CH. RENOUVIER.

Toda a philosophia procura a explicação do universo e n’esse intento

precisa achar um elemento irreductivel, necessario, que nos certifique

da existencia da harmonia entre o mundo subjectivo e o objectivo. Para

o monismo materialista este elemento é a materia, que abrange toda

a extensão das experiencias realisadas. É claro que tal elemento se

considera absoluto porque d’outro modo fôra reductivel, o que seria

contradictorio. O materialismo arvora-se pois n’uma das concepções

metaphysicas mais antigas e mais grosseiras. Confunde todos os seres

em um só, a materia, mas sobre a sua natureza nada nos diz; limita-se

a affirmar com o vulgo que é o que se vê, o que se apalpa, o que cae

debaixo dos sentidos. O typo do conhecimento para o materialista é

a percepção externa.--A experiencia verifica que não ha creação nem

desapparecimento da materia, que ha só transformação de phenomenos.

A substancia permanente é activa, tem as suas leis; é uma força. A

materia identifica-se com a força. As manifestações d’esta força

constituem todos os phenomenos do universo.--A contradicção é

flagrante, como hade conhecer a idéa de força uma philosophia, que tem

por unica origem de conhecimentos os sentidos?

Pela observação dos factos physicos, em que é obvio o principio da

conservação da força, o materialista generalisou este principio a toda

a forma de existencia. Ora exactamente o que resta provar é se toda a

cathegoria de existencia se reduz a uma força physica.

Metaphysica monista muito mais elevada, mais concludente e mais logica

é o idealismo. Spencer, mecanista mais subtil que os defensores do

materialismo vulgar, acceita a correlação entre os objectos e a

representação psychica, mas entende que esta correlação não pode

dar-nos senão symbolos da realidade, isto é, imagens imperfeitas das

cousas. Na sua theoria do symbolismo Spencer aproxima-se do idealismo,

posto que se mantenha mecanista. Entretanto e conseguintemente a

doutrina que elle perfilha merece o qualificativo de determinista;

porque a evolução, como necessaria, torna-se independente da liberdade.

Todavia, quanto á evolução sociologica o sabio inglez tenta provar que

a liberdade individual é compativel com a necessidade historica. N’este

ponto apropinqua-se do _neocriticismo_.

A evolução universal mecanista, não a teleologica, destroe o livre

arbitrio. É este um dos caracteres que a separam da lei do progresso.

Segundo Proudhon e segundo os philosophos classicos o progresso não

existe sem a liberdade. N’esta doutrina a aspiração crescente da

especie humana para uma maior elevação intellectual e moral, determina

a desenvolução social, objecto da historia, a qual é a realisação

progressiva da liberdade na humanidade. Quem governa o homem é a lei

do dever, augusta divisa, impressa na consciencia; quem o dirige é o

ideal, concepção intellectual, ligada pelo sentimento á acção imperiosa

e decisiva da vontade.

Os deterministas modernos ligam-se á metaphysica fatalista e á

theologia, identificando como Leibnitz a força com a propria

existencia e considerando as substancias como outras tantas forças

cuja acção se exerce unica e precisamente no meio dos proprios entes

a que pertencem. A vida psychica segundo o systema da _harmonia

prestabelecida_ não passa d’uma monada isolada em si mesma, no seio da

qual se fazem reflectir todas as modalidades da existencia.

O determinismo moderno prende-se com a metaphysica e com o fatalismo

pagão e mussulmano, mas colloca-se ao lado da doutrina theologica da

predestinação e do dogma da graça invencivel. O determinista está ao

lado de Luthero contra Erasmo, de Calvino contra Servet, da tyrannia

contra a independencia, da fatalidade contra a liberdade. Da crença no

destino cego dos deuses passou o fatalismo para a crença nas forças

cegas da natureza.

O fim supremo da metaphysica consiste em achar a origem unica da

torrente eterna dos factos, do mar infinito das cousas, o que é

inattingivel nos limites da sciencia positiva.

Os physicos e os naturalistas concebem um ser substancial ou phenomenal

que não pode subtrahir-se ao determinismo da mecanica. Extranhos pela

maior parte aos processos de observação psychologica, não penetram

na essencia da força, medem-na pelas suas manifestações. Na volição

consideram os motivos como forças e não como condições e influencias, o

que os leva em consequencia do seu monismo á negação da liberdade.

A força é um dos termos mais metaphysicos, mais mysteriosos e mais

difficilmente comprehensiveis da linguagem humana. Por ella exprimem

a idéa do absoluto materialistas e positivistas. Na nomenclatura das

escolas metaphysicas do materialismo esta idea é o principio universal

de toda a existencia. Alguns moralistas e sociologos sustentam, que

tanto nos individuos como nos povos, a força é a expressão do bem e

a fraqueza a companheira do mal. Nos individuos o excesso de força

na lucta pode gerar a crueldade; nos povos gera ás vezes a perfidia.

Segundo uma philosophia theologicamente fatalista a força será uma

manifestação da vontade divina e resistir lhe fôra para os seus crentes

uma verdadeira impiedade. No mundo ethico, de uma phase já progressiva,

a força é filha de Themis, encarnação da justiça e irmã da deusa da

temperança. No mundo social rudimentar a força considera-se a primeira

virtude do chefe; estabelece-se, como caracteristica ainda hoje, que

a força e o costume regulavam a sociedade antiga e que as leis e os

principios regulam a sociedade moderna, mas na essencia este progresso

resulta sempre da interpretação multiforme da idea de força. Na região

do amor o aguilhão genesico desperta o culto da força e do amor. Nas

cosmogonias primitivas a força identifica-se com a virtude; outras

vezes toma a forma dualista que n’uns phenomenos symbolisa o bem e

n’outros o mal. A vida theogonica das primitivas religiões encerra-se

n’esta formidavel lucta.

Em toda a evolução religiosa a força recebeu culto da alma humana,

diversamente symbolisado no feiticismo, no pantheismo, no polytheismo e

no proprio monothesmo que faz da unidade a sua expressão.

O systema do determinismo mecanista fundado na necessidade continua do

movimento allia-se por um lado ao materialismo de Democrito e de Th.

Hobbes, por outro ao pantheismo e idealismo, de Spinosa e de Leibnitz.

Como se vê, esta concepção determinista é um dos aspectos menos

elevados da metaphysica.

Causa grande extranheza que penologos e philosophos positivistas

alcunhem desdenhosamente de metaphysica a doutrina do _livre arbitrio_,

quando esta doutrina é na philosophia moderna defendida pelos geniaes

demolidores da metaphysica. Quem, fazendo a analyse profunda do

entendimento humano, examinando com raciocinio subtil as condições

do conhecimento, vendo por todos os aspectos a idea do absoluto,

demonstrou a impossibilidade da metaphysica como sciencia? Foram Kant,

W. Hamilton e Mansel, exactamente os grandes pensadores que, ao lado

d’outros, defendem como realidade positiva e evidente a iniciativa

propria ou livre arbitrio. Quaes são pois, os metaphysico-determinista

por herança e por systema? São Augusto Comte e os criminalistas

modernos. Dizemos por herança porque seguem evolutivamente os

metaphysicos fatalistas, e por systema, porque são uns dogmatistas, que

affirmam com o empirismo a fé no conhecimento objectivo das cousas sem

fazerem previamente a analyse logica das condições possiveis do saber,

dos seus lemites e do seu alcance. A esta analyse procederam Kant,

o maior pensador dos tempos modernos, e os dois maiores logicos da

Inglaterra W. Hamilton e o illustre Mansel.

Augusto Comte affirmando que a metaphysica é uma chimera sem o

demonstrar ontologica, nem logicamente, limitando-se a affirmar que os

systemas existentes são contradictorios, o que não constitue argumento

valioso, porque ha possibilidade de chegarem a um accordo, não póde

de modo nenhum conceder-se-lhe as honras de eversor da metaphysica.

Além de tudo faz liga intima com o materialismo, systema metaphysico,

construindo uma ontologia _a posteriori_, baseada sobre as sciencias

particulares. Não offerece duvida que o ensaio de synthese e de

explicação universal das cousas tentado por Comte é uma metaphysica

empirista tão illegitima em face da critica, como qualquer metaphysica

racional. O verdadeiro e intrepido demolidor da metaphysica foi Manuel

Kant, como diz Alfredo Weber.

Kant demonstrou pela analyse da intelligencia na critica da _razão

pura_ a impossibilidade de conhecer nada absolutamente e fundou a

doutrina da relatividade do conhecimento ou relativismo subjectivo,

hoje amplamente desenvolvida pelos logicos inglezes, e aproveitada pelo

positivismo.

A philosophia _neo kantiana_ defendendo a liberdade e a personalidade

proclama todavia a unidade harmonica e systematica do mundo cosmico

e da natureza moral. Esta doutrina tem sido avivada na Allemanha por

Eugenio Dühring, Ernesto Laas, Kirchmann, Alberto Lange, em França por

Ch. Renouvier, Scherer, Lachelier, Liard, etc.

