Produced by Pedro Saborano
ALBERTO PIMENTEL
NERVOSOS, LYMPHATICOS
E
SANGUINEOS
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62, Rua da Cancella Velha, 62
1872
NERVOSOS, LYMPHATICOS
E
SANGUINEOS
ALBERTO PIMENTEL
NERVOSOS, LYMPHATICOS
E
SANGUINEOS
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62, Rua da Cancella Velha, 62
1872
AO EXC.mo SNR.
D. ANTONIO DA COSTA DE SOUSA DE MACEDO
EM TESTEMUNHO DE RESPEITOSA AMIZADE
Offerece
_O author._
PHYSIOLOGIA LITTERARIA
I
«O genio é uma nevrose» proclamou d'uma vez o doutor Moreau, de Tours,
aos quatro ventos do universo. Segundo elle, as esplendidas disposições
d'espirito que fazem com que um homem suba acima do nivel commum,
procedem das mesmas condições physiologicas que as diversas perturbações
moraes cuja expressão é a _loucura_ e o _idiotismo_.
Seja isto ou seja que a constante intuscepção dos homens intelligentes
os concentra de tal modo que parece viverem exclusivamente para si
mesmos, absortos apenas no seu mundo psychologico, o certo é que estes
homens se nos afiguram a mais das vezes entrados d'uma melancolia
excepcional. Ora o doutor Moreau quer que esta melancolia que
Aristoteles notou no seu tempo, seja simplesmente alienação mental, e
escreve «que, por constituição melancolica, Aristoteles entendia a
disposição do organismo mais favoravel ao desenvolvimento da loucura.
Melancolia,--continua o nosso doutor,--era o termo generico, sob o qual
os medicos e philosophos da antiguidade designavam todas as fórmas de
delirio chronico; corresponde á nossa palavra: alienação mental, loucura.»
Aristoteles escreveu «que não havia um grande espirito que não tivesse
um grau de loucura.» O doutor Moreau aproveita-se d'este dito e abona
espirituosamente a verdade da sua these com o testemunho da antiguidade
letrada. A excitação cerebral que precede e acompanha a inspiração,
pareceu ao doutor de Tours o estado que mais analogia offerece com a
loucura real, por isso que da accumulação insolita de forças vitaes n'um
orgão,--palavras d'elle--duas consequencias são igualmente possiveis:
mais energia nas funcções d'esse orgão mas tambem mais probabilidades de
aberração e desvio d'essas mesmas funcções.
Emilio Deschanel, author d'um interessante livro que temos aberto diante
de nós, _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, não deixa sem
commentarios as proposições do espirituoso doutor.
«Se se póde, em verdade,--escreve Deschanel--observar alguma cousa
d'involuntario nos momentos sagrados da inspiração, esses momentos
fugitivos não são tudo: subsiste toda a potencia innata e toda a força
adquirida, toda a somma de experiencia humana, de alegrias e dôres, que
os precedem: toda a energia de escolha e de vontade que os segue,--se é
que não os acompanha--: porque o que ha de involuntario é apenas
apparente; e mesmo no enthusiasmo o genio não perde a sua bussola.»
Ainda algumas palavras do doutor Moreau para ouvirmos depois Emilio
Deschanel:
«Todas as vezes que as faculdades intellectuaes ultrapassem a bitola
ordinaria, especialmente nos casos em que ellas attinjam um grau de
energia excepcional, podemos estar certos de que o estado nervopathico,
sob uma fórma qualquer, influenciou o orgão do pensamento, quer
idiopathicamente, quer por via da hereditariedade. O que é o mesmo que
dizer que nos homens excepcionaes se reconhecem as mesmas condições
d'origem ou de temperamento que nos alienados ou nos idiotas.»
Modifica Emilio Deschanel:
«O que é verdade, é que um pequeno numero de pessoas, maiores de trinta
e cinco annos, goza um estado de saude completa; quasi todas soffrem
mais ou menos, quer notoria quer secretamente, com mais razão, os homens
de letras e os artistas, cujo estado nervoso hereditario e innato está
sobreexcitado incessantemente. A concentração habitual em que vivem, a
fermentação quasi contínua do cerebro, inflamma-os, gasta-os, mina-os.
Brilham ardendo. São, a certos respeitos, _meio doentes_; isso é
incontestavel. Parece que o pensamento lhes aproveita tudo quanto roubam
ao corpo. Ao passo que um se estiola, o outro se robustece; arruinam-se
physicamente á medida que se constroem moralmente.--Mas se soubessem
conservar o equilibrio entre o espirito e o corpo, iriam peor as cousas,
e o seu talento d'elles perderia? Não, de certo! Pelo contrario, só
tinha a ganhar.»
Estas ultimas palavras d'Emilio Deschanel parece deixarem brecha aberta
á contestação, se acreditarmos que elle se propõe refutar completamente
a these do doutor Moreau. Não. Deschanel protesta contra a exageração do
doutor de Tours, mas aceita o _estado-mixto_, quer dizer, um estado que
ao mesmo tempo participa da saude e da doença.
Emilio Deschanel compartilha pois da opinião d'outro medico francez, o
doutor Bouchut, segundo o qual o _nervosismo_ é a molestia ordinaria dos
homens de letras e dos artistas.
A antiguidade chamava-lhe _genus imbecille, genus irritabile vatum_. A
sciencia moderna foi mais longe, muito mais longe:--adoptou uma palavra,
e eis tudo,--_O nervoso._
_Nervosismo, estado-mixto_, seja como fôr, tenha a denominação que
tiver, o que é certo é que parece ser apanagio das pessoas cujo
exercicio intellectual está em flagrante desproporção com a despeza
d'actividade physica.
Os homens de letras estão por via de regra costumados á reclusão do
estudo e á vida sedentaria do gabinete. N'essas longas horas do
continuado labutar, toda a vida se concentra no cerebro, para assim
dizer;--d'aqui a excitação nervosa, um excesso d'actividade intellectual
que não é equilibrado pelo exercicio muscular, pelo desenvolvimento do
corpo.
A falta de saude, a debilidade, o _estado-mixto_ afigura-se-nos uma
consequencia inevitavel. Toda a vida organica tem por base a renovação
incessante da materia. A natureza quer expulsar de si o que é velho e
morbido. A moderada actividade das fibras musculares tende pois a
favorecer a transformação da materia, a regeneração da massa do sangue,
e a dar um impulso benefico ao acto vital.
