IV

Supplemento d'acção faz doce encanto

O que antes era objecto de terrores,

E convertido n'um final interesse

Emprega a bem dos crentes a astucia:

Oxalá, doce amada, que no inferno

Não padecesse o pensamento angustias

Do crime o galardão, merecido premio!

Que eu de amor aos fatidicos embustes

Me entregára por ti, se o não houvera!

Além de contemplar-te deusa bella,

Novo altar te formára em minha mente.

Mas ah! que a minha lei, se rigorosa

Mostra um semblante no ext'rior severo.

Seus nobres fins a tornam jugo amante.

Concedendo-me em doce ajuste sacro

A posse eterna do que pinta a idéa!

Em teus dotes mais ricos do que o mundo

Tu bem podes gravar pacto solemne,

Que é desejado mais quando te esquivas;

Porque o pejo innocente foge ao laço

Que inculcando te estou, te estou pedindo.

Sacra alliança pedem teus direitos

Por belleza e traição só extorquidos.

Approva ternamente o jus paterno

A chamma, quando pura se affoguêa.

Então desfructarás da liberdade,

Quando maior sentires este jugo[1]

* * * * *

Quando quer sustentar que amor com guardas

Influencias não pode ter propicias,

Emmudeça tambem o louco Elmano,

Que ignora do seu Deus os sanctos lares,

E quer solemnisar a união de almas

Dando por testemunhas venerandas

As trevas, apezar que nada sejam:

Deixado o sacerdote, ampliado o templo,

Celebra o matrimonio em toda a terra:

Quem faz caso porém de seus transportes?

Seu coração ao menos desafogue

Em proclamar, mas por que não incita

O vedado prazer de horrivel nome.

E querendo render nossas vontades

Co'as falsas persuasões, que mal recebem,

Na religião pretende amortecer-te,

Porque possa appetite aviventar-te.

Ah! que não se propõe ser teu amante

Quem quer na confusão de mil suspiros

Tão infeliz fazer-te quanto é elle!

Entretanto, Marilia, não te prives

D'outras estimações de quem te adora;

Na minha lei tu podes ser amada,

E amares, se á razão não fores surda.

Meu coração de ver-te enfeitiçado

Emprega provas mil suas, e minhas,

Porque ames, sem deixar de ser ditosa.

Deve a religião guiar teu gosto,

A lembrança final desterre o crime:

Que apezar do vicioso, que pregôa,

Existem céos, existe o negro inferno;

Laurea-se n'aquelles a virtude,

Arderá n'este para sempre o vicio.

Até aqui M.P. Thomaz Pinheiro d'Aragão. Veja-se agora a Refutação

anonyma.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 168 / 208 题