OLINDA A ALZIRA.

Tu não podes saber, querida Alzira,

Com que alegria as cubiçadas lettras

Da tua Olinda foram recebidas!

Não o podes saber, nem eu dizer-to.

Que pura locução, que Amor ensina!

Quam diff'rente linguagem da que falam

Os livros, que me dá o meu Bellino!

N'elles descubro o sensual estylo

Que a modestia revolta, e que não quadra

Ás puras sensações, que Amor excita.

Phrase brutal, sem arte, e sem melindre,

Qual despejada plebe usar costuma;

N'elles de Amor os gostos enxovalha

Mysterioso véo, que arrancar ousam

Com mão profana d'ante o sanctuario

Que Amor encerra, e d'onde o deus occulto

Manda aos mortaes um cento de venturas.

D'elles o numen foge, e por castigo

Leva apoz si deleites, que não provam:

Em vez de graças mil, de mil prazeres

Priapeo tropel impios incensam.

Dá-me tedio a lição de escriptos torpes,

Onde o prazer fugaz, lassos os membros,

Sob mil fórmas em vão se perpetua.

Lassos os membros, lassos os sentidos,

Debalde esgotam, soffregos de gostos,

De impudicicia innumeraveis gestos.

Morre a chamma, que amor mutuo não sopra;

Como é vil a expressão, e é vil o goso

Que uma _Thereza_, que outras taes francezas

Em impuros bordeis gabar se uffanam!

Foi-me preciso, Alzira, usar do imperio

Que a um fraco sexo deleitosos modos

Fagueiros, ternos emprestar costumam,

Para do amante meu obter a custo

De obscenas producções o sacrificio,

Que o coração corrompem, e devassam

Puros desejos, sentimentos doces.

Mostrei-lhe que o prazer esmorecia

De amavel illusão sem os preludios;

E que, apezar dos seus vivos protestos,

Se os sentidos assás lisonjeava,

Mil emoções gostosas embotando,

Impellido a gosar continuamente,

Escravo do prazer na sua amante

Não fartaria hydropicos desejos:

Ardentes Messallinas buscaria,

Entre os braços das quaes mais facil era

Á vida termo pôr, que saciar-se.

Cedeu às minhas supplicas, e agora

Grato me diz — que se elle da ventura

O caminho me abriu, eu n'elle o guio:

Assim, quando os sentidos fatigados

De amor se negam a esgotar delicias,

Mana do coração inexhaurivel

Prolifica virtude, que os alenta.

Assim de gostos perennaes correntes

Franquêa Amor, a quem o não profana:

De Amor os gosos são como o diamante,

Que, sem o engaste que tocar-lhe véda,

Perdera a polidez, perdera o brilho.

Ame o lascivo o mau, o torpe o obsceno:

Eu em tuas expressões aprendo, Alzira,

Como a ternura impera nos sentidos:

E d'um, e d'outro regulando as forças,

De amorosos tropheos requinta a gloria.

O sensual atolla-se nos vicios,

Cujo infesto vapor todo o corria

De lançar-lhe no tumulo o esqueleto;

D'outra arte aquelle, que libar suavisa

Nectar, que Amor esparge aos seus validos,

Das rugas, e das cans não teme o estrago;

Que nos ultimos annos pode ainda

Em seu transporte Amor beijar na face.

Mas que exiges de mim? Pensas, Alzira,

Que a rude Olinda como tu descreva

A emmanação dos gostos, que se provam

Quando o primeiro amor os desenvolve

Da terna virgem no innocente peito?

Reclamas a candura, de que usava

Antes de me illustrar de Amor o facho?

Ousas mesmo increpar-me de artificio,

Porque eu não sube delicada têa

Urdir aos olhos teus, porque eu não sube

As effusões de amor envolver n'ella,

E, qual me envias, dar-te digna offerta?

Basta, tu mandas; vou obedecer-te.

Tenho ante os olhos instrucções sobejas

Para pintar o quadro dos deleites

Que de dous entes n'um absortos brotam.