Os homens de letras descuram porém as conveniencias do organismo. Para
elles a vida intellectual é tudo e,--dissipadores inconscientes!--vão-se
atirando para o tumulo com uma pressa que o seu estado de continua
excitabilidade lhes não permitte domar.
Abundam n'estas desafinações do systema nervoso os caprichos, as
velleidades, os habitos exquisitos e bizarros, as idiosyncrasias.
Michelet, por exemplo, trabalha de manhã, tomando café em larga cópia.
Balzac escrevia de noite e, como Michelet, ia esvasiando chavenas sem
conto d'um café negro, carregado, nauseabundo. Bossuet escrevia n'um
quarto frio com a cabeça coberta; de Schiller conta-se que mettia os pés
em gelo para ter uma inspiração feliz.
Mozart, a sensitiva da musica, organisação extremamente nervosa, era
victima de profunda melancolia. Procurava vencel-a com o trabalho, com o
trabalho louco e desregrado, a ponto de se levantar do piano para cahir
no leito, exhausto de forças.
Paulo Janet, refutando n'um capitulo do seu livro _Le cerveau et la
pensée_ a theoria do doutor Moreau, procura demonstrar que estas
excentricidades não são provenientes da loucura sublime do genio.
Quer-nos parecer porém que tanto exorbita Paulo Janet como o celebre
medico de Tours. Os extremos são por via de regra viciosos, e, n'esta
questão especialmente, afigura-se-nos que o meio termo é sobremodo
aceitavel. Por tal razão propendemos para as modificações sensatas de
Emilio Deschanel. Não se estabelece uma lei fatal, não nos referimos á
totalidade absoluta; falla-se do _maior numero_, o que é incontestavel,
como demonstra a longa experiencia dos factos. Cumpre notar que não
fazemos propaganda scientifica, senão que estamos lançando ao papel uns
estudos humoristicos para correrem em folhetim.
Prosigamos finalmente, deixando para academias e academicos esta grande
questão do genio e da loucura. O nosso proposito é outro;--vejamos.
Emilio Deschanel, não menos espirituoso humorista que o doutor Moreau,
procura demonstrar que o estylo revela o temperamento do escriptor.
É verdadeiramente a physiologia applicada á critica.
Através da eloquencia fogosa de Bossuet descobre Emilio Deschanel um
temperamento nervoso-sanguineo. Pascal era nervoso-bilioso; é o seu
estylo que nol-o diz.
Basta lêr Voltaire para comprehender o doutor Raspail:
«Voltaire é o systema nervoso levado á suprema potencia.»
O marquez d'Argensou costumava definir Voltaire em poucas palavras:
«Todo nervos e todo fogo, era sensivel ás moscas.»
As _Maximas_ de La Rochefoucauld denunciam um nervoso-bilioso; João
Jacques Rosseau é bilioso-melancolico.
N'este ultimo escriptor a educação influiu de certo muito sobre o
temperamento. Rosseau foi creado com seu pai em cujo coração jámais
cicatrisou a ferida dolorosa da viuvez. Escreve Rosseau fallando do pai:
«Quando elle me dizia:--João Jacques, fallemos de tua mãi; eu
respondia-lhe:--Ah! meu pai, então vamos chorar? E só estas palavras lhe
arrancavam lagrimas.»
Vem a proposito algumas palavras de Lamartine: «Rosseau foi educado
pelas arvores, pelas aguas, pelos ventos, pelo céo, pelo sol, pelas
estrellas; carecia ao mesmo tempo da educação de uma terna mãi e d'um
pai laborioso: tudo isso lhe faltou[1].»
A solidão predispõe para a meditação, para a melancolia, e Rosseau foi
creado pela natureza.
Temos visto como Emilio Deschanel desenvolveu galhardamente a these de
Buffon,--_O estylo é o homem_, encarregando-se de demonstrar que o
seculo, o clima, o solo, a raça, o sexo, a idade, o temperamento, o
caracter, a profissão, a hereditariedade physica e moral, a saude, o
regimen e os costumes,--tudo isso se espelha na superficie ora limpida
ora revolta do estylo.
É impossivel ir mais longe.
É impossivel saber aproveitar melhor o reflexo interior para fazer
resaltar do prisma fornecido por Buffon scintillações de tal modo
deslumbrantes e magicas.
A _Physiologia dos escriptores e dos artistas_ é um espirituoso livro, e
Emilio Deschanel um espirituoso escriptor que eu tenho conversado nos
ultimos serões d'inverno.
Procuremos nós n'esta linguagem facil do folhetim, nortear a penna, a
despeito de Paulo Janet, segundo o rumo dos trabalhos de critica natural
de Emilio Deschanel.
Não podemos aventurar-nos, como elle, á vasta amplidão das aguas.
Navegaremos terra a terra, modestamente, velejando ao sabor da
phantasia. Appliquemos tambem a physiologia á critica, e estudemos em
alguns livros portuguezes a organisação d'alguns escriptores nacionaes.
Algumas vezes, é possivel, teremos de abrir excepção para um escriptor
que n'um ou n'outro relance, mesmo n'um ou n'outro livro, quiz ou pôde
dissimular a sua organisação, o seu temperamento, a sua predisposição.
Toda a regra tem excepções; esta ha-de tel-as tambem. O que é certo
porém é que o homem, na sua dupla existencia, moral e physica, não póde
encobrir-se por tanto tempo, que o physiologista litterario não chegue a
encontrar a verdade com o escalpello da critica.
Estão-nos já acudindo á memoria algumas excepções. Aproveitemos uma.
O snr. visconde de Castilho cuja indole amena e suavissima se espraia em
recamos scintillantes por todas as paginas dos seus formosos livros,
escreveu d'uma vez um poema onde se agita tempestuosamente o sentimento
mais violento que póde escandecer o coração do homem,--o ciume.
A sua bibliotheca tem porém só um livro de tempestades e luctas; todos
os outros refulgem serenos como os lagos na primavera.
O _estado-mixto_ dos escriptores e dos artistas soffre tambem excepções,
e n'ellas deve ter grande parte a hereditariedade.
Agora nos occorrem tres:
Um escriptor robusto, bem humorado, infatigavel--Alexandre Dumas, pai.
Um maestro todo alegria e saude,--Rossini.
Um pintor, cheio d'animação e de vida, em cujos quadros tudo é louro e
rosado,--Rubens.
Se estas excepções prejudicam por um lado a regra geral do
_estado-mixto_, por outro tendem a provar que o estylo é a
organisação--a doença ou a saude.
