cumprir, nunca vão a horas--o maior dos erros, exemplo aquelle
diplomata que chegou tarde á morte do seu principe e foi dar com a
rainha a fazer papelotes!--que se esquecem de tudo, ou antes não se
esquecendo--pensando n'outra coisa, diversa sempre da que estão fazendo,
da que estão dizendo. Gente que baralha tudo, troca, atropella, estraga;
trapalhões de officio e de geito. Um deita rapé no chá em vez de
assucar; outro cuida que está no botequim, e põe um tostão no pires
quando toma café na casa alheia; outro nas conferencias do Casino ia já
a estender o braço para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se o não
pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que têem, ficam
parados á porta do correio geral á espera de que passe alguem que lhes
diga como elles se chamam, e irem então reclamar a carta; a correr,
antes que lhes esqueça o nome outra vez!..: _Telha_, pois que?--_telha_,
e rija!...
Digamos o peior;--quasi todos nós temos um pouco d'isso. Ha
principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda
a gente anda com _telha_...
Quem ha,--dos que pensam, é claro, e dos que, por assim dizer, costumam
tomar o pulso ao espirito, que não se tenha sentido em certos dias como
que exilado n'este mundo e tentado juntar, unir, ligar no fundo d'alma
remeniscencias vagas de melhores tempos, enleiando-se n'uma especie de
saudades da patria que perdeu... A terra parece triste então,
embebe-se o animo na nostalgia do céu, quer a idéa voar para lá, e
consegue-o ás vezes... De noite, quando não se póde dormir, mas está
tudo socegado, some-se o mundo em que a gente anda, vêem-se brilhar as
flores colhidas que o tempo murchou, ouvem-se chorar-nos n'alma suspiros
e ais conhecidos, e passam na penumbra duvidosa em que se nos perde o
olhar certas creaturas que só nós sabemos bem quem sejam... O mundo
então chama a isso ás vezes ser poeta; e é ainda, talvez,--a _telha!_...
VI
Enguiços
Quente... quente...
Já estão a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram,
com quem viveram, parente, amigo, visinho...
O diccionario de Moraes explica-o assim:--«Enguiço é o mal que se causa
de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente.» Até
aqui, o mais notavel é elle chamar aos tortos «accidentes». Lá se
avenham.--«Consiste,--continua--em ficar acanhado.» Estão satisfeitos?
Eu, não. Procuremos mais, procuremos sempre;--no verbo enguiçar o mesmo
auctor exprime-se assim:--«Dizem que o torto olhando para alguem
enguiça-o. Passar a perna por cima da cabeça (d'outrem) enguiça; isto é,
faz que desmedre, que se faça pêcco e pobre.
D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e
incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da
creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e
cousa pouca, que moem e affligem os enguiçados,--gente nervosa,
delicada e phantastica.
Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A
influencia do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o
vento sul, torna-os tristes a chuva. Ficam, ás vezes, horas sem fallar e
sem vêr. Parecem acordar na primavera pelo canto dos passaros e pela
doçura do ar; e ouvem tudo então, as vozes que passam no murmurio das
ondas, na rama das arvores, ouvem o que se diz ao longe, ouvem o que não
se chegou a dizer,--ouvem-se a si, unicamente a si; a voz do enguiço,
que falla dentro d'elles, e compõe, e ordena, e retem, e impelle...
Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia
preso ao chão, e não póde dar um passo emquanto o creado não vem dar-lhe
um alentado empurrão que lhe quebre o enguiço. Volta-se então para o servo:
--Ó José?
--Senhor.
--Tu deste-me a corda inteira?
--Dei, sim senhor.
--Toda, toda?
--Dei-lhe a corda toda, sim senhor.
--Está bom!
Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para
as vinte e quatro horas, como um relogio de algibeira. Se o empurrão foi
brando, a machina pára a qualquer hora do dia e precisa nova corda.
Um irmão d'este (os enguiços são familiares e hereditarios, o que é
ainda mais pasmoso!) não póde comer a sobremesa sem dar tres voltas em
redondo ao prato.
Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na repartição onde é
empregado de barretinho de seda preta e mangas de algodão, faz todos os
dias antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor
a porta, que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros:
«Um.
«Dois.
«Tres.»
Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra.
Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a
quem por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café
ao mesmo botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que não
envenenava os freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje
Aurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades
sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete
annos o botequim fechou, elle acabou de jantar, foi muito lepido
pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,--encontrou as portas
fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se
d'elle; os jornaes contaram o caso.
Alguns são beatos. Têem uma religião lá d'elles;--a religião do enguiço.