Tu me dás os pinceis, o molde, as côres;

E no meu coração, prezada amiga,

Fecunda o goso meigos sentimentos,

Que só acabarão, se amor acaba!…

Que chimericos ceos fórma a impostura!..

Aonde móres delictas se promettem

Que as de um amante, d'outro ao lado unido?

Eu sonhava illusões, antes que fosse

Nos mysterios de amor iniciada.

Errava de um em outro labyrintho,

D'onde os conselhos teus, amada Alzira,

E Amor, dando-me o fio de Ariadna

Me fizeram sair: deixam-me forças

Para abafar o monstro, que meus dias

Tinha de funestar com vãos temores,

Filhos do erro vil, da fraude abortos.

Qual vaguêa nas trevas sem acordo

Perdido o tino, afflicto o caminhante,

D'alta terra entre as faldas pedregosas,

Ou de invia selva na espessura vasta;

Aqui tropeça, ali se encontra, e bate,

Macera as mãos, o rosto, e tenteando

Um pé lhe escapa, cai, rola-se o triste,

E n'um barathro crê despedaçar-se;

Eis improvisa luz assoma ao longe;

Attenta o infeliz, toma-a por norte,

E dos p'rigos, que o cercam, se vê salvo:

Taes tuas lettras para mim brilharam

Na escuridão fatal, que me envolvia.

Não espaçou Amor ditoso prazo

Para no gremio seu a tua Olinda

Bemfazejo accolher. Vira eu Bellino

Passar uma, e mil vezes, attentando

Com interesse em mim, attentei n'elle,

Em seu terno olhar, e meigos gestos;

Vi que um amante o ceo me destinava:

Em breve os olhos meus lhe responderam

Ás mudas expressões, que os seus diziam:

Em breve as suas cartas, de amor cheias,

Fizeram dar egual calor ás minhas,

Accendendo os meus férvidos transportes.

N'uma cerrada noute, quando ao somno

Estava tudo entregue, Amor velando

No meu peito, e no seu, a vez primeira

Nos ajuntou em fim: elle exultava

De indizivel prazer: eu me sentia

Na agitação maior de gosto, e susto.

Ao dar-lhe a mão, para o guiar de manso

Té ao aposento meu, subito fogo

Calou-me as vêas, penetrou-me toda.

Mas quando, já fechados um com outro,

Vi que seus gestos, mais que suas vozes,

Sua ternura ousada me exprimiam,

Lembrou-me o p'rigo, a que me havia exposto.

Tarda lembrança, que cedia a embates

De ignoto medo, que o rubor gerava!

Queria eu impedir-lhe ardentes beijos,

Mas vedavam-no as chammas, que accendiam;

E ás primeiras caricias insensivel,

Luctando entre o pudor, e entre o desejo,

Em mil contrarias reflexões absorta,

Meu silencio e inacção a empresas novas

De maior valor, Bellino excitaram:

Confesso, que devéras quiz oppôr-me

A seus intentos no primeiro instante:

Porém pouco tardou que abrazeada

Em chammas voluptuosas, resistindo

A seus esforços, mais lhe franqueava

Facil accesso a proximos triumphos.

Sentado junto a mim, lançando um braço

Em redor do meu collo, até cingir-me.

E obrigar-me a chegar ao seu meu rosto;

Com a mão sobre os peitos inquieta,

Que ao crebro palpitar os apressava;

E os labios discorrendo os olhos, faces,

Té fixal-os nos meus, ou por entre elles

Confundindo os alentos, lançar chammas

Dentro em meu coração, qual facho acceso;

A ardente lingua sua unindo á minha,

Ou, sobre o seio meu calando a bôca,

N'elle impressos deixar seus proprios beiços.

Com mão mais temeraria, do vestido

Pela abertura a occultos attractivos

Indo o fogo atear… Ah! que eu não pude

Mais resistencia oppôr a seus desejos!

