Supplemento d'acção faz doce encanto
O que antes era objecto de terrores,
E convertido n'um final interesse
Emprega a bem dos crentes a astucia:
Oxalá, doce amada, que no inferno
Não padecesse o pensamento angustias
Do crime o galardão, merecido premio!
Que eu de amor aos fatidicos embustes
Me entregára por ti, se o não houvera!
Além de contemplar-te deusa bella,
Novo altar te formára em minha mente.
Mas ah! que a minha lei, se rigorosa
Mostra um semblante no ext'rior severo.
Seus nobres fins a tornam jugo amante.
Concedendo-me em doce ajuste sacro
A posse eterna do que pinta a idéa!
Em teus dotes mais ricos do que o mundo
Tu bem podes gravar pacto solemne,
Que é desejado mais quando te esquivas;
Porque o pejo innocente foge ao laço
Que inculcando te estou, te estou pedindo.
Sacra alliança pedem teus direitos
Por belleza e traição só extorquidos.
Approva ternamente o jus paterno
A chamma, quando pura se affoguêa.
Então desfructarás da liberdade,
Quando maior sentires este jugo[1]
* * * * *
Quando quer sustentar que amor com guardas
Influencias não pode ter propicias,
Emmudeça tambem o louco Elmano,
Que ignora do seu Deus os sanctos lares,
E quer solemnisar a união de almas
Dando por testemunhas venerandas
As trevas, apezar que nada sejam:
Deixado o sacerdote, ampliado o templo,
Celebra o matrimonio em toda a terra:
Quem faz caso porém de seus transportes?
Seu coração ao menos desafogue
Em proclamar, mas por que não incita
O vedado prazer de horrivel nome.
E querendo render nossas vontades
Co'as falsas persuasões, que mal recebem,
Na religião pretende amortecer-te,
Porque possa appetite aviventar-te.
Ah! que não se propõe ser teu amante
Quem quer na confusão de mil suspiros
Tão infeliz fazer-te quanto é elle!
Entretanto, Marilia, não te prives
D'outras estimações de quem te adora;
Na minha lei tu podes ser amada,
E amares, se á razão não fores surda.
Meu coração de ver-te enfeitiçado
Emprega provas mil suas, e minhas,
Porque ames, sem deixar de ser ditosa.
Deve a religião guiar teu gosto,
A lembrança final desterre o crime:
Que apezar do vicioso, que pregôa,
Existem céos, existe o negro inferno;
Laurea-se n'aquelles a virtude,
Arderá n'este para sempre o vicio.
Até aqui M.P. Thomaz Pinheiro d'Aragão. Veja-se agora a Refutação
anonyma.