Na manhã do dia seguinte estava toda a familia de Magdalena, na qual
incluimos já D. Dorothéa e Henrique, reunida em uma das salas do
Mosteiro.
As duas primas, Magdalena e Christina, trabalhavam em costura; Angelo e
Henrique jogavam o xadrez; D. Dorothéa e D. Victoria conversavam a
respeito do preço de umas meadas de linho, que esta tinha dado a córar,
e da pessima qualidade do fiado, effeito evidente, segundo D. Victoria,
das criadas que tinha, que nem para fiar serviam. O conselheiro
examinava distrahido varios memoriaes e cartas de empenho, que recebera,
já a pedir empregos e graças em paga dos serviços eleitoraes, ás vezes
hypotheticos.
A cada passo, porém, Magdalena suspendia o trabalho, para olhar para a
porta da sala, principalmente quando nos immediatos aposentos se
escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que não com menor
frequencia os desviava das pedras do taboleiro para encontrar os da
irmã.
Henrique tambem, de quando em quando, tinha que perguntar a Christina, e
esta, para lhe responder, julgava-se obrigada tambem a afastar os olhos
da costura.
D. Victoria e D. Dorothéa não era raro metterem-se na conversa dos
outros, d'onde facil transição achavam logo para voltarem aos seus
assumptos favoritos: meadas e criados.
O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou fazia
notar alguma mais exorbitante pretensão de tantas que examinava.
Era evidente que todas aquellas cabeças estavam pouco preoccupadas com
os assumptos apparentes das suas cogitações.
--Ó Lena!--dizia Christina, que pela terceira vez chamava a prima, sem
conseguir ser ouvida--que tens tu esta manhã? Que distracções são essas,
que não respondes quando te chamam?
--Pois falaste-me?
--É o que eu digo! Ó menina, ha que seculos te estou eu a perguntar em
que tempo é que as laranjeiras teem flor?
--Ah! Christe!--acudiu o conselheiro do lado, sorrindo.--Esse pensamento
é linguareiro; ficamos todos sabendo aquillo em que tens estado a
scismar.
Christina córou intensamente, ao perceber o sentido das palavras do
conselheiro, e tentou defender-se, dizendo:
--Ora, não era isso, tio. Eu perguntava, porque...
--Socega, quando o véo estiver prompto, a laranjeira não nos faltará com
ramos e flores.
--Não, mano--disse D. Victoria--olhe que se não trata de vêr o que é que
está dando nas laranjeiras, dentro em pouco não ha uma só na quinta. Que
tambem para serem comidas as laranjas pelos criados... Porque quasi que
são só para elles. Não que não faz ideia!...
E continuou com D. Dorothéa a narração dos abusos de que os criados eram
culpados.
D'ahi a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar.
--Esta é galante!--disse elle, examinando uns papeis e rindo.--Ora ouça
isto, Henrique. Aqui está um homem que deseja que eu lhe empregue nada
menos do que sete sobrinhos que tem. Sete! É uma geração como a de
Jacob; se estivessemos na côrte de Pharaó!...
--Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministerio
completo--disse Henrique.
--Oh! oh!--disse o conselheiro, passados alguns momentos.--Cá está o meu
amigo Pertunhas, teimando com o logar de recebedor.
--Pois o maroto ainda se atreve?
--E que despeza de estylo que faz! É uma ode congratulatoria em prosa.
N'estas entremeadas conversas e dialogos curtos e interrompidos
passou-se o tempo até a chegada do correio, successo que marca época
n'uma manhã passada na aldeia.
N'aquelle dia sobretudo eram esperadas com ancia as cartas e os
periodicos, que deviam trazer noticias do resultado das eleições dos
differentes circulos do paiz.
O conselheiro já por tres vezes consultára o relogio, extranhando que o
correio se demorasse.
Emfim, chegou. O conselheiro poz de lado os memoriaes e requerimentos;
Henrique deu subito desfecho ao jôgo com um lanço absurdo, e ambos se
precipitaram sobre os periodicos e cartas; Angelo veio encostar-se ao
espaldar da cadeira de Henrique.
O conselheiro principiou por ler uma carta.