Apenas leve fisga separando

Um dedo seu, que um raio parecia,

Tocou o sitio onde os deleites moram,

Subito, alvorotados uns com outros

Travando estranha lucta, me levaram

Onde, fóra de mim, quasi sem vida,

Só quanto então gosei, gosar podia.

Dos membros todos foram engolphar-se

As sensações ali; e só tornaram

A ser o que eram, quando ao mesmo tempo

Sua potencia intrinseca exhalando;

Fiquei de todo languida, e abatida:

O perverso Bellino attentos olhos

Nos meus então fitando, quiz ler n'elles

De que ficções minha alma se occupava.

Foi extremo o rubor, que de improviso

Minhas faces tingiu: lancei-lhe os braços,

Escondendo meu rosto no seu peito,

Por não poder suster-lhe as doces vistas.

A minha terna acção atraiçoou-me:

Que o maligno, pegando-me do rosto

Com ambas suas mãos, mais me encarava;

De confusa me ver folga, e se ufana,

Com beijos mil parece devorar-me;

Entre os seus braços mais e mais me aperta,

E pouco a pouco sobre mim se inclina:

Minha cabeça no sophá encosta,

Meus pendentes pés trava, e os submette

Entre os seus mesmos té que, em fim, de todo

Senti do corpo seu o pezo grato.

Meu leito era defronte: mas Bellino

No largo canapé circ'lo bastante

Habil athleta achou para o combate.

Perplexa, em mil affectos engolphada,

Irada, enternecida, em cruel lucta,

Meus sentimentos todos labutavam:

Um timido pudor activos fogos

Contrariava em vão, em vão retinha

Ignotos medos, soffregos desejos:

Suspensa, e curiosa eu esperava

Gostosa scena, em que prolixas noutes

Pensando o que seria, despendêra.

Em quanto d'esta sorte embellezado

Me tinham taes idéas, já Bellino

No phrenesi maior de gráu, ou força,

Os meus secretos votos preenchia.

Em torno da cintura levantados

Meus trajos inferiores, sobre os joelhos

Sentindo os de Bellino desprendidos,

Alargando-me os pés, tomando entre elles

Vantajosa attitude a seus projectos,

Franqueando co'a mão facil entrada

Á chammejante lança, que tocava

O mesmo sitio, que invadíra o dedo:

Forcejou para ferir-me com seus golpes,

Com impeto tamanho, com tal raiva

Que nem dos gritos meus se commovia,

Nem podia o meu pranto apiedal-o;

C'o forte impulso as movediças carnes

Levava-me ás entranhas; da ferida

Corria o sangue, mas sem que podesse

Ao ferro assolador achar bainha.

Seus dedos sanguinarios finalmente

D'uma, e outra parte com vigor sustendo

Flexiveis membros, redobrando as forças

Da valente impulsão, a cruel lança

Rompeu cruento ingresso… traspassou-me.

Que dor, Alzira!… Dei tão alto grito

Que Bellino depois disse o assustára,

Bem que fosse de meus páes distante o quarto.

Sem sentidos fiquei, em quanto o amante

Os trophéos da victoria recolhia;

E só tornei a mim, quando ao meu sangue

Suave irrigação veiu mesclar-se,

A agitações de gosto a dor cedendo,

De gosto inexhaurivel, que provára.

N'um momento apertada com Bellino,

N'activa sensação toquei com elle

A meta das delicias, transportada

De muito mais prazer do que a dor fôra.

N'este instante convulsa, e delirante,

E como se um espasmo supportasse,

Intirissada toda, os meus alentos

Senti reconcentrar-se n'um só ponto.

Findava o meu amante, inda eu gosava

(Comprimindo-o comigo) altas venturas,

De que sedenta então não poderia

Fartar-me assás: meus braços exhauridos,

Meu collo, e pés, eu toda fatigada

Do vehemente tremor, em que lidára.

Caí prostrada, quasi semi-morta.

