Produced by Pedro Saborano
MANUEL
DE MORAES
CHRONICA DO SECULO XVII
POR
J. M. PEREIRA DA SILVA
RIO DE JANEIRO
B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
69, RUA DO OUVIDOR, 69
PARIZ.--AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7
1866
MANUEL
DE MORAES
VENDEM-SE
AS SEGUINTES OBRAS DO MESMO AUTOR
NAS CASAS MENCIONADAS
EM PORTUGUEZ:
HISTORIA DA FUNDAÇÃO DO IMPERIO BRAZILEIRO. 6 vol. in-8º.
VARÕES ILLUSTRES DO BRAZIL DURANTE OS TEMPOS COLONIAES. 2 vol. in-8º 2.ª
edição.
OBRAS POLITICAS E LITTERARIAS, Discursos parlamentares, Viagens,
Reminiscencias, Poesias, etc. 2 vol. in-8º.
JERONYMO CORTE-REAL, chronica do seculo XVI. 1 vol. in-12.
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SITUATION SOCIALE, POLITIQUE ET ÉCONOMIQUE DU BRÉSIL. 1 vol. in-12.
LA LITTÉRATURE PORTUGAISE, son passé, son état actuel. 1 vol. in-12.
PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMÃO RAÇON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1.
MANUEL
DE MORAES
CHRONICA DO SECULO XVII
POR
J. M. PEREIRA DA SILVA
RIO DE JANEIRO
B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
69, RUA DO OUVIDOR, 69
PARIZ.--AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7
1866
DUAS PALAVRAS
AO LEITOR
Encontra-se na _Biographia luzitana_ do abbade Diogo Barbosa uma
succinta noticia de Manuel de Moraes, nascido em São Paulo (Brazil),
pelos fins do seculo XVI, ou principios do XVII; autor de uma _Historia
da America_, que se perdeu inteiramente, e de uma memoria em pró da
acclamação d'el-rei D. João IVº, publicada em Leyde (Hollanda), no anno
de 1641, com o titulo de _Prognostico y respuesta á una pergunta de
un caballero muy ilustre sobre las cosas de Portugal_; condemnado pelo
tribunal do Santo Officio, relaxado em estatua no auto de fé de 6 de
Abril de 1643, por apostata da religião catholica, e casado com mulher
schismatica; e fallecido emfim em Lisboa, naturalmente, segundo o dizer
de varias tradições; pela violencia, conforme outras não menos procedentes.
Fallando d'elle igualmente Innocencio Francisco da Silva no seu
_Diccionario biographico e bibliographico portuguez e brazileiro_,
accrescenta que pertencêra á companhia de Jesus em São Paulo, e fôra
garroteado no auto de fé de 15 de Dezembro de 1647.
Outros escriptores, que procurárão lembrar-lhe tambem o nome, e nós
particularmente no supplemento annexo á obra dos _Varões illustres do
Brazil durante os tempos coloniaes_, repetírão sómente o que
avançára o abbade Diogo Barbosa, porque nem-uns esclarecimentos lográrão
mais a este respeito, por maiores pesquizas que houvessem commettido.
Parece pois evidente que se não poderá jámais esboçar um estudo
biographico e regular ácerca de Manuel de Moraes, por lhe faltarem os
elementos precisos que illustrem e aclarem a physionomia, vida e feitos
de um varão tão distincto, e cuja existencia é todavia incontestavel.
No desejo porém de torna-lo conhecido dos leitores, e de pôr a limpo a
sua original e extravagante personalidade, traçamos proceder em relação
ao escriptor paulista como o fizemos a respeito do poeta portuguez
Jeronymo Cortereal, cuja biographia nos legárão todavia menos incompleta
os autores passados.
A chronica de Cortereal terá assim uma imitação na de Manuel de
Moraes. Comprehendia aquella a pintura da nação e da sociedade
portugueza durante os ultimos dias de D. Sebastião até o jugo
castelhano. Encerrará esta a descripção dos successos occorridos durante
o seculo XVII em São Paulo e nas missões jesuiticas de Guayrá; em
Pernambuco e nas guerras dos Hollandezes; nos Paizes Baixos e na
emigração dos judêos portuguezes; em Portugal e no predominio sangrento
da Inquisição.
Confundir-se-hão no mesmo quadro a historia real e a imaginação
aventureira. Não é este o ramo mais popular da moderna litteratura, a
formula mais estimada pelo publico da actualidade?
MANUEL DE MORAES
CAPITULO PRIMEIRO
Quem presentemente seguir da cidade de Santos para a de Sao Paulo
aproveitando a estrada de ferro, que se acaba de construir entre os dous
pontos mais interessantes da provincia; e lançar os seus olhos curiosos
sobre a capital, assentada doce e preguiçosamente nos cimos de serras
altanadas, que affrontão os ares; bafejada por uma atmosphera
encantadora e portentosamente diaphana; avistada de longe por todos os
lados como uma habitação aerea; coroada de torres de igrejas e de
edificios risonhos; cercada de campinas que se somem na confusão do
firmamento; regada aos pés pelo riacho Tramandatahy, que a pequena
distancia, e na propria planicie descoberta, precipita as suas aguas
claras e boliçosas no seio do rio Tieté, assemelhando-se já na infancia
a um monarcha poderoso quando o assorberbão as copiosas torrentes das
chuvas: não póde ao certo imaginar o que fôra esta povoação nos
primeiros annos do seculo XVII.
O celebrisado Martim Affonso de Souza, donatario das terras que correm
do Cabo de São Thomé para o sul até encontrar as ultimas cincoenta
leguas reputadas pertencentes á corôa portugueza, e que havião sido
concedidas a seu irmão Pedro Lopes de Souza, edificára o arraial de São
Vicente, á beira do mar, povoára-o de gente laboriosa e aventureira,
e passára aos moradores ordem de internar-se pelo solo, explora-lo, e
cultiva-lo, travando amizade e pazes com as tribus gentias e tranquillas
que encontrassem pelo caminho.
Seguio-se a São Vicente o arraial de Santos, como porto mais favoravel á
navegação e ao commercio, por mais resguardado dos ventos e das furias
do oceano. Dobrando depois as serras alcantiladas e graniticas que se
avistavão, descobrírão os Portuguezes planicies immensas e uberrimas,
que se estendião voluptuosamente pelas alturas dos montes, e fundárão
então ahi a povoação de São Paulo, perto das tabas e residencias da
tribu de Tyberiçá, que habitava os sitios deleitosos de Piratininga, e
acolhêra os invasores como amigos e alliados, contando com o seu auxilio
para combater e resistir aos valentes Tamoyos do Rio de Janeiro, que
pela parte do Norte commettião assaltos e depredações incessantes,
roubavão e assassinavão os vizinhos sem piedade e nem commiseração, e
aterrorisavão com as suas façanhas as raças mansas de Carijós, e
Goyanazes, que possuião as terras e florestas da parte meridional da
capitania hoje denominada provincia de São Paulo.