Henrique rompeu a cinta do primeiro periodico.
--Oh! oh!--disse o conselheiro, logo ás primeiras linhas que leu.--Temos
crise ministerial. As eleições fôram pouco favoraveis ao governo;
perderam-se em quasi toda a parte!
--Assim tambem se deprehende do estylo em que vem escripto este artigo
de fundo--disse Henrique.
--Dizem-me n'esta carta que já se fala em que o ministerio vae pedir a
sua demissão.
--Este artigo allude apenas a uma reconstrucção do gabinete.
-«O governo--proseguiu o conselheiro, lendo,--nem espera pela
constituição da camara e cáe por estes dias, infallivelmente. Quando
vossê receber esta, já talvez elle pertença aos livros findos.»
--«Diz-se que ha para esta noite conselho de ministros para resolver
sobre qual o seu procedimento, visto a indole provavel na futura
camara»--lia Henrique no periodico, que logo em seguida pôz de lado,
para consultar outro.
--«Não imagina--continuava o conselheiro, lendo a carta--o movimento de
ambições que vae já por aqui». Ora se não imagino!
--Um numero do _Suffragio Nacional_!--exclamou Henrique, abrindo segundo
periodico.--Provavelmente é alguma amabilidade que lhe dirigem, sr.
conselheiro; elles que lh'o mandam!
--Sim, decerto. Como da outra vez. Veja lá,--disse o conselheiro,
sorrindo--aos moribundos tudo se perdôa.
Henrique correu a vista pela folha, para saber o que motivára a remessa
d'ella para o Mosteiro, onde não costumava vir.
--Ah! temos correspondencia cá da terra!--exclamou por fim.
--Deve ser isso. Já tardava. É communicado do Seabra. Leia, que são
curiosos. O homem a apreciar as eleições de domingo deve ser soberbo.
Isso não se pode perder. Leia, leia.
--Assigna-se _um eleitor indignado_.
--Justo. É o estylo do homem. Vamos lá a vêr isso.
Henrique principiou a ler em voz alta o communicado do brazileiro.
A peça litteraria, de precioso lavor, em que o sr. Seabra contava ao
mundo os factos eleitoraes da sua terra, muito desejaria eu
transcrevel-a aqui, se, pela sua extensão, não tomasse demasiado espaço,
e se, pela sua unidade e estreita ligação logica, se não subtrahisse á
menor tentativa de fragmentação.
Aquelle communicado era indivisivel.
Apesar d'esta forçada omissão, espero que os leitores farão a justiça de
suppôr o escripto digno do distincto economista, que ouvimos discursar
com tanta proficiencia na taberna do Canada.
O homem escrevia recheado de indignação pela serie de illegalidades,
escandalos, subornos e pressões de todo o genero, de que, dizia elle,
fôra theatro aquella pacifica aldeia do Minho.
Em _linguagem chã e rude_ ia tornar patente, accrescentava, aos olhos de
todos uma _pestifera chaga do organismo social_. _Sophismára-se a urna e
calcára-se aos pés a Carta_. As phrases em italico são d'elle. Depois de
um exordio por esta afinação, em que fazia a conveniente razão de ordem,
entrava o homem na materia. Era um modêlo de impertinente bisbilhotice o
escripto; desfiava-se alli a vida de todos os eleitores com uma
minuciosidade esmagadora.
Contava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquillo ao sobrinho
de Sicrano, e como tal individuo fizera e acontecera; e como tal disse
que havia de fazer, e não fez; e como aquelle nem disse nem fez; e como
aquell'outro dissera e fizera, e assim por deante. Um dos mais
maltratados era o sr. Joãozinho das Perdizes. Dizia o auctor da
correspondencia que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera
pressão sobre os eleitores da sua freguezia; que era homem de pessimos
costumes e moral depravada; jogador, bulhento, beberrão cheio de
dividas, amigo de malfeitores, _et coetera_.
O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas.
O communicado passava depois a occupar-se com o mestre Pertunhas.
O brazileiro não lhe perdoára a pressa com que este celebrára a victoria
do conselheiro, á frente da philarmonica que regia.
