A MORGADINHA DOS CANNAVIAES

I

Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuino dezembro,

chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera,

subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa

vereda, que pretenciosamente gosava das honras de estrada, á falta de

competidora, em que melhor coubessem.

Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima provincia

começa já a resentir-se, senão ainda nos valles e planuras, nos visos

dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa

Traz-os-Montes.

O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario, melancolico, e,

n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a qualquer povoação importante, e

com nome em carta corographica, estendiam-se milhas de pouco

transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana raro se

encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do

rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do

que a absoluta solidão.

Não se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que

dissemos.

Um, o mais moço e pela apparencia o de mais grada posição social, era

transportado n'um pouco esculptural, mas possante muar, de inquietas

orelhas, musculos de marmore e articulações fieis; o outro seguia a pé,

ao lado d'elle, competindo, nas grandes passadas que devoravam o

caminho, com a quadrupedante alimaria, cujos brios, além d'isso,

excitava por estimulos menos brandos do que os da simples e nobre

emulação.

Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual processo de

transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e

fadigas da jornada não se pode dizer que fôsse o cavalleiro.

A postura de abatimento que lhe tomára o corpo, o olhar melancolico,

fito nas orelhas do macho, a indifferença, a taciturnidade ou o

manifesto mau humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem

natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silencio que apenas de

quando em quando interrompia com uma phrase curta mas energica, com uma

pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza

de gestos e desempenado jôgo de membros do pedestre, com a sua

torrencial verbosidade, a que não oppunha diques, e com as joviaes

cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quaes

se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbatico

companheiro.

Explica-se bem esta differença, dizendo que o cavalleiro era um elegante

rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um

almocreve de profissão.

O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto

que o grato e quasi voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planisa

qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que d'ella

guardamos depois, são coisas de incomparavelmente muito maiores

delicias, do que as impressões experimentadas no proprio momento de nos

vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e

mórmente nas classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas

impertinencias, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou

que a saudade consegue até dourar e poetisar a seu modo; esses

microscopicos martyrios, que de longe não avultam, actuam-nos, na

occasião, a ponto de nos inhabilitar para o gôso do que é realmente

bello. A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre

que se monta, o tempêro ou destempêro do heteróclito cozinhado com que

se enche o estomago, a lama que nos encrusta até os cabellos, o pó que

se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o

sol que nos congestiona o cerebro, tudo então nos desafina o espirito,

que traziamos na tensão necessaria para vibrar perante as maravilhas da

natureza ou da arte.

Só pelo preço de muitas jornadas se compra o habito de ficar impassivel

no meio dos episodios d'estas pequenas odyssêas, que atormentam e

exhaurem o animo dos Ulysses novatos; mas ai, quando se adquire esse

habito, tambem nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as

commoções do bello.

Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos enthusiasmo; analysa-se

mais e melhor; porém a propria analyse é a prova de que se sente menos.

Onde domina o sentimento e a imaginação, mal teem cabida a paciencia e

phleúgma, necessarias aos processos analyticos. O homem positivo e frio

recolhe de qualquer excursão á patria com a carteira cheia de

apontamentos; o enthusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos,

sentiu mais.

Mas Henrique de Souzellas--que era este o nome do cavalleiro--fôra

educado e passado da infancia á plena juventude, em Lisboa,

levantando-se por avançada manhã, frequentando o theatro, o Gremio, as

camaras, parolando no Chiado ou no Rocio, e indo alguns dias no anno a

Cintra, ou qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da

capital.

Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão, fôra esta jornada,

em que o encontramos, a primeira levada a effeito, e logo sob tão maus

auspicios, que era para suffocar-lhe á nascença os instinctos de

_touriste_, se porventura quizessem despertar n'elle.

Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante, unico vehiculo

accommodado aos caminhos por que passára. E então que dois dias!

D'aquelles, durante os quaes o céo, uniformemente pardo, parece

desfazer-se em agua, e a chuva cae sem interrupção e com uma teimosia e

constancia impacientadoras; d'aquelles em que a terra saciada rejeita já

a agua que recebe, a qual escorre nos declives, transborda dos algares,

e encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as lezirias;

em que as lufadas do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente

despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam aos pinheiraes a voz dos

mares; em que os campos se mostram desertos, a noite se anticipa, e tão

densas nuvens cobrem o firmamento, que parece tomar-nos a persuasão de

que nunca mais o veremos com as suas formosas vestes de azul.

Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz podia deixar de ir

cabisbaixo, triste e dando ao diabo a viagem que commettera.

E para quê e por quê a commettera elle assim?