Não se tinhão ainda derribado as mattas poderosas, que cobrião o solo, e
negavão caminho. Não se havião vencido ainda as correntes rapidas e
desordenadas dos arroios, que cortavão as communicações com o largo e
fundo das suas aguas possantes. Não se encontravão ainda pousos e
ranchos semeiados pela estrada, para allivio dos viajantes. Não estavão
ainda edificadas as lindas casas de campo, rodeiadas de pomares e
jardins, e enfeitadas de flôres cheirosas, que alegrão os sentidos, e
extasião com doçuras ineffaveis.
Não apparecia ainda o pittoresco arraial de São Bernardo, brilhando
como preciosa quinta de fidalgo no seio de arvoredos fructiferos.
Desde que se attingia ao alto dos serros, de onde se descortina o
panorama soberbo das terras inferiores, rasgadas pelo curso caudaloso
dos rios, e do mar fremente, que sussurrava de continuo como o gemido da
eternidade, até que se chegasse á povoação de São Paulo, fulgurava a só
natureza virgem com a magestade das suas arvores, a grandeza dos seus
penhascos, a immensidade das suas cataractas de aguas, a extensão dos
seus desertos, e a pompa e sombrio dos seus reconditos segredos.
Traçárão-se a esmo os caminhos, descendo e trepando como animaes bravios
da solidão. Transpunhão-se os arroios a nado, as catadupas com páos
agrestes e mal afeiçoados, que se destruião e atiravão por cima d'ellas
para servir de pontes de passagem. Desperdiçavão-se dias e noites
inteiras na viagem difficultosa, dormindo-se ao ar, sobre o chão humido,
ou em redes pendidas dos galhos das arvores. Que espirito extraordinario
imaginaria n'essa época que uma estrada de ferro, movida pelo vapor,
levaria hoje em poucas horas os viajantes de Santos a São Paulo, domando
a natureza, avassallando os elementos do solo, e correndo mais que as
aguias velozes, e quasi tanto como a aragem fresca do vento!
Se por um lado perdeu com a metamorphose a poesia das brenhas,
esplendores e primitiva magnificencia das localidades, não resplandece
porém nos progressos da sociedade actual, nos descobrimentos arrojados
do genio do homem, outra poesia nova, que se reveste igualmente de
encantos e vôos admiraveis, posto diametralmente differentes?
Não possuia a povoação de São Paulo nos primeiros trinta annos do
seculo XVII mais de trezentas a quatrocentas casas, com cerca de tres
mil moradores, gentios catechisados e livres em maioria, Portuguezes,
mamelucos ou mestiços de branco e gentio, mulatos e pretos escravos.
Erão pela maior parte as habitações simplices choupanas, cobertas de
telhas ou de palha; quatro ou cinco igrejas regulares, e não mais de
trinta a quarenta predios de apparencia senhoril. Estreitas e tortuosas
ruas traçadas sem o nivellamento preciso do solo exigião degráos para
subidas e descidas, que communicassem os varios outeiros, sobre que o
arraial pousava. Dominando a eminencia banhada aos pés pelo riacho
Tramandatahy, pairava a casa da companhia de Jesus, limpamente caiada,
erguida em sobrados, coroada de telhas vermelhas, dominando a planicie,
que acabava nos montes da Penha, atirando uma cerca repleta de
larangeiras, jaboticabeiras, e varias arvores fructiferas pela
quebrada do outeiro até as margens do arroio, e encostada á igreja do
Instituto modestamente edificada, tendo ao lado uma torre pittoresca e
um cemiterio já bastante povoado de sepulcros, e na frente uma praça
irregular bem que espaçosa.
As varias classes dos moradores se differençavão igualmente pelos
costumes e tendencias. Empregavão-se os escravos nos trabalhos infimos e
agricolas. Dedicavão-se os Portuguezes nascidos na Europa ou já no
Brazil ao commercio e industria, á construcção e edificação de
propriedades, a compras e vendas de terrenos, ou permutas em grosso ou a
varejo de objectos de mercancia. Regimentos militares e milicianos
defendião a povoação. Algumas ordens monasticas possuião já conventos.
Mais numeroso e importante se manifestava porém o Instituto de santo
Ignacio de Loyola, ao qual respeitavão as proprias autoridades civis
e militares, em obediencia ás ordens terminantes e rigorosas que lhes
chegavão da metropole européa, recommendando-lhes todo o apoio e
protecção aos jesuitas, como os apostolos mais fervorosos da
catechisação dos indigenas, e os esteios mais firmes do altar e do
throno. Posto em geral mais viciosos que todos os habitantes, se
reputavão os mamelucos descobridores audazes de terras interiores, e
exploradores perspicazes dos desertos, incitando continuamente a cobiça
dos Portuguezes, que chegavão á povoação nos desejos e ancias de
correrem atrás de minas de ouro e prata, que dizião existir para as
partes de dentro da capitania, e para os confins e limites do Perú, e de
guerrearem os gentios salvagens, que se reduzião ao captiveiro, segundo
as leis existentes, quando apanhados sómente nos combates, ou
convencidos de crimes.
Formavão os caboclos catechisados uma classe innocente, submissa,
devota, mas activa e industriosa. Compunha-se de operarios,
agricultores, musicos e cantores. Apprendião todos os officios, e
gostavão de procissões religiosas, festas nos templos e solemnidades
apparatosas. Veneravão e obedecião aos padres da companhia de Jesus como
a seus pais e protectores, seus amigos e mestres, seus medicos e anjos
tutelares. Ouvião-lhes os conselhos, attendião-lhes aos sermões e
predicas, assistião nas suas escolas ás lições da lingua e grammatica
portugueza, ás explicações do catechismo romano, e ao exercicio do canto
e musica, com que particularmente os deleitavão os jesuitas,
alimentando-lhes a fé, e moralisando-os convenientemente. Applicavão os
filhos desde a infancia aos coros das igrejas, ao tanger dos
instrumentos sonoros, e ao serviço religioso.
