ALZIRA A OLINDA.

Com que satisfação, com que alegria

Vejo da minha Olinda as ternas letras!

Retrato da innocencia, me affiguras

O que por mim passou, extranho effeito

De um coração sensivel, não manchado

Ainda pela mão da iniquidade.

Fala, não temas exprimir-te, Olinda,

Que se culpavel fores de outrem aos olhos,

Aos meus és innocente, e assim te julgo.

Da inviolavel lei da Natureza

A que sujeita estás, bem como tudo,

Nascem, querida amiga, os teus transportes:

Só provém d'ella, é ella que t'os causa;

Ella os mitigará em tempo breve,

Dando-te próvida um remedio activo.

A triste educação, que ambas tivemos,

Mais desenvolve os ternos sentimentos

Dos que amar só procuram, e não podem

Na solidão senão atormentar-se.

Do recato das filhas temerosos

Pensam os rudes paes, que em sopeal-as

Alcançam extinguir o voraz fogo

Que sopra a Natureza, e que ella atêa.

Nescios, de amor lhe formam attentados,

Que o coração desmente, e que não pode

Saber justificar a razão mesma.

Benignas emoções chamam flagicios,

Que infernaes penas castigar costumam;

Sem que atinem o modo por que devam

Tornal-as puras, e do crime alheias,

Porque do crime o amor não diff'rencêam,

Amor, e crime o mesmo lhes figuram.

Ah! que de um pae o emprego não tolera

Maximas impostoras, vís idéas

Que religião não soffre, e que forcejam

Para co'a religião auctorisal-as.

Saiba-se pois té onde o culto, a honra

De um Deus se estende, e quaes limites devem

Marcar-se ás impressões da natureza:

Em vez de afferrolhar as tristes filhas,

Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,

Do vicio a estrada com desvelo attento.

Pois que impureza, e amor um rumo seguem

Consiste o mal ou o bem na escolha d'este.

Sim, chara Olinda: como tu, eu propria

Falta da sociedade, porque n'ella

Viam meus paes o escolho da innocencia,

As mesmas emoções senti outr'hora;

Nos tenros annos teus então zombavas

Do que nem mesmo decifrar podias.

Quantas vezes meu coração ás claras

Te descobri, querida; e quantas vezes

O meu desassocego não provando,

Rias dos sentimentos, que em minh'alma

Entranhados estavam, sem que a causa

D'elles jámais me fosse conhecida?

Agora os exp'rimentas, crês agora

O que falso julgaras, verdadeiro!…

A Natureza em ti o germen lança,

Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma,

Porque sensivel és; e bem que hesites

Sobre o objecto, que deve contentar-te,

Ella t'o mostrará em tempo breve.

Não te assustem do seu dominio as forças,

Porque de jugo seu o peso é leve.

Não mais soffres fervidos desejos,

Que o coração te ancêam, e bem podem

A languidez eterna victimar-te,

Se de amor o remedio os não sacia.

Attenta sobre mil louçãos mancebos,

Cheios de encantos: olha-os indulgente,

E d'entre elles escolhe um, cujo peito

Tão docil como o teu seja formado.

Olinda, ama; conhece que delicias

Amor encerra, amor, alma de tudo;

Amor, que tudo alenta, e que só causa

Os gostos de uma vida abbreviada.

Se contra amor dictames escutaste,

Que seus effeitos pintam horrorosos,

Não dês credito a maximas fingidas,

Que a lingua exprime, e o coração reprova:

Que mal provém aos homens, de que unidos

Dois amantes se jurem fé, constancia?

Que um ao outro se entreguem, e obedeçam

Da Natureza ás impressões sagradas?

Rouba a virtude acaso a paixão doce

Que beijos mil só farta, e que só pode

Nos braços de um amante saciar-se?…

Não; amor a virtude fortifica:

Mais a piedade sobre as desventuras

Que os outros soffrem, mais a humanidade

Em nós se augmenta, quando mais amamos.

Se desde o berço em nós força indizivel

Sentimentos de amor vai radicando;

Se, mal balbuciamos, quanto vemos

A falarmos de amor nos estimula;

Se a edade vai crescendo, e a natureza

Nossas feições altera; assignalando

Com marcas bem sensiveis, que chegámos

Ao prazo, em que é lei sua amar por força,

Ou desnegar então nossa existencia:

Se tudo a amar convida, e nos impelle,

Quem ousa amor chamar crime execrando?..

Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêem

Virtude austera hypocritas infames:

Sabe que, em quanto amor horrivel pintam,

Em quanto aos olhos teus assim o afêam,

De uma amante venal nos torpes braços

Vão esconder transportes, que os devoram,

E, por castigo seu, sómente gosam

Emprestadas caricias, vís affagos.

Mas quando assim os homens dissimulam,

Para dissimulares te dão direito:

Finge, como elles; ama, e lh'o disfarça;

Que é mais um gosto amar ás escondidas.

Affecta, embhora, affecta sisudeza

Já que a affectar te obrigam, e em segredo

De instantes enfadonhos te indemnisa:

Zomba dos seus ardís, e estratagemas;

Dize, entre os braços de um amante charo,

Que mais credulos são, do que te julgam,

Se crêem nos laços seus aprisionar-te.

Se os deleites de amor são só delictos

Quando sabidos são, com veo mui denso

A perspicazes olhos os encobre:

Vinga-te d'esses, que abafar procuram

As doces emoções, que n'alma sentes.

São estes os conselhos de uma amiga

Que os bens te anhela, que ella saborêa.

Sabe, por fim, que quanto mais retardas

Tão ditosos momentos, sem gosal-os;

Quanto mais tempo perdes ociosa

Sem às vozes de amor ser resignada,

Tanto mais tempo tens de lastimar-te,

Por não têl-o em amar aproveitado.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 91 / 208 题