Ainda que Comte com o seu systema não fizesse mais, como sustentam

alguns philosophos, do que um dogmatismo metaphysico, renunciando á

critica, a nossa admiração pelo eminente pensador mantem-se intemerata

e firme. Não deverão prestar-lhe a mesma homenagem os criminalistas

contemporaneos, porque suppõem a metaphysica um monstro horrendo.

Nós obedecendo á doutrina do _neo-criticismo_ julgamos as concepções

metaphysicas extranhas ao dominio restricto da sciencia positiva,

mas entendemos que a especulação na sua esphera de actividade se faz

tão legitima, tão interessante e tão digna de ser cultivada como a

concepção esthetica ou como a concepção religiosa. Não temos por ella

nem odio, nem desprezo; pelo contrario, temos até veneração. A sciencia

não deve fechar-se nos preconceitos de systema, procura a verdade pelos

caminhos onde póde encontra-la.

É á psychologia experimental e á observação positiva da consciencia,

que os philosophos partidarios do livre arbitrio, vão procurar a idea

da liberdade e os argumentos para a sua demonstração, em quanto os

deterministas negam a liberdade, subordinando todos os phenomenos

noologicos a systemas metaphysicos, quer da cosmologia racional,

isto é, da materia, do movimento ou da força; quer da metaphysica

do absoluto, ou da theologia racional, como muitos theologos tambem

pensam. A doutrina da liberdade é scientifica, emquanto a concepção

fatalista ou determinista é metaphysica.[13]

Os escriptores criminalistas portuguezes confundem a liberdade absoluta

com o livre arbitrio, a liberdade de indifferença com a verdadeira

liberdade moral. Escreve o sr. Julio de Mattos:

«Mas, para que as conclusões da nova escóla penetrem nos espiritos e

fructifiquem praticamente, é indispensavel desfazer de uma vez para

sempre a miragem da absoluta liberdade psychologica, diffundindo

largamente a doutrina determinista. O livre arbitrio--eis o inimigo!

Destruil-o, espurgal-o da consciencia, eliminal-o da educação, banil-o

dos diccionarios, enterral-o fundo na historia dos erros humanos e

pôr-lhe em cima uma lousa de esquecimento bem pezada e bem impenetravel

é a primeira de todas as tarefas a cumprir para assegurar o exito de

qualquer doutrina séria nos dominios assim da psychologia como das

sciencias sociaes. Ora, o auctor tocou muito ao de leve este ponto

capital sobre que, a meu vêr, deveria ter-se demorado, pondo em

evidencia que a _noção da responsabilidade não se comprehende fóra da

doutrina determinista_ e que a pena, applicada como meio de correcção,

suppõe da parte do _criminoso a possibilidade de obedecer a motivos

d’ordem moral, o que é contrario á idéa do livre arbitro_. A punição,

como meio correctivo, só pode applicar se ao delinquente fortuito ou de

occasião; imposta aos criminosos alienados é um não-senso.»

N’este trecho faz-se necessario distinguir duas partes: a primeira é

a declamação trivial contra o livre arbitrio, declamação impropria do

talento do sr. Julio de Mattos. A doutrina do livre arbitrio em nenhum

modo póde prejudicar a constituição da psychologia ou das sciencias

sociaes. Suppondo, sem todavia o conceder, que esta doutrina seja uma

ficção ou miragem, ainda assim ella torna-se inoffensiva sob o ponto de

vista de que se trata, porque a conciliação da liberdade individual com

a necessidade historica ou social é um facto demonstrado por diversos

psychologos e sociologos. A segunda parte é a confusão inacceitavel da

liberdade de indifferença, a que o sr. Julio de Mattos chama liberdade

absoluta, com a doutrina do livre arbitrio, ou de posse de iniciativa

propria e antecedida por motivos. Hoje nenhum partidario do livre

arbitrio defende a liberdade de indifferença, porque essa doutrina

importa a negação da propria liberdade. Se tal concepção philosophica

tem partidarios, esses devem ser os fatalistas ou deterministas, unicos

a quem aproveita.

O que affirma a liberdade da indifferença? que a vontade actua sem

motivos. Esta doutrina partilhada por Bossuet, Fenelon, Reid e

Clarke, não conta proselytos nas escolas actuaes. O acto sem movel,

sem causa antecedente a que se ligue, não é uma resolução, é um

phenomeno reflexo ou instinctivo. Os que defendem a liberdade na

psychologia moderna, sustentam que os motivos dirigem em todos os

casos a vontade, que actuam em todo o phenomeno volitivo, mas não o

determinam; a determinação em todas as resoluções depende da autonomia

da consciencia. A intelligencia peza os moveis, analysa os motivos, mas

só a vontade tem o poder inviolavel e discricionario de resolver-se.

O determinista affirma, pelo contrario, que os motivos imperam

fatalmente sobre a vontade, sendo o homem o escravo do motivo mais

forte pelo que a resolução não existe. Logo o homem não é livre quando

obedece ao dever e a bondade das acções conseguintemente reduz-se a

um producto sem valor moral. N’esta hypothese a justiça arvora-se em

vingança social.

O sr. Julio de Mattos diz que «a noção de responsabilidade não

se comprehende fóra da doutrina determinista» mas a verdade está

exactamente no contrario. Para os deterministas a vontade é o effeito

da causalidade personificada no motivo; por tanto o homem aqui não

passa do joguete de forças extranhas.

Na doutrina do livre arbitrio, a vontade constitue a causa unica das

nossas acções. Os motivos são apenas a condição para o exercicio da

causalidade.

O mais simples e o mais commodo para os penologos revolucionarios,

nas questões da base do direito de punir é julgar _a priori_ todos

os delinquentes irresponsaveis em nome da negação do livre arbitrio,

como diz com superior ironia e admiravel bom senso o dr. A. Riant[14]

que possue além da auctoridade do seu talento e do seu saber, a de

ser ao mesmo tempo um medico eminente e um jurisconsulto distincto.

Parece extraordinario que a escola determinista, que deve acceitar como

consequencia, logicamente necessaria, a irresponsabilidade, queira

estabelecer cathegorias de irresponsaveis.

O principio unico em que pode assentar a responsabilidade, moralidade e

a justiça é o livre arbitrio; regeitada a doutrina do livre arbitrio ou

da liberdade, todos estes sentimentos e todas estas ideas desapparecem,

e subsiste, como unica base do direito repressivo não a justiça, mas

a defeza social. Taes theorias já são um elemento perturbador na

administração da justiça, porque o advogado rabula, sabendo que os

codigos assentam sobre a responsabilidade, aproveita qualquer tara

psychopatica do reu para lhe negar a imputabilidade.

No prefacio escripto por Ch. Letourneau, na versão franceza do livro de

Lombroso _O homem delinquente_, lê-se o seguinte:

«Os nossos criminalistas _enragés_, os nossos legisladores

inexperientes, para quem o castigo do criminoso é uma reprezalia, uma

vingança social, todos esses espiritos acanhados e levianos, a quem

se deve repetir sem cessar a expressão de Quételet--que a sociedade é

quem prepara os crimes, todos esses pilotos cegos dos estados modernos,

para quem o homem não é susceptivel de modificação, que no logar da

utilidade social collocam a sentimentalidade e a rotina, poderiam vêr

o que na penitenciaria de Neuchâtel se obtém pelo systema tão humano e

tão scientifico de W. Crofton. Ali, em vez de considerarem o condemnado

como um réprobo, applicam-se em despertar-lhe a esperança no coração,

a provar-lhe que nenhum sentimento de colera, nem de odio, se nutre

contra elle, a persuadil o, emfim, que elle é, n’uma larga acepção,

o arbitro da sua sorte. Tratam-n’o, não como a um monstro que deve

soffrer e expiar, mas como um doente, como um amigo transviado, a quem

se busca chamar ao bom caminho. Instruem-n’o, educam-n’o moralmente,

dão-lhe uma profissão, fazem-n’o passar gradualmente da prisão cellular

á libertação condicional, com bemfazeja vigilancia. N’uma palavra,

faz-se d’elle um homem. Ha apenas uma differença: é que para tal tarefa

são indispensaveis philantropos esclarecidos, e é mais commodo ter

apenas carcereiros.»[15]

N’esta pequena amostra acotovelam-se as contradicções e evidenceia-se

a ausencia de disciplina philosophica. Primeiro diz-se discipulo de

Quételét e de Victor Hugo, asseverando que a sociedade prepara os

crimes, e pouco depois affirma que o criminoso é n’uma ampla acepção

o arbitro da sua sorte. A contradicção sobe de grau, sabendo-se que o

dr. Letourneau professa o determinismo materialista, e n’este prefacio

advoga um sentimentalismo quasi mystico em favor do delinquente.