Quando a meus olhos (que caligens densas

Tinham coberto) a luz tornou de novo,

Volvi-os sobre o amante, de tal sorte

Que ao vêl-o já supplice o instigava:

Não ficava ocioso n'este tempo,

Que no exame gastou do entrado forte,

Pasmado dos estragos, que fizera,

E dos despojos, que lucrava alegre.

Da machina, que a praça expugnou firme,

A estructura e altivez eu divisando,

Custava-me a atinar como podéra

Plantar-se o obelisco no reducto estreito.

Bellino minhas vistas comprehendendo,

Fez-me sentir, forçando-me a tocal-o,

Marmorea rigidez, côr escarlate,

Fórma, e calor de obuz, que disparava.

Quando submisso, da peleja lasso,

O vi depois sem o estendido conto,

Brancas roupas trajava, mais humilde:

Mas agora, affrontado, arremeçando

Monarcha ufano, a purpura do collo,

Com furor ao combate se aprestava.

Reverberou seu fogo em minhas faces,

E a vêa e vêa d'ellas espalhado

De todo o corpo me filtrou os membros.

Da lascivia ao pudor jungindo o pezo,

Fez-me Bellino levantar, e tendo

Elle sentado unidos os joelhos,

Sobre elles me sentou, e franco accesso

Da lança abrindo á ponta, a foi de manso

No riste pondo, té que a meio conto

N'elle embebida, sobre si de todo

Levando o pezo meu, entrou de modo

Que fiquei té ás visceras varada.

A introducção tão forte pouco affeitos

Meus delicados membros se avexaram:

Mas curvando-me um pouco, e com justeza,

Achei convir ao estojo o instrumento;

Cuja palpitação, sem ajustar-nos,

Em cadencia reciproca alliada,

Bastava a provocar gosto indizivel,

De modo que sem mais fadiga eu pude,

Na grata posição Bellino immovel,

Attingir o prazer mais saboroso,

Nadar em mil deleites engolphada:

Aqui, amada Alzira, essa virtude

Que appellidam pudor, foi-me odiosa.

De seus grilhões liberta, possuida

De um venereo furor, impaciente

De comprimir a mim o charo amante,

Arranquei-me da lubrica attitude,

Sobre elle me arrojei, toda anciosa

De me identificar c'o meu Bellino;

Estreitada com elle, abandonada

De amor á raiva, que ambos incendia,

Sobre mim o arrastei junto do leito,

Onde ao meu peito o seu, aos seus meus labios,

Do corpo os membros todos enlaçados

Misturando nos osculos o alento,

Nos osculos libando doce nectar,

Em tal agitação, que aos ceos alçar-me,

E abater-me aos abysmos parecia;

Ávida de absorver a grossa lança,

De soffrer-lhe a rijeza diamantina,

E de arrostar-lhe os golpes incessantes,

Sentindo o instante em que violento impulso

De celeste effusão marcava o termo,

Nas mãos, e nos pés sós firmando o corpo,

Tanto me impertiguei, que o meu amante

Sustive sobre mim, suspenso, em quanto

Aos finaes paroxismos succumbindo

Ao meu uniu seu ultimo gemido,

E dentro das entranhas abrazadas

Lançando-me torrentes d'almo influxo,

submersa me deixou n'um mar de gosos.

Julgas, Alzira, que entre tanto gosto

Na assidua compressão me não doiam

As maceradas meliadrosas carnes?

Ah! que esta dor pelo prazer vencida

Irritava emoções deliciosas,

Sobre-elavava ás sensações mais gratas.

Qual sequioso cervo, repassado

Da calmosa avidez, suaves gotas

Rabido anhela, e quanto é mais soffrida

Ardente sêde, tanto mais ensopa

Uma, e outra vez insaciaveis fauces:

Não d'outra sorte flagellados membros

Da dor pungindos de crueis combates,

Balsamica emoção consoladora

Com avidez seccavam insoffridos:

A elluvião prolifica eu sentia,

Pruridos divinaes, e estremecendo

Á melliflua impressão, perennaes gosos

Bastante tempo apoz gosava ainda.