Por vingança chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a raiva lhe
suggeria, inclusivé o de estafador de trompa, e fechava por estas
memoraveis palavras:
«Para levar á evidencia o caracter infame e intriguista d'este
sevandija, basta que diga que foi elle que, poucos dias antes, subtrahiu
de uma pasta aquella celebre carta politica, que tanto deu que falar no
paiz. E este homem exerce o cargo de administrador do correio. _Proh
pudor!_»
Como o leitor imagina, esta parte da correspondencia produziu sensação
no auditorio.
Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quasi todas as bôcas uma
exclamação de surpresa ou de alegria.
--Como é?... como é?...--perguntou o conselheiro.--Diz que...?
--É o mysterio que se explica--respondeu Henrique.--A traição
encarrega-se de a si propria se desmascarar.
--Então foi o Pertunhas?!... Mas... diz-se que tirou a carta de uma
pasta!
--Era a de Augusto.
--Mas como estava ella ahi?
--Lá isso sei eu como foi,--disse D. Victoria--fui eu que, por engano,
lh'a tinha dado junta com outras para elle escolher alguma para a
leitura dos pequenos.
Christina celebrou a descoberta, beijando com effusão a morgadinha, e
dizia:
--Venceste, Lena! agora está bem provada a innocencia d'elle, até para
os que mais duvidavam!
--E quem não duvidaria?--acudiu o conselheiro, como para se desculpar da
desconfiança.
--Quem o conhecesse bem, meu pae--respondeu Magdalena, a quem a commoção
recebida dava animação ao olhar e ao semblante.--Eu e Angelo, por
exemplo.
--E então eu?--accrescentou Christina.--Eu não entro na conta?
Esta reclamação valeu-lhe da parte da prima a paga do beijo que
recebera.
--Olhem o pobre rapaz!--dizia D. Victoria, sinceramente consternada.--E
eu que o tratei tão mal! Bem me dizia elle: «Não tenha pressa de dizer
nada a seus filhos, minha senhora, não lhes ensine a duvidar de um homem
que elles se costumaram a amar e a respeitar.» E o caso é que eu, desde
que lhe ouvi dizer aquillo, de um modo tão sério e triste, fiquei
resentida, e não disse nada ás creanças, que todos os dias me
perguntavam ainda por elle.
--Mas...--dizia D. Dorothéa, deveras embaraçada--eu não sei ainda bem do
que se trata. Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o quê?...
--Ó tia Dorothéa--atalhou Henrique--por quem é, não insista na pergunta.
Depois que se sabe que uma suspeita é falsa, não ha nada que mais
escalde os labios do que obrigal-a de novo a passar por elles.
--Tens razão, menino. E que precisão tenho eu de saber uma coisa que não
é verdadeira? Mas na verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique,
está-me a parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na
consciencia. Ora anda lá.
--Não, tia. Ha muito que lhe faço justiça. Ao principio não digo que
não. Mas durou pouco tempo e já estava arrependido. Augusto convenceu-me
pela maneira com que me falou, convenceu-me sem provas: e até se, em
expiação, me não puz em campo a auxilial-o a justificar-se, é porque
elle exigiu que me abstivesse d'isso, e depois, o meu desastre... quero
dizer--emendou, olhando para Christina--a felicidade que me procurou sob
a fórma de doença...
Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio.
O conselheiro, que ficára pensativo depois das primeiras reflexões que
lhe ouvimos fazer, disse, suspirando:
--Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei
áquelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de fazer? As
apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n'esta vida de politica,
apprende-se tanto e tão depressa a duvidar! É sorte minha! Homens, a
quem eu estimava devéras, fôram exactamente os que mais fiz padecer!
Senão, vejam: o herbanario, meu companheiro de infancia, e que sempre me
teve amizade, apesar das apparencias rudes de que a revestia,
dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em que nasceu e
talvez lhe apressasse com isso a morte... E elle, coitado, vingou-se
nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais me sairá da ideia aquella
scena da igreja. Augusto, um rapaz que conheci pequeno, e já então de
viva intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou
para o perder, e não só o privei do modesto logar que elle exercia, mas
até levantei contra elle uma accusação infamante, e quasi o expulsei de
minha casa... É triste que a vida politica me tenha obrigado a estas
crueldades! Preciso de compensar de alguma sorte o mal que fiz. De que
maneira lhes parece melhor?
