II

Em vão prégador rançoso

Lá do pulpito vozêa,

Quando a triste imagem fêa

Traça do inferno horroroso:

É systema fabuloso,

Que á razão embota o gume;

Não, não ha Tartareo lume,

Que devore a humanidade:

Sabeis vós o que é verdade?

O inferno do Ciume.

* * * * *

Venha cá, sô Boticario,

Vossê sabe em que se mette,

De tão rafado cadete

Sendo terceiro, está vario?

Advirta que é necessario

Reportar acções insanas;

Estude em fazer tisanas,

Algum purgante ligeiro,

Mas não seja alcoviteiro

Muito menos de sacanas.

* * * * *

P'ra que viva a cosinheira,

Que tão boas _papas_ fez!

Confesso por esta vez

Que bem me sabe, e me cheira:

O Papa em sua cadeira

Vestido de estola e capa,

Não faz cousa tão guapa:

A cosinheira faz mais;

O Papa faz Cardeaes,

A cosinheira faz _papas_.

_Dialogo entre o Poeta, e o Tejo._

Poeta.

Tejo, que tens, estás quedo?

Não banhas hoje esta praia?

De que o teu valor desmaia?

Tejo.

Eu t'o digo, mas segredo:

Confesso que tenho medo

Do teu ranchinho infernal.

Poeta.

O teu susto é natural,

Parecem tres furiasinhas;

Mas comtudo são mansinhas,

Não mordem, nem fazem mal.

* * * * *

São uns cornos mui bem feitos,

Uns cornos mui delicados,

São cornos, que torneados

Se podem trazer aos peitos:

Cornos que sobem direitos,

Pela sua varonia,

E sem mais chronologia

Tem gravados na armadura

Os timbres da fidalguia.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 156 / 208 题