Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. Não

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MANUEL

DE MORAES

CHRONICA DO SECULO XVII

POR

J. M. PEREIRA DA SILVA

RIO DE JANEIRO

B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

69, RUA DO OUVIDOR, 69

PARIZ.--AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7

1866

MANUEL

DE MORAES

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MANUEL

DE MORAES

CHRONICA DO SECULO XVII

POR

J. M. PEREIRA DA SILVA

RIO DE JANEIRO

B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

69, RUA DO OUVIDOR, 69

PARIZ.--AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7

1866

DUAS PALAVRAS

AO LEITOR

Encontra-se na _Biographia luzitana_ do abbade Diogo Barbosa uma

succinta noticia de Manuel de Moraes, nascido em São Paulo (Brazil),

pelos fins do seculo XVI, ou principios do XVII; autor de uma _Historia

da America_, que se perdeu inteiramente, e de uma memoria em pró da

acclamação d'el-rei D. João IVº, publicada em Leyde (Hollanda), no anno

de 1641, com o titulo de _Prognostico y respuesta á una pergunta de

un caballero muy ilustre sobre las cosas de Portugal_; condemnado pelo

tribunal do Santo Officio, relaxado em estatua no auto de fé de 6 de

Abril de 1643, por apostata da religião catholica, e casado com mulher

schismatica; e fallecido emfim em Lisboa, naturalmente, segundo o dizer

de varias tradições; pela violencia, conforme outras não menos procedentes.

Fallando d'elle igualmente Innocencio Francisco da Silva no seu

_Diccionario biographico e bibliographico portuguez e brazileiro_,

accrescenta que pertencêra á companhia de Jesus em São Paulo, e fôra

garroteado no auto de fé de 15 de Dezembro de 1647.

Outros escriptores, que procurárão lembrar-lhe tambem o nome, e nós

particularmente no supplemento annexo á obra dos _Varões illustres do

Brazil durante os tempos coloniaes_, repetírão sómente o que

avançára o abbade Diogo Barbosa, porque nem-uns esclarecimentos lográrão

mais a este respeito, por maiores pesquizas que houvessem commettido.

Parece pois evidente que se não poderá jámais esboçar um estudo

biographico e regular ácerca de Manuel de Moraes, por lhe faltarem os

elementos precisos que illustrem e aclarem a physionomia, vida e feitos

de um varão tão distincto, e cuja existencia é todavia incontestavel.

No desejo porém de torna-lo conhecido dos leitores, e de pôr a limpo a

sua original e extravagante personalidade, traçamos proceder em relação

ao escriptor paulista como o fizemos a respeito do poeta portuguez

Jeronymo Cortereal, cuja biographia nos legárão todavia menos incompleta

os autores passados.

A chronica de Cortereal terá assim uma imitação na de Manuel de

Moraes. Comprehendia aquella a pintura da nação e da sociedade

portugueza durante os ultimos dias de D. Sebastião até o jugo

castelhano. Encerrará esta a descripção dos successos occorridos durante

o seculo XVII em São Paulo e nas missões jesuiticas de Guayrá; em

Pernambuco e nas guerras dos Hollandezes; nos Paizes Baixos e na

emigração dos judêos portuguezes; em Portugal e no predominio sangrento

da Inquisição.

Confundir-se-hão no mesmo quadro a historia real e a imaginação

aventureira. Não é este o ramo mais popular da moderna litteratura, a

formula mais estimada pelo publico da actualidade?

MANUEL DE MORAES

CAPITULO PRIMEIRO

Quem presentemente seguir da cidade de Santos para a de Sao Paulo

aproveitando a estrada de ferro, que se acaba de construir entre os dous

pontos mais interessantes da provincia; e lançar os seus olhos curiosos

sobre a capital, assentada doce e preguiçosamente nos cimos de serras

altanadas, que affrontão os ares; bafejada por uma atmosphera

encantadora e portentosamente diaphana; avistada de longe por todos os

lados como uma habitação aerea; coroada de torres de igrejas e de

edificios risonhos; cercada de campinas que se somem na confusão do

firmamento; regada aos pés pelo riacho Tramandatahy, que a pequena

distancia, e na propria planicie descoberta, precipita as suas aguas

claras e boliçosas no seio do rio Tieté, assemelhando-se já na infancia

a um monarcha poderoso quando o assorberbão as copiosas torrentes das

chuvas: não póde ao certo imaginar o que fôra esta povoação nos

primeiros annos do seculo XVII.

O celebrisado Martim Affonso de Souza, donatario das terras que correm

do Cabo de São Thomé para o sul até encontrar as ultimas cincoenta

leguas reputadas pertencentes á corôa portugueza, e que havião sido

concedidas a seu irmão Pedro Lopes de Souza, edificára o arraial de São

Vicente, á beira do mar, povoára-o de gente laboriosa e aventureira,

e passára aos moradores ordem de internar-se pelo solo, explora-lo, e

cultiva-lo, travando amizade e pazes com as tribus gentias e tranquillas

que encontrassem pelo caminho.

Seguio-se a São Vicente o arraial de Santos, como porto mais favoravel á

navegação e ao commercio, por mais resguardado dos ventos e das furias

do oceano. Dobrando depois as serras alcantiladas e graniticas que se

avistavão, descobrírão os Portuguezes planicies immensas e uberrimas,

que se estendião voluptuosamente pelas alturas dos montes, e fundárão

então ahi a povoação de São Paulo, perto das tabas e residencias da

tribu de Tyberiçá, que habitava os sitios deleitosos de Piratininga, e

acolhêra os invasores como amigos e alliados, contando com o seu auxilio

para combater e resistir aos valentes Tamoyos do Rio de Janeiro, que

pela parte do Norte commettião assaltos e depredações incessantes,

roubavão e assassinavão os vizinhos sem piedade e nem commiseração, e

aterrorisavão com as suas façanhas as raças mansas de Carijós, e

Goyanazes, que possuião as terras e florestas da parte meridional da

capitania hoje denominada provincia de São Paulo.

Não se tinhão ainda derribado as mattas poderosas, que cobrião o solo, e

negavão caminho. Não se havião vencido ainda as correntes rapidas e

desordenadas dos arroios, que cortavão as communicações com o largo e

fundo das suas aguas possantes. Não se encontravão ainda pousos e

ranchos semeiados pela estrada, para allivio dos viajantes. Não estavão

ainda edificadas as lindas casas de campo, rodeiadas de pomares e

jardins, e enfeitadas de flôres cheirosas, que alegrão os sentidos, e

extasião com doçuras ineffaveis.