--Eu se fôsse--disse D. Dorothéa--fazia como a morgada, e o rapaz, em
vez de vir a ser só padre havia de se formar em Coimbra, como o reitor
de Friande...
--Isso era se elle quizesse ser padre;--acudiu D. Victoria--mas
parece-me que não quer. Nada, nada, eu o que fazia era demittir aquelle
velhaco do Pertunhas, e dava a este o logar de mestre de latim, e
arranjava que ficasse tambem com o correio. Ora anda, já que o outro foi
tratante!...
O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e não pôde deixar de
dizer:
--N'esse caso deixava só ao Pertunhas a regencia da philarmonica? E tu,
Lena, qual é a tua opinião?
Magdalena respondeu sem vacillar:
--A minha opinião é que o pae deve ir a casa de Augusto, pedir-lhe
humildemente perdão pela offensa que lhe fez.
--Mas involuntaria--ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que não
pôde bem disfarçar.
--Mas offensa--repetiu Magdalena, sem que o sorriso dissipasse
totalmente a fôrça da expressão.
--É um pouco dura de cumprir a sentença, sobretudo esse adverbio
humildemente... Não lhe parece?--perguntou o conselheiro, voltando-se
para Henrique.
--Eu tinha vontade de dizer tambem a minha opinião--respondeu
Henrique;--mas receio certos melindres... Comtudo, parece-me que
encontraria uma recompensa, que poderia fazer esquecer a Augusto a
offensa e dores muito mais pungentes do que as que soffreu em virtude
d'esta desagradavel occorrencia.
--Qual é?--perguntou o conselheiro.
Henrique olhou para Magdalena, respondendo:
--Repito que tenho escrupulos em dizêl-o, porque talvez não seja eu o
mais competente para o fazer.
--Tem razão, primo--disse Magdalena.--Elle proprio o dirá. É mais
natural.
--Mas sábel-o tambem tu, Lena?
--Sei.
--Então dize-nol-o. Melhor para mim, se puder prevenir desejos.
Magdalena hesitou.
--Vamos, Henrique--disse Cristina, sorrindo--não esteja com tantos
escrupulos. Diga o que pensa.
--Pois quer? mas se sua prima me não perdôa?
--Eu o protegerei. Fale.
--Então, Christe?--tornou Magdalena.
--Bem; n'esse caso... Visto que m'o ordena quem pode.
--Fale, fale--disseram a um tempo o conselheiro, D. Victoria e D.
Dorothéa.
--Falarei. A recompensa a que Augusto aspira é a de fazer parte da
familia de... da nossa familia--respondeu Henrique, olhando para
Magdalena, que já não tentava retêl-o.
--De fazer parte da nossa familia?--repetiu o conselheiro.--Mas como?
--Como ha de ser? visto eu não estar resolvido a prescindir de
Christina, e Marianna ser ainda creança, facil é de conjecturar o unico
meio que ainda resta de realisar aquella pretensão.
O conselheiro comprehendeu a final, e fitando Magdalena poz-se a rir,
dizendo:
--Pobre rapaz! Pois metteu-se-lhe isso na cabeça?
--Mas que é a final? eu não entendo--dizia, embaraçada, D. Victoria.
--É uma coisa muito simples--respondeu Henrique.--Augusto sentiu o
effeito dos encantos da minha prima Magdalena, mas sentiu-os a ponto de
ligar a elles a sua felicidade, e de cair em adoração para com a
magnetisadora.
Esta explicação foi recebida com espanto por D. Victoria.
--Ora! está a brincar, primo Henrique? Não ouve aquillo, prima Dorothéa?
--Mas que é, que é?--perguntou esta.
-Diz que o Augusto aspirava...
--Perdão, eu disse que o Augusto adorava e não aspirava. Quem pode tomar
contas a um coração do culto que elle guarda religiosamente em si? A
prima Lena é adorada por aquelle rapaz, isso affirmo eu, porém...
