PAG. 120 E 121 — SONETOS X E XI.

Como a historia da composição d'estes sonetos se encontre amplamente

descripta na «Livraria Classica» (tomo XXIII), para aqui a

transcreveremos, em obsequio aos leitores, que não tiverem á mão

aquelles folhetos.

«Era Santarem a mais chara residencia de Bocage. Tractado como irmão

em casa do senhor Salinas de Benevides, ali se esquecia durante mezes.

Era chegado o tempo da feira, em que, segundo o uso, grande multidão

concorria áquella terra.

«Á hospitaleira porta de Salinas vão, sabedores do benevolo agasalho,

batendo amigos e extranhos: são onze horas da manhan, quando pela

centessima vez se toca a campainha! Dous varatojanos moîdos, e suados,

mas o padre mestre herculeo e nedio, e o leigo moço e mirrado, entram

para a sala commum. Trazendo-se-lhe dous copos, um de vinho, outro

de agua, o mais velho, sem dar satisfações, precipitou-se sobre o

do vinho, que o leigo viu com olhos de inveja emborcar até meio,

resolvendo-se então humildemente a pegar no copo d'agua. Mal não era

feito o movimento, quando irado o padre mestre por ver a audacia com

que o seu subalterno, faltando ás regras da sancta obediencia, bebia a

agua de motu proprio, volta-se, ainda em cima, para o estafado moço,

berrando-lhe: O irmão já me pediu licença para beber isso?

«Bocage, que de toda a scena nem um meneio perdera, ergue-se furibundo,

vai dentro, e apodera-se de um cajado, com que sái para a rua a

_desancar frades_. Esteve divino: vociferações, epigrammas contra

frades borbotavam em cachão.

«Quiz a fortuna que a um canto da feira lobrigasse um cardume de gente,

ralhando, ameaçando, rindo, e gritando. Encaminhou-se para a multidão,

que rodeava uma loja ambulante de bonecos de barro. E ahi lhe contaram

como a mais rica peça da loja, era um _frade de louça_ d'Extremoz,

atacando uma _freira_; que passára aquelle frade de carne, que ainda

lá ía ao longe, o qual encholerisado arrebatara o escandaloso grupo, o

esmigalhara, e conculcara aos pés, impavido continuando em seu caminho.

«Imagina-se como Bocage ficaria! Entra a correr, clamando como

possesso: — «Cerquem-me o frade!… agarrem-me o frade, que ahi vai uma

saraivada de sonetos!…»

E com effeito, á queima roupa lhe desfechou uma duzia de sonetos (de

que apenas se conservam como amostra os dous que dâmos no texto)....

Continuou ainda a disparar epigrammas a frades, taes como os seguintes,

que nunca foram impressos:

Entre um frade, e entre um burro

Ha tanta conformidade,

Que ou o frade é pae do burro,

Ou o burro é pae do frade!

* * * * *

Casou um bonzo da China

Co'uma mulher feiticeira;

Nasceram tres filhos gemeos,

Um burro, um frade, e uma freira.

etc. etc.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 181 / 208 题