Não apparecia ainda o pittoresco arraial de São Bernardo, brilhando

como preciosa quinta de fidalgo no seio de arvoredos fructiferos.

Desde que se attingia ao alto dos serros, de onde se descortina o

panorama soberbo das terras inferiores, rasgadas pelo curso caudaloso

dos rios, e do mar fremente, que sussurrava de continuo como o gemido da

eternidade, até que se chegasse á povoação de São Paulo, fulgurava a só

natureza virgem com a magestade das suas arvores, a grandeza dos seus

penhascos, a immensidade das suas cataractas de aguas, a extensão dos

seus desertos, e a pompa e sombrio dos seus reconditos segredos.

Traçárão-se a esmo os caminhos, descendo e trepando como animaes bravios

da solidão. Transpunhão-se os arroios a nado, as catadupas com páos

agrestes e mal afeiçoados, que se destruião e atiravão por cima d'ellas

para servir de pontes de passagem. Desperdiçavão-se dias e noites

inteiras na viagem difficultosa, dormindo-se ao ar, sobre o chão humido,

ou em redes pendidas dos galhos das arvores. Que espirito extraordinario

imaginaria n'essa época que uma estrada de ferro, movida pelo vapor,

levaria hoje em poucas horas os viajantes de Santos a São Paulo, domando

a natureza, avassallando os elementos do solo, e correndo mais que as

aguias velozes, e quasi tanto como a aragem fresca do vento!

Se por um lado perdeu com a metamorphose a poesia das brenhas,

esplendores e primitiva magnificencia das localidades, não resplandece

porém nos progressos da sociedade actual, nos descobrimentos arrojados

do genio do homem, outra poesia nova, que se reveste igualmente de

encantos e vôos admiraveis, posto diametralmente differentes?

Não possuia a povoação de São Paulo nos primeiros trinta annos do

seculo XVII mais de trezentas a quatrocentas casas, com cerca de tres

mil moradores, gentios catechisados e livres em maioria, Portuguezes,

mamelucos ou mestiços de branco e gentio, mulatos e pretos escravos.

Erão pela maior parte as habitações simplices choupanas, cobertas de

telhas ou de palha; quatro ou cinco igrejas regulares, e não mais de

trinta a quarenta predios de apparencia senhoril. Estreitas e tortuosas

ruas traçadas sem o nivellamento preciso do solo exigião degráos para

subidas e descidas, que communicassem os varios outeiros, sobre que o

arraial pousava. Dominando a eminencia banhada aos pés pelo riacho

Tramandatahy, pairava a casa da companhia de Jesus, limpamente caiada,

erguida em sobrados, coroada de telhas vermelhas, dominando a planicie,

que acabava nos montes da Penha, atirando uma cerca repleta de

larangeiras, jaboticabeiras, e varias arvores fructiferas pela

quebrada do outeiro até as margens do arroio, e encostada á igreja do

Instituto modestamente edificada, tendo ao lado uma torre pittoresca e

um cemiterio já bastante povoado de sepulcros, e na frente uma praça

irregular bem que espaçosa.

As varias classes dos moradores se differençavão igualmente pelos

costumes e tendencias. Empregavão-se os escravos nos trabalhos infimos e

agricolas. Dedicavão-se os Portuguezes nascidos na Europa ou já no

Brazil ao commercio e industria, á construcção e edificação de

propriedades, a compras e vendas de terrenos, ou permutas em grosso ou a

varejo de objectos de mercancia. Regimentos militares e milicianos

defendião a povoação. Algumas ordens monasticas possuião já conventos.

Mais numeroso e importante se manifestava porém o Instituto de santo

Ignacio de Loyola, ao qual respeitavão as proprias autoridades civis

e militares, em obediencia ás ordens terminantes e rigorosas que lhes

chegavão da metropole européa, recommendando-lhes todo o apoio e

protecção aos jesuitas, como os apostolos mais fervorosos da

catechisação dos indigenas, e os esteios mais firmes do altar e do

throno. Posto em geral mais viciosos que todos os habitantes, se

reputavão os mamelucos descobridores audazes de terras interiores, e

exploradores perspicazes dos desertos, incitando continuamente a cobiça

dos Portuguezes, que chegavão á povoação nos desejos e ancias de

correrem atrás de minas de ouro e prata, que dizião existir para as

partes de dentro da capitania, e para os confins e limites do Perú, e de

guerrearem os gentios salvagens, que se reduzião ao captiveiro, segundo

as leis existentes, quando apanhados sómente nos combates, ou

convencidos de crimes.

Formavão os caboclos catechisados uma classe innocente, submissa,

devota, mas activa e industriosa. Compunha-se de operarios,

agricultores, musicos e cantores. Apprendião todos os officios, e

gostavão de procissões religiosas, festas nos templos e solemnidades

apparatosas. Veneravão e obedecião aos padres da companhia de Jesus como

a seus pais e protectores, seus amigos e mestres, seus medicos e anjos

tutelares. Ouvião-lhes os conselhos, attendião-lhes aos sermões e

predicas, assistião nas suas escolas ás lições da lingua e grammatica

portugueza, ás explicações do catechismo romano, e ao exercicio do canto

e musica, com que particularmente os deleitavão os jesuitas,

alimentando-lhes a fé, e moralisando-os convenientemente. Applicavão os

filhos desde a infancia aos coros das igrejas, ao tanger dos

instrumentos sonoros, e ao serviço religioso.

Estava a capitania de São Vicente dominada ainda pelos herdeiros do

donatario, e administrada em seu nome por autoridades de sua escolha,

conhecidas pelos titulos de locotenentes e capitães-móres. Prestavão

todas preito todavia ao governador do Rio de Janeiro em tudo quanto se

considerava direcção politica.

Não erão raras as lutas em que se envolvião os jesuitas contra as

pretenções dos brancos e mamelucos, ambiciosos de converter em escravos

quantos gentios apanhavão, ainda que as leis não consentissem o

captiveiro senão em casos particularisados. Timbravão os padres em

defender os infelizes indigenas, e sustentar os seus direitos e fóros de

homens livres. Bastantes conflictos travavão igualmente no intuito de

livrar os gentios de attentados e malversações, que soíão praticar os

conquistadores contra as suas pessoas, familias e propriedades.