--É possivel!--exclamou tambem D. Dorothéa, espantada.--Por essa não
esperava eu. Olhem para o que lhe havia de dar! Pobre Augusto!
O conselheiro ria ainda da noticia que recebera.
Magdalena córou ao ouvir todas aquellas exclamações de estranheza.
Cedendo ao impulso energico do seu caracter impetuoso e apaixonado,
disse com vivacidade:
--Não sei que haja no que diz o primo Henrique nada que mereça esses
espantos. Pois quem sou eu a final? Que distancia me separa da
humanidade, para que se tenha por um desacato uma affeição que inspire?
É verdade. Julgo que não se enganou o primo Henrique. Tambem eu descobri
esse affecto em Augusto. Nasceu-lhe no coração e não na cabeça, meu pae.
Ha muito que o sei, e nunca a descoberta me causou o espanto que vejo
nos outros. Digo mais, causou-me orgulho. Orgulho, sim, porque é natural
sentil-o por ter inspirado sentimentos d'aquella ordem a um caracter
generoso que, experimentado pelo infortunio, saiu sempre da prova mais
nobre e mais puro do que d'antes.
O conselheiro, que ouvira a filha com impaciencia, acudiu, em tom
profundamente irritado:
--Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. Vê lá se me
queres fazer acreditar que a vida da aldeia te estragou o natural bom
senso, até o ponto de tomares a sério phantasias e creancices.
--Não é phantasia nem creancice, é uma resolução de mulher--respondeu
Magdalena, com firmeza.
--Uma resolução de creança, que está na minha mão remediar--tornou o
conselheiro, como quem desejava cortar o incidente.
Porém para o génio de Magdalena já não era possivel recuar nem parar;
replicou:
--Talvez não. E deixe-me então dizer-lhe tudo, meu pae. Augusto nunca me
revelou esse segredo do seu coração. Adivinhei-lh'o eu. Longe de
procurar ser entendido, occultava-se e fugia; ainda hontem estava
resolvido a deixar a aldeia para sempre.
--Mas ficou--notou o conselheiro com ironia.
--Ficou--respondeu tranquillamente Magdalena--porque eu lhe pedi que
ficasse.
O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a
filha com olhar severo e interrogador.
A morgadinha proseguiu com uma serenidade, que occultava um esfôrço
interior:
--Ficou, porque eu lhe disse que o havia comprehendido e que acceitava a
affeição desinteressada e pura que elle guardava no coração; ficou,
porque eu, que só tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e
que o sabia tão leal como pobre, tão innocente como perseguido pelo
infortunio, eu, que o vi quasi expulsar d'esta casa, sob o pêso de uma
accusação em cuja verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir
eu propria procural-o para lhe estender a mão e dizer-lhe: «fique, e
prometto-lhe que todos lhe farão justiça em breve.»
Quando Magdalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e exaltação
crescentes, ninguem ousou falar na sala; e os olhos de todos
dirigiram-se quasi instinctivamente para o conselheiro.
Christina tremia; as outras senhoras pasmavam: Henrique e Angelo
sentiram-se profundamente inquietos.
Todos viram passar por differentes côres as faces do conselheiro, os
labios agitaram-se n'um tremor convulso, e com a voz evidentemente
alterada pela cólera, disse para a filha, passados alguns instantes:
--Pois, saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga
estouvada, ha meios mais racionaes do que esses que parecem
naturalissimos á sua razão estragada pelos romances. Eu ainda não
prescindi da minha auctoridade paterna, e ella me servirá para corrigir
essas levezas, de que deveria envergonhar-se.
Esta scena de familia augmentava cada vez mais a difficuldade da posição
de todos os que estavam presentes. Ninguem ousava intervir, ou,
desejando-o, ninguem sabia a maneira de o fazer.
Entre as falsas situações, em que nos achamos ás vezes n'esta vida,
poucas se podem comparar no incómmodo que produzem, á de assistir a uma
questão domestica, por qualquer motivo que seja originada.