O vigoroso estomago de Alexandre Dumas, de cuja propriedade elle tantas
vezes se ufanava, está, deixem-me dizel-o, nos seus livros.
A _charis phytalmos_, de Pindaro, revela-se no _Guilherme Tell_ de Rossini.
De Raphael basta citar as _Virgens_, que mereceram a Michelet estas
palavras: «Virgens enormes, rosadas, refeitas, escandalosamente bellas.»
Ponhamos ponto, para comecarmos a fallar de escriptores portuguezes.
Principiemos por um que tem um triste direito a ser o primeiro--porque
morreu doudo.
[1] _J. J. Rousseau_ por A. Lamartine.
* * * * *
II
A. P. Lopes de Mendonça
Ha phrases que envolvem uma prophecia, conceitos despretenciosos que
parecem sahir do intimo da alma como um presentimento que de repente
assalta o escriptor no remanso do gabinete.
A pag. 324 das _Memorias de litteratura contemporanea_, de Lopes de
Mendonça, encontro eu estas palavras:
«Ha vocações, que reproduzem os prodigios das sibyllas antigas.
Prophetisam involuntariamente sobre a tripode, e deixam-se arrastrar
pelo enthusiasmo das suas proprias palavras. O joven poeta não cantava,
sómente para que as turbas se deixassem commover pela harmonia dos seus
cantos: cantava porque lhe ardia no peito um fogo devorador, porque a
sua alma ébria e palpitante, lhe accendia a imaginação, e como lhe
intimava que traduzisse aos outros a magia dos seus sonhos, o fervor dos
seus desejos, o esplendido irradiar da sua esperança.»
É certo que os verdadeiros talentos, as almas privilegiadas para a
gloria e para o martyrio, _reproduzem os prodigios das sibyllas e
prophetisam involuntariamente_.
Lopes de Mendonça escrevendo as _Memorias d'um doido_ prophetisava tambem.
Aquelle immenso talento, febril, audaz, infatigavel, sabia que as
organisações como a sua resistem corajosamente a lucta social até
perderem a vida ou a razão.
Mauricio, o seu heroe, é o que geralmente se chama um doudo
sublime,--que pensa, que joga, que ama, que aborrece, que porfia, que se
sacrifica, que obedece fatalmente á excitabilidade do seu temperamento.
«Arremessado aos quatorze annos no tumulto da capital,--escreve Lopes de
Mendonça--tivera de se sustentar, como Rousseau, do trabalho machinal do
copista, e na estreiteza e improbas fadigas de tal profissão, póde
entregar-se ao estudo. Lendo avidamente a historia, sobretudo a historia
moderna, já a sua intelligencia penetrára em todos os problemas da
politica, e a acção dos acontecimentos que se succediam com uma
variedade propria das quadras revolucionarias, amadureceu a sua precoce
experiencia.»
Tal era Mauricio, tal era Lopes de Mendonça. O verdadeiro artista tanto
quer á sua obra, que procura animal-a com a parte psychologica da
propria individualidade.
D'aqui o encontrar-se frequentemente o author reproduzido no heroe.
A politica, a idéa fixa e a maxima aspiração de Lopes de Mendonça, que
transpirava sempre nos seus livros e nos seus folhetins, não podia ser
indifferente a Mauricio.
«Mostrára a sua vocação,--continúa Lopes de Mendonça--escrevendo alguns
pamphletos, cheios de energia, e de vivacidade pittoresca. Lançára-se na
critica implacavel de medidas que elle suppunha timidas e incompletas,
porque reconhecera a distancia que o separava dos mediocres vultos, que
dirigiam os negocios publicos.
«Apreciando, pelo que lêra, o que devia ser um homem d'estado, via os
que governavam desperdiçando as fôrças d'uma situação excepcional em
questões de mesquinha influencia, e nas intrigas, que manchavam todas as
obras, grandes ou pequenas, da politica.»
Está claramente photographada n'estes periodos a ancia, a febre, a
aspiração, o espirito de justiça e verdade, a coragem, o esforço, a
persistencia de Lopes de Mendonça.
Queria elle,--aquelle espirito poderoso--que sahisse da espuma da
revolução a verdadeira liberdade politica como tinha sahido--Venus
moderna,--a verdadeira liberdade litteraria.
E propunha-se os graves problemas da administração, e planeava as
grandes medidas que correspondem ás grandes necessidades d'um paiz, e
queria levantar sobre as bases da justiça e da moralidade todo o
edificio do regimen liberal, e queria realisar em si o ideal perfeito e
quasi impossivel d'um homem d'estado, e queria apartar do centro da
acção politica as pequenas individualidades que prejudicam a marcha dos
acontecimentos no interesse da patria, e ao mesmo tempo mantinha digna e
corajosamente a revolução litteraria que se havia iniciado, e escrevia
os seus livros, e sustentava durante onze annos o folhetim da _Revolução
de Setembro_, e cumpria os encargos litterarios da academia real das
sciencias de que era socio e bibliothecario, e versava os trabalhos
parlamentares na legislatura de 1855, e desempenhava o magisterio, e
queria saber, precipitar o tempo para adquirir o que só o futuro lhe
podia ensinar, e lidava, pensava, trabalhava, para ter de sobreviver á
ruina da propria intelligencia.
Cavou a si mesmo o tumulo, onde o contemplamos alguns annos meio vivo,
meio cadaver.
«Lia, annotava,--escreve Julio Machado--commentava todos os livros,
lidando desde o romper da manhã, dormindo duas horas apenas, e
lastimando essas duas horas perdidas.
«Andava preoccupado, andava triste e inquieto. Haviam-lhe mentido todos
os seus oraculos d'outr'ora, e já não acreditava mesmo em si proprio.
Tornou-se-lhe tudo escuro em redor. Não tinha uma venda nos olhos, mas
principiou a tel-a na alma. Os seus amigos inquietaram-se do estado em
que o viram. A extrema actividade de espirito perturbou-lhe a acção
cerebral, mas a lealdade do seu caracter generoso nem então se
desmentiu; imaginava-se rico, altamente collocado, offerecia-nos dos
seus haveres, e instava para que aceitassemos.
«No breve intervallo que mediou da revelação d'esse estado á sua
reclusão, comprou livros por toda a parte, muitos livros, todos os
livros que encontrou. Mas, a essa hora já estava perdido.
«As faculdades da sua intelligencia haviam-se adulterado e estalaram
como as cordas d'um instrumento[2].»