Valião-lhes o respeito que incutião em animos ignorantes, as crenças

catholicas da época e que chegavão ao gráo de superstição, e das quaes

os jesuitas se aproveitavão, e o apoio igualmente que prestavão aos

padres as autoridades da colonia.

Como se alvoroçava a população de São Paulo ao receber noticias de

Portugal e Hespanha, unidos então sob o sceptro dos Felippes de

Castella? Quantas dôres e gemidos, quantas preces nos templos, quantas

genuflexões perante os altares, ao espalhar-se que os Hollandezes se

havião apoderado da cidade do Salvador da Bahia, e logo após do

territorio de Pernambuco, ameaçando submergir o Brazil no pelago das

calamidades, com levantar sobre as ruinas da religião romana o frio e

schismatico culto da reforma preconisada por Luthero, Calvino e seus

discipulos! Ao saber-se de victorias dos Hollandezes, acudião povos dos

arredores de São Paulo, e corrião todos os moradores, guiados pelos

jesuitas e pelas autoridades, a implorar do Deos eterno misericordia e

salvação, misturando-se as imprecações e lagrimas de gentios, mamelucos,

brancos e escravos, que batião nos peitos amarguradamente, se infligião

castigos corporaes, e apegavão-se aos santos do calendario para lhes

conseguir protecção e piedade!

Corria assim este estado de cousas, quando, ao acabar de uma tarde do

mez de Abril de 1628, descêrão dous vultos o outeiro em que estava

situada a cerca da casa de Jesus, como peregrinando por entre o

arvoredo, e procurando as margens do Tramandatahy.

Cobrião-se ambos de roupetas de jesuitas. Mas um puxava já os seus annos

para além do numero de quarenta. Começava-lhe a cabeça a embranquecer e

calvejar, cahindo-lhe os cabellos á proporção que perdião a côr

primitiva. Physionomia sympathica e rasgada; olhos bondadosos; gestos

agradaveis apparentava. Conversando com o seu companheiro, que pouco

mais passava dos vinte annos de idade, mexia o padre Eusebio de

Monserrate, que assim se chamava o mais velho dos dous vultos, as contas

grandes e pretas de um rosario terminado por uma cruz regular, parava de

quando em quando, ouvia attentamente o seu interlocutor, dirigia-lhe

palavras curtas e pausadas, levantava os olhos para o céo, e fixava-os a

miudo no mancebo, como perscrutando-lhe no intimo do peito. Esbelto,

vigoroso e alto, erguia-se o seu companheiro, noviço ainda da companhia.

Dir-se-hia porém triste, abatido, acurvado por alguma dôr do espirito, e

mais prestes a confessar-se humildemente que a entreter uma conversação

regular e séria.

Morria ao longe o dia, enterrando-se o sol, que o allumiára, por detrás

dos morros da Penha, posto raiassem ainda os derradeiros clarões, que

vagão indefinida e indecifravelmente depois ainda que o rei dos

astros desapparece, demorando-se elles por algum tempo no horizonte, que

do lado opposto se escurecia e minguava com as sombras da noite proxima.

Suave viração brincava com as folhas das arvores, perfumando e

refrescando a atmosphera um pouco aquecida com os ardores antecedentes

do sol. De um para outro lado saltavão pelo chão timidas rolinhas,

fugindo aterrorisadas sempre que ouvião o menor sussurro, e parecendo

procurar abrigo tranquillo em qualquer galho ou tronco esparso que

encontravão.

Soárão sete horas nos sinos da torre dos jesuitas, quando se havião já

approximado do Tramandatahy os dous individuos de que fallamos. Tirárão

immediatamente da cabeça os seus grandes chapéos de abas largas, e

cortárão toda a conversação para dirigir preces ao Todo Poderoso e

benzer-se devotamente. Acabadas as rezas, pegou o padre na mão do

mancebo, e disse-lhe com pausa estudada:

--Queres emfim abandonar a casa de Deos e deixar o serviço da religião e

da companhia?

--Não me inspira vocação nenhuma para o estado,--respondeu-lhe o joven,

tentando beijar a mão do jesuita, o que este lhe não permittio.--Não

dirige Deos a creatura humana?--continuou depois de alguns momentos de

repouso.--Se me não concede vontade e dedicação é porque me destina para

outros fins.

--Serás desgraçado, filho!--retorquio-lhe o padre.--Deos não quer

violencias. Recommenda apenas a convicção para chamar ao gremio da

Igreja as ovelhas extraviadas. Dá-lhes o livre arbitrio, para ficarem

responsaveis das suas intenções e feitos. Mas serás desgraçado, porque a

Igreja catholica é a razão divina, a unica salvação da creatura

humana, e não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel

do mundo das miserias.

--E porque me não depositou Deos no espirito ancias e aspirações intimas

para a vida da communidade ecclesiastica e da disciplina rigorosa que

exige o santo Instituto?--perguntou o joven, exaltando-se

amarguradamente, e manifestando agitação patente do animo.

--Para que saibas domar as paixões que borbulhão no homem,--repetio-lhe

o velho.--Mais ganha quem na luta commette sacrificios, e vence os

instinctos desregrados da natureza e da juventude.

--Que vale a devoção contrafeita?--articulou o mancebo.

Sorrio tristemente o jesuita, comprehendendo-lhe o fundo do pensamento.

Chegou-se a um tronco cahido, que descobrio a pequena distancia, no

intuito de arrimar-se n'elle, levando pelo braço e para perto de si

o noviço angustiado.

--Escuta,--disse-lhe com amenidade.--Eu tambem passei pela tua idade. Eu

tambem senti ferver-me no peito paixões desencontradas, como em ti

prevejo, e que me incitárão e arredárão do verdadeiro caminho da

felicidade n'este e no outro mundo. Eu tambem, como santo Ignacio de

Loyola, creador de nosso santo Instituto, achei-me precipitado nas lutas

extravagantes e desordenadas da vida. Eu tambem combati como soldado,

viajei como peregrino errante e aventureiro, soffri fomes, sêdes,

perigos, prisões e exilios. Apprendi porém á minha custa, ensaiou-me a

experiencia dos males, arrependi-me sinceramente dos meus erros, e foi o

Eterno comigo misericordioso, abrindo-me a tempo os olhos da razão, para

buscar asylo e socego de corpo e d'alma na Sagrada casa, a que me acolhi

de coração. Oxalá seja Deos bondadoso tambem comtigo, e te manifeste

na eternidade a sua infinita piedade!