Quem se conservou d'aquella vez menos inactiva foi Christina, que
prendeu Lena nos braços, não sei se para instinctivamente a defender, se
para reprimir-lhe o impeto de reacção que receiava n'ella.
A morgadinha effectivamente repelliu-a com brandura de si e respondeu ao
pae:
--Ás vezes aos caracteres levianos estão confiadas tarefas generosas.
Cabe-lhes sanar muitas injustiças que por cálculo os mais reflectidos, e
por isso mais desconfiados, praticam sem piedade. Não me envergonho nem
arrependo do passo que dei. Não fiz mais do que salvar do desespêro uma
alma nobre e magnanima, que, se se perdesse, talvez um dia a sua
consciencia, senhor, o accusasse de não ser innocente n'essa perda. Quiz
evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto foi leviandade, que os annos m'a
não dissipem, como dizem que costumam fazer, porque prefiro ser leviana
assim, a ser cruel como...
O pae atalhou-a, e cada vez com mais vehemencia replicou:
--Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas terá de escolher
entre os seus caprichos e a minha approvação. Fique certa que, com o
consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem posição,
especulará com o estouvamento de uma herdeira rica, que, tão esquecida
do que deve a si e aos seus, não hesitou em o procurar na propria casa,
sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada á sua credula
sensibilidade.
Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguem mais na sala.
Era Augusto.
Da sala proxima, onde chegára muito antes, ouvira elle o que o
conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu
venceu-lhe toda a hesitação e obrigou-o a entrar.
O conselheiro, reparando de subito n'elle, interrompeu-se e parou.
Augusto, respondeu-lhe então com dignidade e tristeza:
--Esse rapaz pobre, sem posição e sem familia, tem n'esse triplice
infortunio outros tantos titulos para ser respeitado dos felizes, como
v. ex.^a, e eu não prescindo d'esses direitos.
O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse
responder a Augusto. A irritação dictava-lhe uma violenta resposta, mas
já lh'o não permittia a consciencia.
Augusto continuou:
--Sei que v. ex.^a está já convencido de que as suspeitas, que pesavam
sobre mim, eram injustas. N'esse periodico, que ainda tem na mão, veem
as provas da minha innocencia. Vi-o em casa do Seabra, d'onde venho
agora. Procurei-o, decidido a saber toda a verdade por qualquer preço
que fôsse; elle não m'a negou; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui,
sr. conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo,
antes que me expulsassem d'ella como infame, esperava encontrar a
receber-me a justiça e a amizade... Enganei-me; em vez d'ellas, foi o
insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu
encontrei!
--Menos justificado?--repetiu o conselheiro, azedadamente.
--Menos justificado, sim, muito menos; porque v. ex.^a podia julgar-me
criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas não tem o
de duvidar de sua filha; porque a sr.^a D. Magdalena pedindo a seu irmão
que a acompanhasse a casa de um pobre, que ella sabia ser victima de uma
immerecida accusação, e a quem o desalento e o desespêro faziam
succumbir, não se esqueceu do que devia a si e aos seus; pelo contrario,
aos seus devia aquelle acto de sublime generosidade, porque das mãos dos
seus viera o golpe que me ferira. Eu tinha sido expulso d'esta casa, sr.
conselheiro, como um miseravel e infame; os filhos de v. ex.^a, que
sempre fôram meus amigos, a quem v. ex.^a ensinára a sel-o, vieram á
minha dizer-me: «Não parta, deve á nossa confiança a justiça de ficar».
--É verdade--disse Angelo--eu acompanhei Magdalena. O pae diz-me muitas
vezes que não tenha pressa de principiar a duvidar; eu não podia
principiar por Augusto. Não duvidei.
O conselheiro respondeu a Augusto com reserva e mal disfarçado despeito,
ainda que em tom moderado:
--Sei que fui injusto comsigo, Augusto, e sinto-o do coração, creia.
Ainda que as apparencias o culpassem, arrependo-me de não ter tido mais
fôrça a minha confiança para não ceder. Peço-lhe por isso...
humildemente... perdão. Iria a sua casa pedir-lh'o se não viesse aqui.
Que mais quer? Acha-se com direitos a exigir mais? Será isso motivo para
antevêr realisadas loucuras de rapaz?...
