No dia seguinte, pela manhã, recebeu-se na Alvapenha noticia da chegada
do conselheiro e de Angelo. A impressão profunda que a este ultimo
causára a morte de Ermelinda, tinha resolvido o pae a trazel-o comsigo
para a aldeia a distrahir e robustecer com ares livres do campo. D.
Dorothéa apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro;
Henrique acompanhou-a e de caminho pôl-a ao facto do estado do seu
coração, e encarregou-a de communicar isto mesmo a D. Victoria e de
fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da mão de Christina.
D. Dorothéa ficou a principio admirada. Ainda se não desacostumára de
considerar Christina como uma creanca. Havia tão pouco tempo que usava
ainda vestidos curtos!
Reflectindo porém, acabou por achar a coisa natural, vantajosa e
agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que fizera.
Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, não se fartou
de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta vez as
habituaes prolixidades da boa senhora não conseguiram enfastial-o.
Estava devéras apaixonado!
Chegaram ao Mosteiro.
O conselheiro recebeu-os com ar de satisfação e apparente tranquillidade
de espirito; mas um exame attento conseguiria descobrir-lhe no sorriso o
que quer que era forçado a revelar certa preoccupação interior.
É que, desde que chegára, tinha sondado melhor o animo do publico da
terra, ou dos influentes que o representavam, e reconhecera que estava
muito arriscada d'esta vez a sua candidatura.
Não lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a dois dias
realisavam-se as eleições. Tudo estava por fazer, emquanto que os seus
adversarios havia muito que tinham tudo feito. Algumas das personagens
politicas, com que contava, falharam-lhe, e até nem o visitaram. As
auctoridades locaes eram-lhe manifestamente hostis, desde o
administrador até o cabo de policia.
Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o conselheiro
para conversar em assumptos alheios á questão que o interessava, para
sorrir e prestar attenção ao que se dizia.
De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento,
escrevia um bilhete, retirava-se por momentos para receber algum agente
eleitoral que o procurava, despachava um emissario; finalmente não podia
socegar.
Foi na occasião em que elle consultava mais uma vez a lista dos
recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e Magdalena
faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos, que entrou
D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D. Dorothéa, e em nome
de Henrique, o pedido da mão de Christina. D. Victoria trazia bem
visivel na physionomia todo o jubilo que a nova lhe causára. Era muito
amiga de Magdalena, mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais
que tudo a lisonjeára, fôra a preferencia dada por Henrique a sua filha
sobre a morgadinha.
--Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique--dizia ella.--Estou mesmo
muito arrenegada comsigo.
--Por quê, minha senhora?--perguntou Henrique, sorrindo.
--Pois então isso é coisa que se faça? Já precisa de embaixadores para
se dirigir a mim?
--Perdão, minha senhora! Era meu dever deixar completa liberdade a v.
ex.^a para fazer todas as reflexões que a proposta lhe suggerisse e
discutil-a á vontade, e, por delicadeza, podia v. ex.^a ás vezes, sendo
eu mesmo quem a fizesse, cohibir-se...
--Ai, eu havia de pôr muitas dúvidas! Na verdade um rapaz de tão má
nota! Ora sempre tem coisas!
--Visto isso, posso esperar?
--Da minha parte uma guerra de morte--disse D. Victoria, não resistindo
a dar um abraço a Henrique, já com familiaridade de mãe; abraço que
Henrique retribuiu com affecto.
O conselheiro não dava attenção á scena.
--Então, mano!--bradou-lhe D. Victoria.--Deixe lá essas politicas que
temos negocios sérios em casa.
--Sim?--disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um
ar de interesse, que realmente estava muito longe de sentir.--Então de
que se trata?
--De um negocio importante, em que é preciso que seja ouvido.
--Ah! Então é um caso de consciencia?
--E não o diga a rir, que é. Aqui o sr. Henrique de Souzellas acaba de
me fazer um pedido... Isto é, a prima Dorothéa foi que m'o fez.
--Mas por ordem d'elle--acudiu esta.
--Pois sim, o que era escusado.
--Mas então que pede de nós este caro sr. Henrique?
--Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas.
O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. Já, por mais de uma
vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe tinha passado
pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique tinha um bom
nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro na sociedade,
e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos.
Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz
tiral-o quanto antes da illusão e disse:
--Quem mais razão tinha para protestar era eu. Ha de fazer-me falta a
amizade de Christina.
--Ah!--disse o conselheiro, com um sorriso um tanto contrafeito.--Então
quer-nos roubar a nossa Christina, sr. Henrique?
--É apenas uma restituição que peço, sr. conselheiro, porque não me
posso resignar a viver sem coração.