No seu livro _Physiologie des passions_, pag. 389, diz elle que é

mister «bater em brecha a fortaleza gothica do livre arbitrio» e que

a feição do caracter e a violencia das inclinações dependem só da

organisação physiologica e do temperamento do individuo. Appella para

a craniologia e despreza a observação scientifica; prefere a hypothese

materialista á luz fiel da observação introspectiva e da experiencia.

A solução do problema da liberdade está para os metaphysicos fatalistas

subordinada a outras questões metaphysicas; assim o materialismo nega

a liberdade em nome d’uma lei mecanica universal que rege igualmente

o mundo cosmico e o mundo psychologico. Os que defendem a doutrina do

livre arbitrio devem considerar suspeitas todas as escolas metaphysicas

tendo o cuidado de encerrar as suas demonstrações dentro da sciencia

positiva.

O fatalismo chamado das _cousas occasionaes_ propagado por Mallebranche

attribue a Deus a causa unica de todos os effeitos sendo os motivos

somente as occasiões para a realisação da causalidade theologica. A

intervenção de Deus é continua no exercicio da actividade psychologica

sobre o organismo e d’este sobre os phenomenos de consciencia.

Os fatalistas modernos apoiados na physica _a priori_ de Descartes,

renovada e generalisada pelo principio da conservação da energia,

hypothese hoje admittida no dominio das sciencias cosmologicas,

proclamam um determinismo mecanico universal. O determinismo de

Mallebranche inspira-se n’um principio providencial, em quanto o dos

mecanistas n’uma força cega, occulta na substancia cosmica. O primeiro

é mais elevado, mas as consequencias são em ambos igualmente funestas.

A liberdade é o poder de querer actos motivados, encadeados ao estado

presente do nosso entendimento e da nossa sensibilidade. Toda a

resolução tem a sua causa em phenomenos que a precederam. A liberdade

tendo todavia condições e possuindo graus d’ordem sensivel, mental e

ethologica, permanece sempre a faculdade de praticar ou não praticar um

acto e ainda depois de praticado fica a idéa da possibilidade em ter

praticado o contrario. O caracter não explica absolutamente as acções,

como pretende, por um circulo vicioso, o determinismo physiologico,

porque a energia de vontade modifica e transforma a seu talante o

proprio caracter, e até o meio social.

O homem attribue á fatalidade os seus revezes e nunca lhe attribue

a sua fortuna. Assim o criminoso, o negligente, o insufficiente de

vontade desculpa o seu crime, a sua pobreza, a sua desgraça, com

a fatalidade, a sorte ou o destino, emquanto o homem trabalhador,

diligente e prospero attribue a sua fortuna, o seu bem estar social,

á energia da sua vontade. A mulher que desceu á escravidão a mais

aviltante, o homem que jaz no carcere expiando os seus crimes, quando

interrogados respondem ambos, que foi a sua sorte. Ao contrario, o

homem que de berço humilde sobe ás altas funcções sociaes, que da

escassez chegou á riqueza, affirma que deve esse melhoramento de

situação á constancia no trabalho e á rectidão do seu proceder que lhe

grangeou honra, fazenda e credito. Póde pois dizer-se que o fatalismo

vulgar é a trincheira covarde onde se escondem os ignorantes, os

preguiçosos e os maus. Para as pessoas illustradas e boas o fatalismo

philosophico é uma concepção theorica, que não influe nas relações da

vida pratica. O procedimento d’esses sectarios está sempre d’accordo

com a dignidade humana, sentimento que tem por base o livre arbitrio.

O espirito possue a consciencia da sua força volitiva deante da

influencia do meio e do incitamento do desejo; reconhece que da

sua actividade e da sua liberdade resulta o altivo sentimento da

sua personalidade. A crença na liberdade é para nós d’uma evidencia

intuitiva no dominio da psychologia; só uma metaphysica bastarda poderá

sophismar tão luminosa verdade. Sem o poder de iniciativa quanto ás

proprias determinações o homem seria um automato cogitante e sensivel,

igual em cathegoria ás alimarias, incapaz de merito ou demerito, e

nivelaria a honestidade com a vileza. A ordem ethologica desappareceria

e a ordem social seria defendida pela cega vingança. Não mais justiça;

o louvor fôra tão digno como o vituperio; no pleito social venceria o

mais forte.

Quem consultar sem preconceitos metaphysicos a sua consciencia concebe

por intuição a possibilidade de adoptar um motivo contrario áquelle que

resolveu seguir, e que o poder d’esta determinação reside n’uma força

irresistivel interna. É evidente que a determinação póde subsistir sem

prejuizo de qualquer coacção externa em contrario.

Alfredo Weber o distincto professor da universidade de Strasburgo, no

prefacio da 4.ᵃ edição da sua _Historia da philosophia europea_, sem

duvida a condensação mais limpida e mais brilhante que modernamente

se tem feito da desenvolução do pensamento humano, escreveu: «Estamos

persuadidos que o crer não é somente a essencia da alma, mas a essencia

universal. A nossos olhos o monismo da vontade é o pensamento intimo

de Kant, a linha de união da sua critica e da sua moral, o unico

systema que possa explicar simultaneamente a natureza e o phenomeno

moral, o unico emfim que possa satisfazer ao mesmo tempo o pensamento

especulativo e o espirito de observação: porque a suprema necessidade

da rasão é a _unidade_, e o unico caracter commum á materia e ao

espirito, o unico denominador commum ao qual seja possivel reduzi-los,

é o esforço, isto é a vontade. Um esforço de expansão, eis a materia,

um esforço de concentração eis o espirito... Qualquer que seja a parte

do anthropomorphismo no vocabulario da moral kantiana, é mister convir

que esta forma é imperativa, que no fundo do nosso querer-viver ha como

uma reservada esperança, e alem da nossa vontade individual como uma

vontade mais elevada e mais excellente que tende para o ideal (_Wille

zum Guten_).»

É evidente que não acceitamos a vontade pura, de Schopenhauer,

inspirada no buddhismo, um dos lados da sua metaphisica, mas acceitamos

o outro aspecto porque elle considera a vontade, ligada ao phenomeno

intellectual--é o livre arbitrio.

O saber comprehende duas partes: uma regulada pelas leis da natureza

que se desenvolve por evolução, em virtude d’um determinismo universal:

a outra com a consciencia por ponto de partida, que architecta um

universo segundo as suas formas e as suas leis. A primeira abrange o

mundo material, a segunda refere-se ao mundo moral.

Parece-nos que posta a questão em evidencia como a apresenta a

philosophia neo-critica o problema da liberdade está resolvido

triumphantemente em face da sciencia. Pode a metaphysica do

determinismo monista reduzir o homem a um automato espiritual ou

material que a psychologia considerada como sciencia positiva

continuará a asseverar em nome da sciencia e dos seus direitos

imprescriptiveis a autonomia da consciencia do _eu_ como centro commum

de iniciativa, de acção e de potencia. Apresentado assim o problema

dispensam-se os notaveis esforços de dialectica empregados por Alfredo

Fouillée no intuito de conciliar o determinismo com a doutrina da

liberdade, dois systemas contendores em cuja lucta recente elle vê já

uma directriz para a convergencia.

O que se faz mister é destruir a lenda dos criminalistas extranhos á

alta cultura philosophica, os quaes propagam que o determinismo se

inclue no saber positivo emquanto o livre arbitrio não passa d’uma

concepção metaphysica.

Nenhum dos argumentos apresentados em favor da liberdade moral

tem o valor logico do que nos é dado pelo testemunho immediato da

consciencia. Cada um de nós, ao consultar-se, sente-se livre, e

este sentimento é inaccessivel a toda a duvida, porque a certeza da

consciencia é absoluta. Quem delibera não assiste á lucta dos motivos

como simples espectador, sente que a decisão final reside intemerata em

seu poder.

As leis sociaes seriam inuteis e absurdas se o homem carecesse da

possibilidade de lhes obedecer; mas respondem os deterministas que

as leis são tambem motivos influentes sobre a vontade humana pelo

receio dos castigos. Todavia, esses mesmos castigos applicados em

nome da justiça provam a liberdade. Onde estaria a justiça das penas

inflingidas pelos tribunaes, se os reus não houvessem a faculdade de

evitar o crime?

Castigam-se os criminosos, respondem os deterministas, para correcção,

intimidação e defeza. Mas se o accusado não fôr livre, a pena é iniqua,

e a justiça quer que a pena seja merecida, e só n’este caso a sociedade

está auctorisada a punir. A justiça assim satisfeita, corrige, intimida

e defende simultaneamente a sociedade. Para os irresponsaveis não ha

justiça, ha a protecção ao mesmo tempo defensora da sociedade ou póde

haver a eliminação.

O fundamento do direito de punir tem atravessado differentes phases

na evolução juridica dos diversos povos. A vingança é um sentimento

natural, instinctivo, nascido para nos fazer respeitar uns aos

outros, e segundo lord Kaimes e Luden a sociedade quando pune não

faz senão dirigir este instincto contra o verdadeiro culpado.

