III

Vós, mancebos, correi, correi ligeiros

Do Tibre ás margens ferteis, e mimosas:

Tão immoveis me ouvi; mas não tão surdos;

Direi primeiro como Amor se enlêa,

Depois como se faz propicia Venus.

Tu, oh Jove immortal, tu pae dos deuses,

Sabio me inspira, que não basta Apollo.

É verde louro fugitivo Daphne,

Amor ingrato do queixoso Phebo:

Tu, selvatico filho de Saturno,

Só tu não temes desdenhosas iras:

Ou chuva d'ouro a bella Danae molhas,

Ou touro manso linda Europa roubas.

A face mulheril formosa, e pura

Cobrem de pejo avermelhadas rosas;

Ou dedo juvenil destro as desfolhe,

Ou calido vapor soprando as murche:

Então lasciva, sem rebuço exposta

Facil se entrega, sem temor se arroja:

Então tu, louro Apollo, serás Daphne,

A nympha fugitiva será Phebo.

Apoz o bruto filho de Neptuno

Correrá Galathéa os verdes mares;

Assim foge de Cyrce o grego Ulysses,

Assim foge de Dido o pio Enéas.

Porém, primeiro, subtilmente a inflamma;

Se acaso ardente, devorante fogo

Torrar os bofes, consumir entranhas,

Natura acode com forçoso impulso,

E mais depressa se afugenta o pejo:

Mais depressa o calor do sol derrete

Pallida massa de esfregada cêra;

Mais cedo rompe ariete forçoso

Torres antigas, ruinosos muros.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 73 / 208 题