--Faz madrigal? Está então apaixonado devéras, já vejo--disse o
conselheiro.--Pela minha parte folgo de o vêr assim associado á minha
familia, por tão bom caminho. Mas onde está a thaumaturga, que fez o
milagre de converter este celibatario emerito, que eu conheci em Lisboa
a rir-se do casamento?
--Por piedade, não me recorde esses peccados deante da prima Magdalena,
que é tão rigorosa nos castigos!
--Diga antes, que sou tão excessiva nas recompensas.
--Mas o mano tem razão--disse D. Victoria.--Onde está a Christe?
Admira-me não a vêr aqui!
--Admirar, não me admiro eu--tornou o conselheiro.--É provavel que
soubesse do que se tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi
decerto discutido por as partes interessadas, antes de subir ao nosso
tribunal.
Henrique e Magdalena sorriram.
--Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S.
Gonçalo. Deus queira que te não queimes ainda no fogo ao ateares d'estes
fachos.
--Eu vou buscar a Christe--disse a morgadinha, rindo das palavras do
pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a direcção
que elle lhe deu.
O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas,
emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Dorothéa tentava
distrahir Angelo, contando-lhe várias historias de creanças, que elle
mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento accommodado
á intelligencia d'elle.
Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual
já vinha com o rubor nas faces e com os olhos no chão.
--Aqui está a accusada--disse a morgadinha ao entrar.
O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse jovialmente para a
sobrinha:
--Ora venha cá, venha cá, que temos muito que falar.
E passando-lhe a mão por baixo do queixo, para a obrigar a fital-o,
continuou:
--Então assim se trama uma conspiração ás caladas? Surprehender a gente
com uma noticia de tal ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de
bonecas, e já um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora, é
energia. Nunca o esperei. Ora dê cá um beijo, emquanto não tenho quem me
peça explicações por os que lhe roubar.
E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces
tingidas pelo pejo e pela alegria.
Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo:
--São os penultimos.
--Os penultimos?--disse D. Victoria, rindo.--Ora essa! Então para quando
ficam os ultimos?
--Para quando a vir com a grinalda de noiva.
--O que eu nunca esperei é que fôsse a nossa Christe que désse o exemplo
á prima. Não tens vergonha, Lena--disse D. Dorothéa para a morgadinha,
em quem esta reflexão fez nascer um gesto de contrariedade, que trouxe
aos labios d'Angelo o primeiro sorriso d'aquella manhã.
O conselheiro e Henrique sorriram tambem.
--Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia--disse
Henrique com intenção.
--Não prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem sabe que sou
teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha coisas no mundo
que se devem decidir pelo coração sómente.
--E Deus me livre de o não consultar. Seria abjurar os meus proprios
actos.
--O _sómente_ é que veio de mais, filha--disse o
conselheiro.--Attende-se ao coração, embora. Mas só ao coração? Isso era
bom se vivessemos em um mundo de corações.
A chegada de novas personagens desviou a direcção da conversa e
modificou a scena.
Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se.
Henrique ficou, a pedido do conselheiro. O mestre Bento Pertunhas
entrava no numero dos recemchegados. O papel que alli desempenhava o
latinista era de suspeitosa natureza.
Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que
n'estas épocas não comia, não dormia, não respirava, por assim dizer,
senão eleições, e desenvolvia uma miraculosa actividade, correndo a
todos os pontos perigosos, conquistando votos, um a um, e lidando por
desenredar as meadas politicas dos adversarios e enredar as suas.
--Então que novas temos da campanha, meus senhores?--perguntou o
conselheiro, puxando cadeiras para os seus constituintes, e affectando
um tom de confiança que não sentia.
--Más, sr. conselheiro,--respondeu o Tapadas--muito más. Vejo isto muito
feio.
--Ora a coisa ainda não ha de ser tão má como diz.
--Nada, nada; não me agrada. V. ex.^a descuidou-se. Tenha paciencia, mas
eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas são. É preciso não as
desacompanhar. V. ex.^a devia vir ha mais tempo.
O Pertunhas acudiu:
--Deixe lá, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos decididos, e os
serviços que fez á terra...
--Ora com o que vmc.^ê vem!--replicou o Tapadas, com modo azedo.--Então
não sabe como é esta gente? Então não os ouve ahi berrar já contra as
estradas, quando até agora berravam por não as terem?
--Meia duzia de garotos--tornou o Pertunhas.
--Não, senhor, não é assim; não estejamos a enganar-nos. Os que não
dizem mal das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as
devem, e estamos na mesma. A coisa vae mal.
--Então decididamente o Seabra?...--perguntou o conselheiro.
--Esse é o chefe de todos elles--disse um merceeiro.--Á porta da minha
loja o ouvi eu estar a dizer ao cunhado do administrador que o traçado
da estrada era o peor que podia ser, que se gastava alli um dinheiro
louco, sem utilidade para o povo.
