Magdalena.»

«P. S. Passei a noite a pensar em ti, e até nas tres horas, que a fadiga

me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua

imagem, que me sorria e eu acariciava.»

Era curta a missiva mas, em compensação, eloquentissima.

E Luiz olhou para o negro.

--Então? perguntou este.

--Ah! cabinda! cabinda! exclamou o moço com duas grossas lagrimas a

brilharem-lhe nas pupillas.

--O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do

extremo da alegria ao extremo do receio.

--Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lagrimas como

estas! São de ventura, são de felicidade! Cada uma me vale o céo, cada

uma é um hymno, cada uma é um poema! Choro, porque nem só a dôr, nem só

a tristeza, nem só o infortunio, tem lagrimas. A alegria, quando é tão

grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna

com ellas. Aquellas são amargas, são negras, queimam e ferem; estas, que

tu vês nos meus olhos, teem o explendor d'um sol formoso, são dôces,

porque resumem a essencia d'um nectar suavissimo, dão vida, porque

contéem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz,

cabinda!

O negro ouviu Luiz n'uma anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe

com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos,

estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim em quanto o amoroso moço ia

fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas

apenas elle acabou, o negro acudiu logo immediatamente:

--E o branco gosta da senhora moça?

--Oh! se a amo!...

--Muito?

--Até ao delirio!

--Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando

phreneticamente as mãos ao moço.

--Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia n'aquelles

beijos a affeição do escravo por Magdalena.

--É porque a senhora moça é filha do cabinda, e o negro quer a senhora

moça muito feliz.

--És uma grande alma!

--Mas o mulato...

--Oh! o mulato, acudiu de prompto Luiz, é preciso cautela com elle!

--O cabinda não dorme! disse o negro em um tom d'ameaça.

--Bem. Agora vou escrever duas linhas e não te demores. Vai logo, sim?

--A minha filha espera, bem sei.

Luiz sentou-se e escreveu as seguintes linhas:

«Magdalena

«Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as

tuas palavras, E se estás soffrendo a melancholia das saudades que

sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, d'esta ausencia,

em que nos tem uma distancia tão curta. Passaste a noite scismando em

mim; eu não repousei, pensando em ti. Lá havias de sentir no teu seio os

echos do meu pensamento. Irei vêr-te quando podér, e crê que te amo, que

te adoro muito, muitissimo.

«Luiz.»

O negro partiu.

Quando chegou ao Botafogo ainda Magdalena estava sentada ao piano, para

onde a vimos encaminhar-se depois de ter affagado Jorge, seu pae, com

dous affectuosissimos beijos.

O piano não estava agora gemendo deliciosas harmonias; estava sendo a

victima da anciedade, em que Magdalena esperava o cabinda.

As mãos ora corriam rapidas, ora vagarosas, traduzindo claramente os

sentimentos e as ideias que se iam succedendo na sua juvenil imaginação.

De quando em quando, corria á janella a vêr se divisava o negro, mas

voltava com a melancholia no rosto, sempre formoso.

O cabinda entrou n'um dos intervallos em que ella tocava.

Apenas elle surgiu á porta da sala, Magdalena deu um grito.

Inundou-lhe o rosto todo o explendor do sol das alegrias. Os olhos

faiscaram centelhas de felicidade.

--Então? que trazes? perguntou ella, correndo para o negro.

--Carta do branco.

--Dá cá, depressa, anda.

O negro entregou a carta de Luiz e Magdalena começou a lêl-a do mesmo

modo que aquelle havia lido a d'ella.

Eram eguaes as impressões, eguaes as circumstancias, eguaes os

sentimentos da occasião.

Ao findar a leitura, Magdalena deitou os braços aos hombros do escravo,

e exclamou, ébria de contentamento, douda d'alegria:

--Ah! cabinda! cabinda!

--Está contente a senhora moça?

--Oh! muito! muito! nem tu sabes como eu sou feliz!

--É isso o que o negro quer, porque a senhora moça é filha do cabinda!