Eis a primeira theoria--a da _vingança_.[16] Originariamente nas

sociedades rudimentares assim foi, e confundem ainda hoje os

criminalistas-utilitarios esta vingança, convertida em utilidade

social, com o direito. Das theorias penaes baseadas no sentimento e não

na idea de justiça dimanam as concepções da prevenção, da intimidação,

da advertencia, da emenda do culpado, as quaes teem aspectos

aproveitaveis para o melhoramento social, mas nenhuma d’ellas encerra

o legitimo principio do direito de punir:--a remuneração da justiça.

O principio do direito de punir não pode ser puramente correctivo ou

preventivo. Escreveu Romagnosi, citado por Ortolan, «se depois do

primeiro delicto houvesse a certeza que se não succedia nenhum outro a

sociedade não teria nenhum direito de punir.»

As desastrosas consequencias do materialismo determinista expulsam

da sociedade o sentimento da justiça e substituem-no pelo principio

da defeza social. O materialismo em psychologia nem chega a ser uma

theoria, é uma deserção do criterio scientifico. Onde podia ter uma

apparencia, ainda que grosseira, de systema scientifico, era no mundo

biologico ora o grande mestre Claude Bernarde disse que «em physologia

o materialismo não conduz a nada e nada explica.»[17]

Julgar todos os delinquentes perigosos, supposto não culpados, e

puni-los em nome da defeza social, é suspender as garantias individuaes

e promulgar leis em nome da salvação publica.

Quinet liga a idea de justiça ao sentimento de amor na sua

desenvolução primordial, mas sustenta que até os ladrões teem um

codigo de justiça distribuitiva para entre si e os selvagens outro que

observam na tribu.

A philosophia que identifica a virtude com a utilidade offerece a quem

a pratica vantagens sociaes. O homem que não tem senão a apparencia

da virtude sobrepuja externamente o que a pratica a serio. Quem uza

alternadamente do verdadeiro e do falso segundo o interesse do momento

vence o que emprega só o verdadeiro, porque tem dois caminhos abertos

emquanto os outros estão confinados n’um.

Mesquinha philosophia e desconsoladora moral que tem por unico movel a

utilidade!

Nem todas as violações moraes da lei do imperativo cathegorico podem

ser incursas no direito penal positivo, porque a sua esphera é mais

ampla e mais recondita, os codigos não a attingem.

Escreveu um grande jurisconsulto: «quanto aos deveres para com

os outros, a lei penal não deve, pelo mesmo principio, exigir

imperativamente senão o cumprimento dos que são correlativos aos

direitos, cuja protecção poderia legitimar o emprego da força. Fica

pois por considerar se a violação d’um dever _exigivel_, quando ella

não sahe dos limites do mal puramente moral, cahe sobre o imperio

d’esta lei. É o mesmo que procurar, por outros termos, se o pensamento,

se a resolução criminosa pode tornar-se o objecto da justiça humana.

Porque a violação d’um dever exigivel não permanece encerrada nos

limites do mal puramente moral, senão emquanto o projecto criminoso,

não tendo sido seguido de nenhum acto material, não tenha ainda

produzido soffrimento directo, clamor ou perigo. Ora, é evidente que em

these geral nada poderia ainda legitimar o emprego da força contra uma

perturbação qualquer trazida á ordem moral. Os individuos e a sociedade

não tem ainda sido impedidos no exercicio dos seus direitos, no livre

desenvolvimento da sua legitima actividade. A defeza não foi fundada

para reagir contra o mal puramente moral: a justiça social não pode

pois applicar-lhe o castigo[18].

A liberdade moral não deve ser confundida com a liberdade juridica.

Aquella é o poder que o homem tem de se determinar, emquanto esta é

o direito de desenvolver as faculdades n’uma medida que não exclue

o desenvolvimento da liberdade ou do direito de outrem. Os seus

limites são a base e o objecto do direito considerado como a regra

das relações sociaes. Em todos os casos porem a liberdade moral é uma

condição essencial da existencia do direito[19]. Negar portanto o livre

arbitrio é destruir o direito, é suprimir a justiça. Nenhuma sociedade

civilisada podia assentar no determinismo mecanista de Democrito

ou de Hobbes. Se esta theoria é hoje renovada pelos criminalistas

revolucionarios, será por honra e fortuna da civilisação justamente

posta de parte pelos jurisconsultos circumspectos.

Como somos humilde discipulo da philosophia neo-critica e ardente

e sincero adepto da grandiosa moral kantiana, julgamos util dar

aqui a conhecer, ainda que summariamente, seguindo um seu illustre

commentador, a solução original e profunda que o genial pensador deu

ao problema da liberdade. Kant affirma o determinismo em nome da

sciencia e proclama a liberdade em nome da moral. Por um lado Kant é

determinista tão rigoroso como o proprio Leibnitz. Em nome do principio

da causalidade affirma o encadeamento necessario de todos os phenomenos.

Este determinismo absoluto é a condição da sciencia, a propria condição

do pensamento. Mas por outro lado Kant é o mais puro e o mais sincero

dos moralistas. Acceita a noção do dever, da moralidade em toda a sua

plenitude. O dever, diz Kant, implica poder e é em nome do dever que

affirma a liberdade. Como conciliar estas duas affirmações?

Kant resolveu a difficuldade pela sua theoria do conhecimento.

Distinguiu dois mundos, o mundo dos _phenomenos_, isto é, o mundo

das apparencias sensiveis, que é objecto da sciencia, e o mundo dos

_nomenos_, isto é, o das realidades absolutas, ou intelligiveis, onde a

metaphysica tenta, mas em vão, fazer nos penetrar. A grande differença

entre estes dois mundos, resulta do espaço e do tempo, que são a lei do

mundo apparente ou sensivel e não a lei do mundo real ou intelligivel.

O mundo sensivel é a apparencia que torna o mundo intelligivel

projectado e refractado no espaço e no tempo. Como ha dois mundos, ha

tambem duas especies de causalidades. Ha a causalidade empirica que se

realisa no tempo e ha a causalidade intelligivel que se realisa fóra

do tempo. A causalidade empirica é o determinismo. No tempo os factos

são antecedentes e consequentes, succedem-se e determinam-se como os

momentos do tempo. Mas onde se exerce a causalidade intelligivel,

não ha antes nem depois, não ha antecedente nem consequente: esta

causalidade é, pois, a propria liberdade.

Assim se resolve a antinomia: o determinismo e a liberdade são

verdadeiros um e outro, mas para dois mundos differentes: o

determinismo é verdadeiro para o mundo sensivel para o homem phenomeno,

a liberdade é verdadeira para o mundo intelligivel, para o homem

_nomeno_.

No absoluto a nossa vontade pronuncia um _fiat_ eterno e como tal

livre, este _fiat_ faz-nos ser o que somos; constitue a nossa essencia,

o nosso caracter _intelligivel_. D’este caracter _intelligivel_

deriva o nosso caracter empirico que é a manifestação do primeiro na

vida phenomenal, e que assignala com o seu cunho as nossas diversas

acções. Tudo em nós resulta necessariamente d’estes dois factores.

Tam grandiosa e profunda concepção satisfaz a razão especulativa e a

consciencia moral; põe ao abrigo de todas as contingencias os direitos

da sciencia, e os direitos da ethica[20]. Devia satisfazer a um tempo

os partidarios do fatalismo e os do determinismo salvaguardando no

entanto a liberdade. Os phenomenos do mundo cosmico podem ser, como

pretendem os fatalistas, subjeitos a uma causa unica sobrenatural,

ou como querem os deterministas, attribuidos a causas multiplas

ou naturaes. Fatalistas, pantheistas e theistas, deterministas

psychologicos e materialistas, todos deviam applaudir uma solução,

que reconhece nas suas theorias uma parcella de verdade. Não acontece

assim, todavia. O determinismo nos seus cambiantes continua affirmando

que, o homem se resolve _sem motivos_, ou sem _vontade_, ou que a

_vontade segue sempre o motivo mais forte_.

Todos os argumentos do determinismo são já bem conhecidos:--do

principio da causalidade e da analyse do acto volitivo, da estatistica

e da theoria mecanica das relações da vida psychica com a physiologica.

A asserção de que todo o phenomeno tem a mesma razão n’uma força, não

é de modo nenhum incompativel com a liberdade; o acto livre tem por

causa não só os motivos, mas ainda a vontade. Objectam que a vontade

segue sempre o motivo mais forte, mas esse motivo não é mais forte por

si mesmo, senão porque a nossa vontade o torna tal determinando-se por

elle, e determinou-se por elle, porque o julgou melhor.

O argumento da estatistica não tem valor, porque a estatistica só

determina medias, devidas a causas geraes, e de modo algum os factos

particulares ou individuaes. Nenhum demographo nos diz pelas suas leis

que tal individuo em tal anno ha-de ser necessariamente homicida.