Estava irremediavelmente perdido,--estava louco; tinha morrido para a
familia, para a sociedade, para a patria, e todavia vivia ainda em
Rilhafolles. O seu estylo cadente, cheio, fogoso, elegante, a par da sua
linguagem ás vezes incorrecta, denunciava para logo um temperamento
nervoso-sanguineo.
A exaltação dos pensamentos, as scintillações differentes e successivas,
a variedade febril dos tons, a riqueza caprichosa do colorido, a escolha
variada dos assumptos, e até as mesmas imperfeições revelavam ao
physiologista litterario a organisação de A. P. Lopes de Mendonça.
Nas _Memorias d'um doudo_, tudo é febril, tudo escalda, tudo denuncia o
homem.
Lopes de Mendonça era realmente uma organisação de artista que
participava da vivacidade cerebral do temperamento nervoso e da animação
caracteristica do temperamento sanguineo. Era um escriptor modelado pela
definição em que Emilio Deschanel procura daguerreotypar o artista:
«Temperamento rico, sensibilidade ardente, imaginação fecunda, ao
serviço d'um coração generoso, d'um bom senso delicado e d'uma razão
elevada.»
Elle mesmo, o infeliz Lopes de Mendonça, apreciando um escriptor
contemporaneo, definia o artista:
«Todo o segredo d'esta excitabilidade intellectual reside, não nos
poupamos a repetil-o, em que é artista, completa e essencialmente
artista. A sua razão philosophica, é mais d'uma vez desvairada pelos
caprichos da sua phantasia. E todavia, o escriptor é logico, é racional
e concludente, em cada uma das posições que alternativamente occupa.
Hoje, reflectido e maduro, elevado ás austeras e mornas regiões do homem
de estado, apresenta os mais sensatos alvitres, expõe os problemas com a
mais fina e lucida critica, e corta os obstaculos, resguardando e
salvando os interesses, percebendo todas as conveniencias, pesando todos
os conflictos da opinião, e apalpando o terreno social como dextro e
instruido estrategico.
«Ámanhã, desempedido e solto n'uma questão puramente litteraria, n'um
ponto moral ou metaphysico, vê-o-heis enthusiasta d'um brilhante
paradoxo, comprazer-se em destruir as idéas recebidas, em ferir as
convicções consagradas, e fazendo _taboa rasa_ do _criterium_ publico,
pôr os recursos do seu talento ao serviço da sua impressão
instantanea[3].»
Eis-aqui Lopes de Mendonça, segundo as suas mesmas palavras; eis aqui o
artista. A sua vida foi uma serie de congestões, um incendiar-se
lentamente nas labaredas que lhe requeimavam o coração e o cerebro.
Tinha sonhado com a gloria, algumas vezes a entrevira, era festejado,
era querido, tinha ganhado os primeiros lugares, tinha entrado nas
primeiras salas, e elle, que tinha resistido á lucta, á insomnia, ao
trabalho, sentiu-se desfallecer quando a lava da ultima congestão
seccou, e para sempre, os louros da sua corôa.
Em toda a sua vida houve apenas um momento de tranquillo repouso,--foi o
ultimo. Julio Machado, fallando da extrema dedicação da esposa de Lopes
de Mendonça, escreve com a mimosa delicadesa que lhe é peculiar: «Um
dia, ultimamente, elle sorriu-lhe. Os medicos disseram que ia salvar-se
talvez. Ia salvar-se, ia. Ia morrer!»
Não havia já o crepitar das chammas, porque d'aquella volcanica
combustão restavam apenas as cinzas d'um cerebro; o sopro da morte
espalhou-as.
Acabou-se tudo.
Alli agonisou nos braços da esposa carinhosa, esquecido da sociedade que
mais d'uma vez o acclamára festivamente e que mais d'uma vez o
apunhalára na couraça onde resvalaram todos os golpes dos detractores
impotentes.
Julio Machado escreve ainda no seu ultimo e interessante livro--_Da
loucura e das manias em Portugal_, fallando dos doudos de Rilhafolles:
«Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em Portugal, e
sua esposa alli foi todos os dias vêl-o e fazer-lhe companhia,--colhendo
no céo a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ella e
abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que havia representado um dos
primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe
com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a alma que n'esta
vida teve dedicação pelo infortunio!»
Do homem que a fatalidade arrojou para os abysmos da loucura resta
apenas um epitaphio;--pouco é, e transitorio. Mas de Lopes de Mendonça,
do escriptor todo fogo e todo alma, todo colorido e sentimento, resta
alguma cousa mais duradoura que o seu epitaphio,--os seus livros, nos
quaes o physiologista poderá estudar largamente a vida impetupsa d'um
temperamento nervoso-sanguineo.
[2] _Trechos de folhetim_, pag. 128.
[3] _Memorias de litteratura contemporanea_, pag. 328-329.
* * * * *
III
J. C. Vieira de Castro
Se o leitor entrasse na sala do parlamento portuguez durante as mais
animadas sessões da legislatura de 1865 a 1866 e ouvisse trovejar do
alto da tribuna uma voz sonora, cheia, precipitando-se em inflexões
caprichosas e febris, que para logo denunciavam certa irritabilidade
fogosa e violenta, facilmente adivinharia, sem o descortinar, um orador
de temperamento nervoso-sanguineo, em plena virilidade, ebrio da gloria,
que, de triumpho em triumpho, o impellira até ás regiões do olympo
parlamentar.
Na sessão do dia 13 de Janeiro de 1866, por exemplo, em que se discutia
o projecto de lei sobre a liberdade de imprensa, apostrophava o orador a
que nos referimos:
«É licito perguntar com um notavel estylista da França: «Que temem os
governos da imprensa livre?»
«A guerra da discussão? Mas ao contrario lhes deve lisongear o seu amor
proprio, e a sua dedicação patriotica, porque lhes rasga vastos plainos
ás victorias de suas doutrinas e de seus principios!
«Guerra de injuria? Pois soffram-n'a, que é para isso que são homens
publicos. Se pelas eminencias do poder não houvesse senão estradas de
flôres, de triumphos e de victorias, aonde estariam as provas da sua
abnegação e do seu merito? E tanto lhes havia de doer a injuria que lhes
arrancasse um grito contra a liberdade?
«Guerra de epigramma? Mas diz Pelletan, e diz bem, que os homens de
estado devem ser fortes de coração e de cabeça, não ter a sensibilidade
de nervos d'uma _petite-maitresse_, e fazer mesmo a epiderme robusta
para as affrontas!