Estava a capitania de São Vicente dominada ainda pelos herdeiros do
donatario, e administrada em seu nome por autoridades de sua escolha,
conhecidas pelos titulos de locotenentes e capitães-móres. Prestavão
todas preito todavia ao governador do Rio de Janeiro em tudo quanto se
considerava direcção politica.
Não erão raras as lutas em que se envolvião os jesuitas contra as
pretenções dos brancos e mamelucos, ambiciosos de converter em escravos
quantos gentios apanhavão, ainda que as leis não consentissem o
captiveiro senão em casos particularisados. Timbravão os padres em
defender os infelizes indigenas, e sustentar os seus direitos e fóros de
homens livres. Bastantes conflictos travavão igualmente no intuito de
livrar os gentios de attentados e malversações, que soíão praticar os
conquistadores contra as suas pessoas, familias e propriedades.
Valião-lhes o respeito que incutião em animos ignorantes, as crenças
catholicas da época e que chegavão ao gráo de superstição, e das quaes
os jesuitas se aproveitavão, e o apoio igualmente que prestavão aos
padres as autoridades da colonia.
Como se alvoroçava a população de São Paulo ao receber noticias de
Portugal e Hespanha, unidos então sob o sceptro dos Felippes de
Castella? Quantas dôres e gemidos, quantas preces nos templos, quantas
genuflexões perante os altares, ao espalhar-se que os Hollandezes se
havião apoderado da cidade do Salvador da Bahia, e logo após do
territorio de Pernambuco, ameaçando submergir o Brazil no pelago das
calamidades, com levantar sobre as ruinas da religião romana o frio e
schismatico culto da reforma preconisada por Luthero, Calvino e seus
discipulos! Ao saber-se de victorias dos Hollandezes, acudião povos dos
arredores de São Paulo, e corrião todos os moradores, guiados pelos
jesuitas e pelas autoridades, a implorar do Deos eterno misericordia e
salvação, misturando-se as imprecações e lagrimas de gentios, mamelucos,
brancos e escravos, que batião nos peitos amarguradamente, se infligião
castigos corporaes, e apegavão-se aos santos do calendario para lhes
conseguir protecção e piedade!
Corria assim este estado de cousas, quando, ao acabar de uma tarde do
mez de Abril de 1628, descêrão dous vultos o outeiro em que estava
situada a cerca da casa de Jesus, como peregrinando por entre o
arvoredo, e procurando as margens do Tramandatahy.
Cobrião-se ambos de roupetas de jesuitas. Mas um puxava já os seus annos
para além do numero de quarenta. Começava-lhe a cabeça a embranquecer e
calvejar, cahindo-lhe os cabellos á proporção que perdião a côr
primitiva. Physionomia sympathica e rasgada; olhos bondadosos; gestos
agradaveis apparentava. Conversando com o seu companheiro, que pouco
mais passava dos vinte annos de idade, mexia o padre Eusebio de
Monserrate, que assim se chamava o mais velho dos dous vultos, as contas
grandes e pretas de um rosario terminado por uma cruz regular, parava de
quando em quando, ouvia attentamente o seu interlocutor, dirigia-lhe
palavras curtas e pausadas, levantava os olhos para o céo, e fixava-os a
miudo no mancebo, como perscrutando-lhe no intimo do peito. Esbelto,
vigoroso e alto, erguia-se o seu companheiro, noviço ainda da companhia.
Dir-se-hia porém triste, abatido, acurvado por alguma dôr do espirito, e
mais prestes a confessar-se humildemente que a entreter uma conversação
regular e séria.
Morria ao longe o dia, enterrando-se o sol, que o allumiára, por detrás
dos morros da Penha, posto raiassem ainda os derradeiros clarões, que
vagão indefinida e indecifravelmente depois ainda que o rei dos
astros desapparece, demorando-se elles por algum tempo no horizonte, que
do lado opposto se escurecia e minguava com as sombras da noite proxima.
Suave viração brincava com as folhas das arvores, perfumando e
refrescando a atmosphera um pouco aquecida com os ardores antecedentes
do sol. De um para outro lado saltavão pelo chão timidas rolinhas,
fugindo aterrorisadas sempre que ouvião o menor sussurro, e parecendo
procurar abrigo tranquillo em qualquer galho ou tronco esparso que
encontravão.
Soárão sete horas nos sinos da torre dos jesuitas, quando se havião já
approximado do Tramandatahy os dous individuos de que fallamos. Tirárão
immediatamente da cabeça os seus grandes chapéos de abas largas, e
cortárão toda a conversação para dirigir preces ao Todo Poderoso e
benzer-se devotamente. Acabadas as rezas, pegou o padre na mão do
mancebo, e disse-lhe com pausa estudada:
--Queres emfim abandonar a casa de Deos e deixar o serviço da religião e
da companhia?
--Não me inspira vocação nenhuma para o estado,--respondeu-lhe o joven,
tentando beijar a mão do jesuita, o que este lhe não permittio.--Não
dirige Deos a creatura humana?--continuou depois de alguns momentos de
repouso.--Se me não concede vontade e dedicação é porque me destina para
outros fins.
--Serás desgraçado, filho!--retorquio-lhe o padre.--Deos não quer
violencias. Recommenda apenas a convicção para chamar ao gremio da
Igreja as ovelhas extraviadas. Dá-lhes o livre arbitrio, para ficarem
responsaveis das suas intenções e feitos. Mas serás desgraçado, porque a
Igreja catholica é a razão divina, a unica salvação da creatura
humana, e não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel
do mundo das miserias.
--E porque me não depositou Deos no espirito ancias e aspirações intimas
para a vida da communidade ecclesiastica e da disciplina rigorosa que
exige o santo Instituto?--perguntou o joven, exaltando-se
amarguradamente, e manifestando agitação patente do animo.
--Para que saibas domar as paixões que borbulhão no homem,--repetio-lhe
o velho.--Mais ganha quem na luta commette sacrificios, e vence os
instinctos desregrados da natureza e da juventude.
--Que vale a devoção contrafeita?--articulou o mancebo.
Sorrio tristemente o jesuita, comprehendendo-lhe o fundo do pensamento.
Chegou-se a um tronco cahido, que descobrio a pequena distancia, no
intuito de arrimar-se n'elle, levando pelo braço e para perto de si
o noviço angustiado.