A theoria da conservação da força, applicada aos seres vivos, não passa

ainda d’uma hypothese. Todavia, é evidente que a vontade não cria os

movimentos que imprime aos orgãos, mas quando é sã e energica, serve-se

a seu talante das forças preexistentes. A liberdade fica sempre o poder

de tomar a iniciativa da sua actividade.

As escolas fatalistas não podem constituir a moral. Augusto Comte

pretende na esteira do fatalismo metaphysico, com o altruismo,

imagem truncada do sentimento do amor, architectar uma ethica para

seu governo. O altruismo é uma tendencia irresistivel para outrem,

considerado esse outrem como ponto de convergencia, e o egoismo é uma

tendencia fatal para o _eu_ como centro. Na essencia o movel é sempre e

absolutamente o interesse, ou do eu ou de outrem. Os inglezes reduzem

justamente esta escola a uma variante da moral egoista. Que importa

á consciencia que o desejo seja de expansão ou de concentração, se o

impulso é sempre interesseiro? N’um e n’outro caso a lei do dever que é

o distinctivo mais nobre da humanidade fica vergonhosamente esquecida.

O positivismo, como temos visto, sempre que faz metaphysica tem o mau

gosto de ligar-se por um lado ao fatalismo deprimente e por outro ao

materialismo grosseiro.

A moral é a sciencia que traça a linha directora do homem no

cumprimento do dever. Todos reconhecem, de um modo intuitivo, que,

quem nos esclarece na investigação ou na pratica dos actos moraes,

é a consciencia. Ella o juiz seguro e o juiz unico que nos ensina a

conhecer exactamente a natureza da acção e a intenção do seu auctor.

A intenção, porém, que unicamente se limita a um simples desejo e que

não é seguida de nenhum esforço para a execução, não chega a ser um

acto moral. A intenção dá valor ethico ao acto, mas tambem o proprio

acto serve para apreciar indirectamente a natureza e a sinceridade

pura das intenções do agente. O methodo para estudar esta sciencia

consiste em examinar qual a noção moral e quaes os resultados que a

constituem. A consciencia moral, não a psychologica, é quem fornece á

razão a concepção de uma lei que absolutamente devemos seguir. Se a lei

moral se convertesse na applicação em alguma cousa de material teriamos

necessidade de despi-la dos elementos exteriores, e mostrar que ella

não se revela nunca em nós como um effeito, mas sim como antecedente.

A lei moral é um principio noologico para elle proprio e parece ter um

dominio transhumano.

A lei do bem impõe-se absolutamente; quer o conteudo d’esse bem

seja a paz da alma, o prazer sensivel, a utilidade, ella é sempre o

centro organico de todos os nossos actos. Ninguem póde renunciar a

este imperio universal; os proprios adversarios de Kant, que chamam

ao imperativo, desdenhosamente, o _despotismo da regra_, não podem

esquivar-lhe a sua consciencia.

É preciso comprehender a moral formalista de Kant para pôr de accordo

o seu dogmatismo pratico com o seu scepticismo especulativo. A

moral formal não depende das condições da vida real e concreta das

sociedades, assim como as mathematicas puras não dependem em nada das

applicações ás sciencias experimentaes e ás artes bellas ou mecanicas.

A moral, tal como Kant procurou estabelece-la, resume-se na idéa

de uma vontade livre, cuja existencia intima não depende de nenhum

movel empirico. Por isso tal concepção é apparentemente extranha a

muitos espiritos e se acha affastada das idéas communs. Para Kant, a

liberdade da vontade é uma autonomia que faz por si só a lei moral.

Este caracter de independencia absoluta não póde encontrar-se senão

n’uma lei formal, tomada esta palavra no sentido philosophico. Kant não

procura a essencia do bem na ordem universal; é no facto subjectivo da

obrigação que tem a sua origem objectiva. Uma cousa não é obrigatoria

porque é boa, é boa porque é obrigatoria. A essencia do bem está _na

conformidade d’uma vontade com uma lei que impera_. A necessidade

d’esta lei é completa e absoluta e tem ao mesmo tempo um caracter ideal

e real, racional e empirico, como as leis logicas e mathematicas.

Ha por isso quem chame á ethica kantiana, a moral da mathematica. A

obrigação moral é uma especie de necessidade, mas dizer que qualquer

é obrigado a fazer uma cousa, não é dizer que qualquer é forçado a

faze-la, porque a obrigação assim entendida excluia a liberdade e

aniquilava a moral. O verdadeiro principio da ethica não póde ser

um ideal de perfeição, mas um ideal formal que tem o seu fundamento

no conjuncto das faculdades que constituem a natureza superior do

homem e cuja realisação é independente da evolução da humanidade

atravez das differentes phases da vida individual e social. A moral

pratica que dá normas ás acções humanas é que varia com as diversas

condições externas. A força e a firmeza da vontade, a clareza e o

alinho do espirito imprimem cunho ao caracter moral, a paz e a pureza

do coração são a saude da alma, a origem da felicidade. Muitas veem

a ser as causas pathologicas que podem influir na determinação dos

phenomenos volitivos, como o demonstra Ribot no seu interessante livro

_Les maladies de la volonté_. É obvio que sem livre arbitrio não ha

moralidade.

A tendencia das paixões, muitas vezes, converte-se n’uma ideopathia,

cuja força se traduz em actos de um caracter duplamente forte. É esta

a feição de certos sentimentos--ir recto ao fim, e, á maneira das

acções reflexas, ter uma adaptação em um unico sentido, unilateral, ao

contrario da adaptação originada n’um principio racional, que é, na

deliberação, multilateral.

O dever é muitas vezes pela consciencia humana mal entendido, e a

maneira de o entender varia com as condições mesologicas e com a

ideosyncrasia individual. A obrigação moral póde ser vivamente sentida

e muito mal entendida, facto que se observa a cada instante na vida

historica da humanidade. Cada epoca da evolução humana apresenta uma

série de factos que imprimem caracter, isto é, que são a expressão

psychologica de um certo modo de sentir com côr propria e com tom

particular, sem comtudo deixar de ser a mesma lei do dever que

constantemente os inspira. Toda esta diversidade na historia do mundo

moral é puramente externa; os phenomenos sociaes que principalmente

influem sobre ella são a sympathia, a imitação, o contagio moral, a

opinião, o costume, etc. É mister, na apreciação das acções moraes,

distinguir duas cousas: 1.ᵃ a intenção com que nós praticamos o

acto, 2.ᵃ o valor d’esse mesmo acto. Apreciar cada um a sua intenção

é facilimo, porque é de uma clareza evidente. Não succede o mesmo

com a apreciação do valor das acções sociaes que sendo difficil,

é precisamente o que explica a variedade e o progresso da moral.

A interpretação do bem e do mal no tempo e no espaço não é sempre

identica, soffre profundas variações e differentes vicissitudes na

evolução social, mas o que não soffre vicissitudes é a lei em virtude

da qual a consciencia affirma a distincção entre as idéas do bem e do

mal, á evidencia das quaes ninguem póde eximir-se.

Perante a consciencia a idéa do bem garante-nos que a sua pratica é

meritória, se é livre, independentemente das suas consequencias, porque

a consciencia moral implica a idéa de uma lei e a obediencia livre

a essa lei. Segundo Kant, o dever é um mandato que se nos apresenta

imperioso sem que possamos perguntar-lhe pelos seus titulos e pela sua

razão de ser. O seu valor intrinseco é para nós desconhecido.

--[21]Julgam os criminalistas italianos dever admittir a existencia

d’um typo criminal; esta opinião é adoptada por um grande numero de

criminalistas francezes. Segundo esta escola, distinguem-se claramente

os criminosos, por seus caracteres physicos e psychicos, dos homens

que pertencem ao mesmo meio e que vivem no mesmo tempo. Por esta arte,

seria a maior parte dos criminosos fatalmente condemnada de nascimento,

pela sua organisação physica e mental, ao latrocinio e ao assassinato,

á violação ou ao incendio. O que são estes criminosos de nascimento?

Serão loucos, por ventura, ou os representantes, no meio da civilisação

actual, d’um estado social mais remoto, de costumes mais grosseiros

e mais crueis? Estas duas theses já foram sustentadas, e até ambas o

foram por Lombroso, o chefe da escola, que, depois de ter feito do

criminoso um selvagem, foi levado a consideral-o como um alienado,

como um louco moral, sem renunciar todavia completamente á opinião que

abraçara o principio.