--Deixai-me igualmente gozar da mocidade,--exclamou o joven.--Siga

comigo a natureza a sua marcha legitima, como succedeu comvosco.

Encarou-o o padre absorto. Percebeu lagrimas copiosas cahirem-lhe dos

olhos apezar da firme resolução que denunciavão as palavras do mancebo.

Não descobrio maldades aonde apparecia a só exaltação de animo verde e

inexperiente. Moveu-o a compaixão, e assomou-lhe igualmente ao espirito

a reminiscencia do seu proprio passado. Abraçou-o apertada e

amigavelmente, e disse-lhe:

--Não lucra a religião com duvidas e lutas do espirito. Não agradece o

Instituto de santo Ignacio serviços involuntarios. Parte. Manda-me a

consciencia que te abençôe na despedida, e rogue a Deos todo

poderoso te illumine na senda escabrosa que pretendes percorrer, e

te abra os thesouros da sua ineffavel graça a tempo de salvar-te dos

perigos.

Cahio o joven de joelhos, e recebeu com toda a humildade a benção, que

lhe lançou o religioso. Ao deixa-lo, sentio o padre que seus proprios

olhos humedecião, e lhe rolava pela face, que começava a enrugar-se,

pranto amargo e sentido. Acompanhou com a vista o mancebo, que sahia da

cerca, até que não pôde mais descobri-lo com as trevas da noite, que se

adiantava. Levantou-se do tronco em que estava apoiado, e seguio

machinalmente para a casa da companhia, subindo o outeiro. Chegado ao

alto, voltou-se, procurando rever ainda o joven. Vão esforço!

Desapparecêra elle completamente.

Rezou baixo alguns minutos, benzeu-se enternecidamente, e saudando o

porteiro, entrou no convento. Dirigio-se para a Igreja, prostrou-se

ante os altares, e duas longas horas passou ahi n'essa posição, orando

em pró do noviço infeliz, que as tentações do mundo arrancavão á vocação

religiosa.

CAPITULO II

Sahido da cerca dos jesuitas, seguira no entanto para o interior da

povoação de São Paulo o noviço que se despedira do padre Eusebio de

Monserrate. Chamava-se Manuel de Moraes. Nascera nos primeiros annos do

seculo. Destinára-o seu pai, José de Moraes, para a vida trabalhosa de

membro da companhia de Jesus, por se persuadir ser este o estado mais

feliz, e posição mais brilhante e grata a Deos e á sociedade, que podia

descobrir para o filho unico varão que lhe concedêra a Providencia.

Oriundo da provincia do Minho em Portugal, alli se casára José de Moraes

com Ignez das Dôres, e o obrigára a pobreza a deixar os lares patrios, e

procurar fortuna no Brazil, levando comsigo a consorte e companheira.

Guiado pelos conselhos dos jesuitas, de quem se mostrava fervente

admirador, empregára-se em lavoura na capitania de São Vicente, e

ganhára creditos merecidos de um dos mais honestos moradores de São

Paulo, e dos mais honrados Portuguezes, que ahi residião. Além de Manuel

de Moraes, tinha mais tres filhas menores, que Ignez das Dôres educava

piedosamente infiltrando-lhes no espirito tenro ainda as maximas mais

salutares e virtuosas.

Entregára o proprio José de Moraes o filho querido á companhia de Jesus.

Confiára-o particularmente ao padre Eusebio de Monserrate, seu amigo

antigo, e protector decidido. Madrugára no moço o engenho, e nem-um

estudante o excedia em penetração e agudeza de espirito, e em desejos de

instruir-se, e aproveitar as lições dos mestres. Merecia as sympathias

dos jesuitas pelo seu procedimento escolar, e pela vida regrada que

seguia, posto lhes desagradassem frequentes opposições e resistencias á

disciplina e devoções mysticas que soíão praticar-se no Instituto dos

discipulos de santo Ignacio. Procurára Eusebio de Monserrate acurvar

essa vontade altiva, modificar essas tendencias mundanas, que o noviço

manifestava claramente. Nada conseguíra, como acabamos de referir, e se

determinára por fim Manuel de Moraes a abandonar o convento, e o velho

padre a consentir-lhe aos desejos, reconhecendo a inutilidade das suas

exhortações e conselhos.

Turvára-se a noite, e chuva ao principio miuda, que cahia sobre a terra,

prognosticava maiores torrentes, pela escuridão que cobria o

firmamento, e pelos indicios certos de relampagos, que se denunciavão na

atmosphera carregada de grossas nuvens.

Graves cogitações lhe acabrunhavão todavia o espirito attribulado pela

importancia do passo que acabára de dar. Como o acolheria seu pai, ao

saber da resolução que tomára? Tê-lo-hia previamente scientificado e

preparado o padre Eusebio de Monserrate? Que vida o esperava, e que

aventuras lhe erão reservadas, agora que, não pertencendo mais ao

Instituto de santo Ignacio, entrava no gozo inteiro da liberdade, e se

atirava no seio da sociedade civil, que não conhecia, mas que a

imaginação lhe pintava como a mais apropriada e favoravel ao seu

caracter, e ás suas aspirações intimas, que a communhão religiosa, que o

acolhêra e educára até os vinte quatro annos de idade?

Ao descer um outeiro ingreme para subir aquelle em que pousava a

casa paterna, para a qual se encaminhava, e que era situada na

extremidade da povoação, ouvio não longe de si, e mais em baixo, por

detrás de uma ruela miseravel, gritos e rumores extraordinarios.

Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. Não tinha armas

para atacar ou defender-se. Sobrava-lhe porém coragem, e não hesitou um

instante em correr para o lugar do perigo, de onde partião vozes que

parecião pedir soccorro. Não lhe prestava a roupeta do jesuita uma força

moral que lhe attrahia o respeito?

Ao dobrar um becco escuro, achou-se em frente de um grupo de quatro

homens e de uma mulher. Escondia-lhe a densa escuridão as peripecias do

acontecimento. Approximou-se porém de subito, e gritou-lhes, mostrando a

cruz do seu rosario:--Em nome de Deos, cessai, peccadores!

Mais poderosa que a espada foi a exclamação resoluta do noviço. Ao

ouvi-lo, tres dos homens deitárão a fugir, sumindo-se incontinente.