--Escuta,--disse-lhe com amenidade.--Eu tambem passei pela tua idade. Eu
tambem senti ferver-me no peito paixões desencontradas, como em ti
prevejo, e que me incitárão e arredárão do verdadeiro caminho da
felicidade n'este e no outro mundo. Eu tambem, como santo Ignacio de
Loyola, creador de nosso santo Instituto, achei-me precipitado nas lutas
extravagantes e desordenadas da vida. Eu tambem combati como soldado,
viajei como peregrino errante e aventureiro, soffri fomes, sêdes,
perigos, prisões e exilios. Apprendi porém á minha custa, ensaiou-me a
experiencia dos males, arrependi-me sinceramente dos meus erros, e foi o
Eterno comigo misericordioso, abrindo-me a tempo os olhos da razão, para
buscar asylo e socego de corpo e d'alma na Sagrada casa, a que me acolhi
de coração. Oxalá seja Deos bondadoso tambem comtigo, e te manifeste
na eternidade a sua infinita piedade!
--Deixai-me igualmente gozar da mocidade,--exclamou o joven.--Siga
comigo a natureza a sua marcha legitima, como succedeu comvosco.
Encarou-o o padre absorto. Percebeu lagrimas copiosas cahirem-lhe dos
olhos apezar da firme resolução que denunciavão as palavras do mancebo.
Não descobrio maldades aonde apparecia a só exaltação de animo verde e
inexperiente. Moveu-o a compaixão, e assomou-lhe igualmente ao espirito
a reminiscencia do seu proprio passado. Abraçou-o apertada e
amigavelmente, e disse-lhe:
--Não lucra a religião com duvidas e lutas do espirito. Não agradece o
Instituto de santo Ignacio serviços involuntarios. Parte. Manda-me a
consciencia que te abençôe na despedida, e rogue a Deos todo
poderoso te illumine na senda escabrosa que pretendes percorrer, e
te abra os thesouros da sua ineffavel graça a tempo de salvar-te dos
perigos.
Cahio o joven de joelhos, e recebeu com toda a humildade a benção, que
lhe lançou o religioso. Ao deixa-lo, sentio o padre que seus proprios
olhos humedecião, e lhe rolava pela face, que começava a enrugar-se,
pranto amargo e sentido. Acompanhou com a vista o mancebo, que sahia da
cerca, até que não pôde mais descobri-lo com as trevas da noite, que se
adiantava. Levantou-se do tronco em que estava apoiado, e seguio
machinalmente para a casa da companhia, subindo o outeiro. Chegado ao
alto, voltou-se, procurando rever ainda o joven. Vão esforço!
Desapparecêra elle completamente.
Rezou baixo alguns minutos, benzeu-se enternecidamente, e saudando o
porteiro, entrou no convento. Dirigio-se para a Igreja, prostrou-se
ante os altares, e duas longas horas passou ahi n'essa posição, orando
em pró do noviço infeliz, que as tentações do mundo arrancavão á vocação
religiosa.
CAPITULO II
Sahido da cerca dos jesuitas, seguira no entanto para o interior da
povoação de São Paulo o noviço que se despedira do padre Eusebio de
Monserrate. Chamava-se Manuel de Moraes. Nascera nos primeiros annos do
seculo. Destinára-o seu pai, José de Moraes, para a vida trabalhosa de
membro da companhia de Jesus, por se persuadir ser este o estado mais
feliz, e posição mais brilhante e grata a Deos e á sociedade, que podia
descobrir para o filho unico varão que lhe concedêra a Providencia.
Oriundo da provincia do Minho em Portugal, alli se casára José de Moraes
com Ignez das Dôres, e o obrigára a pobreza a deixar os lares patrios, e
procurar fortuna no Brazil, levando comsigo a consorte e companheira.
Guiado pelos conselhos dos jesuitas, de quem se mostrava fervente
admirador, empregára-se em lavoura na capitania de São Vicente, e
ganhára creditos merecidos de um dos mais honestos moradores de São
Paulo, e dos mais honrados Portuguezes, que ahi residião. Além de Manuel
de Moraes, tinha mais tres filhas menores, que Ignez das Dôres educava
piedosamente infiltrando-lhes no espirito tenro ainda as maximas mais
salutares e virtuosas.
Entregára o proprio José de Moraes o filho querido á companhia de Jesus.
Confiára-o particularmente ao padre Eusebio de Monserrate, seu amigo
antigo, e protector decidido. Madrugára no moço o engenho, e nem-um
estudante o excedia em penetração e agudeza de espirito, e em desejos de
instruir-se, e aproveitar as lições dos mestres. Merecia as sympathias
dos jesuitas pelo seu procedimento escolar, e pela vida regrada que
seguia, posto lhes desagradassem frequentes opposições e resistencias á
disciplina e devoções mysticas que soíão praticar-se no Instituto dos
discipulos de santo Ignacio. Procurára Eusebio de Monserrate acurvar
essa vontade altiva, modificar essas tendencias mundanas, que o noviço
manifestava claramente. Nada conseguíra, como acabamos de referir, e se
determinára por fim Manuel de Moraes a abandonar o convento, e o velho
padre a consentir-lhe aos desejos, reconhecendo a inutilidade das suas
exhortações e conselhos.
Turvára-se a noite, e chuva ao principio miuda, que cahia sobre a terra,
prognosticava maiores torrentes, pela escuridão que cobria o
firmamento, e pelos indicios certos de relampagos, que se denunciavão na
atmosphera carregada de grossas nuvens.
Graves cogitações lhe acabrunhavão todavia o espirito attribulado pela
importancia do passo que acabára de dar. Como o acolheria seu pai, ao
saber da resolução que tomára? Tê-lo-hia previamente scientificado e
preparado o padre Eusebio de Monserrate? Que vida o esperava, e que
aventuras lhe erão reservadas, agora que, não pertencendo mais ao
Instituto de santo Ignacio, entrava no gozo inteiro da liberdade, e se
atirava no seio da sociedade civil, que não conhecia, mas que a
imaginação lhe pintava como a mais apropriada e favoravel ao seu
caracter, e ás suas aspirações intimas, que a communhão religiosa, que o
acolhêra e educára até os vinte quatro annos de idade?
Ao descer um outeiro ingreme para subir aquelle em que pousava a
casa paterna, para a qual se encaminhava, e que era situada na
extremidade da povoação, ouvio não longe de si, e mais em baixo, por
detrás de uma ruela miseravel, gritos e rumores extraordinarios.
Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. Não tinha armas
para atacar ou defender-se. Sobrava-lhe porém coragem, e não hesitou um
instante em correr para o lugar do perigo, de onde partião vozes que
parecião pedir soccorro. Não lhe prestava a roupeta do jesuita uma força
moral que lhe attrahia o respeito?
