EPISTOLA A MARILIA.

I

Pavorosa illusão da Eternidade,

Terror dos vivos, carcere dos mortos;

D'almas vans sonho vão, chamado inferno;

Systema da politica oppressora;

Freio, que a mão dos despotas, dos bonzos

Forjou para a boçal credulidade;

Dogma funesto, que o remorso arreigas

Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:

Dogma funesto, detestavel crença,

Que envenenas delicias innocentes,

Taes como aquellas que no ceo se fingem:

Furias, Cerastes, Dragos, Centimanos,

Perpetua escuridão, perpetua chamma,

Incompativeis producções do engano,

Do sempiterno horror terrivel quadro,

(Só terrivel aos olhos da ignorancia)

Não, não me assombram tuas negras côres,

Dos homens o pincel, e a mão conheço:

Trema de ouvir sacrilego ameaço

Quem d'um Deus quando quer faz um tyranno:

Trema a superstição; lagrimas, preces,

Votos, suspiros arquejando espalhe,

Coza as faces co'a terra, os peitos fira,

Vergonhosa piedade, inutil venia

Espere ás plantas de impostor sagrado,

Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:

Que ás leis, que as propensões da natureza

Eternas, immutaveis, necessarias,

Chama espantosos, voluntarios crimes;

Que as ávidas paixões, que em si fomenta,

Abhorrece nos mais, nos mais fulmina:

Que molesto jejum, roaz cilicio

Com despotica voz á carne arbitra,

E, nos ares lançando a futil benção,

Vae do grantribunal desenfadar-se

Em sordido prazer, venaes delicias,

Escandalo de Amor, que dá, não vende.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 62 / 208 题