O conselheiro olhou para Henrique, dizendo:
--Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este
traçado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar? Admire agora o
velhaco.
Henrique sorriu, encolhendo os hombros.
--Arremedos do que se faz em terras maiores--disse elle.--Não extranho.
--E tem razão--respondeu o conselheiro.
--Mas, a final--continuou o conselheiro--o homem não tinha na freguezia
grande influencia. Como é que...?
--Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho
por ahi a toda a gente, e depois os padres estão bem com elle e de mal
com v. ex.^a.
--Mas como se lhe desenfreou tão de repente esse odio contra mim?
Deixámo-nos em janeiro nas melhores disposições um para com outro...
--Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao
ministro...--disse o Tapadas, com maneiras de quem não dera grande
importancia ao objecto a que se referia.
O conselheiro mudou logo de assumpto.
--E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande
commetti, para me terem esse odio?
--Dizem que v. ex.^a é mação--respondeu um lavrador.
--O diacho da questão do cemiterio...--acudiu o Tapadas.
--Isso acalmou já.
--Não acalmou, não senhor. O povo não está contente. É certo que lhe
passou a furia do principio, depois d'aquella historia com o Cancella,
mas...
--Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha
filha!
--É melhor não falar n'isso--aconselhou prudentemente o Tapadas.--O que
lá vae, lá vae. Os homens estão meio arrependidos, e até o missionario
perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi berrado que
foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette pena. Até me
dizem que por causa d'isso o padre já se retirou da aldeia. O que era
bom era vêr até se se falava ao Herodes; porque talvez elle possa agora
ainda arranjar alguns votos--accrescentou o Tapadas, disposto a
servir-se da dôr de um pae como arma eleitoral.
E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas
politicos. Discutiram-se os diversos processos de angariar as potencias
eleitoraes do circulo. Estudaram-se as ambições de cada uma;
ponderaram-se as exigencias feitas por uns, os desejos adivinhados em
outros, para este o emprego de um afilhado, áquelle o bom exito de uma
demanda, a outro o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma
hypotheca, e a alguns até nua e descaradamente o dinheiro. N'esta
empresa de subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o
conciliabulo, sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o
que estava fazendo alli.
Entre os discutidos foi o sr. Joãozinho das Perdizes um dos principaes.
--Então sempre é certo que me roeu a corda esse basbaque?--perguntou, ao
falar-se n'elle, o conselheiro.
--É dos mais assanhados--responderam-lhe.
--Mas quem diabo lhe virou a cabeça? Um velhaco a quem tantas vezes
tenho tirado de apuros!
--Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos
cemiterios...--disse o Pertunhas.
--Deixe lá, alli andou tambem um presente que lhe fez o brazileiro. O
morgado está muitas vezes com a corda na garganta--explicou malignamente
o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das demandas e da
politica, não achava explicações tão plausiveis como a corrupção.
--E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario--insistiu o
tendeiro.
--Ora adeus!--disse o Tapadas.--Bem me fio eu n'essas compaixões. Quem
não os conhecer...
--E que tem o tôlo com os negocios do herbanario?--insistiu o
conselheiro, de mau humor.
--Então? Deu-lhe para alli.
--Qual historia! Para mim é que vem com isso?!--teimava o sceptico
Tapadas.
--Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na
taberna com este senhor--disse o Pertunhas, designando Henrique.
--Sinto, sr. conselheiro--disse este--se de alguma maneira concorri...
--De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram. Á ultima
hora é capaz de mudar de tenção. E por causa d'elle é que ficou
despachado professor um pateta em vez de Augusto.
Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com
despeito:
--Mas até certo ponto foi bom para me desenganar a respeito do caracter
de certos homens. Ha vinganças tão torpes e mesquinhas, que nenhum
aggravo as justifica.
Henrique procurou defender Augusto; achou porém o conselheiro obstinado
na sua crença.
Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor da
intriga.
--Embora o fôsse--respondeu o conselheiro--mas que tem isso? O Seabra
não veio a minha casa, não suspeitava da existencia de tal carta. Alguem
houve que a leu primeiro e que lh'a foi entregar depois, e já é ser
muito indulgente suppôr que fôram só cegueiras de vingança e não a
sordidez da cubiça quem o moveu a essa infamia.
Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou
pela innocencia d'elle.
O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma altercação
travada entre Pertunhas e o Tapadas.
Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias
eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente:
--Olá, ó sr. Pertunhas, é melhor parolar menos e fazer coisa que se
veja; ou deixa só as obras para o seu amigo Seabra?
D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a altercação virulenta, que o
conselheiro teve de apaziguar.
A conferencia durou até ás horas do jantar.