Foi opinião do facultativo, que tratou de Henrique, que a vida d'este
correra sérios riscos durante a primeira semana, por não sei que
complicação que se lhe manifestou no decurso da molestia. Se se enganou
o prático, não nos compete a nós decidir; acceitemos-lhe a opinião, como
de legitima fonte, e não profundemos materia alheia ao nosso intento.
Ao fim dos oito dias, porém, começaram a manifestar-se melhoras
evidentes, e o proprio facultativo foi o primeiro a assegurar ás
senhoras, que sempre o vinham consultar á saida com anciosa curiosidade,
que «o homem estava salvo».
De facto, nos primeiros periodos da doença, Henrique caira, como já
dissémos, n'um d'aquelles estados de indifferença para tudo e para
todos, de que se não pode agourar nunca bem. Agora, porém, começava já a
manifestar attenção para os cuidados de que era objecto, e a agradecer,
com palavras de sincera gratidão, o tratamento affectuoso que recebia
n'aquella casa e especialmente os desvelos de Christina.
Esta fôra effectivamente sempre incançavel, solícita e carinhosa
enfermeira.
Os cuidados de que o rodeava, como a um irmão, absorviam-lhe todos os
instantes; prevêr-lhe os desejos, adivinhar-lhe as penas, procurar-lhe
allivio ás dores physicas ou moraes, era agora para ella a tarefa de
cada momento, a preoccupacão permanente de todos os seus pensamentos.
Henrique costumára-se a vêr mover-se no seu quarto aquella meiga e
delicada figura de mulher, creança de hontem, a ouvir-lhe o timbre suave
e ainda um pouco infantil da voz, a cruzar o olhar com aquelle olhar
brando que o fitava com sympathia e meiguice; já se não sentia bem,
longe d'ella, e a cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas
para a porta á espera de a vêr apparecer.
Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de
Christina sobre o animo do rebelde, que até alli fôra insensivel, e
exultava. Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da
cabeceira do enfermo, por uma razão analoga á que obriga os pintores a
deixar em meias tintas os accessorios de um quadro, para que a attenção
se fixe no objecto principal.
Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina
devia ser a figura principal.
N'este intento a morgadinha conservava ás visitas que vinha fazer a
Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante
familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os impulsos
da sua indole de mulher, e de mulher que tão bem comprehendia os deveres
da sua missão, ao mesmo tempo carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais
extranha que lhe era possivel a estes pequenos cuidados, que tão
irresistivel influencia exercem no coração do homem que experimenta a
ventura de ser objecto d'elles.
De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e
crescia á custa de Magdalena.
Esta percebia-o e não cabia em si de contente com a descoberta. É
necessario ser dotado de um grande fundo de generosidade, para que um
coração de mulher faça d'estas descobertas, com o intimo contentamento
que Magdalena sentia. É tão natural defeito a vaidade! Não se exprime o
prazer que Henrique experimentava a cada pequeno incidente da vida
domestica, que punha em relêvo o predominio de Christina.
Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres
placidos, de que tão pouco abundante era todo o seu passado.
Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e
a propria tia Dorothéa, reuniam-se no quarto do doente para tomarem o
chá. Não era, porém, a presença de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena,
que o consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena
circumstancia, que fará sorrir um homem de sensibilidade embotada,
emquanto o facto se não der com elle. Era que Christina, que em outra
qualquer occasião cedia sempre a Magdalena a direcção dos trabalhos
domesticos, alli dentro não resignava em ninguem essas funcções. Tomava
naturalmente as maneiras de dona de casa, e recebia a mãe, a prima e
todas as outras como visitas de intimidade, sim, mas em todo caso,
visitas.
Não se imaginam os encantos que Henrique achava áquillo. A elle proprio
parecia já que de facto o prendiam a Christina laços mais intimos, laços
mais de familia, do que ás outras senhoras. Era assim que qualquer
pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar a ella, como o faria a
uma irmã; emtanto que naturalmente custava-lhe a incommodar outra
qualquer pessoa, e não o fazia sem as desculpas e cumprimentos do
estylo, que para ella não usava já.
Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira
despotica por que o governava Christina, fazendo-o cumprir á risca as
dietas e as prescripções do facultativo, recusando-se obstinadamente a
deixal-o lêr, e até ralhando-lhe ás vezes com severidade quasi maternal:
apparencias de dureza, que occultavam thesouros de sensibilidade e de
affecto.
O pobre rapaz, que não conhecera familia, que nunca vira do seu leito de
doença, nas vezes que caira n'elle, o vulto suave e consolador de uma
mãe, de uma irmã ou de uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o
com essas entonações carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a
mão que nos estende a taça do mais amargo remedio; elle, que não sabia
ainda o que era sentir-se amparar a fronte, que escalda de febre, pelo
apoio de uma debil mão de mulher, a que o amor dá fôrças
extraordinarias, commovia-se até ás lagrimas agora, e quasi não pensava
sem tristeza na convalescença, que havia de o privar d'aquelles cuidados
affectuosos.
O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe
approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que todas
as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia dizer.
Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa.
Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que
se agitava no leito com a inquietação da febre, Christina, depois de lhe
dar a beber o calmante que lhe prescrevera o medico, perguntou-lhe, com
a mais adoravel candura:
--Não sabe rezar?
Henrique sorriu, respondendo:
--Julgo que desapprendi já as orações que minha mãe me ensinou.
Christina calou-se e ficou tristemente pensativa.
Aquella alma innocente perguntava a si mesma que consolação encontraria
nas provações da vida um espirito que não soubesse recolher-se na
oração.
Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe:
--Quer-me ensinar a rezar, Christina?
Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a
intenção d'aquellas palavras.
--Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda fôr capaz a minha
alma, as orações que me ensinar.
Christina respondeu-lhe gravemente:
--Reze, reze e verá como n'isso acha consolação. Vou emprestar-lhe o meu
livro de orações, quer?
--Por que me não ha de antes ensinar, como minha mãe o fazia?
Christina ouviu com seriedade a proposta.
E o certo é que um dia, em que Henrique passára peor, Magdalena ouviu,
na sala proxima, Christina, recitando uma singela prece á Virgem, e o
doente repetindo-a com docilidade de creança.
Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o
vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas
modificações a que todos os caracteres estão sujeitos, quando se dão a
actual-os dois elementos tão poderosos, como se davam em Henrique: a
doença, que quebra a inteireza das indoles mais rijas, e abre o coração
ás doces influencias; e a catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e
irresistivel de todas.
Não direi que fôsse com inteira fé que o doente orava; talvez que
houvesse mescla de sentimento profano no prazer suave que experimentava
ao orar assim. É certo, porém, que, desde então, frequentes vezes se lhe
desviavam os olhos para o pequeno crucifixo, que Christina trouxera do
seu quarto para a cabeceira do leito de Henrique.
Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio,
Henrique, obedecendo aos impulsos da sua gratidão, beijou-lhe,
commovido, a mão, que ella ia a retirar.
--Que faz?--disse Christina, córando e afastando-a.
--Deixe-me beijar a mão piedosa que me prendeu á vida, á vida que só
agora comecei a amar.
--Ora vamos--acudiu ella, com um meigo tom de reprehensão.
--Como não quer que a adore, Christina, depois de se fazer anjo para me
salvar? Não costuma rezar ao seu anjo da guarda?
--Repare que eu não tenho azas de anjo.
--Mas vôa mais alto ao céo, quando desce assim a velar por um pobre
doente como eu, que nenhuns titulos possue para lhe merecer essa
dedicação, pobre menina! Que vida tem sido a sua ha tantos dias?
--Nenhuns titulos! que diz?--tornou Christina, com um sorriso adoravel.
--Pois quaes?
--Então não somos primos? disse ella, jovialmente.
E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava
Henrique.
Estava já Henrique em convalescença, e o facultativo permittira-lhe
alguns passeios pela quinta, mas ainda não a sua transferencia para
Alvapenha. O logar favorito de Henrique n'estes passeios era á sombra de
umas laranjeiras, que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do
quarto de D. Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam
serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia tenção de
ler, e apoiando-se ao braço de Christina, que levava a costura para
junto d'elle, para lhe fazer companhia.