Em vão prégador rançoso
Lá do pulpito vozêa,
Quando a triste imagem fêa
Traça do inferno horroroso:
É systema fabuloso,
Que á razão embota o gume;
Não, não ha Tartareo lume,
Que devore a humanidade:
Sabeis vós o que é verdade?
O inferno do Ciume.
* * * * *
Venha cá, sô Boticario,
Vossê sabe em que se mette,
De tão rafado cadete
Sendo terceiro, está vario?
Advirta que é necessario
Reportar acções insanas;
Estude em fazer tisanas,
Algum purgante ligeiro,
Mas não seja alcoviteiro
Muito menos de sacanas.
* * * * *
P'ra que viva a cosinheira,
Que tão boas _papas_ fez!
Confesso por esta vez
Que bem me sabe, e me cheira:
O Papa em sua cadeira
Vestido de estola e capa,
Não faz cousa tão guapa:
A cosinheira faz mais;
O Papa faz Cardeaes,
A cosinheira faz _papas_.
_Dialogo entre o Poeta, e o Tejo._
Poeta.
Tejo, que tens, estás quedo?
Não banhas hoje esta praia?
De que o teu valor desmaia?
Tejo.
Eu t'o digo, mas segredo:
Confesso que tenho medo
Do teu ranchinho infernal.
Poeta.
O teu susto é natural,
Parecem tres furiasinhas;
Mas comtudo são mansinhas,
Não mordem, nem fazem mal.
* * * * *
São uns cornos mui bem feitos,
Uns cornos mui delicados,
São cornos, que torneados
Se podem trazer aos peitos:
Cornos que sobem direitos,
Pela sua varonia,
E sem mais chronologia
Tem gravados na armadura
Os timbres da fidalguia.