«Guerra de calumnia? Mas os governos teem ao seu lado a magistratura
judicial e a magistratura popular para afogarem as calumnias nas
gargantas dos calumniadores! Fiemo-nos da magistratura e da sua
vigilancia. Ella é como a mulher de Cesar; está acima de toda a
suspeita. E aproveito a primeira occasião do meu discurso em que posso
render a esta classe a minha mais profunda homenagem de respeito e
culto. Com a franqueza do meu caracter o digo, senhores; quando
desalentadamente atiro com os olhos para tanto rebaixamento moral da
minha patria, com orgulho vejo e com orgulho contemplo as togas da nossa
magistratura ainda impollutas com os seus sacrarios ao lado!»
Mezes antes, na sessão de 19 de novembro de 1865, o mesmo orador
propunha uma mensagem de sentimento ao parlamento inglez pela morte de
lord Palmerston, e discursava sobre a proposta:
«Verdadeiros heroes... e perdôe-me a memoria de José Estevão se eu penso
que os ha, e perdôe-me ella ainda mais se é exactamente, comparando-os
aos rochedos no oceano, que elles me parecem maiores e mais sublimes!
«Penso assim, e quando por muitas vezes hei meditado n'aquella celebrada
imagem d'esse grande e inspirado orador, sempre me tem parecido que o
mais digno de admiração n'aquelle atrevimento oratorio, é a modestia
sublime de José Estevão. É que para mim no confronto dos heroes com os
rochedos, não perdem aquelles por nenhuma sombra. Bem sei que se a
irregularidade ás vezes monstruosa da sua estructura póde ser um defeito
para a arte; é ella tambem, e sempre, o involucro esculptural das almas
fadadas para as grandes tempestades, e dos corações baptisados desde o
primeiro dia na onda dos grandes martyrios! Os _rochedos_, os _heroes_
topetam com as nuvens que teem por cima; lambem-lhes os pés as vagas da
opinião humilhada e abatida, e além cançada de se espedaçar contra
elles; e estendem os seus braços, que não vergam nunca, aos naufragos
cuspidos já quasi exanimes d'essas vagas, como se fossem elles os
destinados pela impassibilidade da sua força, pelo seu contacto com a
luz immensa, e pela sua proximidade da praia, a retemperarem a tibieza
dos fracos, a reaccenderem o entendimento dos desesperados, e a
apontarem o porto de salvação e das novas esperanças aos que a resaca do
primeiro commettimento ia prostrando e sorvendo no pégo!
«Tudo isto era tambem José Estevão, e porque se arreceasse aquella
sublime modestia de que uma vez lh'o conhecessem, por isso elle dizia
mal dos rochedos!
«E depois os rochedos não cahem nunca! E são tambem assim os heroes; nem
cahem quando morrem!
«Os heroes morrem de pé!
«Morrem de pé!
«Foi assim que morreu lord Palmerston. E tanto foi assim que elle
morreu, que expirando aos oitenta e um annos de idade, a Inglaterra
correu desvairada ao seu jazigo, accusando aquella morte de prematura
para o seu partido e para o seu paiz.»
Quando o sceptro da eloquencia tribunicia resvalou das mãos inertes de
José Estevão, era opinião geral da gente portugueza que tarde, ou talvez
nunca, uma nova palavra, de tal modo ardente e scintillante, despertaria
os echos adormecidos da camara electiva.
Mais d'uma penna authorisada manifestou publicamente que a phalange
gloriosa dos oradores parlamentares portuguezes tinha morrido na pessoa
de José Estevão. Tenho sobre a minha banca um livro de Ricardo
Guimarães, _Narrativas e episodios da vida politica e parlamentar_, que
fornece uma prova do que vimos dizendo.
«Quem lhe herdou--escreve o author do livro citado fallando de José
Estevão--o primado da palestra familiar, que elle exercia desaffrontado
de rivaes?
«Por ora é elle herança jacente como o é, e será--Deus sabe porque
tempo!--o sceptro dourado da eloquencia de que não poderam despojal-o em
vida os mais possantes emulos, sceptro que ainda hoje pousa sobre o
tumulo do orador, insignia indisputada d'aquella realeza do genio.»
Isto escrevia e publicava em 1863 Ricardo Guimarães; em 1865 entrava no
parlamento José Cardoso Vieira de Castro.
Não é intento nosso fazer apreciações ou discutir personalidades.
Todavia cumpre dizer que a entrada de Vieira de Castro nas lides
parlamentares desabrochou no horisonte politico os primeiros alvores
d'uma esperança. Vieira de Castro não era ainda o successor de José
Estevão; promettia sel-o, depois d'um longo tirocinio parlamentar que
lhe proporcionasse um pleno conhecimento dos mais reconditos segredos da
eloquencia tribunicia. Vieira de Castro, ebrio dos triumphos que lograra
na carreira universitaria, vinha cheio de mocidade e de inexperiencia, e
abandonava-se aprazivelmente aos arrebatamentos da sua organisação e da
sua idade, julgando de si para si que a melhor lente para estudar os
intrincados problemas da administração era o prisma dourado da sua
phantasia ardente.
Palavra facil, copiosa, scintillante, ageitando-se ás sinuosidades da
replica, sem se desviar do curso natural das idéas, tinha-a elle, como
José Estevão.
A vida academica de Vieira de Castro, repleta de episodios pittorescos,
aos quaes a opinião publica do paiz, mormente a dos homens de letras[4]
não foi indifferente, inoculou nova seiva no espirito já de
natural fogoso e opulento do author da _Pagina da Universidade_. D'aqui,
aquelle desabotoar incessante de vigorosos florecimentos na alma do
futuro orador parlamentar, aquelle espanejar incessante de flôres
variegadas e mimosas que elle espalhou ás rebatinhas nas paginas da
_Biographia de Camillo Castello-Branco_.
N'este livro a imaginação de Vieira de Castro levantou-se em vôos
alterosos e successivos. Era o phrenesi da aguia que pela primeira vez
bate as azas nos páramos infinitos.
Cada pagina é um jardim; todo o livro é uma primavera. Mas o que é
verdade é que a biographia de Camillo Castello-Branco está por fazer,
apesar de elle mesmo nos ter dado em muitas das paginas dos seus
preciosos livros, como as _Memorias do carcere_, _No Bom Jesus-do
Monte_, e outros, á similhanca de Garrett, copiosos apontamentos para se
escrever a verdadeira noticia de sua vida.