Achou-se Manuel de Moraes com um só dos homens, e o vulto de mulher que

se arrastava pelo chão, proferindo ais angustiados.

Atirou-se-lhe aos joelhos o individuo que ficára, e agradeceu-lhe a sua

salvação. Apressou-se a mulher em imitar-lhe o exemplo, e ambos fallavão

ao mesmo tempo, denunciando a sua gratidão, e beijando o habito do noviço.

--Que succedeu?--perguntou-lhes Manuel de Moraes, levantando-os, e

animando-os com gestos bondadosos, e um tom meigo, que lhe devia

affeiçoar a confiança.

--Padre!--disse-lhe o homem mais tranquillo--Sou um pobre carijó, e é

minha filha esta menina. Moravamos ahi,--apontando para uma infima

choupana--quando tres brancos arrombárão a porta, se atirárão sobre

a cama de minha Cora, arrancárão-na d'ahi, e corrêrão para a rua,

carregando-a nos braços. Acordei sobresaltado, precipitando-me contra

elles com os meus braços por unica arma, que os braços de um pai valem

as melhores espingardas. Segurei em minha filha, atraquei-me com elles,

quando chegastes, e nos salvastes!

--E que sangue é este?--continuou Moraes, percebendo-lhe manchada a

cabeça, a face, e a camisa de algodão.

--Não é nada, meu salvador,--repetio o gentio, chegando os labios á mão

do noviço.--Alguma bordoada que apanhei. Não é nada, que escapou Cora

dos seus perseguidores.

--E os conhecestes?--interrogou-lhe o joven.

--São perros,--tornou-lhe o carijó.--Não lhes divisei bem os rostos, mas

creio que não passão de uns máos vizinhos brancos, que commettem

tropelias em São Paulo, sem respeito ás vozes dos santos missionarios, e

nem medo de castigo de Deos eterno. Somos fracos, pobres gentios, e os

padres sós nos amparão e protegem!

Dirigírão os seus passos para o casebre miseravel que servia de

habitação ao indigena. Cahida estava a porta unica que lhe abria

communicação para a ruela, arrancada dos gonzos e derribada por terra.

Entrárão os tres. Acendeu o gentio lume com umas pedras. Passou-se o

fogo para uns pedaços seccos de páo, que se illuminárão em um momento.

Vio então Moraes o caboclo, que reconheceu por um dos mais fieis

seguidores da religião e frequentadores da igreja da companhia. Trazia

camisa e calças de algodão branco. Pés no chão, e o aspecto respeitavel.

Uma saia da mesma fazenda cobria o corpo todo de Cora, apertada na

cintura e com mangas largas e compridas. Cahião-lhe em desordem

pelos hombros bastos cabellos pretos, que se dirião luzentes como o

verniz. Olhos quasi azulados, grandes, rasgados, cobertos de espessas

pestanas da mesma côr, harmonisavão admiravelmente com o vermelho das

faces juvenis, com o delicado dos labios e fórmas do rosto, e com o

esbelto e elegante do corpo. Uma grande estampa da santissima Virgem

lacrymosa ornava a parede do aposento, despido de trastes, e sem forro

nem soalho de madeira.

Ajudou Manuel de Moraes ao gentio no levantar e pregar de novo a porta

do seu casebre. Socegou-o com seus conselhos. Exhortou a filha a

proseguir no caminho da virtude. Despedio-se por fim d'elles,

deixou-lhes a choupana, e continuou o seu caminho, pensando na luta das

duas raças de homens que ahi estavão reunidas na mesma povoação e em

face uma da outra, e agradecendo a Deos por conservar ao menos a

autoridade e prestigio dos padres da companhia de Jesus, afim de

defenderem a mais fraca e innocente, e reprimirem com as armas da

religião, que assoberbavão felizmente os espiritos de todos, as

violencias e arbitrios, que com barbaros instinctos soíão os

conquistadores praticar contra os desgraçados gentios.

Volvêrão-lhe pela mente idéas favoraveis ao seu regresso para o seio da

companhia, destinada á salvação de tantas almas desditosas, e á

protecção de individuos tanto mais interessantes quanto menos robustos,

e menos estragados na religião e nos costumes. Ou o pejo, depois do que

havia commettido, ou uma aspiração interna e indefinida, que o arrastava

para o mundo, e lhe pesava sobre a razão, ordenárão-lhe porém que

marchasse para outros destinos, posto lhe fossem desconhecidos.

Absorvido n'estes pensamentos chegou á porta da casa paterna. Reinava o

maior socego e quietação na aldêa. Continuava negro o céo, a chuva mais

grossa, o vento crespo e em rajadas desagradaveis, a atmosphera

atravessada por scentelhas de fogo, o ar roncando já com trovões

assustadores, ainda que longinquos ainda. Nem uma luz raiava nas ruas, e

nem uma porta ou janella das casas estava aberta.

Bateu docemente com a mão na porta do ninho paterno. Respondeu-lhe logo

o latir de um cão amigo, e depois uma voz perguntando-lhe quem era. Á

sua resposta conhecida, se lhe abrio a porta, e penetrou elle na casa.

Não era abastada de bens de fortuna a familia de Moraes. Passava todavia

folgadamente, porque os trabalhos ruraes do chefe a entretinhão com a

satisfação das necessidades da vida, e até com alguma commodidade.

Estava o pai, cuja idade orçava pelos quarenta e cinco a cincoenta

annos, sentado em uma velha poltrona, rodeiado da mulher e de tres

filhas menores de pé, e que parecião ouvir-lhe as admoestações e

conselhos. Alguns moveis, uma talha de agua de barro vermelho encostada

a um canto, uma mesa no centro, sustentando algumas iguarias frias, e

uma vela acesa em um castiçal de páo, formavão todo o seu adorno.

Parecia que se terminára a merenda habitual da noite, e que a familia

attendia ás bençãos do seu chefe, para se recolher ao descanso do somno.

--Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo,--disse Manuel, benzendo-se ao

entrar, e beijando as mãos do pai e da mãi.

--Novidades grandes trazeis-nos,--exclamou o velho, percebendo-o.--A

taes deshoras fóra do convento! Que desgraças nos annunciais?