N'este instante expirou dentro em minh'alma

Temor nefando, que immolava ao culto.

Nova moral raiou de Olinda aos olhos;

Eu tive em pouco rispidos preceitos,

Ameaças crueis, com que ralavam

Meus annos infantís. Doeu-me, Alzira,

De ver tanta belleza definhada

Da hypocrisia victimas infaustas;

Aponta a edade, em que é d'amor forçoso

As delicias gosar; em que almo viço

Como nas plantas, n'ellas assignalam:

Grata reproducção comsigo abafam,

Envenena-se o germen da natura,

Infecção purulenta as vai minando,

Que seus dias termina, ou os condemna

A languida existencia: abate o corpo,

Abate o esp'rito corruído o alento.

Innovámos a acção, eu, e Bellino,

E eguaes em forças, sem perder coragem,

Nenhum de nós cedeu, bem que durasse

Algumas horas o combate acceso:

Mas da noute feliz o longo manto

Que os mysterios de amor commette ás trevas,

Com roseos dedos a invejosa Aurora

Cruel abrindo, faz dentro em meu peito

A escuridão entrar, que em torno tinha.

Foi-me odiosa a luz, que affugentava

De mim com o amor perennes delicias.

Uma e outra vez Amor tem facultado

Ao constante Bellino, á terna Olinda

Outros, como estes, prosperos momentos:

São de tormento para mim os dias

Que tel-o junto a mim debalde busco:

Para elle o tempo que sem ver-me gasta,

Figura-lhe de um seculo a distancia.

Já Hymenêo houvera de enlaçar-nos,

Se o mundo, Alzira, o mundo, que não cuida

Senão em machinar sua ruina,

De longo tempo não tivesse urdido

Iniquas tramas, horridas ciladas,

Que ao homem (digno premio de sua obra)

Barreiras põe na estrada da ventura.

Retrocede o infeliz d'um a outro lado,

Negras voragens abre ante os seus passos

Tropel de Furias, que comsigo arrasta,

Filhas do Erro, que animou insano.

A Fortuna que foi comigo larga,

Negou seus dons a meu querido amante.

Elle não conta nobres ascendentes,

De quem meus páes se dizem oriundos:

É quanto basta, para erguer muralhas

De alcance, entre elle e mim, inacessiveis:

O ditoso hymenêo não me é preciso,

O hymenêo, apparato de teus votos,

Para entre os braços seus tecer affouta

Indissoluveis nós c'o meu Bellino:

Sou d'elle, é meu: os homens que se ralem.

Alzira, tu, que a amor meu peito abriste,

Abre meus olhos á Natura inteira:

Eu quero n'ella ver os meus destinos;

Só n'ella eu quero divinaes verdades

Solicita explorar, viver só n'ella:

Cumpre as gratas promessas, que me fazes,

Deva a ti só a tua Olinda tudo.

Não ha para os christãos um Deus diff'rente

Do que os gentios teem, e os musulmanos?

O que a razão desnega, não existe:

Se existe um Deus, a Natureza o offerece;

Tudo o que é contra ella, é offendel-o.

Devo eu seguir o culto, que me apontam

As impressões da propria Natureza?

Tenho uma religião em pratical-as?

Que mundo é este pois, prezada Alzira?

Teem os homens levado o seu arrojo

Té forjarem um Deus na ousada mente,

Traçar-lhe cultos, levantar-lhe templos,

Attribuir-lhe leis, que a ferro, e fogo

Extranhos povos a adorar constrangem,

Immolando milhões á gloria sua?

Nos labios teem doçura, e probidade,

No coração o fel, a raiva: os monstros

São máus por condição, ou máus por erro?

Não, eu não posso, Alzira, d'este enigma

Romper o denso véo: minhas idéas

Jazem n'um cahos de horrida incerteza:

Hesitar me não deixes por mais tempo:

Minha instrucção confio aos teus cuidados;

D'amizade o esplendor dá-te a mim toda;

Acaba de fazer-me de ti digna.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 97 / 208 题