Este defeito, que a maioria da opinião notou na Biographia de _Camillo
Castello-Branco_, era ainda o senão que o mesmo tribunal encontrava nos
seus formosos discursos de estreia parlamentar. A opa tribunicia não
logrou abafar os impetos da eloquencia asiatica de Vieira de Castro. Os
seus discursos todos se emmaranhavam em ramagens phantasiosas, em
filagranas de caprichoso labor, ora alongando-se para cima como os
leques ondulantes da palmeira, ora escondendo as violetas gentis da
eloquencia nos taboleiros relvosos de um jardim oratoriano.
Era preciso desbravar trabalhosamente estes apertados labyrinthos de
vegetação esplendida, para se encontrar a idéa que se estava affrontando
sob os innumeros recamos d'uma chlamyde roçagante.
Eis-aqui a razão porque Vieira de Castro se não podia medir ainda com a
estatua gigantesca de José Estevão.
Os outonos da idade haviam de ir pouco e pouco mondando aquellas
exuberancias de vegetação litteraria, e então appareceria o pensamento
com toda a sua lucidez no meio d'uma delicada moldura como apparece uma
paisagem entre duas arvores em flôr, no alto d'uma estrada.
É esta a meu vêr a grande distancia que temporariamente separava Vieira
de Castro de José Estevão. De resto era congenere a eloquencia,--o
temperamento o mesmo.
Na sessão do dia 4 de abril de 1865 procurava Vieira de Castro
defender-se da censura que um deputado imputára á camara por se
comprazer a cada momento em frequentes e estereis luctas de palavra.
O claro entendimento do novo deputado segredou-lhe que era elle mesmo o
verdadeiro alvo de similhante accusação, e levantou-se para declamar.
São logo do principio do seu discurso estes periodos. «Demasias da
palavra? Demasias da palavra tinha-as tambem o padre Antonio Vieira, no
pulpito da igreja de Nossa Senhora da Bahia, quando interrogava a Deus;
e as nações pasmadas diante das prodigiosas catadupas da eloquencia do
oratoriano, hesitavam em pensar se fallava pelo seu verbo um inspirado
do céo, ou um desvairado da terra.
«E já que estou na igreja, abro o livro que encontro sobre o altar. Aqui
sim, aqui, na primeira pagina, não ha demasias de palavra, porque este
primeiro versiculo soube dizer na mais bella e sublime de todas as
phrases escriptas o maior e o mais estupendo de todos os milagres
creados: _Dixit Deus: fiat lux, et lux facta est._
«Santas demasias da palavra, que são como as demasias do sangue, ou no
corpo de Catão, ou na liteira de Cicero, ou no sudario do Salvador!»
E aqui estava o seu espirito a trahil-o e a arremessar para o ambito da
camara abadas de flôres que ao mesmo tempo lhe serviam de imputação e de
gloria. E aqui estava a primavera a bracejar frondes e a engrinaldar-se
de festões quando mais a accusavam de perdularia e formosa.
O orador havia porém de modificar-se como o escriptor se modificou. Nos
ultimos opusculos de Vieira de Castro o estylo não se enredava já nos
antigos dedalos, mas era formoso, gentil e magistralmente modelado; a
linguagem derivava fluente, correcta e portugueza de lei. Todavia o
temperamento do escriptor estava patente. Todos os seus livros, todos os
seus escriptos, antigos e modernos, dão testemunho da exaltação cerebral
das organisações nervosas e da extrema actividade dos vasos sanguineos
no colorido vivo, animado e brilhante da sua penna.
Mas infelizmente o orador não teve ensejo de se modificar.
Uma grande catastrophe ainda recente despenhou este homem do alto das
suas esperanças e dos seus triumphos. Foi ainda uma dolorosa
consequencia do seu temperamento como denunciam estas palavras de Julio
Machado, escriptas horas depois da catastrophe:
«Temperamento ardente, caracter inquieto e febril, denunciára muitas
vezes, logo ao entrar da vida, a violencia das suas paixões e o
enthusiasmo exaltado d'ellas. Magoas de coração, ambições quebradas,
feridas do orgulho, esperanças illudidas, fortuna exhausta, crenças
mortas, figuravam-se-lhe ser doenças da alma a que não era dado
resistir, e não podia tolerar os miseraveis que se sujeitavam a ir
vivendo cada um com o seu mal.»
Ou ainda estas:
«Todavia, não sei dizer-lhes como, não sei dizer-lhes porque, elle
proprio o não sabe talvez, perdeu tudo e principiou a desmoronar o
castello que erguera. Caracter fugaz, e sempre um pouco louco, parecia
ter gosto ás vezes em vêr desabar o edificio da sua felicidade e da sua
gloria. Não era resultado do acaso nem carencia de habilidade, era falta
de paciencia, phrenesi nervoso, estonteamento febril.»
O temperamento de Lopes de Mendonça levara-o á loucura e da loucura á
morte; o temperamento de Vieira de Castro arrastára-o ao carcere e do
carcere ao desterro.
Ambos sobreviveram á sua ruina, ambos viram escrever-se o epitaphio que
a posteridade lhes destinava, ambos sonharam os sonhos côr de rosa das
imaginações ardentes, ambos dormiram nos braços da gloria as dôces horas
da embriaguez terrena, ambos entraram nos salões luxuosos da vida
aristocratica, e ambos cahiram, quando o horisonte se lhes afigurava
dilatar-se para os deixar respirar mais livremente.
Ambos viveram finalmente, porque um está no tumulo e outro no exilio.
Eu conheci Vieira de Castro n'uma noite de festa.
Era ainda feliz.
Dous annos depois d'essa noite, despenhou-se. Emquanto o processo estava
affecto aos tribunaes, não fallaria d'elle, mas hoje, que já a
posteridade começou para o homem d'outr'ora, não duvidei aproveitar o
seu nome que pertence á historia do passado, e a historia é indefesa
para todos.
Não offendi a sua memoria, não ri da sua desgraça. Inscrevi o seu nome
n'este pequeno catalogo de escriptores nacionaes, que estamos estudando
physiologicamente.
Dos nervosos-sanguineos temos fallado que farte; occupar-nos-hemos
d'outros temperamentos que estão convidando a nossa analyse.
[4] Vêr--_José Cardoso Vieira de Castro, antes e depois do
seu julgamento_, por seu irmão Antonio Manoel Lopes Vieira de Castro,
pag. 19 e seguintes.
