Camões

Num quente e perturbante fim de tarde,

Cujo magnetico e profundo enlevo

Ainda agora em mim crepita e arde,

Como se fosse a tarde em que te escrevo,

Ergui os olhos distrahidamente,

A ver se já brilhava alguma estrella

No concavo do céu opalescente

--E vi, numa varanda, os olhos della...

Do episodio que acabo de contar-te

Tão simples, tão banal, que dá vontade,

Para lhe pôr um boccadinho d'arte,

De lhe roubar um pouco de verdade,

Foi que este amor espiritual nasceu,

Nasceu, cresceu e se tornou eterno...

Repara, amigo, como olhando o céu

A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

Mas quem podia então adivinhal-o?

O olhar dessa mulher era tão lindo

Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.

Descera a noite. A lua ia subindo...

Era lua cheia e, para mais, d'agosto;

Dava em toda a varanda. Assim, eu via

As fórmas portuguêsas do seu rosto

Nitidamente, como á luz do dia.

E cá dentro de mim senti nascer

A dúvida, a incerteza, a hesitação

Sobre o que mais desejaria ser:

Se o noivo della, se o primeiro irmão...

Uma estrella cadente reluziu

Por sobre as torres da vizinha egreja,

Pensei commigo: Deus o decidiu:

É minha noiva que Elle quer que seja.

Não dizia ventura, mas desgraça,

A claridade do signal aereo.

(Na mesma direcção da egreja, passa

A rua que vae dar ao cemiterio...)

Porém, como querendo agradecer-me

A decisão que attribuira a Deus,

Inclinou-se de leve para ver-me

E os doces olhos demorou nos meus.

Sob a caricia desse olhar cinzento,

Que ao abaixar-se parecia negro,

O coração que me batia lento,

Mudou o andamento para alegro.

Uma hora decorreu. Outras passaram.

Passaram, foram-se; e naquelle enleio

Que tempo os nossos olhos conversaram!...

Estava a noite já em mais de meio.

Vinha dos montes uma brisa ardente.

O céu ganhára tons d'azul cobalto.

O luar cahia silenciosamente.

Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

Arrependidos, ou então, cançados

De se fitarem com demora em mim,

Os seus olhos piedosos e sagrados

Ao dialogo d'amor puzeram fim.

Desviára-os; e entre as palpebras discretas,

Poisára-os nas mãos claras e pequenas,

Como se foram duas borboletas

Voando para duas assucenas.

Ergueu-se. O busto delicado e fino

Tinha os suaves, religiosos traços

Da Virgem num altar. Só o Menino

Faltava na doçura dos seus braços...

Num olhar impregnado de candura,

Disse-me adeus e recolheu. Depois...

A luminosa noite fez-se escura.

Calaram-se na sombra os rouxinoes.

Entrei em casa e quiz dormir. Raiára

A madrugada sem que o conseguisse.

Quem um sonho tão limpido sonhára,

Inutil se tornava que dormisse...

Annos felizes neste amor gastei.

Vieram em seguida as horas más.

O que nellas soffri, o que passei,

Um dia, noutra carta, o saberás.

Luar de Janeiro · 第 40 / 48 题