Em poucas palavras procuraremos satisfazer a natural interrogação, que é

de suppôr nos dirigissem os leitores, se podessem fazel-o.

Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos vinte e sete annos,

vivendo, como dissémos, aquella enlanguescedora vida da capital, e

dividindo as attenções do espirito pela politica, pela litteratura e

pelos destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava habilitado a

fazer circumstanciada chronica, que abrangesse os ultimos dez annos.

Não concebia vida fóra d'aquillo.

O mundo para elle era Lisboa. Não sentia desejos, nem imaginava

possibilidade de visitar a Europa, quanto mais a provincia; o que seria

maior façanha.

Não que lhe faltassem recursos para realisar qualquer projecto d'esta

natureza.

Henrique herdára dos paes rendimentos bastantes, dos quaes vivia

folgadamente e sem precisar de sacrificar nos altares da economia.

Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A poucos ia tão direita a

apostrophe de Garrett aos seus «queridos alfacinhas», a qual se pode ler

no livro setimo das _Viagens_.

De certo tempo em deante começou, porém, a incommodal-o uma especie de

vácuo interior, um mal-estar, doença infallivel nos celibatarios sem

familia, quando chegam á idade a que chegou Henrique, e passam a vida

como elle.

Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos, bocejava nas camaras,

bocejava no Gremio, bocejava no Suisso, no Chiado e nos circulos dos

seus amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o insupportavel de

insipidez; porque poucas coisas ha que mais perturbem o espirito, do que

o espectaculo d'um homem que boceja ou dorme, onde e quando os outros

forcejam por divertir-se.

O demonio da hypocondria, esse demonio negro e lugubre, implacavel

verdugo dos ociosos e egoistas, o qual havia muito o espiava,

apoderou-se d'elle em corpo e alma.

Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito preoccupado com a sua

pessoa, imaginando-se victima de mil e uma molestias, as mais

disparatadas e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente predestinado

para a apoplexia e para a phtisica, para o cancro e para a alienação,

para a cegueira e para as aneurismas, tremendo á leitura do obituario da

semana, folheando livros de medicina, construindo theorias

physiologicas, consultando todos os medicos da capital, experimentando

todo o arsenal pharmaceutico e todos os annuncios, em parangona, da

quarta pagina dos periodicos, e elevando as crenças do seu espirito

amedrontado até ás mysteriosas e nevoentas alturas do credo

homoepathico! Ao mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva

degeneração de gôsto; não podia ler uma pagina dos livros que lhe eram

predilectos; desfazia-se sem desgôsto de quadros, móveis, estatuas e

objectos curiosos que colleccionára com paixão; detestava a musica, o

theatro, n'uma palavra, tornára-se um dos maiores flagellos, que podem

pesar sobre a humanidade e que muito em especial causam o supplicio dos

medicos que os aturam.

Foram estes os que, em parte de boa fé, em parte com o desculpavel

intuito de sacudirem de si tal pesadelo, lhe deram um dia de conselho,

que fôsse viajar.

Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia n'esta palavra: viajar.

Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias apopleticas? E as

suas disposições para tantas outras enfermidades? Pois um homem pode lá

viajar com esta bagagem pathologica?

E se lhe désse alguma coisa pelo caminho? Recusou com mau humor a

receita, e ficou na capital.

Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as consultas, e os medicos,

como se para isso apostados, a insistirem em que saisse de Lisboa.

--O senhor não tem nada--diziam alguns.

Henrique perdia a cabeça, ao ouvir isto.

Prolongou-se este estado de coisas, até que um dia o hypocondriaco rapaz

persuadiu-se muito sériamente de que estava chegada a sua hora extrema.

Um medico velho e grave, que por essa occasião o escutou, em vez de se

rir d'elle, disse-lhe, muito sisudo:

--Homem! O senhor está realmente mal. Esse estado de imaginação não pode

prolongar-se mais tempo, sem romper por ahi em alguma doença que o

sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto é tempo.

Quebre por todos os habitos, e escolha entre as fortes impressões de uma

grande capital, como Paris ou Londres, ou as mornas sensações de um

completo viver de aldeia. Os revulsivos e os emollientes curam por meios

oppostos ás vezes as mesmas molestias.

Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse Henrique um presente de

fructa de uma sua tia, santa creatura que elle, desde creança, não

tornára a vêr.

Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho onde na idade de cinco

annos Henrique passára alguns mezes na companhia de sua mãe.

Aquelle presente frugal recordára-lhe esse tempo, já meio apagado na

memoria, e conseguira fazer-lhe saudades. D'ahi uns vagos desejos de

voltar a vêr aquelles sitios.

Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique nomeou-lhe a aldeia, em

que esta sua parenta vivia.

O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para que fôsse abraçada.

O sobrinho escreveu então á tia, e, passados dias, punha-se a caminho.

Mil vezes se arrependeu, depois da resolução tomada; mil vezes mandou ao

diabo o conselho do medico e phantasiou horriveis exacerbações em todos

os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, feita ainda segundo os

velhos processos, com malas, coldres e pistolas, botas de montar e

almocreve, ampliava-lh'os a proporções estupendas, o prisma da

hypocondria.

No momento em que nos associámos ao cavalleiro, caira elle n'um

desalento profundo, n'um quasi convencimento de proxima anniquilação, do

qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas

eloquentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguia arrancar.

Havia mais de uma hora que estavam luctando com as difficuldades da

ascensão do ingreme e escabroso caminho, que torneava o monte como as

voltas de uma helice.

Era este monte uma como irregular pyramide, levantada no meio da

amplissima bacia, onde tinha assento a aldeia que Henrique demandava;

por isso o estafado rapaz não podia atinar a razão de conveniencia pela

qual, tendo de procurar o valle, assim porfiavam em descrever as

fastidiosas curvas da quasi interminavel espiral, que os approximava do

vertice.

Não se concebe uma estrada menos logica do que aquella.

No nosso paiz são porém frequentes estas faltas de logica nas estradas.

O almocreve havia-se separado por momentos de Henrique com o fim de

encurtar distancias, seguindo por um atalho só franqueavel a gente de

pé.

Henrique nem desviára os olhos para o fundo valle, que se abria á

esquerda, velado pela densa nevoa d'aquella atmosphera saturada de

humidade, nem prestava attenção á agreste e selvatica paizagem, do lado

direito, toda encrespada de pinheiraes nascentes e de espinhosas

tojeiras.

Os olhos procuravam, em anciosa interrogação, o mais alto da flexuosa

ladeira que subia, no sitio em que ella, formando um cotovello, furtava

á vista o seguimento ulterior.

N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe ao viajante, cançado e

aborrecido, que pela primeira vez as trilha, uma promettedora esperança.

--D'alli verei talvez o termo do caminho--pensa elle.

Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperança lhe foge!

Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar á almejada inflexão e quando

esperava principiar emfim a descer para o valle e approximar-se da

aldeia, viu que o macho, pratico no caminho, e á disposição de cujo

instincto elle collocára a razão, dobrava ainda para a direita e

continuava a contornar e a subir o monte. A espiral não terminára ainda.

Henrique olhou em torno de si, profundou a vista nas sombras do valle,

nada pôde descobrir, que lhe promettesse a aldeia procurada. Muita

arvore, povoação nenhuma!

Teve um paroxismo de impaciencia!

--Isto não é estrada!--exclamou elle, exasperado.--São os nove circulos

do Inferno de Dante virados para fóra.

E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva a augmentar, a calar

através do grosso gabão de jornada que Henrique vestia! O desgraçado

vergava sob o pêso da sua consternação.

Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando com fleugma

desesperadora.

--Com um milhão de demonios!--bradou-lhe Henrique, não podendo

conter-se.--Essa maldicta terra foge deante de nós, homem!

--Estamos quasi lá, meu patrão. É alli logo adeante--respondeu o

almocreve, sem se alterar. Vê aquella capellinha branca em cima

d'aquelle monte? pois fica já para além da povoação. É a ermida da

Senhora da Saude. É um instante.

--Desde as duas horas da tarde que me dizes que é um instante, e eu

estou acreditando que cada vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica

alli em baixo, para que diabo subimos nós? Ás voltas que temos dado,

estou persuadido de que vamos tão adeantados como quando principiámos a

subir.

--Pois olha que dúvida! Se se fôsse a direito lá por baixo, era mais

perto, mas...

--Mas foi então pelo prazer de trepar, que me trouxeste por aqui?

--Não é isso, patrão; mas bem vê v. s.^a que o caminho lá por baixo é

todo cortado por quintas e campos, e é preciso dar taes voltas, que a

final fica mais longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá ideia

de como estão os riachos por lá! Só o esteiro do almargeal é para uma

pessoa se afogar. Mas tenha o patrão paciencia, que pouco falta agora.

Vê v. s.^a aquelle tronco de sobreiro que parece, visto d'aqui, um frade

de capuz?

--É alli?

--Não, senhor--disse o homem, rindo;--mas vêem-se d'aquelle sitio as

primeiras casas da aldeia.

