Como a historia da composição d'estes sonetos se encontre amplamente
descripta na «Livraria Classica» (tomo XXIII), para aqui a
transcreveremos, em obsequio aos leitores, que não tiverem á mão
aquelles folhetos.
«Era Santarem a mais chara residencia de Bocage. Tractado como irmão
em casa do senhor Salinas de Benevides, ali se esquecia durante mezes.
Era chegado o tempo da feira, em que, segundo o uso, grande multidão
concorria áquella terra.
«Á hospitaleira porta de Salinas vão, sabedores do benevolo agasalho,
batendo amigos e extranhos: são onze horas da manhan, quando pela
centessima vez se toca a campainha! Dous varatojanos moîdos, e suados,
mas o padre mestre herculeo e nedio, e o leigo moço e mirrado, entram
para a sala commum. Trazendo-se-lhe dous copos, um de vinho, outro
de agua, o mais velho, sem dar satisfações, precipitou-se sobre o
do vinho, que o leigo viu com olhos de inveja emborcar até meio,
resolvendo-se então humildemente a pegar no copo d'agua. Mal não era
feito o movimento, quando irado o padre mestre por ver a audacia com
que o seu subalterno, faltando ás regras da sancta obediencia, bebia a
agua de motu proprio, volta-se, ainda em cima, para o estafado moço,
berrando-lhe: O irmão já me pediu licença para beber isso?
«Bocage, que de toda a scena nem um meneio perdera, ergue-se furibundo,
vai dentro, e apodera-se de um cajado, com que sái para a rua a
_desancar frades_. Esteve divino: vociferações, epigrammas contra
frades borbotavam em cachão.
«Quiz a fortuna que a um canto da feira lobrigasse um cardume de gente,
ralhando, ameaçando, rindo, e gritando. Encaminhou-se para a multidão,
que rodeava uma loja ambulante de bonecos de barro. E ahi lhe contaram
como a mais rica peça da loja, era um _frade de louça_ d'Extremoz,
atacando uma _freira_; que passára aquelle frade de carne, que ainda
lá ía ao longe, o qual encholerisado arrebatara o escandaloso grupo, o
esmigalhara, e conculcara aos pés, impavido continuando em seu caminho.
«Imagina-se como Bocage ficaria! Entra a correr, clamando como
possesso: — «Cerquem-me o frade!… agarrem-me o frade, que ahi vai uma
saraivada de sonetos!…»
E com effeito, á queima roupa lhe desfechou uma duzia de sonetos (de
que apenas se conservam como amostra os dous que dâmos no texto)....
Continuou ainda a disparar epigrammas a frades, taes como os seguintes,
que nunca foram impressos:
Entre um frade, e entre um burro
Ha tanta conformidade,
Que ou o frade é pae do burro,
Ou o burro é pae do frade!
* * * * *
Casou um bonzo da China
Co'uma mulher feiticeira;
Nasceram tres filhos gemeos,
Um burro, um frade, e uma freira.
etc. etc.