Não querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em traje
de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora
decotadas; mas em S. Carlos impõem-se crueldades gothicas, e quando
apparecem as bailarinas, tão frescas e tão pouco vestidas que até o
beato Antonio haveria arriscado um olho, como o meu amigo leitor ou
eu, fecham elles ambos.--Conheci um que, quando lia n'um jornal a
palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao ar.--Ha
outro que não póde passar diante de um nicho de santo sem que
immediatamente leve as mãos ao rosto e o esfregue, como para se lavar
das impurezas que o santo não deve presencear. Como fosse em certo dia
guiando um carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio,
largou immediatamente as redeas e pôz-se a lavar o rosto em sêcco. O
cavallo, sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por
felicidade não deu cabo do enguiçado e do amigo que elle levava em
sua companhia.
Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude
em que estão quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes
ser mais forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no
ar, só com as mãos ambas encostadas á bordinha do colxão, como se faz ao
saltar para a cama; não o conseguiu, como podem crêr, e deu muitos
trambulhões.
Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguiço de
pintar pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo não
consentia por ter dó de obrigar os moleques a estarem para ali
espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao quadro. Punha um
creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a cara de preto.
Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;--faz casas
para não morrer. Lá diz o proverbio campesino--«ninho feito, pêga
morta.» Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer
predios. Suppõe que em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando
sempre a casa; compra terrenos, faz crescer a cosinha, estende a
capella, alarga as cocheiras. Aguenta-se na vida com muleta de pedra e
cal!
Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a
parecer criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os
raios com o fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das
apprehensões. Tem sete filhas; quatro estão casadas; duas principiaram a
namorar os que hoje são seus maridos no circo Price; as outras duas no
Gymnasio. Estão ricas e felizes as duas primeiras; as duas ultimas,
pobres e desgraçadas; elle tem a scisma de que ás tres que estão
solteiras não convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr aberto o circo
Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, resmungando á
entrada uma prece, não sei que lérias piedosas que só elle entende...
Que dança! que dança!
Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem pôr primeiro o pé
direito.--Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas,
contando que hão de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto
em vez de dádiva.--Os d'acolá pedem a benção á mãe, e emquanto ella não
estender a mão seis vezes não lh'a beijam.--Uns têem terror ás aranhas;
outros assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes não passam em
certas ruas senão do mesmo lado sempre.--Alguns, brutos com toda a
gente, são timidos com as creanças. As creanças têem o que quer que
seja de maravilhoso. Já o Fernão Lopes, na _Chronica de D. João I_, cita
uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, rei de
Portugal. Os enguiçados que leram esta chronica ficaram tendo pelas
creanças uma veneração profunda; os que não a leram--tambem. Batia na
mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna--para
onde ia tão depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada,
conformára-se com a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se
costumar com aquella renda. N'isto foi mãe. Apesar de todos os sabbados
estar bebado como d'antes, o marido parecia esquecer-se da tósa
semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez:
--Porque é que tu já me não bates?
E o saloio, enguiçado, desejando romper e quebrar por uma vez com a
prisão imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se,
escrupuleando, respondeu de mansinho, apontando para o berço:
--Tenho medo de acordar o pequeno!...
De tudo, entretanto, o mais trivial é não se poder vêr um corcunda sem
ficar enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os
corcundas sabem isto; sabem-o á legua; não sabem outra cousa; estão
fartos de o saber; e por isso são tão joviaes. Andam sempre a
rir-se do mundo e a enguiçal-o o mais que podem! O melhor do caso,
porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a rasão porque nunca
desde o principio do mundo nenhum philosopho fez a observação de haver
encontrado dois corcundas de braço dado. São inimigos capitaes. Um
d'estes dias foi encontrado um sujeito--se eu lhes dissesse o nome
riam-se!--encerrado n'um portal á espera que passasse um corcunda para o
desenguiçar de outro que havia visto.
Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma
moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda.
Mas--para obter o remedio--quantas difficuldades! quantas astucias!
quantas subtilezas! O corcunda está sempre prevenido e não se deixa
tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais de uma vez tem
posto a policia em bolandas--sómente para garantir a giba do contacto
impudico da moeda preservativa.
Ha quem affirme que os vesgos são ainda peiores que os corcundas, e que
a sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette
acabar com elles,--e não haverá mais enguiçados por este accidente!...
Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguiço,--sujeitos de
pouca fortuna, sedentarios que fazem gallos na nuca a dar com a cabeça
nas costas da cadeira; peões para quem estão de reserva as topadas nas
pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes das pequenas miserias,
que farejam na malicia da sorte inquietações para todas as horas do dia;
consolem-se uns com os outros, porque ha muitos.