Empallideceu Manuel a esta pergunta repentina, e que o impressionou

como máo agouro. Como preparar o animo de seu pai, que se mostrára tão

adheso ás felicidades da vida ecclesiastica, e tão convencido da missão

religiosa, para communicar-lhe o passo que dera de abandonar a

companhia? Traçou attenuar-lhe pela melhor maneira o effeito que devia

produzir o motivo da sua apparição, mostrando-se ao principio cuidadoso

pela saude de todos os membros da familia, que ha tres dias não havia

visitado, antes que respondesse a seu pai como lhe cumpria.

Em poucas palavras o satisfez José de Moraes, assegurando-lhe que todos

gozavão de paz e socego, reiterando-lhe a pergunta que lhe dirigíra, e

mostrando-se ancioso por saber a razão da sua visita inesperada.

Comprehendeu o filho que a narração devia de ser rapida para que menos

desastroso fosse o effeito produzido. Não andava já contente José de

Moraes com a sua conhecida repugnancia de passar na companhia do

gráo de noviço ao de irmão, que era o segundo do Instituto, e requisito

necessario e indispensavel para se elevar ao de padre. Exasperava-se

porque o filho lhe não abria o coração, pelo temor em que o pai o

continha, e respeitoso afastamento de si, em que o guardára desde a

infancia, quando alguns avisos dos jesuitas lhe chegavão aos ouvidos, e

profundamente o irritavão.

--Antes de responder-vos, meu querido pai--disse-lhe Manuel,

ajoelhando-se perante elle, e apertando-lhe as mãos com affecto

extremoso--Antes de responder-vos, peço-vos me perdoeis!

A estas expressões arrancou José de Moraes as mãos que o filho

conservava e beijava. Levantou-se da poltrona, deu alguns passos para se

arredar de Manuel, tomou aspecto sinistro, e gritou-lhe arrebatadamente:

--Que crime commettestes? Preciso sabê-lo primeiro, porque Deos me

não permitte perdoar na ignorancia!

Assumio logo ao espirito de Manuel que o padre Monserrate nada contára

ao pai, e o não prevenira para o golpe que lhe ia ser descarregado.

Sobresaltado mais por esta circumstancia imprevista, conservou-se

taciturno por alguns momentos, morrendo-lhe a voz nos labios quando

estes pretendião dar passagem ás palavras.

Foi mister que José de Moraes, depois de mira-lo attentamente, e

procurar adivinhar-lhe o pensamento, lhe ordenasse positivamente que se

não evadisse a declarar-lhe toda a verdade.

Triste e abatido, continuando curvado, e saltando-lhe dos olhos algumas

lagrimas, balbuciou então vagarosamente Manuel:

--Faltei á vossa vontade, aos meus proprios desejos de obedecer-vos.

Levou o velho a mão á fronte despovoada quasi de cabellos. Ergueu-se

com magestade, posto manifestasse a maior afflicção. Chammejárão-lhe os

olhos, apertárão-se-lhe os labios, anuviou-se-lhe a physionomia inteira.

--Expulsárão-te da companhia?--disse-lhe desesperadamente.

--Não, meu pai,--tornou-lhe Manuel com tom decidido e firme.--Foi sempre

exemplar o meu proceder na casa dos santos padres. Elles vo-lo dirão

todos, que não criei nem-um desaffecto.

--Mais criminoso foste então,--retorquio-lhe o velho--porque lançaste

sobre mim, sobre tua familia, e sobre ti proprio, a deshonra,

commettendo fóra do claustro attentados talvez horrorosos.

--Não, meu pai,--continuou Manuel mais tranquillamente.--Segui sempre o

caminho da virtude, que me ensinastes.

--Não te entendo,--repetio-lhe José de Moraes, bastante alliviado já

do peso horrivel de idéas disparatadas que lhe apouquentavão o espirito.

--Não commetti um crime, meu pai,--proseguio Manuel.--Não pratiquei uma

acção viciosa. Mas faltei ás vossas ordens, e desobedeci á vossa

vontade, por mais que me esforçasse em satisfazer-vos; faltárão-me as

forças!

Embrulhava-se cada vez mais o espirito de José de Moraes com estas

declarações singelas, mas resolutas no tom e nos gestos do filho. O que

lhe teria succedido, que o devesse magoar profundamente? Em que lhe

desrespeitára Manuel ás ordens e desattendêra á vontade, que se elevasse

a tal gravidade, que lhe fosse preciso perdoar de antemão? Nem-uma idéa

lhe fulgurava ao animo que lhe prestasse a chave do segredo, e lhe

fizesse adivinhar o mysterio escondido nas palavras do filho. Menos

exasperado ficára todavia, posto inquieto ainda.

Conservava-se como uma estatua a mãi enternecida. Não fizera um

movimento, não proferíra uma palavra, não praticára um gesto. Debulhados

apenas os olhos em pranto copioso, corrião-lhe elles a miudo do filho

para o marido, e de José para Manuel de Moraes, sem que ousassem

fitar-se seriamente em nem-um dos dous. As duas filhas maiores apertando

nos braços a mais pequena, que teria seis annos, e recolhendo-se a um

canto da casa, formavão um grupo de pequenas creaturas espantadas, a

quem embargava a voz na garganta o terror de que se tinhão apossado.

--Que fizeste pois?--disse mais pausadamente José de Moraes, chegando-se

para o filho. Custou-lhe a conceder a mão que o noviço parecia

implorar-lhe. Fê-lo todavia na intenção mais de anima-lo a terminar a

historia que lhe devia contar, que de manifestar-lhe paternal affecto.

--Perdoai-me antes, meu pai,--repetio-lhe Manuel.--Promettei-me o vosso

perdão e abrir-vos-hei todo o meu peito, revelar-vos-hei todo o occorrido.

--Confessa primeiro,--continuou o velho, arredando-se de novo do pé do

filho, e carregando o semblante com indicios visiveis de tempestade.

Reinou o silencio. Nem o filho se atreveu a fallar, por o não animar

José de Moraes com um gesto ou palavra que se lhe afigurassem de

benevolencia, e nem o velho julgou dever proseguir na indagação, depois

de ter dado provas patentes das suas exigencias.

Appropinquou-se no entanto de Manuel o cão amigo, no intuito de

acaricia-lo e festeja-lo, como soía pelo seu animo de animal fiel e

agradecido.

--Sahe d'ahi,--gritou para o cachorro estremoso o velho irritado,

lançando-lhe um olhar terrivel e dando-lhe com o pé. Comprehendeu-o

o animal submisso, e volveu vagarosa e tristemente para a porta da rua,

aonde era o seu lugar, e deitou-se de novo no chão, posto não tirasse a

vista da scena, que para elle se diria comprehensivel.