* * * * *
IV
Camillo Castello-Branco
«O verdadeiro talento, como o vismara, borboleta das Indias, toma a côr
da planta sobre que vive», escreveu Stendhal. Seria difficil resumir tão
profunda verdade em mais formoso conceito.
É conhecido até onde a critica moderna tem estudado a influencia do
clima sobre o espirito do homem. Montesquieu e Herder levaram ao exagero
a theoria climatologica. Proudhon contrapõe reflectidamente á doutrina
de Herder: «Todo o systema descança sobre o fatalismo geographico,
chimico e organico; sol, clima; planicies e montanhas; rios, lagos e
mares; d'onde se deduzem successivamente, por cada latitude e meridiano,
a flora e a fauna, depois o homem; finalmente, a sociedade e sua
historia. Nada temos a censurar; sómente perguntaremos o para que servem
então a liberdade e o progresso, e o para que nos aproveita a
intelligencia?»
A objecção é sensata. Emilio Deschanel não vai tão longe como Herder,
sem todavia rejeitar a theoria, e tanto não vai tão longe, que escreve
estas palavras: «Esta doutrina de Hippocrates, de Platão, de
Aristoteles, d'Eratosthenes, de Varrão, de Montesquieu, de Voltaire, de
Rousseau, de Herder, tem sido aceite e continuada em nossos dias com
muita distincção. Tornou-se a base da critica _naturista_, que é a
critica natural levada ao extremo. A terra, segundo esta doutrina, é a
prophecia da historia. Dize-me d'onde vieste, dir-te-hei quem és. E
reciprocamente, sabendo quem tu és, dir-te-hei d'onde vieste.»
Caminhando mais terra a terra, ser-nos-ha facil reconhecer que ha no
homem, na lingua, na litteratura, na arte, e até na religião um reflexo
da natureza que lhes foi berço,--reflexo que a ausencia do torrão natal
e a identificação com um novo clima póde attenuar, no homem,
consideravelmente. O que é certo, e tem sido muitas rezes notado, é que,
por exemplo, as linguas do Norte se distinguem pela rudeza das
articulações das linguas do Meio-dia incomparavelmente melodiosas; que
as litteraturas septentrionaes teem uma riqueza de pensamento que se
póde contrapôr á riqueza de sensibilidade das linguas meridionaes; que a
musica do Norte é magestosa, grave, solemne, ao passo que a musica do
Meio-dia é caracterisada pela variedade das inflexões, pela harmonia, e
pelo sentimentalismo.
Cumpre notar,--aproveitando uma observação de Deschanel,--que umas vezes
e pela similhança e outras pelo contraste que o clima se reproduz na
litteratura. «Ideal de belleza,--diz elle,--ideal de fealdade, que
importa! Na religião dos negros, o diabo, dizem, é branco. E isto, pela
mesma razão que na religião dos brancos--dos brancos que acreditam no
diabo--o diabo é preto. Porque é que os poetas latinos, quando querem
pintar a graça e a belleza das mulheres, lhes dão mais vezes cabellos
louros do que cabellos pretos? É porque entre elles, em Italia, quasi
todas as mulheres teem cabellos negros.--Reciprocamente, quando os
poetas celebram a miudo as bellezas morenas, logo se adivinha que são do
Norte, clima das bellezas louras.»
Isto é realmente verdade. Diz o proloquio: «Só se deseja o que só se não
tem.»
Já deixamos dito que Emilio Deschanel não leva a influencia do clima até
ao fatalismo geographico. A sua _Physiologia_ não é uma theoria
absoluta, uma demonstração didactica, como elle mesmo diz, mas
simplesmente uma _causerie_ sobre a litteratura e sobre a arte. Nós, que
procuramos seguir o caminho de Deschanel, não podemos acreditar que seja
a terra a _prophecia da historia_, mas firmemente cremos que todo o
homem tem muito do seu paiz como a flôr tem muito do sitio onde
desabrochou. E depois o homem,--como notou Lamartine--é planta até certa
idade, e a alma tem as raizes no solo, no ar e no céo que lhe formaram
os sentidos. D'aqui a absorpção dos fluidos que andavam espalhados no
ambiente da patria.
Não será difficil estudar-se na nossa litteratura o temperamento
predominante dos portuguezes. Dous livros nos caracterisam
perfeitamente,--_Os Lusiadas_ e a _Menina e moça_. Fomos sempre o povo
das saudades e da vida concentrada do mar, que o mesmo é dizer tambem da
saudade.
Longe, por esse azul dos vastos mares,
Na soidão melancolica das aguas
Ouvi gemer a lamentosa Alcyone,
E com ella gemeu minha saudade.
Muita da nossa melhor litteratura são chronicas de viagem e poemas
d'amor. Nós, a nação que formamos a monarchia á sombra da cruz,
herdamos, no vasto espolio que recebemos de Roma, a lyra melancolica de
Virgilio, que foi o poeta mais christão do paganismo e de quem disse
Victor Hugo
_Il chantait presque á l'heure ou Jèsus vagissait._
Depois a mesma indole da lingua, cujos numeros são d'uma saudosa
melancolia, como notou Garrett, as perturbações subitas da atmosphera, o
aspecto suavemente triste da natureza, a solidão do navio, do bivaque e
do claustro, deram-nos este caracter sombrio que nos distingue,
predispozeram-nos para o temperamento nervoso-melancolico que é o
predominante.
O nosso clima favorece as molestias intestinaes--d'aqui o mau humor, a
hypocondria, o azedume, a satyra, que está perfeitamente representada em
Bocage.
Ao contrario, os gregos, cujo céo era todo alegria e esplendores, tinham
uma palavra propria para designarem o seu estado normal--_Eucolos_, o
que diz simplesmente,--_ter bons intestinos_.
A França representa na civilisação moderna o papel de mediadora e
interprete; notou-o Edgar Quinet.
Pela sua posição topographica communica com a Italia e com a Allemanha,
e creou tambem uma phrase para designar as influencias beneficas que
recebe d'esta communicação--_en belle humeur_; por outro lado está
ligada aos paizes de Calderon e Camões, d'onde lhe sopram as auras
murmurosas que pozeram em vibrato a lyra plangente de Lamartine.
A meu vêr, um dos maiores escriptores da Europa, que mais salientemente
deixa vêr a influencia do seu clima natal,--é Camillo Castello-Branco.
Basta lêl-o, nos seus numerosos volumes, para se conhecer o temperamento
portuguez.