São sujeitos a enguiços os homens pequenos e os grandes homens; homens
grandes no corpo e na força;--homens grandes no espirito; phantasistas,
poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os
ignorantes; têem enguiços os pastores; e os reis--ha uns
tempos--andam muito enguiçados!...
Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular
harmonia! Toda a cautella é pouca em não se indispôr a gente com elles,
nem com o acaso;--os enguiços são como as paredes, têem ouvidos; e lá se
entendem, lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma
pessoa se comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi
está que n'este instante a penna não quer tomar tinta e está a
espirrar-me entre os dedos como se lhe repugnasse escrever.--Vou
mergulhal-a no tinteiro... Peior! Deitou-me um borrão no
papel...--Basta! Talvez que este borrão resuma, melhor do que eu
podesse fazel-o, o systema dos enguiços. Não escrevo mais.
VII
Agouros
Agouro e enguiço não são a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente
o sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significação
diversa. Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo
canto, gesto, e pasto das aves (_ex avium cantu, gestu, vel pastu
futura divino_) e por extensão conjecturar de qualquer modo.
N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes
insignificantes--a que chamamos agouros--queremos predizer o futuro.
O terror--de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras
vezes--torna videntes certas creaturas. Mudam de côr, á mesa, se
espalham sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede
levantarem com o pé os limos, que cobrem as borboletas do mar;
atormentam-se quando ao atravessar charnecas se lhe prende o lenço nas
urzes; vêem imagens, conhecidas nos montões de nuvens negras que um
relampago allumia. Tudo lhes falla; para elles até a materia muda
tem lingua. Ouvem presagios no grão de areia que o vento leva, no tremer
das folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que
reflecte as figuras, na herva que balança ao peso de uma formiga...
Ouvem chorar vozes no orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no
canto do gallo fóra de horas, no mocho, nos morcegos, no uivar do cão...
Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e
á esquerda; golpes mortiferos; desgraças precipitadas;--a fatalidade
delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico.
Vivem de cabeça baixa e braços encruzados, agitando n'alma questões
insoluveis, corre-lhes nas veias com preguiça um sangue fraco que
arranja o que se chama agora anemia; doença em que ninguem fallava, e
que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa e triste a
quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear
commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do
norte, e para quem a vida é um supplicio atroz,--condemnados de manhã ao
Chiado, abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas
ventanias.
Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vão
seguindo na vida como a Electra dos gregos, devota e severa,
confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem murmurio ás leis da
fatalidade. Parecem-lhes legitimos os sacrificios;--dir-se-hia que, como
outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; offereceriam o pescoço ao cutello
resignadamente, como holocausto inevitavel, se o agoiro os avisasse...
Os artistas principalmente,--os que são dignos d'este nome, os notaveis,
os verdadeiros artistas--têem superstições indestructiveis e muitas
vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes rasão. Ha
exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhãs de março, humida e
ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio de Janeiro, e a
quem de Genova haviam mandado um vapor conduzindo a companhia, que não
era aquelle que se lhe havia promettido e que elle esperava do
contracto, dizia-me em frente do Tejo:
--Adeus. Sinto que não vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio
funesto.
As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,--um pouco mais
singular ainda do que o agouro!
Da maior parte das vezes, as superstições dirigem-se unicamente a evitar
o mal e aplanar o caminho; mas, o peior é, que, a poder de se darem a
perros para assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em
miseria ou em asneira.
Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, lá
arranjou ser deputado--mas o que não arranjou é fallar, porque os
agouros o impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador é
saber ouvir e callar; que, por pouco que se falle, lá succede um dia
dizer-se o contrario do que se havia dito tempo antes; que os
adversarios abusam d'isso e ficam causticando o sujeito; que a força das
maiorias consiste em votar sem abrir o bico; que assim como o nauta
dextro caça a véla, e muda o rumo ao leme conforme sopra o vento de um
lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convém variar a
proposito conforme as circumstancias,--com socego, e sem bulha. E
tudo isto lh'o diz o azeite quando se entorna, e o espelho quando se
quebra, e uma aranha no tecto, e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe
avisos:--«Calla-te, calla-te. As fallas são de prata, e o silencio é de
ouro. Calla essa boca!...»