Resolveu-se emfim Manuel de Moraes a fallar, no desejo e esperança de

terminar o espectaculo cruel, de que era parte importante. Abaixou

humildemente a cabeça e balbuciou pausadamente as seguintes palavras:

--Não encontrei jámais em mim vocação para a existencia pacifica dos

claustros, e nem para a vida religiosa. Lutei bastantes annos para

vencer minhas paixões, dobrar o meu espirito, reprimir-lhe as tendencias

para o mundo e para a sociedade civil, abafar n'alma as aspirações que

d'ella partião, e me convidavão para outros destinos. Não posso pertencer

á companhia de Jesus, como me determinastes e como vos devia um filho

obediente. Prefiro despir o habito, deixar o Instituto, e ajudar-vos

nos trabalhos em que vos empregais, meu pai!

--Nunca!--retorquio-lhe o velho com violencia.--Dediquei-te á vida dos

missionarios para bem teu, serviço de Deos, amor da religião e arrimo da

tua familia.

--Deixei-a já, meu pai!--respondeu o filho.--Esta roupeta me não

pertence mais. Estes trajos já não são meus. Desamparei a casa da

companhia. Despedi-me d'ella para sempre. Deos não quer votos contrarios

ao coração e ao espirito.

Tão decididos termos exaltárão em demasia o animo irritado de José de

Moraes. Sem titubear um momento e nem hesitar um instante, gritou para o

filho, respondendo á sua declaração com outra mais forte e resoluta:

--Foge de minha presença, que te não reconheço mais por meu filho! Sahe

immediatamente d'esta casa que desdouras, e cuja porta te será para

sempre fechada!

Pretendeu Manuel fallar ainda. Faltou-lhe coragem diante do gesto altivo

e firme do velho. Olhou para a mãi, que cahio em soluços sobre um banco

encostado á parede; para as irmãs, que, como pombinhas diante do caçador

feroz, se apertavão cada vez mais umas ás outras.

--Minha querida mãi!...--escapou-lhe dos labios uma voz dorida.

Procurou a mãi acolhê-lo, mas trepidou, á vista do marido, que com o

braço estendido mostrava ao filho a porta da rua.

--Manuel!--pronunciou sempre a assustada mãi.--Obedece a teu pai, volta

para os teus deveres.

--É impossivel já, exclamou o noviço.

--Calai-vos, senhora!--cortou-lhe o velho a palavra nova que desejava

ella pronunciar.--É um homem perdido esse que ahi está. Não é mais nosso

filho! Acompanha-o a maldição do pai e o castigo infallivel do céo!

Não pôde mais nada dizer Dona Ignez, e perseverou na sua posição

dolorosamente enternecida. Afigurava-se a Virgem das Dôres, partida

pelas mais acerbas magoas e crueis soffrimentos, e prostrada com a

submissa e evangelica resignação de que as sós creaturas celestes se

revestem.

Levantou-se então Manuel de Moraes, que se conservava de joelhos.

Intentou approximar-se do pai. Foi com força repellido. Traçou proferir

algumas palavras. Impôz-lhe o velho silencio com um gesto expressivo.

Chegou-se á mãi e agarrou-lhe na mão. Saltou José de Moraes do seu

lugar, e arrancou-lh'a violentamente antes que o filho tivesse tempo

para a tocar com os labios.

--Segue o teu destino, infeliz!--disse-lhe o velho.

Percebeu Manuel que nada mais podia fazer que minorasse a dôr do pai, e

lhe cumpria sómente sahir da casa. Dirigio-se para a porta da rua, e

abrio-a. Antes de transpô-la porém, volveu-se de novo para os parentes,

mostrando-lhes as lagrimas, e pedindo-lhes a commiseração e piedade.

Soluços repentinos acompanhárão uma voz de despedida saudosa, e de adeos

dorido. Pôz termo o velho á scena, correndo para a porta, e fechando-a

sobre o filho, que se achou de fóra e no meio da rua.

CAPITULO III

Tinha chegado no entanto a tempestade ao seu apogêo. Rasgavão os ares os

coriscos e raios que esclarecião sós e momentaneamente a povoação de São

Paulo. Enlutára-se a natureza, e a noite espessa, triste e medonha não

deixava descobrir caminho. Se não fôra o relampago, que de quando em

quando commettia a sua apparição, ter-se-hia perdido de certo o noviço

no meio d'esses beccos e ruellas estreitas e escuras, de subidas e

descidas, bem que as conhecesse desde a sua infancia.

De vagar, e apalpando quasi o caminho, largou a aldeia, e se dirigio

para a planicie. Teria marchado tres quartos de hora pelo campo aberto,

apenas de distancia em distancia povoado por um ou outro casebre isolado

e solitario, quando se achou no sitio a que chamão hoje da Luz, por se

ter ahi erguido uma ermida sob a invocação da senhora d'este nome.

Apezar do máo tempo, alagada a roupeta com as chuvas abundantes que a

inundavão, enterrados os grossos sapatos nos lodaçaes, que uns sobre

outros tinha de atravessar, continuou a sua marcha por meia hora mais,

até que se appropinquou de uma rustica choupana, e conseguio que lhe

dessem n'ella entrada e pouso. Pertencia a um seu amigo da infancia, com

o qual entretinha a maior intimidade.

Acolheu-o e espantou-se Antonio da Costa com a sua apparição inesperada,

e áquellas horas mortas da noite. Agasalhou-o; ajudou-o a despir-se da

roupeta de noviço, que trajava ainda, deu-lhe novo fato, emquanto a capa

se enxugava ao fogo de um brazeiro, e convidou-o a tomar alguma

refeição, para recobrar as forças perdidas.

Não excedia a idade de Antonio da Costa a vinte e dous annos. Era homem

robusto já, como se mais adiantamentos ganhára sobre o tempo. Possuia

imaginação ardente e aventurosa, e sentimentos cavalheirescos. Vivia só

e retirado n'aquelle sitio e casa, depois da morte dos pais, que

minguados recursos lhe havião legado. Não se applicáva a trabalho ou

officio algum, vegetando e estorcendo-se por isso nas angustias da

ociosidade, que mais desespera que nutre o homem, e lhe torna tediosa e

aborrida a sua existencia no mundo.

