até
certo ponto entrará n'isto o egoismo de, pelo que me respeita, reviver
pela memoria os dias que já vão longe.
Fui escrevendo estas recordações de vinte annos de vida litteraria sem
preoccupações de nenhuma especie, nem mesmo chronologicas. Quanto ás
pessoas de que falo, não tratei de classifical-as pela ordem da sua
hierarchia politica ou litteraria. Aproveitei os nomes que me iam
lembrando, e as recordações que me acudiam ao bico da penna.
Ha n'este livro, é certo, alguns perfis politicos, algumas paginas que
não versam assumptos exclusivamente litterarios. Mas foi pelo braço da
litteratura que eu entrei na politica, e foi pela politica que eu pude
conhecer mais de perto certos homens.
Lisboa, 42 de novembro de 1889.