--As primeiras!--murmurou Henrique em tom lastimoso; e penderam-lhe os

braços com mais desalento e augmentou-se-lhe a flexão da columna

vertebral.

O almocreve proseguiu, para o distrair:

--Tenho passado por estes sitios muita vez com neve de se cortar á faca

e de noite. E olhe que nunca tive mêdo. Qual historia! Mêdo? Isso sim! E

vamos lá! o sitio não é dos mais seguros. Vê o senhor essa cruz preta,

ahi á sua mão direita, pregada no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo

mataram um homem, que vinha com uns centos de mil réis da feira franca

de Vizeu, fez pelo S. Miguel um anno. E ainda hoje se está para saber

quem foi. N'um ermo d'estes só os santos podem valer a uma creatura.

Henrique sentiu-se pouco á vontade com as elucidações do cicerone; olhou

para elle com desconfiança e quasi julgou vêr moverem-se sombras

suspeitas por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou nos coldres os

cabos das pistolas, e approximou as esporas dos ilhaes da cavalgadura.

Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de sobreiro, de junto do

qual deviam avistar a aldeia.

Henrique olhou; viu lá no fundo do valle muitas arvores, mas continuou a

não enxergar vestigios de casas.

--Onde está a aldeia que dizias, homem?

--D'ahi já se vê--disse o almocreve, correndo para alcançar o

cavalleiro.--Não vê v. s.^a, além, além, aquelles pinheiraes mansos?

--Vejo, sim.

--Pois já são da freguezia. Se fôsse mais claro havia de avistar a casa

do guarda. É a tapada dos Bajuncos, que pertence á morgadinha dos

Cannaviaes.

Henrique não respondeu. A distancia a que ficava ainda a tal tapada

fel-o suspirar.

Emfim, passados minutos, principiaram a descer para o valle, costeando

sempre obliquamente o monte.

Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco,

que se divisava ao longe por entre a rama do arvoredo, mas já

indistinctamente, em virtude do adeantado da hora e da intensidade da

neblina.

--Lá está a capella da freguezia--dizia o homem.

--Alli? É um seculo para lá chegar!

--Qual! Estamos aqui, estamos lá. Eh, russo!

E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas do macho, que accelerou o

passo.

O homem continuou:

--Até se fôsse mais dia podia-se vêr d'aqui a pedra, que está no

cemiterio novo, e que é da familia da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a

mãe d'ella a primeira pessoa que lá se enterrou, e até hoje mais

ninguem. O povo, como o outro que diz, tem sua aquella em se enterrar

fóra da egreja. Elle, a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do

costume... mas emfim a gente foi creada n'isto... Mas a pedra é coisa

asseada. É como as que estão na cidade.

Henrique, transido de frio, quebrado de desalento, já nem attendia ao

que o homem ia dizendo.

Cerrára-se a noite de todo, quando attingiram emfim o valle. O terreno

mudava agora de aspecto. Appareciam já, aqui e alli, alguns indicios de

cultura, annunciando a proximidade de um povoado. Os caminhos

estreitavam, internando-se no valle, e seguiam tortuosamente por entre

muros tôscos de pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva, que

não cessára de cair, transformára estes caminhos, onde o declive não

dava escoamento ás aguas, em charcos e tremedaes.

Novos indicios da vizinhança da aldeia iam successivamente apparecendo.

Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção do curral, guiados por

uma creança de palhoça e pernas nuas, os quaes paravam a olhar com

aquella expressão de composta curiosidade, que lhes é peculiar, para o

recem-chegado visitante da aldeia. Não faltou receio a Henrique, que

suppôz a estes bonacheirões quadrupedes a indole travêssa e bravia dos

touros, a cuja chegada tantas vezes fôra assistir em Lisboa.

Mais adeante passava por elles uma fileira de carros a vergarem sob o

pêso do matto e atroando os ares com o chiar incómmodo das rodas sob o

eixo, incómmodo para os ouvidos cidadãos de Henrique, cujos nervos se

irritavam com elle, mas apparentemente agradabilissimo para os

conductores aldeãos, que ou dormiam ou cantavam com aquelle

acompanhamento.

N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe já algumas casas de tectos de

colmo, de cujas innumeras fendas saía um fumo espêsso, que a atmosphera

humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado de Henrique

de Souzellas o cheiro resinoso e activo das pinhas e das agulhas sêccas

dos pinheiros, queimadas no lar, produziam sensações muito longe de

serem agradaveis.

Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia que já lhe tomára o

animo.

--Tantas fadigas para este resultado!--pensava elle.--Sair de Lisboa

para me enterrar n'esta aldeia escura e suja! Enganou-se o parvo do

doutor. Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro por certo aqui. Deus

lhe perdôe o homicidio.

Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual mais tortuoso e incómmodo de

trilhar; as curvas complicavam-se como as ruas de um labyrintho. Aqui

subiam; desciam mais além, para subir outra vez. Umas vezes caminhavam

em terreno descoberto, outras penetravam em tão estreitas quelhas,

apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas de ramos

entrelaçados, que só o instincto do animal podia evitar-lhes os perigos.

Ora soavam as patas do macho como em chão lageado, ora amortecia-lhes o

som um terreno, que a chuva encharcava, e a agua lamacenta vinha

salpicar o rosto do cavalleiro.

As casas eram já frequentes, e algumas de menos humilde apparencia.

Os cães, que, pelo timbre de voz, mostravam ser gigantes, ladravam

raivosos por dentro dos portões ou de sobre os muros das quintas, ao

ouvirem os passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que falava ou

cantava sempre.

Outras vezes era um inharmonico grunhir suino que accusava a vizinhança

das córtes ou, partindo de um casebre rustico, o chorar de creanças,

entremeado com os ralhos das mães e com as pragas dos chefes de familia.

O almocreve não desistira das suas funcções de cicerone, que sómente

interrompia para saudar alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam.

--Estes campos e lameiros--ia dizendo--são da morgadinha dos Cannaviaes;

andam arrendados a um compadre meu.

E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente allumiada por

uma candeia:

--Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada?

--Ai, é vossemecê, sr. José? Então não entra?--respondia-lhe uma voz

feminina.

--Agora, não, ámanhã.

E proseguiu para Henrique:

--É uma santa creatura. A morgadinha...

Henrique interrompeu-o:

--Onde fica a final, a quinta de Alvapenha? onde mora minha tia? Não me

dirás?

--É logo ahi adeante, meu patrão. Em nós passando umas casas amarellas

que ha ahi... é logo ao pé. Essas casas que digo são tambem da

morgadinha, mas ha uma demanda pelos modos.

O almocreve falava pela decima ou undecima vez na morgadinha. Até esta

periodica referencia a uma personagem que elle não conhecia,

impacientava Henrique de Souzellas.

E continuavam a succeder-se em enredado dedalo as quelhas e azinhagas, a

ponto de fazer perder toda a orientação. Umas vezes ouviam o ruido das

levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado; adeante, transpunham

uma ponte rustica, escutando das profundezas do despenhadeiro, que ella

atravessava, o fragor das cascatas nos açudes ou o ranger das rodas dos

moinhos.

Henrique a cada momento imaginava cair n'um abysmo.

--São os açudes do Casal--dizia o almocreve berrando para se fazer ouvir

através do estrondo da torrente.--Pertencem á morgadinha dos Cannaviaes.

Henrique nem alento já tinha para falar.

Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia tão cerrada lhe

envolveu o coração a nuvem de melancolia, que cedeu sem resistencia ao

crescente torpor que o invadia, como o que desespera da vida e da

salvação.

Mais adeante, excitou-lhe ainda as attenções uma toada plangente,

melancolica, monotona, que exacerbou estes effeitos.

--É uma fiada em casa do Tapadas--disse o almocreve.--É um dos maiores

amigos do pae da morgadinha. Vê aquelle muro acolá?

--Eu não vejo nada. Deixa-me!

--Pois pertence já á quinta dos Cannaviaes, que a morgadinha...

--Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha--exclamou Henrique.

Era evidente emfim que estavam em pleno coração do povoado. As casas

appareciam mais juntas. De algumas saía um surdo rumor de vozes que

tinha o que quer que era de lugubre. Era a corôa rezada em familia a

Nossa Senhora. A voz grave do lavrador casava-se com a voz quebrada e

trémula do avô, com a voz sonora e fresca da mãe, e a juvenil das

raparigas e creanças n'aquelle piedoso côro, produzindo um effeito que

acabou por levar ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante.

--Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha, que não a acabamos de

attingir?

O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu uma chicotada sibilante

junto ás orelhas do muar, o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira

orlada de arvores, volveu á direita e, á voz do almocreve, estacou em

frente de um portão de quinta resguardado por um telheiro rustico.

--É aqui--disse o guia.

--Até que emfim!--exclamou Henrique, suspirando. Suspiro de conforto e

de tristeza ao mesmo tempo, como o do homem cançado da vida, quando

antevê o repouso do tumulo. Em Henrique era intima a convicção de que a

quinta de Alvapenha lhe havia de servir de cemiterio.

A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia) · 第 13 / 66 题