Ao dobrar um becco escuro, achou-se em frente de um grupo de quatro
homens e de uma mulher. Escondia-lhe a densa escuridão as peripecias do
acontecimento. Approximou-se porém de subito, e gritou-lhes, mostrando a
cruz do seu rosario:--Em nome de Deos, cessai, peccadores!
Mais poderosa que a espada foi a exclamação resoluta do noviço. Ao
ouvi-lo, tres dos homens deitárão a fugir, sumindo-se incontinente.
Achou-se Manuel de Moraes com um só dos homens, e o vulto de mulher que
se arrastava pelo chão, proferindo ais angustiados.
Atirou-se-lhe aos joelhos o individuo que ficára, e agradeceu-lhe a sua
salvação. Apressou-se a mulher em imitar-lhe o exemplo, e ambos fallavão
ao mesmo tempo, denunciando a sua gratidão, e beijando o habito do noviço.
--Que succedeu?--perguntou-lhes Manuel de Moraes, levantando-os, e
animando-os com gestos bondadosos, e um tom meigo, que lhe devia
affeiçoar a confiança.
--Padre!--disse-lhe o homem mais tranquillo--Sou um pobre carijó, e é
minha filha esta menina. Moravamos ahi,--apontando para uma infima
choupana--quando tres brancos arrombárão a porta, se atirárão sobre
a cama de minha Cora, arrancárão-na d'ahi, e corrêrão para a rua,
carregando-a nos braços. Acordei sobresaltado, precipitando-me contra
elles com os meus braços por unica arma, que os braços de um pai valem
as melhores espingardas. Segurei em minha filha, atraquei-me com elles,
quando chegastes, e nos salvastes!
--E que sangue é este?--continuou Moraes, percebendo-lhe manchada a
cabeça, a face, e a camisa de algodão.
--Não é nada, meu salvador,--repetio o gentio, chegando os labios á mão
do noviço.--Alguma bordoada que apanhei. Não é nada, que escapou Cora
dos seus perseguidores.
--E os conhecestes?--interrogou-lhe o joven.
--São perros,--tornou-lhe o carijó.--Não lhes divisei bem os rostos, mas
creio que não passão de uns máos vizinhos brancos, que commettem
tropelias em São Paulo, sem respeito ás vozes dos santos missionarios, e
nem medo de castigo de Deos eterno. Somos fracos, pobres gentios, e os
padres sós nos amparão e protegem!
Dirigírão os seus passos para o casebre miseravel que servia de
habitação ao indigena. Cahida estava a porta unica que lhe abria
communicação para a ruela, arrancada dos gonzos e derribada por terra.
Entrárão os tres. Acendeu o gentio lume com umas pedras. Passou-se o
fogo para uns pedaços seccos de páo, que se illuminárão em um momento.
Vio então Moraes o caboclo, que reconheceu por um dos mais fieis
seguidores da religião e frequentadores da igreja da companhia. Trazia
camisa e calças de algodão branco. Pés no chão, e o aspecto respeitavel.
Uma saia da mesma fazenda cobria o corpo todo de Cora, apertada na
cintura e com mangas largas e compridas. Cahião-lhe em desordem
pelos hombros bastos cabellos pretos, que se dirião luzentes como o
verniz. Olhos quasi azulados, grandes, rasgados, cobertos de espessas
pestanas da mesma côr, harmonisavão admiravelmente com o vermelho das
faces juvenis, com o delicado dos labios e fórmas do rosto, e com o
esbelto e elegante do corpo. Uma grande estampa da santissima Virgem
lacrymosa ornava a parede do aposento, despido de trastes, e sem forro
nem soalho de madeira.
Ajudou Manuel de Moraes ao gentio no levantar e pregar de novo a porta
do seu casebre. Socegou-o com seus conselhos. Exhortou a filha a
proseguir no caminho da virtude. Despedio-se por fim d'elles,
deixou-lhes a choupana, e continuou o seu caminho, pensando na luta das
duas raças de homens que ahi estavão reunidas na mesma povoação e em
face uma da outra, e agradecendo a Deos por conservar ao menos a
autoridade e prestigio dos padres da companhia de Jesus, afim de
defenderem a mais fraca e innocente, e reprimirem com as armas da
religião, que assoberbavão felizmente os espiritos de todos, as
violencias e arbitrios, que com barbaros instinctos soíão os
conquistadores praticar contra os desgraçados gentios.
Volvêrão-lhe pela mente idéas favoraveis ao seu regresso para o seio da
companhia, destinada á salvação de tantas almas desditosas, e á
protecção de individuos tanto mais interessantes quanto menos robustos,
e menos estragados na religião e nos costumes. Ou o pejo, depois do que
havia commettido, ou uma aspiração interna e indefinida, que o arrastava
para o mundo, e lhe pesava sobre a razão, ordenárão-lhe porém que
marchasse para outros destinos, posto lhe fossem desconhecidos.
Absorvido n'estes pensamentos chegou á porta da casa paterna. Reinava o
maior socego e quietação na aldêa. Continuava negro o céo, a chuva mais
grossa, o vento crespo e em rajadas desagradaveis, a atmosphera
atravessada por scentelhas de fogo, o ar roncando já com trovões
assustadores, ainda que longinquos ainda. Nem uma luz raiava nas ruas, e
nem uma porta ou janella das casas estava aberta.
Bateu docemente com a mão na porta do ninho paterno. Respondeu-lhe logo
o latir de um cão amigo, e depois uma voz perguntando-lhe quem era. Á
sua resposta conhecida, se lhe abrio a porta, e penetrou elle na casa.
Não era abastada de bens de fortuna a familia de Moraes. Passava todavia
folgadamente, porque os trabalhos ruraes do chefe a entretinhão com a
satisfação das necessidades da vida, e até com alguma commodidade.
Estava o pai, cuja idade orçava pelos quarenta e cinco a cincoenta
annos, sentado em uma velha poltrona, rodeiado da mulher e de tres
filhas menores de pé, e que parecião ouvir-lhe as admoestações e
conselhos. Alguns moveis, uma talha de agua de barro vermelho encostada
a um canto, uma mesa no centro, sustentando algumas iguarias frias, e
uma vela acesa em um castiçal de páo, formavão todo o seu adorno.
Parecia que se terminára a merenda habitual da noite, e que a familia
attendia ás bençãos do seu chefe, para se recolher ao descanso do somno.
--Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo,--disse Manuel, benzendo-se ao
entrar, e beijando as mãos do pai e da mãi.