Augusto não o deixou continuar.
--Ouça-me, sr. conselheiro--disse elle placidamente--deante de todas as
pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar, patentearei o meu
coração. É verdade que essas loucuras se apoderaram de mim, que desde
creança até hoje, tenho sido todo d'ellas; mas que importam aos outros,
se eu commigo as guardava? se nunca por ellas regulei os actos da minha
vida? Occorrencias imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz
sempre por suffocar. Nem ambições me despertou, como meio de realisal-o,
porque nem eu realisal-o pensava. Resignar-me-hia a morrer com elle, sem
o revelar a ninguem; mas adivinhado por quem o fizera nascer, e,
deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e correspondido, que muito
era que me tomasse a vertigem, e que eu por momentos me deixasse cegar
pelo fulgor de imprevistas esperanças? Perdôe-se-me a fraqueza. As
illusões duraram pouco; as palavras de v. ex.^a dissiparam-n'as... um
tanto cruelmente, mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro,
que o ser pobre, sem familia e sem nome, impõe tambem uma certa ordem de
deveres, a que eu serei fiel. Não é o de humilhar-me, é o de manter a
unica dignidade que me resta, a dignidade moral. Já vê v. ex.^a que se
enganou de duas maneiras: nem da parte do rapaz pobre houve especulação,
nem da parte da herdeira rica estouvamento.
E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se respeitosamente
deante do conselheiro, e ia a sair, depois de lançar a Magdalena um
extremo olhar de despedida.
A morgadinha, porém, ergueu-se, e, apesar dos esforços de Christina para
a reter, veio collocar-se no caminho de Augusto, e estendendo-lhe a mão
disse:
--Não saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe peço que não saia.
--Magdalena!--disse o conselheiro com severidade.
--Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de
remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do
coração, que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente
depois.
--Magdalena!--repetiu o conselheiro com mais fôrça.
--Minha senhora! disse Augusto.
Porém a morgadinha obedecia agora inteiramente á vehemencia do caracter
apaixonado.
--Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu coração; todos me
ouviram; todos ouviram agora Augusto. Fale, senhor, com a mesma
franqueza e lealdade, com que nós o fazemos; poderá confessar a natureza
dos escrupulos que o obrigam a essa resistencia? Não se envergonharia
d'elles? E quer que lhe obedeça! mas obedecer-lhe seria offendel-o,
porque seria acreditar na constancia d'essa má paixão que o domina, e no
seu bom coração não pode ella durar muito tempo.
O conselheiro, no auge da irritação, ia talvez a responder
violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de Magdalena; as
outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as primeiras
tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de intervenção, que
elle suppunha já indispensavel, quando um incidente veio interromper
esta scena e modificar a feição critica do caso.
O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao serviço
de um proprietario da villa proxima. Este criado era portador de uma
mensagem para o conselheiro.
O velho Torquato tinha adormecido na sala immediata; o lacaio
dispensou-se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar á
presença do conselheiro.
A chegada do lacaio acalmou a tempestade domestica, que principiava a
carregar-se.
O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim d'aquella visita.
O criado respondeu:
--Venho para entregar a v. ex.^a esta parte telegraphica, que chegou a
meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira
que não pôde mandal-a com ellas.
O conselheiro, agitado ainda, pegou no papel, que o mensageiro lhe deu,
e correu-o com a vista.
Immediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos.
Acabando de ler, disse ao criado, que esperava resposta:
--Dize a teu amo que recebi, e que pode responder que sim.
O criado saiu.
N'este meio tempo as senhoras e Christina rodeavam Magdalena e
combinavam um projecto de harmonia domestica; Angelo e Henrique
desempenhavam-se junto de Augusto de quasi identica tarefa.
O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegraphica, emquanto que uma
visivel satisfação se lhe desenhára no semblante.
--Leia e admire--disse elle.
Henrique leu, e não reteve uma exclamação de surpresa.
A parte dizia:
«Avise o conselheiro Manuel Bernardo para quanto antes se apresentar em
Lisboa. Estou encarregado de organisar ministerio e quero que elle
acceite uma das pastas.»
