Houve um momento de silencio, curto, mas terrivel para Magdalena, que,
ao ouvir o cabinda, julgou que elle ia espatifar o mulato, e para este
tambem, vendo-se em face d'um inimigo tão possante.
A lua inundava, agora, com os seus raios deslumbrantes o palco, onde se
representava aquelle drama; e para contraste das paixões, que alli se
agitavam, n'aquelle instante, um sabiá, poisado nos galhos d'uma
jaqueira, começou a vibrar as doces melodias do seu canto suavissimo.
Magdalena estava tranzída de medo; o mulato espumante de raiva, no meio
da sua impotencia; e o cabinda risonho, mas n'uma alegria feroz.
Era um quadro digno d'um pincel aprimorado.
--Mato a serpente, senhora moça! dissera o negro a Magdalena, quando
esta lhe perguntava o que fazia, vendo-o agarrado ao pescoço do infame
mulato.
Este, ao ouvil-o sentiu-se como aniquilado, mas por um exforço, proprio
do instincto dos da sua raça, poude desembaraçar-se do negro, guardou
rapido a fita das tranças de Magdalena, que lhe ficára nas mãos, recuou
dois passos, e de subito agitou no ar um punhal, cuja lamina pequenina
brilhava aos raios da lua.
Magdalena, como que perdida, cheia da coragem, que os grandes lances
despertam nas almas mesmo mais fracas, correu para Americo, a
suspender-lhe o golpe, que ella julgava imminente sobre o cabinda.
N'este momento, porém, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma
comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mão vigorosa do negro.
Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os
braços podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas
victimas, rasgando dois seios.
E assim aconteceria, se não fosse uma imprudencia de Magdalena,
imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente não teve
resultados funestos.
Quando a força dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe,
chegava Magdalena collocando-se entre elles.
Suspenderam-se então, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva,
o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica.
--Que faz, senhora moça! gritou o negro.
--Estás doido, cabinda!
--É o que te vale, canalha! acudiu Americo.
--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas não
tenho receio de o mandar calar e de retirar-se!
--Creança!
--Lacaio!
O cabinda era um vulcão latente. Continha-o a presença de Magdalena. No
entanto, as forças, ou antes, a paciencia, ia começando a faltar-lhe e
ai do mulato se a lava podesse romper!
Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu
atrevidamente a Magdalena:
--Ponha essa palavra na bôcca d'um homem e diga-lhe que m'atire.
--Ó senhora moça! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para
Americo.
--Não, que te enlameias!
--Respeito-a porque é mulher, porque é uma creança. Todavia, creia que
não ficaremos sem saldarmos as contas.
--Quando quizer. Vamos, cabinda.
E Magdalena, aquella creança que nós conhecemos, bondosa, meiga,
delicada, sensivel, tomou, lançando ao mulato o seu olhar expressivo de
cólera, o negro pelo braço e arrastou-o consigo, affastando-se em
direcção a casa.
O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse á sua filha, mas
não sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato:
--O negro cá fica. Cautella com o cabinda.
Americo tragou a ameaça em silencio e ficou só, no meio da febre da sua
exaltação, que pouco a pouco devia ir diminuindo.
Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe,
porém, a lembrança de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante
a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fóra.
Estava cançado.
As coisas começavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as
offensas e as affrontas que havia recebido.
Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingança, mas teve um
momento em que quasi succumbiu.
Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz,
Magdalena e o negro.
A lucta era desigual e poderosos os seus contendores.
O primeiro ensejo, a primeira occasião favoravel, fôra de toda perdida,
e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posição.
Os cuidados e as precauções haviam de redobrar-se agora contra elle, e
isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem
d'astucias e d'ardis.
No entanto, as esperanças de derrubar Luiz do altar do coração de
Magdalena, não o abandonaram de todo. Mais ou menos lá lhe floriam no
coração, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava.
No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa,
depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitára, ia-lhe dizendo,
com ar de quem lhe impunha a sua vontade:
--Olha que não quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se.
--Descance a minha filha.
--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste?
--Nem o branco?
--Nem esse.
--Então o mulato hade ficar assim?
--Perdoo-lhe, Cabinda.
--Mas o negro é que não perdoa senhora moça.
--Ha de perdoar, porque eu assim o quero.
--E se elle voltar? o mulato é mau...
--Se voltar, fallaremos então.
--Oh! senhora moça! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda
estende-o logo como o caçador á onça do mato.
--Já te disse que não fazes nada.
--A minha filha manda.
--E tu obedeces.
Tinham chegado á escadaria de pedra que conduzia á habitação. A preta
Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave,
vinha descendo já para ir procural-a, estranhando que contra o seu
costume, a senhora moça andasse pela chacara áquella hora.
Magdalena apenas a viu perguntou logo:
--Onde vaes, Maria.
--Ia procurar a senhora moça.
--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear até ao lago,
acompanhada do cabinda.
--Eu não via a senhora moça, e fiquei logo com cuidado.
--Obrigada. Estava a noite tão bonita que não pude resistir-lhe.
--Fez bem, senhora moça.
--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava
cantando um sabiá!
--Bonito, Maria!
E n'isto foram entrando em casa.
Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos
Pescadores. Levava estampado no rosto a expressão d'um grande
descontentamento. A decepção que soffrera fôra grande e, sobre tudo,
inesperada.
Depois, não era só isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que
tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo
que Magdalena não deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto
tinha acabado de passar-se.
Americo reconhecia agora a falsidade da sua posição.
Além d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era
mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de
Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo.
O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos
acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era
um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o
inflammava. E bem ameaçado deixára o mulato antes de partir para Macahé,
fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria
de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse,
injuriasse ou affrontasse.
Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexões que
lhe suggeria o seu espirito, não deixava, ainda assim, de conceber uma
esperança. Desanimar, não desanimava.
Tinha a pertinacia dos da sua raça pouco pura, a teimosia dos que,
dotados de maus sentimentos e indole perversa, não duvidam nem hesitam
em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins, á medida que os
obstaculos, que as barreiras se vão levantando.
Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o
bilhete de Magdalena e a fita de sêda que as tranças dos cabellos d'ella
lhe deixaram nas mãos, dizia com expressão de grande malvadez:
--Ainda cá está isto! Valem e podem muito estes objectos!