Foi para reagir contra estas theorias que M. Tarde[22] escreveu e

colligiu em volume ha tres annos, os seus brilhantes e profundos

estudos. Sem rejeitar absolutamente a existencia d’um typo criminal,

procurava demonstrar que este typo profissional e que os traços communs

aos malfeitores se explicavam, na maior parte, pela communidade de seus

costumes. M. Joly, tomando entre mãos e por sua conta esta these,

percorreu cuidadosamente as estatisticas e os inqueritos officiaes,

interrogou medicos, administradores e magistrados, conversou com os

inspectores de policia e com os directores de prisão, consultou as

melhores obras d’anthropologia criminal, e mercê a todos os factos que

recolheu, analysou e classificou, fez dos criminosos um retrato que

pouco se assemelha ao que delineou Lombroso.[23] Todavia os factos são

os mesmos, mas vistos por outros olhos.

Antes de procurar qual a interpretação que convem dar ao typo criminal,

cumpre saber se ha realmente um typo criminal. Ora, é precisamente isso

que parece contestavel. É de crer que a escola italiana haja ligado

demasiada importancia aos caracteres physicos dos criminosos; porém

estes caracteres não teem nem tanta constancia nem tanto valor como

se imagina. As anomalias cranianas e cerebraes que foram verificadas

nos criminosos são pelo menos tão frequentes nos homens de bem. Tem os

primeiros os cerebros frequentemente asymetricos; a verdadeira razão

d’isto é que os cerebros perfeitamente regulares são muito raros.

Segundo os estudos de M. Bordier, resulta com effeito, que,

ordinariamente, a curva frontal está reduzida nos craneos de

assassinos, ao passo que a curva parietal antero-posterior se acha

desenvolvida; mas d’esta estructura craneana só se deprehende que, para

volume cerebral igual, ha uma certa inferioridade intellectual e uma

certa exageração da actividade motora; o que é facil encontrar-se nos

individuos que não praticaram crime algum nem teem tendencias para o

praticar.

Não podem entender-se os criminalistas ácerca dos traços distinctivos

que attribuem aos criminosos: são de parecer alguns auctores que o

criminoso é mais a miudo trigueiro que louro, mas estes auctores são

italianos. A importancia que querem attribuir á grande frequencia da

covinha media nos criminosos é muito diminuida pelo facto de se achar

esta covinha nos judeus, e nos arabes, povos de criminalidade inferior

com relação aos europeus, quatro vezes mais frequentemente do que nos

não-criminosos. Não se póde, por outra parte, duvidar de que o genero

de vida, a que se devem submetter os criminosos, exerça uma acção mais

ou menos profunda sobre a sua organisação, por isso que muitos ladrões

e até assassinos começam de muito novos a sua vida de aventureiros.

É fóra de duvida que os criminosos teem uma physionomia adquirida;

nem todos, aliás, teem esta physionomia, bem longe d’isso, e custaria

muito constituir um typo unico a que se adaptassem igualmente os

pick-pockets e os vagabundos, os fallidos, os moedeiros falsos e os

assassinos de profissão. De resto, todos os que se teem occupado dos

presos de pouca edade, M. Roukavichnikoff, por exemplo, teem ficado

espantados da rapidez com que a sua expressão habitual se modifica,

quando os collocam n’um meio differente d’aquelle em que até ali tinham

vivido. O criminoso preso não se parece com o criminoso livre; tem uma

physionomia muito caracteristica, que perde ao deixar a prisão, e é

nos presos, não se deve esquecer, que foram feitas, na maior parte,

as observações dos criminalistas. Parece pois prematuro, pelo menos,

falar d’um typo criminal hereditario: os caracteres anatomicos dos

criminosos, aquelles mesmos que parecem mais salientes (as orelhas

volumosas, em fórma de azelhas, a barba rara, o prognatismo, o

desenvolvimento exagerado dos queixos) não lhes são particulares.

Terão, pelo menos, os criminosos, caracteres psychicos que os

separem claramente dos outros homens? É tambem com a negativa que

responde M. Joly. Ficamos perplexos quando, depois de ter lido os

conscienciosos e profundos capitulos, que este escriptor consagrou á

imaginação, intelligencia, sensibilidade, vontade e sentimentos moraes

dos criminosos, perguntamos a nós mesmos se ha motivos para dar um

logar á parte, á psychologia do criminoso, ao lado da psychologia do

selvagem e da creança. Não se deprehende que os criminosos formem,

como os alienados, uma familia natural; por mais sensivel que seja

a differença entre um maniaco e um degenerado ou um melancolico, ha

porém entre todos os loucos similhanças de tal fórma, que se poderia

quasi constituir, ao lado da psychologia geral normal, uma psychologia

morbida geral.

As dissimilhanças, pelo contrario, são extremas, sob o ponto de vista

psychologico, entre os criminosos e talvez fosse necessario reconhecer

que o termo «crime» só tem uma significação social e moral. Se achamos

symptomas de alienação mental n’um contemporaneo de Alcibiades, podemos

affirmar que era louco; não podemos no entanto tratar de criminoso

um Grego da mesma epoca por ter praticado actos que as nossas leis

qualificam de crimes. Estamos no direito de inferir a existencia d’um

mesmo estado mental em dois alienados, se estiverem sob o domínio

de obsessões d’um caracter identico, por termos observado que estas

obsessões são os symptomas d’uma doença que segue um andamento regular

e que está ligada a perturbações psychicas determinadas.

Mas que ha de commum entre o operario que alterca com o seu collega

n’uma taberna, e entre o ladrão que assassina o homem que despoja

para o impedir de gritar, e o marido que mata a mulher por ciumes ou

pelo respeito á sua honra? O acto exterior é identico, os motivos que

determinaram este acto são absolutamente differentes d’um homem para

outro. Serão iguaes as razões que determinam ao roubo todos os ladrões?

Não terá sido antes, para este, o mau exemplo que o impellisse, ao

passo que para est’outro influisse a preguiça, e para aquelle o desejo

de satisfazer ás exigencias d’uma amante? Existem outras semelhanças

a não serem exteriores e grosseiras entre o especulador velhaco e o

regateiro ladrão?

Os actos d’um alienado, seja qual fôr o meio em que viva este alienado,

teem um caracter muito pronunciado que permitte distingui-los dos actos

d’um homem de juizo são; mas não podemos ajuizar se um acto é criminoso

ou não, a não ser que conheçamos ao mesmo tempo o meio social a que

pertence o auctor do acto e os motivos que o levaram a pratica-lo.

Cumpre pois, a nosso vêr, não fallar em criminoso: é um ente de razão,

uma entidade abstracta. Ha um grande numero de alienados entre os

criminosos; mas a psychologia dos alienados criminosos é a mesma que a

dos outros alienados: o degenerado que tem impulso para o assassinato

ou para a violação não se differença em nada do onamatomano ou do

dipsomano; um epileptico não merece por modo algum ser separado dos

outros epilepticos por ter morto a sua mãe com um machado, e um idiota

não deixa de ser idiota por ter deitado fogo, para se divertir, a uma

meda de feno.

Quanto aos criminosos que não são enfermos, poucas particularidades

apresentam a sua intelligencia e a sua sensibilidade, que se não possam

facilmente explicar pelo genero de vida a que a maior parte d’elles se

entregam. A difficuldade de admittir um typo criminal congenito é tanto

maior quanto não ha nada que prove nos factos escolhidos por Lombroso

e sua escola, que esse typo seja hereditario; ha poucas familias de

criminosos, e são causas sociaes e não psychologicas as que produziram

as raras «dynastias» de assassinos que teem havido occasião de

observar. A intelligencia dos criminosos de profissão é ordinariamente

pouco desenvolvida; não devemos deixarmo-nos illudir pelo engenho

muitas vezes maravilhoso com que combinam e executam os «lances» que

projectam, e pela manha que empregam para se subtrahirem ás pesquisas

da policia. Em geral, os malfeitores só teem um numero de idéas muito

restricto; estas idéas occupam constantemente o seu espirito, todos os

esforços da sua intelligencia convergem para essas idéas; fóra d’este

circulo limitado de preoccupações, são quasi sempre de espirito tardo e

mediocre; excessivamente rotineiros, teem uma certa tendencia para se

servirem indefinidamente dos mesmos meios. Cada ladrão acostuma-se aos

processos que escolhe e deshabitua-se de todos os outros.

«O conjuncto das astucias de todos os ladrões reunidos é uma cousa

prodigiosa, como o conjuncto das astucias dos animaes; mas na

realidade, cada um só emprega uma»[24] de resto, se estas astucias

são a miudo frustradas, é porque geralmente, os criminosos carecem

de sequencia nas idéas; cançam-se depressa, teem confiança no acaso,

acreditam estupidamente na fatalidade, apressam-se em tirar proveito do

crime que commetteram; e tal é a sede de gozos que os aperta, que para

satisfazerem os seus appetites breve chegam a descurar toda a sorte

de precauções. As mais das vezes a imaginação dos criminosos é muito

mediocre.