Outro não se move, não vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame
prévio de tudo que o cérca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a
agouros; não sabe mais nada, é certo, não sabe das suas cousas nem trata
d'ellas--mas sabe d'aquillo. Não permitte que lhe cosam a fazenda em
cima do corpo, que é signal de desmedrar, emmagrecer, definhar, dar
á casca;--não corta o cabello em quarto minguante com receio de que lhe
não torne a crescer; evita quando está na cama cortar as unhas e olhar
para um espelho ao mesmo tempo, indicio de estar jogado aos dados;--não
permitte que em sua casa deitem lixo fóra de noite,--pobreza
imminente;--não póde vêr sem sobresalto duas facas em cruz, desordem
fatal;--e por cousa alguma morará em «casa de esquina,--morte ou ruina!»
Este, se vê um «ladrão» na véla--sabe que vae ter carta.--Aquelle, em
caindo uma thesoura e espetando os bicos no chão, espera uma má visita.
Muitos não se desfazem de pombos. Ou não os ter nunca, ou tel-os sempre;
o mais a que chegam é dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da
Ascenção do Senhor.
Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu casamento,--porque,
se os ouvem, ou não casam ou morrem. Diz-se que quem cáe de cama ao
domingo, nunca mais se levanta.--No campo, em os martyrios de um jardim
dando muita flôr, julga-se breve a morte do dono da casa.
Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios.
A vida de Isidoro--o nosso popular actor Isidoro, do theatro da
Trindade--é um pinhal de agouros. Vamos vêl-os com cautella; se
têem medo, tragam luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado
n'uma _sexta feira_, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender
o officio de tecelão na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero
_treze_; trabalhou dois annos no tear numero _treze_; depois de official
foi obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que
commetteu na _sexta feira_ de Passos de 1845, e ficou tendo o numero
vinte e seis, que é duas vezes _treze_. Assentou praça no 2.º batalhão
movel em 1846, e durante oito annos foi numero _treze_. Representou pela
primeira vez em theatro particular a _treze_ de junho de 1846; em
theatro publico n'uma _sexta feira_, 30 de novembro de 1849. Foi
escripturado para o Porto e embarcou para lá no dia _treze_ de maio de
1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma _sexta feira_, 11 de março
de 1853. E--para corôar este catalogo de _memoranda_--casou em dia de S.
Bartholomeu!... Por entre este capharnaum de vaticinios tem lidado,
triumphado, mais invulneravel do que o capitão de Homero--que o não foi
no calcanhar.
Não só é dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o é a terça. O
actor Santos,--depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve
entre elle e Francisco Palha--não quiz apparecer pela primeira vez
no tablado da Trindade n'uma terça feira que se destinára para primeira
recita de _Frou-frou_. Mas já estavam afixados os cartazes, alugados os
camarotes: que remedio havia de dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera,
segunda feira, ao palco; representava-se a _Flor de Chá_; no ultimo acto
vestiu-se de china; na ultima scena, perdido entre os comparsas, dançou
com elles o _can-can_ com que terminava a peça. Na noite immediata
representou _Frou-frou_; era a segunda vez que apparecia ao publico da
Trindade; não o sabia ninguem, mas sabia-o elle! Os agouros contentam-se
assim.
O quarto treze nas hospedarias está de voluto quasi sempre. Agora já
principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze não se
alugar unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze
repetido, e já não se vê por cima da porta senão 12--12.
Treze pessoas á mesa, prophetisa que isso custará a vida brevemente a
algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um
amigo meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e
lhe explicaram ser indispensavel a sua presença á mesa para se
principiar a jantar. O rapaz allegava que não tinha vontade de comer,
que acabára de jantar com os paes n'aquelle instante. Debalde! Não
o largaram senão ao café.
Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que
vem das tradições e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para
ser apenas o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e
mais nobres. Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do
valle os hebreus revoltosos, já com saudades da escravidão e das
cebolas: e desanimou e julgou estar doido, e o certo é que avistou a
terra da promissão, mas não conseguiu pôr lá o pé--e morreu á beira da
realisação da sua idéa...
A illustração dos officiaes de marinha de hoje já quasi não admitte os
agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando não é
capellão do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.--Mulato a
bordo, é salceirada frequente, e por vezes--na linguagem maritima--vento
de _gaveas nos terceiros_ e de _traquete na passadeira_.--Cadaver ao
mar, predispõe para _tareia_ e tem de se aguardar vigilante o salto do
vento para evitar o empandeiramento do velame.
Ás vezes veem como que disfarçadas, as predicções, nos brinquedos das
creanças. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles
armando barretinas, arranjando bandeirolas, e travando combates, é
signal de reboliço, signal de guerra. De outras vezes, se fingem
conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... É certo?
Não é? Como quizerem. Os agouros, para mim, são _o tinha de ser_:
consolação--de quem não tem outra!...
VIII
Feitiços