Assignava-a um dos mais notaveis vultos politicos do paiz.
Henrique, que sabia o valor de certas opportunidades, e a quem a
surpresa da noticia não fez esquecer a crise domestica a que assistira,
disse, logo que acabou de ler, e dirigindo-se a Magdalena:
--Prima Magdalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os
emboras pela sua nomeação.
A palavra «ministro» produziu sensação na sala. D. Victoria exclamou:
--Ministro! Pois quem é que está ministro? O mano?... Ora, sim senhor!
acertou sua magestade!...
--Mas... valha-nos Deus! O ponto está que não façam por ahi alguma
revolução para o deitar abaixo--acudiu D. Dorothéa, em cujo animo os
factos das nossas dissenções civis tinham deixado sinistras ideias
ligadas á palavra ministro.
Magdalena, Angelo e Christina correram a abraçar o conselheiro; Henrique
reteve, porém, os dois ultimos dizendo:
--Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma mercê a s. ex.^a, e á
primeira não ha caracter de ministro que não ceda.
O conselheiro sorriu já.
Magdalena beijou-lhe a mão, e o pranto, provocado pela violencia das
scenas anteriores, e até alli a custo reprimido, rebentou agora
abundante, banhando as mãos do pae.
Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o não deixar sair da
sala.
O coração do conselheiro não era de pedra. Duas causas poderosissimas
conspiravam-se para abrandal-o. Como homem politico, havia a satisfação
da maxima ambição de todos, a noticia de ser chamado ao ministerio. Nos
momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso
coração, abrimo-nos ás sympathias para com os desejos dos outros; se de
nós depende realisal-os, cedemos de boa vontade. Como pae, havia as
lagrimas da filha a convencel-o, e a eloquencia d'este argumento das
lagrimas em olhos de mulher, é geralmente sabida: quanto mais se a
mulher é joven e bella! quanto mais se a mulher é filha!
Sem o menor vestigio da irritação anterior, o conselheiro ergueu
Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente:
--Por que choras tu, Lena? Creança! Então promettes-me ser muito feliz,
se eu te deixar fazer as tuas loucuras?
Magdalena respondeu-lhe, abraçando-o affectuosamente, e beijando-o.
Ha argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa
contra as severidades de um pae?
O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e
voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi
affectuoso:
--Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a
felicidade da minha Lena. Vingue-se da injustiça e do mal que lhe fiz,
tornando-m'a venturosa. É a unica vingança á altura da sua alma.
Augusto não teve tempo para responder. Se uns restos de orgulho
tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os esforços
combinados de Christina, de D. Victoria e de D. Dorothéa, que o
arrastaram quasi para junto do conselheiro.
E toda aquella familia, em que não havia n'aquelle momento um só coração
triste, confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e
pathetico grupo, que pode desenhar um artista.
Para mais tocante confusão ainda, as creanças, que voltavam dos seus
brinquedos na quinta, entraram então na sala, e de boa vontade se
associaram áquella manifestação de alegria, sem querer saber o que a
motivára,
São assim as creanças. Alegres por instincto, saudam as scenas alegres
sempre que as vêem, sentem-as antes de as explicarem.
Fôram innumeraveis os beijos, os abraços, as palavras de affecto, os
sorrisos, as lagrimas, as exclamações pueris que se trocaram entre os
diversos actores d'esta scena de familia.
Chegado a este ponto da minha narração, nada melhor posso fazer do que
deixar á imaginação dos leitores concluil-a.
Haverá algum tão malfadado, que na sua vida não tenha visto representada
uma scena assim?
Esse mesmo, se existe, obriga-me a não proseguir.
O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-hia o desconsolo da alma, de
que por certo é victima.
Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de
beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a
narração, vêl-o-hiamos abafado pelos sons revolucionados e anarchicos da
philarmonica da terra, que não tardará a festejar a nomeação do
conselheiro, e sobretudo pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba
verdadeiramente épica, e capaz de mudar a côr ao gesto, como a de que
fala o poeta.
Fechemos pois aqui a historia, dando apenas succinta conta dos
acontecimentos ulteriores.