Se as imagens que os perseguem de vez em quando e os arrastam ao

crime teem uma intensidade tão forte, é mesmo por causa da pobreza,

da esterilidade da sua imaginação: toda a imagem, isolada, adquire um

poder extremo. A litteratura e a arte dos criminosos nenhum caracter

especial apresentam: se o ladrão ou o assassino ignorante compõe ás

vezes versos, é porque é «povo»,[25] porque a situação d’elle o torna

scismador, porque tem ocios que é forçoso encher. A tatuagem não é

unicamente costume dos criminosos; é um facto de sobrevivencia, um

costume que persistiu muito tempo nas classes inferiores e que se vae

apagando: as meretrizes, os marinheiros, alguns operarios, pintam-se

como os criminosos. «Se os criminosos se distinguem dos homens do povo

não é pelo amor aos letreiros, ás imagens, ás tatuagens e á linguagem

da imaginação: é pela natureza das cousas que gostam desenhar, de

recordar e de exprimir.»[26]

A sensibilidade physica dos malfeitores não parece ser tão

profundamente alterada como o sustenta a escola italiana: convem,

talvez, deixar uma boa parte á simulação. Nada ha menos demonstrativo

do que a approximação que faz Lombroso do criminoso e do selvagem,

tanto mais quanto que parece que se exagerou demasiadamente a

insensibilidade dos proprios selvagens. Encontram-se factos

interessantes a este respeito nas _Cartas edificantes e curiosas_. Toda

a sensibilidade dos criminosos está pervertida e enferma, eis toda a

verdade; a vida irrequieta que levam, a ociosidade, a depravação, e

principalmente a depravação contra a natureza, tão frequentes entre

elles, os excessos alcoolicos, são motivos sufficientes para isso. O

carcere tem quasi sempre sobre elles uma acção calmante e deprimente

ao mesmo tempo; a sua sensibilidade aquieta-se e adormece. Chegam,

gradualmente, a uma indifferença profunda, a um verdadeiro horror da

acção e da lucta que faz com que muitos d’elles encarem com terror o

momento de deixar a prisão. A vontade dos criminosos enfraquece-se

e exalta-se ao mesmo tempo, é o resultado necessario dos actos que

praticam e dos costumes que contrahem fatalmente; mas a sua vontade

nem por isso deixa de ser uma vontade normal. Os desejos que impellem

para o crime os malfeitores nada teem de commum com os impulsos

irresistiveis dos epilepticos e dos degenerados. Nem tão pouco devemos

considerar os criminosos como uns «abulicos», isto é como joguetes

irresponsaveis e semi-inconscientes das circumstancias em que o

acaso os collocou. O que é certo é que a sua vontade em geral nem é

aniquilada nem fortificada pela vida que levam; torna-se desigual

e caprichosa, ora desfallecida ora arrebatada. Porém, com o tempo,

enfraquece; gasto pela existencia aventureira a que está condemnado,

o criminoso já nem força tem para querer o crime, não podendo pois

commetter crimes, desforra-se em commetter delictos.

O sentimento moral não desappareceu, na maior parte dos criminosos, e

quero aqui falar dos criminosos de profissão; raras vezes se deixa de

encontrar consciencia alguma da culpabilidade dos actos que praticaram.

Os accusados que mostram esse cynismo e essa impassibilidade que nos

espanta por vezes nos interrogatorios, são quasi sempre individuos

feridos de debilidade mental ou degenerados.

A maior parte dos criminosos «seduziram-se» a si proprios para

se arrastarem ao crime; tiveram que sustentar verdadeiras luctas

interiores. Os malfeitores ainda novos tratam de justificar os seus

actos com arrazoados declamatorios contra a sociedade; os presos velhos

não gostam de fallar no que teem feito.

Raro é que os criminosos não se perturbem deante da morte e que não

manifestem nos derradeiros momentos sentimentos de arrependimento e de

fé religiosa: quasi todos accolhem com prazer as visitas do capellão.

É verdade que é preciso deixar uma boa parte á hypocrisia e ás crenças

supersticiosas; mas o que não é menos certo é que observadores, poucos

dispostos a illudir-se, ficaram muitas vezes assombrados da fé sincera

que parecia acordar no coração de certos malfeitores no fim de seus

dias. Não tem isto nada que admirar.

No silencio da prisão, calam-se as paixões, e os que nada já tem que

temer ou que esperar da vida podem frequentemente voltar inconscientes

ás crenças que a educação lhe tinha dado; podem ouvir, no mais

recondito do peito, como que um echo enfraquecido d’estes sentimentos

moraes e sociaes que lentamente se formavam na especie com o andar da

evolução.

Não são geralmente sem duvida motivos desinteressados que os inclinam

para o arrependimento, mas convém que sejamos menos exigente que M.

Despine: não nos causa admiração o não achar-se nos criminosos esse

puro respeito do dever que o proprio Kant considerava superior á

natureza humana.

Não é necessario reflectir muito para ver a differença extrema que

existe entre este estado de espirito e o dos alienados criminosos; não

parece possivel a confusão, a não ser entre alguns debeis e certos

criminosos, muito ignorantes, inintelligentes e grosseiros.

Segundo as estatisticas, as mulheres commettem em proporção muito

menos crimes do que os homens; mas essas estatisticas precisam muito

de ser interpretadas. Um grande numero de crimes ha que as mulheres

não teem occasião nem força de commetter, e quando se tracta de actos

ao seu alcance, as proporções mudam logo; sobre 100 envenenamentos,

ha 70 commettidos por mulheres. De resto, ellas são com frequencia

as instigadoras, as cumplices secretas de crimes que não querem

executar ellas mesmas. A sua consciencia se perverte mais completa e

rapidamente; são mais capazes que o homem de actos de crueza fria e

reflectida. Ora hypocritas, ora ousadas e cynicas, gostam de mentir e

de enganar; menos capazes do que o homem de verdadeiro arrependimento,

são mais estreitamente do que elle aferradas ás practicas

supersticiosas. É muito difficil de as fazer voltar para o caminho

recto depois de se terem transviado. Não nos devemos admirar d’isso;

emquanto a sua sensibilidade seja instavel, a mulher é tyrannicamente

subjugada pelos seus habitos; as idéas, as razões teem pouca influencia

sobre ellas; a vida da prisão, silenciosa e regular, custa-lhe mais a

supportar que ao homem; não póde prescindir de sympathia e de ternura á

roda d’ella; depressa se corrompe quando não se sente amada.

É evidente que, se o typo criminal não existe, a questão de saber se

esse typo é anastral não se póde formular. Mas M. Joly vae mais além,

quando affirma que, admittindo a hypothese da existencia d’um typo

criminal, é impossivel explical-a pelo atavismo. O criminoso não se

parece com o selvagem, apezar das affirmações da escola italiana; o

roubo dos moveis é castigado com rigor nos povos primitivos; todos

sabem que castigos terriveis attrahe sobre si o culpado de violação das

prescripções religiosas; ha para os casamentos, para todos os actos

de vida regras precisas ás quaes é obrigatorio submetter-se e que de

facto, raras vezes são violadas. Os proprios australios, segundo o

testemunho de Perron d’Arc, sabem distinguir entre uma vingança justa e

em acto de brutalidade; o rapto, o adulterio, o incesto, as offensas a

um chefe são castigadas com a morte.[27]

Na realidade, muitas ideas que, lentamente se foram deslindando, estão

ainda confusos na mente d’uns selvagens: a idéa do peccado, a idéa

do crime e a do prejuizo praticado contra alguem, estão estreitamente

ligadas; foi preciso uma longa evolução social para permittir ao

direito criminal constituir-se separadamente do direito civil e da lei

religiosa. O que, em summa, faz falta ao selvagem, é a noção juridica

do crime; e não devemos ficar muito surprehendidos com isso.

Tratou-se de explicar o crime por uma falta de adaptação mutua do

criminoso e da sociedade; mas isso não é mais do que uma definição

do crime, ou melhor, a constatação d’um facto, todavia não é uma

explicação. O que seria preciso explicar é porque o criminoso é incapaz

de se adaptar ao meio social em que vive. Ha para isso duas especies

de causas: causas sociaes e causas individuaes. As causas sociaes são

as que M. Joly se propõe estudar detidamente no seu proximo volume.

As causas individuaes são os appetites, os desejos, as maneiras de

sentir e de querer, em summa, todo o caracter do criminoso; o crime é

o resultado d’um conflicto entre uma sociedade que está submettida a

certas regras e um homem que não póde ou não quer, em conformidade com

a structura do seu caracter, sujeitar-se a observal-as.

