A proposito d'este soneto, ajuntaremos aqui outros de assumpto analogo,
que todos têm sido em diversos tempos attribuidos a Bocage, mas que de
certeza sabemos lhe não pertencem. O primeiro é de Fr. José Botelho
Torrezão, frade paulista, fallecido em 1806; — o segundo de José
Caetano de Figueiredo, official maior que foi da Junta do Commercio; —
o terceiro de Francisco Manuel do Nascimento. Dos outros não podemos
assignar ao certo os nomes de seus auctores.
Do throno excelso nos degraus sagrados
D'Assiz o patriarcha ajoelhára;
E consta que d'esta arte se queixára
Ao Deus, que rege o céu, e move os fados:
«Grande Deus, com que pejo relaxados
«Vejo os filhos, que outr'hora abençoára!
«Já entre elles o vicio se descara,
«Já de Christo não são, da fé soldados!
«Eu te rogo, senhor, que aos loucos brades,
«E lhe avives a fé no paraiso!…»
Riu-se Deus, e lhe disse: — Não te enfades:
— Frades não fiz, de frades não preciso;
Quando o mundo souber o que são frades,
Ha de extinguil-os, se tiver juizo.
* * * * *
Encontrei certo Leigo franciscano,
Com os olhos no chão, pedindo esmola;
Dos hombros lhe pendia alva sacola,
Celeiro, que dá pão p'ra todo o anno:
Queria o leigo armar-me um bello engano,
E fazer-me cahir na corriola;
Mas eu, que sigo esta moderna eschola,
Só chicote darîa ao tal magano:
Como é possivel que a nação contente
Mantenha ufana, e liberal soccorra
A tão inutil, e ociosa gente?
Elles têm que comer á tripa-forra;
Eu, por mais que trabalhe, ando indigente:
Se o torno a encontrar, dou-lhe co'a porra!
* * * * *
Christo morreu ha mil e tantos annos;
Foi descido da cruz, logo enterrado;
E inda assim de pedir não têm cessado
Para o sepulchro d'elle os franciscanos!
Tornou a resurgir d'entre os humanos;
Subiu da terra ao céu, lá está sentado;
E á saude d'elle sepultado
Comem á nossa custa estes maganos:
Cuidam os que lhes dão a sua esmola
Que ella se gasta na funcção mais pia.....
Quanto vos enganais, oh gente tola!
O altar-mór com dous cotos se allumia;
E o fradinho co'a puta, que o consola,
Gasta de noute o que lhe dais de dia.
* * * * *
Padre Frei Cosme, vossa reverencia
Se engana, ou enganar-nos talvez tenta:
Quem as riquezas dá, quem nos sustenta,
Não é de Deus a summa providencia?
Pois logo com que cara ou consciencia
Esmola pede, e arrepanhar intenta
Para o Senhor da Paz, ou da Tormenta?
Tem Deus do home' acaso dependencia?
Tire a mascara pois, largue a sacola,
E deixe o povo, a quem impunemente
Em nome do Senhor escorcha, e esfola:
Á viuva deixe a esmola, e ao indigente;
E não queira; hypocrita farçola,
Foder á custa da devota gente.
* * * * *
Lingua mordaz, infame, e maldizente,
Não ouses murmurar do bom prelado:
Inda que o vejas com Alcippe ao lado,
Amiga não será, será parente:
Geral da Ordem, prégador potente,
No jogo padre-mestre jubilado,
E tambem caloteiro descarado
Pode ser que o repute alguma gente:
E que te importa que fornique a moça?
Que pregue o evangelho por dinheiro?
Que em vez de andar a pé ande em carroça?
Talvez que n'isso seja um verdadeiro
Dos monges exemplar, da Serra d'Ossa,
Pois que dos monges é hoje o primeiro.