É que Camillo Castello-Branco é primeiro que tudo um escriptor nacional.
Nos seus romances anda o idylio triste, suave, sublime de doçura e
pungimento a par da satyra envenenada, da critica mordaz, do epigramma
lacerante. Os seus livros, como os quadros de Rembrand, teem a magia do
claro-escuro que caracterisa a escóla hollandeza.
É facil encontrar n'elles Moliere a par de Millevoye.
A educação de Camillo Castello-Branco devia influir gravemente no seu
temperamento como aconteceu com Rousseau. São do livro _No Bom Jesus do
Monte_ estes pequenos quadros retrospectivos da sua primeira vida:
«Tinha eu nove annos e era orphão.
«Dous mezes depois d'este desamparo, com o tenro coração fistulado de
saudade, a desbordar de lagrimas, e os ouvidos ainda resoando-me á alma
o estertor da agonia de meu pai, é que eu, pela primeira vez, entrei no
sanctuario do Bom Jesus.»
Ainda do mesmo livro:
«Devo ajuizar da minha precoce sensibilidade, recordando que, dous mezes
antes, entrei, por noite alta, na sala onde meu pai estava amortalhado,
sem mais companhia que quatro cirios de chamma azulada. Ajoelhei sem
orar. Afastei da fronte do cadaver o capuz do habito, e beijei-lh'a. Puz
tambem a bocca nas mãos glaciaes; senti um frio de que ainda o coração
me guarda a memoria: o frio do ambiente dos mortos. A meu lado, ninguem.
A irmã que eu tinha, alguns annos mais velha, encerrara-se com a sua dôr
e com o seu terror de cadaveres. E eu estava alli, destemeroso das
sombras que desciam dos angulos do tecto á penumbra do clarão
oscillatorio das tochas.»
Camillo Castello-Branco trabalha como trabalhava Mozart,--para vencer as
rebeldias do seu temperamento. O trabalho é, para elle, ao mesmo tempo,
toxico e remedio.
D'aqui o numero prodigioso das suas obras. N'estes ultimos tempos
teem-se aggravado os padecimentos habituaes de Camillo Castello-Branco.
Mas ainda assim que prodigiosa fecundidade a sua!
Ha um anno tem publicado quatro livros, e já estão traçados tres novos
romances que são _Celestina_, _Scenas da tragedia humana_ e _Infanta
capellista_.
É condão dos homens de letras o desentranharem-se em flôres do espirito
quando o corpo mais se nega por enfermiço. Assim foi tambem Garrett, que
já em 20 de setembro de 1838 escrevia para o Porto, a seu irmão:
«Ha muito que devo resposta á tua de 13 de agosto e terás attribuido a
demora talvez a outros motivos, sendo unicamente que não tenho saude
para nada, e que o escrever sobre tudo me mata. Não tanto em cousas de
meu gosto, e em correspondencias com os meus amigos,--mas tendo de
roubar aos padecimentos corporaes e amofinações d'espirito os proprios
momentos que a natureza exhausta pedia para socego,--fico incapaz até
para o que aliás me daria gosto e ainda allivio.»
Era-lhe rebelde a saude, fatigava-o o escrever, e aquelle grande
espirito estava sempre moço, sempre acordado, e publicava, depois da
data d'esta carta, o _Frei Luiz de Sousa_ em 1844; em 1845 as _Flores
sem fructo_ e o _Arco de Sant'Anna_; em 1846 a _Philippa de Vilhena_ e
as _Viagens na minha terra_; em 1848 a _Sobrinha do marquez_ e, para
dizer tudo, foi depois de 1838 que nos deu os mais delicados livros da
sua gentil bibliotheca.
Camillo Castello-Branco sente-se tambem doente, e ainda assim vou jurar
que renunciaria á vida se o privassem de escrever os seus romances
admiraveis de verdade, de analyse, de _côr local_, o que é, a meu vêr,
um dos quilates mais preciosos do seu talento.
Lê-o a gente, e acredita-o, e commove-se por mais que se lembre que está
lendo uma novella.
O segredo d'este prodigio ha-de morrer com Camillo Castello-Branco. Só
elle sabe temperar a verdade com a ficção de modo que não offenda, por
falta de naturalidade, os mais exquisitos paladares. É que a verdade,
como sabem, nem sempre é verosimil.
Ouçamol-o a este proposito:
«Um meu amigo, que tinha conhecido muitos amigos infelizes, e tinha lido
as minhas novellas, disse-me assim uma vez:
«--Tenho observado que vossê inculca verdadeiras todas as suas historias.
«--E vossê duvída?
«--Duvido porque as acho verosimeis de mais.
«--Isso é um absurdo, com o devido respeito. Pois, se as minhas
historias fossem impossiveis, seriam mais possiveis?
«--A pergunta formulada d'esse modo é irrespondivel; mas o que eu queria
dizer não é o que vossê entendeu.
«--Faça favor de se explicar.
«--Lá vou. A verdade é ás vezes mais inverosimil que a ficção. O engenho
do romancista concatena os successos com tanta logica e coherencia que o
espirito não póde negar-lhes a naturalidade. As occorrencias advem tão
harmoniosas, os successos filiam-se e reproduzem-se tão espontaneamente,
que o leitor póde, sem desaire da sua critica, pensar que o romancista é
muitissimo mais correcto que a natureza. Ora agora, o modo como as
cousas reaes se passam, os disparates que a gente observa, o desconcerto
em que anda a previdencia do homem com o resultado phenomenico e sempre
ordinario das realidades, isso, meu amigo, é o que os torna inverosimeis
e inacreditaveis, se vossê ou eu as contarmos com a simplicidade e nudez
de que ellas se vestiram aos nossos olhos. Sei eu acontecimentos que
relatados, como eu os presenciei, seriam incriveis, e compostos com a
mentira da arte seriam as delicias do leitor, que julga só verdadeiro o
que é possivel ter acontecido. D'onde eu concluo que a arte é muito mais
verosimil que a natureza, e que os seus romances são inacreditaveis por
isso que são verosimeis.»
É este inquestionavelmente o grande segredo dos romances de Camillo
Castello-Branco, o serem muitas vezes, para não dizer quasi sempre, mais
verosimeis que a verdade.
O que é certo é que não ha ahi author que seja mais lido, mais gostado,
mais popular até. A razão d'isto já fica acima apontada,--é que Camillo
Castello-Branco é, pelo seu temperamento, um romancista verdadeiramente
nacional.