--Novidades grandes trazeis-nos,--exclamou o velho, percebendo-o.--A
taes deshoras fóra do convento! Que desgraças nos annunciais?
Empallideceu Manuel a esta pergunta repentina, e que o impressionou
como máo agouro. Como preparar o animo de seu pai, que se mostrára tão
adheso ás felicidades da vida ecclesiastica, e tão convencido da missão
religiosa, para communicar-lhe o passo que dera de abandonar a
companhia? Traçou attenuar-lhe pela melhor maneira o effeito que devia
produzir o motivo da sua apparição, mostrando-se ao principio cuidadoso
pela saude de todos os membros da familia, que ha tres dias não havia
visitado, antes que respondesse a seu pai como lhe cumpria.
Em poucas palavras o satisfez José de Moraes, assegurando-lhe que todos
gozavão de paz e socego, reiterando-lhe a pergunta que lhe dirigíra, e
mostrando-se ancioso por saber a razão da sua visita inesperada.
Comprehendeu o filho que a narração devia de ser rapida para que menos
desastroso fosse o effeito produzido. Não andava já contente José de
Moraes com a sua conhecida repugnancia de passar na companhia do
gráo de noviço ao de irmão, que era o segundo do Instituto, e requisito
necessario e indispensavel para se elevar ao de padre. Exasperava-se
porque o filho lhe não abria o coração, pelo temor em que o pai o
continha, e respeitoso afastamento de si, em que o guardára desde a
infancia, quando alguns avisos dos jesuitas lhe chegavão aos ouvidos, e
profundamente o irritavão.
--Antes de responder-vos, meu querido pai--disse-lhe Manuel,
ajoelhando-se perante elle, e apertando-lhe as mãos com affecto
extremoso--Antes de responder-vos, peço-vos me perdoeis!
A estas expressões arrancou José de Moraes as mãos que o filho
conservava e beijava. Levantou-se da poltrona, deu alguns passos para se
arredar de Manuel, tomou aspecto sinistro, e gritou-lhe arrebatadamente:
--Que crime commettestes? Preciso sabê-lo primeiro, porque Deos me
não permitte perdoar na ignorancia!
Assumio logo ao espirito de Manuel que o padre Monserrate nada contára
ao pai, e o não prevenira para o golpe que lhe ia ser descarregado.
Sobresaltado mais por esta circumstancia imprevista, conservou-se
taciturno por alguns momentos, morrendo-lhe a voz nos labios quando
estes pretendião dar passagem ás palavras.
Foi mister que José de Moraes, depois de mira-lo attentamente, e
procurar adivinhar-lhe o pensamento, lhe ordenasse positivamente que se
não evadisse a declarar-lhe toda a verdade.
Triste e abatido, continuando curvado, e saltando-lhe dos olhos algumas
lagrimas, balbuciou então vagarosamente Manuel:
--Faltei á vossa vontade, aos meus proprios desejos de obedecer-vos.
Levou o velho a mão á fronte despovoada quasi de cabellos. Ergueu-se
com magestade, posto manifestasse a maior afflicção. Chammejárão-lhe os
olhos, apertárão-se-lhe os labios, anuviou-se-lhe a physionomia inteira.
--Expulsárão-te da companhia?--disse-lhe desesperadamente.
--Não, meu pai,--tornou-lhe Manuel com tom decidido e firme.--Foi sempre
exemplar o meu proceder na casa dos santos padres. Elles vo-lo dirão
todos, que não criei nem-um desaffecto.
--Mais criminoso foste então,--retorquio-lhe o velho--porque lançaste
sobre mim, sobre tua familia, e sobre ti proprio, a deshonra,
commettendo fóra do claustro attentados talvez horrorosos.
--Não, meu pai,--continuou Manuel mais tranquillamente.--Segui sempre o
caminho da virtude, que me ensinastes.
--Não te entendo,--repetio-lhe José de Moraes, bastante alliviado já
do peso horrivel de idéas disparatadas que lhe apouquentavão o espirito.
--Não commetti um crime, meu pai,--proseguio Manuel.--Não pratiquei uma
acção viciosa. Mas faltei ás vossas ordens, e desobedeci á vossa
vontade, por mais que me esforçasse em satisfazer-vos; faltárão-me as
forças!
Embrulhava-se cada vez mais o espirito de José de Moraes com estas
declarações singelas, mas resolutas no tom e nos gestos do filho. O que
lhe teria succedido, que o devesse magoar profundamente? Em que lhe
desrespeitára Manuel ás ordens e desattendêra á vontade, que se elevasse
a tal gravidade, que lhe fosse preciso perdoar de antemão? Nem-uma idéa
lhe fulgurava ao animo que lhe prestasse a chave do segredo, e lhe
fizesse adivinhar o mysterio escondido nas palavras do filho. Menos
exasperado ficára todavia, posto inquieto ainda.
Conservava-se como uma estatua a mãi enternecida. Não fizera um
movimento, não proferíra uma palavra, não praticára um gesto. Debulhados
apenas os olhos em pranto copioso, corrião-lhe elles a miudo do filho
para o marido, e de José para Manuel de Moraes, sem que ousassem
fitar-se seriamente em nem-um dos dous. As duas filhas maiores apertando
nos braços a mais pequena, que teria seis annos, e recolhendo-se a um
canto da casa, formavão um grupo de pequenas creaturas espantadas, a
quem embargava a voz na garganta o terror de que se tinhão apossado.
--Que fizeste pois?--disse mais pausadamente José de Moraes, chegando-se
para o filho. Custou-lhe a conceder a mão que o noviço parecia
implorar-lhe. Fê-lo todavia na intenção mais de anima-lo a terminar a
historia que lhe devia contar, que de manifestar-lhe paternal affecto.
--Perdoai-me antes, meu pai,--repetio-lhe Manuel.--Promettei-me o vosso
perdão e abrir-vos-hei todo o meu peito, revelar-vos-hei todo o occorrido.
--Confessa primeiro,--continuou o velho, arredando-se de novo do pé do
filho, e carregando o semblante com indicios visiveis de tempestade.
Reinou o silencio. Nem o filho se atreveu a fallar, por o não animar
José de Moraes com um gesto ou palavra que se lhe afigurassem de
benevolencia, e nem o velho julgou dever proseguir na indagação, depois
de ter dado provas patentes das suas exigencias.
Appropinquou-se no entanto de Manuel o cão amigo, no intuito de
acaricia-lo e festeja-lo, como soía pelo seu animo de animal fiel e
agradecido.