Summariou-lhe francamente Manuel os acontecimentos por que passára, e a

situação a que o havião elles arrastado. Chamárão os successos do noviço

as reflexões do seu amigo para si proprio. Comprehendeu que era identica

a posição de ambos, e lhes cumpria abandona-la conjunctamente,

procurando meios que do mundo em que vivião os arrancassem para novo

destino. Em vez de dormirem, gastárão os dous moços o resto da noite em

mutuos pensamentos e cogitações. Reflectião, e discutião sobre o que

devião fazer, sem que tivessem chegado ainda a um accordo, quando

começarão a annunciar-se os primeiros arrebóes da madrugada.

Passára o temporal, e promettia bonança o dia que se levantava.

Conversavão ambos, recostados sobre a mesma cama, quando ouvírão grandes

rumores na estrada. Erguêrão-se, abrírão uma janella que dava sobre

ella, e prestárão sua attenção a vozes alternadas e ás vezes

conjunctas, e tumultuosas. Descobrírão um grupo de cerca de trinta

homens brancos e mamelucos, e outros tantos ou mais gentios, armados

todos de espadas, facões, clavinotes e espingardas, de mochila ás

costas, vestes grossas de viagem, calças arregaçadas, e largos chapéos,

ou carapuças espessas.

Parára o grupo quasi defronte da choupana de Antonio da Costa, e ahi se

occupava em uns negocios ou aventuras, fallando muitos ao mesmo tempo, e

commettendo a maior algazarra.

--Não ha que fallar mais,--disse um com voz de estentor, dominando

inteiramente o barulho...--Matheus Chagas sabe melhor que ninguem os

caminhos, está affeito aos perigos do sertão, e devemos obedecer-lhe ás

cegas. Sem chefe não ha bandeira que preste. Seja Matheus Chagas

acclamado para nosso chefe.

Seguírão applausos repetidos, e gritou a maior parte:--Viva Matheus Chagas!

Rompeu então por d'entre elles um homem pequeno, corpulento, de

physionomia requeimada do sol, e rasgada por um talho de faca ou

instrumento cortante. Seguravão-lhe as mãos calejadas uma grande

espingarda, e um enorme facão lhe pendurava á cintura. Enrolado capote

velho com mochilas que parecião coldres lhe cobria desformemente as

costas. Era o senhor Matheus Chagas, improvisado repentinamente em

commandante do grupo pelas acclamações dos companheiros. Agradeceu-lhes

a prova de consideração que recebia, e lhes prometteu que, como homem de

resolução, tomava ao serio o posto conferido, e os guiaria para os seus

destinos.

--Amigos!--disse-lhes emphaticamente.--Levar-vos-hei caminho direito ao

Perú. Muita caça encontraremos nas mattas, e muito peixe nos rios

para alimentar-nos, muito boa agua para matar-nos a sede, saborosas

frutas para refrescar-nos, bastos arvoredos para cobrir-nos contra os

ardores do sol, e gentio em quantidade para captivar e vender. Espero em

Deos que entraremos nos paizes dos Castelhanos, e encontraremos e

carregaremos ouro e prata que elles lá têm em abundancia, sendo mais

felizes que Aleixo Garcia, que elles roubárão escandalosamente, e

matárão com tanta barbaridade[1]. Não sabeis que o cacique

Taubixi, mandou avisar os Portuguezes de São Paulo que havião lá muitas

riquezas, e os fossem ajudar contra os Castelhanos, que só querião tomar

os bens aos gentios e assassinar-lhes os filhos e as mulheres[2]?

--Bravo! bravo! Viva Matheus Chagas! repetirão todos com contentamento

cada vez mais estridente e progressivo.

--Em ordem pois, e andar para adiante!--continuou o fogoso

orador.--D'aqui a trinta leguas começão os nossos trabalhos. Até então

viagem de rosas. Depois tocaias de gentios atrás do páo, ataques de

jaguára de sobre a ribanceira, mordedura de cascavel dentro do buraco.

Mas não tenhais medo. Eu conheço todos estes perigos. Servi com um dos

homens que por ordem de Martim Affonso acompanhárão ao sertão em auxilio

de Aleixo Garcia ao capitão José Sedenho, e de que poucos escapárão da

refrega[3]. Marchemos, amigos!

Reconhecêrão os dous moços, que presenciavão esta scena, que o grupo

avistado formava uma bandeira de aventureiros, como começavão a

organisar então os Portuguezes de São Paulo, incitados pela ambição de

descobrir minas de ouro e prata, e fazer guerra aos gentios do interior

para os reduzirem ao captiveiro.

Posto que nas sós tradições, que se referião a Aleixo Garcia e aos

Hespanhóes do Perú, se denunciasse a existencia de minas de ouro e prata

no interior do paiz, e nem uma havião ainda descoberto os Portuguezes,

bastava a idéa para lhes fallar á cobiça, e leva-los a tentar a fortuna

nas emprezas, atirando-se nas densas mattas, transpondo os rios

caudalosos, dobrando as serranias levantadas, em procura de

preciosidades que a crença geral dizia escondidas no seio das terras, e

colhidas pelos Castelhanos por mais audaciosos. Deve a corôa portugueza

a estas bandeiras de aventureiros terrenos importantes que

conquistárão, e com que alargárão as suas posses, ganhando-as sobre os

vizinhos Castelhanos, espalhando nucleos de arraiaes e povoações, que

com o tempo prosperárão e augmentárão, e abrindo communicações e

caminhos para a beira do mar, aonde havião os Portuguezes começado a

estabelecer-se. Findárão seus dias pelos desertos muitos dos

aventureiros. Bandeiras inteiras desapparecêrão sem deixarem noticias.

Não os poupavão as frexas envenenadas dos gentios, e as tacapes

terriveis e pesadas de que usavão, no meio dos seus ferozes festejos,

para quebrarem as cabeças dos prisioneiros, cujos corpos devoravão em

banquetes horriveis. Resultárão porém no fim das correrias dos Paulistas

vantagens e lucros extraordinarios para a colonia, que cresceu em

terras, população e riquezas.

Olhou Manuel de Moraes para o seu amigo, e disse-lhe:--Não pensas

que o céo nos mostra o que temos de fazer? Porque não acompanhamos estes

homens nas suas explorações?

Apoderava-se igualmente de Antonio da Costa o mesmo pensamento

repentino.--Vá feito,--respondeu,--e já!

Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII · 第 1 / 9 段