Todas as vezes que o conflicto se torna agudo e que o individuo

está resolvido a praticar actos de certa gravidade, estes actos são

qualificados de crimes; mas uma grande serie de actos cabem entre

actos socialmente bons e os crimes; não ha fronteira alguma social

que separe os crimes e os delictos das faltas contra a honra ou a

delicadeza, a distincção é uma distincção juridica, imposta pelas

necessidades practicas. O limite entre os crimes e os actos que a

justiça deixa impunes é um limite arbitrario; varia d’uma legislação

para outra. O criminoso é um homem como os mais; mas tem paixões muito

fortes, não sabe resistir-lhes nem satisfazel-as por meios legaes; não

tem a coragem de se resignar nem a de trabalhar e luctar, quer gozar,

mas sem esforços, quer por fraude, quer pela força, apoderar-se-ha

do que deseja. Talvez achasse meio, em outra sociedade, de empregar

utilmente a fórma de actividade que possue; mas prefere resignar-se ao

crime, que sujeitar-se a um officio que o aborrece. Cumpre notar que é

principalmente do verdadeiro criminoso, do criminoso de profissão que

se trata aqui, mas não serão tambem criminosos, criminosos incompletos,

bem entendido, os negociantes pouco escrupulosos, os jornalistas mal

reputados, os seductores de meninas, os operarios ebrios e brigões,

promptos a fazerem uso da faca? O criminoso é essencialmente um

preguiçoso, mas é um preguiçoso dotado por vezes de alguma energia; se

não tiver essa energia de curta duração, se tiver paixões menos vivas

e alguns escrupulos ainda, o preguiçoso sem dinheiro é incapaz de o

ganhar, ficará sendo toda a vida um vagabundo sem se tornar jámais

um criminoso, é sobre tudo entre os vagabundos que se recrutam os

criminosos de profissão, mas a vagabundagem está longe de conduzir ao

crime. «O crime do homem póde começar pela vagabundagem da creança,

como tambem póde principiar pela falta de delicadeza, pela intriga,

pela immoralidade elegante, pelo espirito de lucro. Nada prova que

d’ahi resulte inevitavel e necessariamente.»[28] A prostituição da

mulher corresponde á vagabundagem do homem: da mesma fórma essa não

constitue por si mesma crime nem delicto, como tão pouco conduz

necessariamente ao crime, ha meretrizes muito probas, muito capazes

de conceber amizades desinteressadas, muito affectuosas para com seus

filhos, muito sinceras; ha até varias que conservaram sentimentos

religiosos, mas todavia é no mundo das prostitutas que se recrutam

a maioria das ladras. A vida que levam predispõe as ao crime, mas

está bem longe de as condemnar necessariamente a isso; para a maior

parte d’ellas, o seu officio é um officio verdadeiro que exercem com

probidade; não fallam das ladras senão com desprezo, e das más mães com

uma especie de horror.

As classes criminosas não teem maior estabilidade do que as outras;

renovam-se incessantemente; ha poucas familias de malfeitores. Apenas

existe uma classe, para dizermos a verdade, que é este montão instavel

de seres cahidos; mil motivos diversos dão origem aos criminosos, por

isso é que ha muitos typos de criminosos, muito distinctos entre si;

as unicas semelhanças são semelhanças exteriores que teem as suas

causas no mesmo genero de vida e costumes communs. Eis os typos que M.

Joly julgou dever distinguir: os inertes, os violentos, os viciosos,

os calculadores ferozes; facilmente achariamos na vida ordinaria quem

lhes fique parallelo. Mas a distincção que domina todas as mais é a do

criminoso por accidente e a do criminoso por habito. Entre os crimes,

ha alguns que são verdadeiros accidentes; os que os praticaram apenas

são responsaveis, o acto que commetteram lhes é decerto modo extranho;

convem necessariamente castiga-los, elles não tornarão a fazer o mesmo,

tem-se a certeza d’isso antecipadamente. Mas em compensação, quantos

crimes ha que parecem ser accidentaes, e que foram preparados por toda

a vida anterior pelos que d’elles se tornaram culpaveis. Um crime póde

não ser premeditado, não ter sido desejado sem deixar por isso de

ser a obra verdadeira d’aquelle que o praticou. O accidente acontece

quasi sempre áquelle que se expoz para succumbir, que não tratou de

fugir ás tentações demasiado fortes; semelhante acto é o producto

d’uma vontade, mas d’uma vontade que se abandona. Para um homem

accidentalmente culpavel, o verdadeiro perigo, é que o seu crime fique

impune; o medo do castigo se embota, o remorso do crime se acalma,

o culpado é orgulhoso da sua habilidade, acostuma-se a contar com o

acaso como um jogador que começou por ganhar. Pouco a pouco deixa-se

arrastar a um novo crime. Se se deixar então prender, se fôr condemnado

a prisão, o contacto com os presos, as horas pesadas e vazias que passa

nos dormitorios e nos pateos, acabam a obra que a vida de aventuras

começou, a vida inquieta e perturbada que levou por muito tempo.

A situação difficil que é propria do homem livre, lhe torna quasi

impossivel voltar para o seu officio, a não ser que tenha uma rara

energia; um unico officio fica aberto deante d’elle o de malfeitor: o

criminoso de costume, tornou-se criminoso de profissão.

O que estabelece uma linha de separação bem clara entre os criminosos e

alienados, é precisamente que, para um grande numero de criminosos, o

roubo é uma profissão; é um officio de que vivem. Isolado, o criminoso

não póde senão com custo exercer a sua industria, precisa forçosamente

cumplices. Parece, segundo as estatisticas que as associações

criminosas se tenham tornado muito mais raras do que out’ora; mas é

uma pura apparencia; o Estado mais perfeitamente armado, a policia

melhor organisada, as communicações mais faceis e rapidas tornaram mais

difficil a formação de quadrilhas regulares, de associações submettidas

a um chefe; mas contrariamente ás affirmações dos relatorios officiaes,

o espirito de associação dos malfeitores não tem diminuido; não ha

ladrão sem encobridor; os malfeitores precisam ser informados dos

ataques que podem realisar, é necessario que os indicadores preparem

o terreno, «alimentem o negocio» antes de se atreverem a tentar. Uns

são muito habeis na execução d’um plano que não saberiam imaginar;

outros carecem da força e da destreza que se precisam para executar os

planos que elles proprios traçaram; d’ahi resulta uma divisão natural

do trabalho. Ha certas especies de delictos e de crimes que só se podem

commetter com gente bastante. Para pôr em circulação a moeda falsa,

é preciso serem tres pelo menos, um fabricante e dois emissores; é

a forma mais habitual da associação criminosa: Ha trios de ladrões

á roleta e de salteadores de casas, como os ha tambem de moedeiros

falsos. O trio geralmente forma-se entre vadios, os frequentadores de

bailes publicos, dos botequins baratos, de casas mobiladas suspeitas, e

das tabernas pobres; durante o verão, é vadiando nos parques, ao longo

do caes, ou sentado nos bancos dos passeios exteriores que o ladrão

tem a probabilidade de encontrar socios. Estas associações fazem-se e

desfazem-se facilmente; são frequentes vezes ligadas umas ás outras

por laços mais ou menos estreitos. É nas prisões que estes laços se

apertam ainda mais, que os bandos tomam uma organisação mais forte; os

roubos bem feitos são os que se meditam na prisão. Todos os presos se

conhecem, quando estão em liberdade sabem encontrar-se.

Uma fórma de associação ainda mais geral, é a da meretriz e do seu

rufião. A burla é n’esse meio a fórma de expoliação que está mais

em voga; é principalmente no mundo da prostituição anti-physica que

grassa, e ahi o rufião é quasi sempre um assassino. Ao lado d’estas

associações restrictas começam a organisar se vastas associações

internacionaes que estão destinadas, se a repressão se descuida, a

estenderem-se sobre o mundo inteiro: M. Joly dá interessantissimos

exemplos d’este facto que lhe foram fornecidos pelo serviço policial.

Tal é, em resumo, a ideia que se póde fazer dos criminosos, segundo o

livro de M. Joly. Não estamos muito longe de compartilhar esta ideia;

parece-nos porém que M. Joly não determinou com exactidão as relações

que existem entre o crime e a alienação mental. Não ha duvida que o

criminoso e o alienado sejam muito differentes um do outro; mas existe,

entre os reus que os tribunaes condemnam, uma proporção mais importante

de alienados do que julga M. Joly, e se tomasse conta dos absolvidos

por incompetencia do tribunal e por falta de provas, ver-se-hia que

n’uma grande parte os crimes contra as pessoas, e sobre tudo os crimes

sexuaes são commettidos por irresponsaveis. Os idiotas, os imbecis,

os debeis, os degenerados, os epilepticos, os delirantes chronicos

podem em certas occasiões tornar-se todos criminosos em razão das

perturbações psychicas que apresentam; esta occasião apresenta-se-lhes

com frequencia e em geral sabem aproveital-a. Os paralyticos geraes

povoam os tribunaes correccionaes, e muitos negocios de «chantage»

não teem outra origem senão as concepções delirantes d’um degenerado

perseguidor. A loucura não é desgraçadamente uma doença rara, e

não admira que seja entre os seres cuja vontade está enferma, a

sensibilidade pervertida e a imaginação exaltada, que os criminosos se

recrutem mais facilmente.

Estudos sobre criminalidade e educação (philosophia e anthropagogia) · 第 12 / 32 题