--Sahe d'ahi,--gritou para o cachorro estremoso o velho irritado,
lançando-lhe um olhar terrivel e dando-lhe com o pé. Comprehendeu-o
o animal submisso, e volveu vagarosa e tristemente para a porta da rua,
aonde era o seu lugar, e deitou-se de novo no chão, posto não tirasse a
vista da scena, que para elle se diria comprehensivel.
Resolveu-se emfim Manuel de Moraes a fallar, no desejo e esperança de
terminar o espectaculo cruel, de que era parte importante. Abaixou
humildemente a cabeça e balbuciou pausadamente as seguintes palavras:
--Não encontrei jámais em mim vocação para a existencia pacifica dos
claustros, e nem para a vida religiosa. Lutei bastantes annos para
vencer minhas paixões, dobrar o meu espirito, reprimir-lhe as tendencias
para o mundo e para a sociedade civil, abafar n'alma as aspirações que
d'ella partião, e me convidavão para outros destinos. Não posso pertencer
á companhia de Jesus, como me determinastes e como vos devia um filho
obediente. Prefiro despir o habito, deixar o Instituto, e ajudar-vos
nos trabalhos em que vos empregais, meu pai!
--Nunca!--retorquio-lhe o velho com violencia.--Dediquei-te á vida dos
missionarios para bem teu, serviço de Deos, amor da religião e arrimo da
tua familia.
--Deixei-a já, meu pai!--respondeu o filho.--Esta roupeta me não
pertence mais. Estes trajos já não são meus. Desamparei a casa da
companhia. Despedi-me d'ella para sempre. Deos não quer votos contrarios
ao coração e ao espirito.
Tão decididos termos exaltárão em demasia o animo irritado de José de
Moraes. Sem titubear um momento e nem hesitar um instante, gritou para o
filho, respondendo á sua declaração com outra mais forte e resoluta:
--Foge de minha presença, que te não reconheço mais por meu filho! Sahe
immediatamente d'esta casa que desdouras, e cuja porta te será para
sempre fechada!
Pretendeu Manuel fallar ainda. Faltou-lhe coragem diante do gesto altivo
e firme do velho. Olhou para a mãi, que cahio em soluços sobre um banco
encostado á parede; para as irmãs, que, como pombinhas diante do caçador
feroz, se apertavão cada vez mais umas ás outras.
--Minha querida mãi!...--escapou-lhe dos labios uma voz dorida.
Procurou a mãi acolhê-lo, mas trepidou, á vista do marido, que com o
braço estendido mostrava ao filho a porta da rua.
--Manuel!--pronunciou sempre a assustada mãi.--Obedece a teu pai, volta
para os teus deveres.
--É impossivel já, exclamou o noviço.
--Calai-vos, senhora!--cortou-lhe o velho a palavra nova que desejava
ella pronunciar.--É um homem perdido esse que ahi está. Não é mais nosso
filho! Acompanha-o a maldição do pai e o castigo infallivel do céo!
Não pôde mais nada dizer Dona Ignez, e perseverou na sua posição
dolorosamente enternecida. Afigurava-se a Virgem das Dôres, partida
pelas mais acerbas magoas e crueis soffrimentos, e prostrada com a
submissa e evangelica resignação de que as sós creaturas celestes se
revestem.
Levantou-se então Manuel de Moraes, que se conservava de joelhos.
Intentou approximar-se do pai. Foi com força repellido. Traçou proferir
algumas palavras. Impôz-lhe o velho silencio com um gesto expressivo.
Chegou-se á mãi e agarrou-lhe na mão. Saltou José de Moraes do seu
lugar, e arrancou-lh'a violentamente antes que o filho tivesse tempo
para a tocar com os labios.
--Segue o teu destino, infeliz!--disse-lhe o velho.
Percebeu Manuel que nada mais podia fazer que minorasse a dôr do pai, e
lhe cumpria sómente sahir da casa. Dirigio-se para a porta da rua, e
abrio-a. Antes de transpô-la porém, volveu-se de novo para os parentes,
mostrando-lhes as lagrimas, e pedindo-lhes a commiseração e piedade.
Soluços repentinos acompanhárão uma voz de despedida saudosa, e de adeos
dorido. Pôz termo o velho á scena, correndo para a porta, e fechando-a
sobre o filho, que se achou de fóra e no meio da rua.
CAPITULO III
Tinha chegado no entanto a tempestade ao seu apogêo. Rasgavão os ares os
coriscos e raios que esclarecião sós e momentaneamente a povoação de São
Paulo. Enlutára-se a natureza, e a noite espessa, triste e medonha não
deixava descobrir caminho. Se não fôra o relampago, que de quando em
quando commettia a sua apparição, ter-se-hia perdido de certo o noviço
no meio d'esses beccos e ruellas estreitas e escuras, de subidas e
descidas, bem que as conhecesse desde a sua infancia.
De vagar, e apalpando quasi o caminho, largou a aldeia, e se dirigio
para a planicie. Teria marchado tres quartos de hora pelo campo aberto,
apenas de distancia em distancia povoado por um ou outro casebre isolado
e solitario, quando se achou no sitio a que chamão hoje da Luz, por se
ter ahi erguido uma ermida sob a invocação da senhora d'este nome.
Apezar do máo tempo, alagada a roupeta com as chuvas abundantes que a
inundavão, enterrados os grossos sapatos nos lodaçaes, que uns sobre
outros tinha de atravessar, continuou a sua marcha por meia hora mais,
até que se appropinquou de uma rustica choupana, e conseguio que lhe
dessem n'ella entrada e pouso. Pertencia a um seu amigo da infancia, com
o qual entretinha a maior intimidade.
Acolheu-o e espantou-se Antonio da Costa com a sua apparição inesperada,
e áquellas horas mortas da noite. Agasalhou-o; ajudou-o a despir-se da
roupeta de noviço, que trajava ainda, deu-lhe novo fato, emquanto a capa
se enxugava ao fogo de um brazeiro, e convidou-o a tomar alguma
refeição, para recobrar as forças perdidas.
Não excedia a idade de Antonio da Costa a vinte e dous annos. Era homem
robusto já, como se mais adiantamentos ganhára sobre o tempo. Possuia
imaginação ardente e aventurosa, e sentimentos cavalheirescos. Vivia só
e retirado n'aquelle sitio e casa, depois da morte dos pais, que
minguados recursos lhe havião legado. Não se applicáva a trabalho ou
officio algum, vegetando e estorcendo-se por isso nas angustias da
ociosidade, que mais desespera que nutre o homem, e lhe torna tediosa e
aborrida a sua existencia no mundo.
