Resumindo aqui as indicações constantes de uma nota, que encontrámos
appensa a um antigo manuscripto d'este poema, sem todavia nos
responsabilisarmos por sua veracidade, diremos que a protagonista
D. nna Jacques Manteigui, natural de Damão, vivia na cidade de Gôa em
companhia de um marido de boa feição (cujo nome e circumstancias não
vieram ao nosso conhecimento). Esta dama tornava-se notavel não menos
pela sua belleza que por sua desenvoltura e ambição; e sabia fazer dos
seus encantos um trafico por extremo lucrativo. D. Frederico Guilherme
de Sousa, então Governador geral da India, apaixonando-se por ella,
a tomara por sua amiga; porém isso não obstava a que ella não lhe
fizesse repetidas infidelidades. Entre outras era accusada pela voz
publica de entreter luxurioso commercio com um negro, seu escravo, moço
bem fornido, ao qual dava de graça o mesmo que o Governador só podia
comprar por alto preço! — Disse-se que na presente composição entrara
por muito a vingança pessoal de Bocage, despeitado porque a dama se
recusara abertamente a corresponder-lhe, pleiteando elle com ancia os
seus favores. O que parece fóra de duvida é que d'aqui lhe proveiu
em parte a sua desgraça; pois que chegando esta satyra ás mãos de D.
Frederico, este se julgou altamente offendido na pessoa da sua bella,
e irritado contra o poeta o mandou incontinente deportado para Macau,
d'onde a muito custo pôde obter licença e meios de transportar-se a
Lisboa.
De poema «Manteigui» temos visto tres ou quatro edições diversas;
todas feitas, ao que parece, em Lisboa. Não nos ligámos a alguma em
particular, mas aproveitámos de todas as variantes que offereciam visos
de mais correctas, confrontando-as sempre com os manuscriptos que
possuiamos, e preferindo em todos os casos o que se nos afigurava por
mais exacto, e conforme ao texto original.