Summariou-lhe francamente Manuel os acontecimentos por que passára, e a
situação a que o havião elles arrastado. Chamárão os successos do noviço
as reflexões do seu amigo para si proprio. Comprehendeu que era identica
a posição de ambos, e lhes cumpria abandona-la conjunctamente,
procurando meios que do mundo em que vivião os arrancassem para novo
destino. Em vez de dormirem, gastárão os dous moços o resto da noite em
mutuos pensamentos e cogitações. Reflectião, e discutião sobre o que
devião fazer, sem que tivessem chegado ainda a um accordo, quando
começarão a annunciar-se os primeiros arrebóes da madrugada.
Passára o temporal, e promettia bonança o dia que se levantava.
Conversavão ambos, recostados sobre a mesma cama, quando ouvírão grandes
rumores na estrada. Erguêrão-se, abrírão uma janella que dava sobre
ella, e prestárão sua attenção a vozes alternadas e ás vezes
conjunctas, e tumultuosas. Descobrírão um grupo de cerca de trinta
homens brancos e mamelucos, e outros tantos ou mais gentios, armados
todos de espadas, facões, clavinotes e espingardas, de mochila ás
costas, vestes grossas de viagem, calças arregaçadas, e largos chapéos,
ou carapuças espessas.
Parára o grupo quasi defronte da choupana de Antonio da Costa, e ahi se
occupava em uns negocios ou aventuras, fallando muitos ao mesmo tempo, e
commettendo a maior algazarra.
--Não ha que fallar mais,--disse um com voz de estentor, dominando
inteiramente o barulho...--Matheus Chagas sabe melhor que ninguem os
caminhos, está affeito aos perigos do sertão, e devemos obedecer-lhe ás
cegas. Sem chefe não ha bandeira que preste. Seja Matheus Chagas
acclamado para nosso chefe.
Seguírão applausos repetidos, e gritou a maior parte:--Viva Matheus Chagas!
Rompeu então por d'entre elles um homem pequeno, corpulento, de
physionomia requeimada do sol, e rasgada por um talho de faca ou
instrumento cortante. Seguravão-lhe as mãos calejadas uma grande
espingarda, e um enorme facão lhe pendurava á cintura. Enrolado capote
velho com mochilas que parecião coldres lhe cobria desformemente as
costas. Era o senhor Matheus Chagas, improvisado repentinamente em
commandante do grupo pelas acclamações dos companheiros. Agradeceu-lhes
a prova de consideração que recebia, e lhes prometteu que, como homem de
resolução, tomava ao serio o posto conferido, e os guiaria para os seus
destinos.
--Amigos!--disse-lhes emphaticamente.--Levar-vos-hei caminho direito ao
Perú. Muita caça encontraremos nas mattas, e muito peixe nos rios
para alimentar-nos, muito boa agua para matar-nos a sede, saborosas
frutas para refrescar-nos, bastos arvoredos para cobrir-nos contra os
ardores do sol, e gentio em quantidade para captivar e vender. Espero em
Deos que entraremos nos paizes dos Castelhanos, e encontraremos e
carregaremos ouro e prata que elles lá têm em abundancia, sendo mais
felizes que Aleixo Garcia, que elles roubárão escandalosamente, e
matárão com tanta barbaridade[1]. Não sabeis que o cacique
Taubixi, mandou avisar os Portuguezes de São Paulo que havião lá muitas
riquezas, e os fossem ajudar contra os Castelhanos, que só querião tomar
os bens aos gentios e assassinar-lhes os filhos e as mulheres[2]?
--Bravo! bravo! Viva Matheus Chagas! repetirão todos com contentamento
cada vez mais estridente e progressivo.
--Em ordem pois, e andar para adiante!--continuou o fogoso
orador.--D'aqui a trinta leguas começão os nossos trabalhos. Até então
viagem de rosas. Depois tocaias de gentios atrás do páo, ataques de
jaguára de sobre a ribanceira, mordedura de cascavel dentro do buraco.
Mas não tenhais medo. Eu conheço todos estes perigos. Servi com um dos
homens que por ordem de Martim Affonso acompanhárão ao sertão em auxilio
de Aleixo Garcia ao capitão José Sedenho, e de que poucos escapárão da
refrega[3]. Marchemos, amigos!
Reconhecêrão os dous moços, que presenciavão esta scena, que o grupo
avistado formava uma bandeira de aventureiros, como começavão a
organisar então os Portuguezes de São Paulo, incitados pela ambição de
descobrir minas de ouro e prata, e fazer guerra aos gentios do interior
para os reduzirem ao captiveiro.
Posto que nas sós tradições, que se referião a Aleixo Garcia e aos
Hespanhóes do Perú, se denunciasse a existencia de minas de ouro e prata
no interior do paiz, e nem uma havião ainda descoberto os Portuguezes,
bastava a idéa para lhes fallar á cobiça, e leva-los a tentar a fortuna
nas emprezas, atirando-se nas densas mattas, transpondo os rios
caudalosos, dobrando as serranias levantadas, em procura de
preciosidades que a crença geral dizia escondidas no seio das terras, e
colhidas pelos Castelhanos por mais audaciosos. Deve a corôa portugueza
a estas bandeiras de aventureiros terrenos importantes que
conquistárão, e com que alargárão as suas posses, ganhando-as sobre os
vizinhos Castelhanos, espalhando nucleos de arraiaes e povoações, que
com o tempo prosperárão e augmentárão, e abrindo communicações e
caminhos para a beira do mar, aonde havião os Portuguezes começado a
estabelecer-se. Findárão seus dias pelos desertos muitos dos
aventureiros. Bandeiras inteiras desapparecêrão sem deixarem noticias.
Não os poupavão as frexas envenenadas dos gentios, e as tacapes
terriveis e pesadas de que usavão, no meio dos seus ferozes festejos,
para quebrarem as cabeças dos prisioneiros, cujos corpos devoravão em
banquetes horriveis. Resultárão porém no fim das correrias dos Paulistas
vantagens e lucros extraordinarios para a colonia, que cresceu em
terras, população e riquezas.
Olhou Manuel de Moraes para o seu amigo, e disse-lhe:--Não pensas
que o céo nos mostra o que temos de fazer? Porque não acompanhamos estes
homens nas suas explorações?
Apoderava-se igualmente de Antonio da Costa o mesmo pensamento
repentino.--Vá feito,--respondeu,--e já!