X

Jorge de Macedo chegou ao armazem pouco depois do negro ter sahido.

Luiz e Americo cumprimentaram-o com a delicadeza devida. O capitalista

recebeu-os como socios seus, affavel, risonho, bondoso, mesmo com um

tanto da meiguice que o caracterisava.

Jorge de Macedo era um homem sympathico, moral e physicamente. A sua

physionomia era d'estas que attrahem á primeira vista, os seus actos

modelados em harmonia com a virtude, com a honra, com a probidade, com

todo o cavalheirismo, emfim.

Ficára viuvo muito cedo. A necessidade obrigou-o a ser carinhoso com a

filhinha, que ficava orphã das dulcissimas meiguices de mãe. A sua alma

identificou-se com aquella necessidade e Jorge tornou-se homem sensivel,

bondoso e em extremo meigo.

Os seus subordinados eram tratados, não como taes, mas como amigos. Os

pobres tinham sempre aberta a sua bolça. Para as grandes emprezas, para

qualquer melhoramento do progresso era sempre o primeiro a dar o seu

nome e a concorrer com os seus fundos.

Tudo isto o fazia estimado e querido, tudo isto lhe valia um nome

honrosissimo, apesar da sua vida retirada, porque Jorge, não por

systema, mas por indole, apenas tinha e alimentava a convivencia com as

pessoas, a quem o ligavam os seus negocios.

Desde que fallecera Beatriz, a sua esposa querida, ninguem mais o viu em

um baile, em um club, em uma associação recreativa.

Magdalena resumia-lhe todos os encantos, todas as distracções, todos os

prazeres.

Com ella, com a sua adorada filha, passeiava elle muitas vezes,

n'aquella alegria d'um doce bem estar, d'um gosar inalteravel de

venturas suavissimas.

Magdalena fôra educada esmeradamente, com todos os vivos cuidados d'um

pae amantismo, mas sem o desenvolvimento, que mais tarde se desata em

grandes exigencias, em superfluidades, em loucas ostentações. Jorge

cercara-a sempre de todas as commidades, mas não a affastára nunca d'uma

simplicidade abundante.

As amigas de Magdalena fallavam-lhe de bailes, das alegrias, dos

ehthusiasmos de qualquer reunião d'este genero, ella respondia, fallando

do seu piano, das musicas novas, das bellezas d'algum livro, das

alegrias d'um passeio ao lado do seu pae.

E Magdalena vivia assim, contente, satisfeita, risonha e feliz, graças

ao systema d'educação empregado por Jorge.

A affabilidade, porém, do nosso capitalista, não se limitava á sua

filha, não se resumia só n'ella; estendia-se, como já dissemos, a todos

os que tinham o prazer de o tratar, fossem grandes ou pequenos, pobres

ou ricos.

Os proprios escravos eram os primeiros a estimal-o, porque não deixando

de se fazer tratar por elles com o respeito devido, tambem os não

olhava, como em geral, com olhos de despreso, nem os carregava

d'asperidades, maus tratos e indifferença.

Jorge acolheu, pois, affavelmente os seus novos socios e dirigiu-se ao

escriptorio, para resolver os trabalhos e negociações do dia com elles.

Leu-se a correspondencia, fizeram-se deliberações, disposeram-se algumas

transacções de commum accordo.

Jorge tinha no negocio uma longa pratica de muitos annos. O seu modo de

vêr as cousas era d'um alcance vasto.

Luiz e Americo ouviam-o attentos e tomavam as suas palavras como

conselhos e lição.

Depois de uma hora de conferencia o capitalista sahiu.

Luiz ficou entregue á escripturação e Americo passou ao armazem a

dirigir o trabalho dos negros e caixeiros.

Os dois associados não mostraram o menor vislumbre do resentimento, nem

das más disposições em que se achavam um com outro, na presença de

Jorge.

Bem pelo contrario, fallavam, consultavam-se, e olhavam-se, como duas

pessoas ligadas por estreitissimos laços de amisade e de sympathia.

A presença de Jorge continha-os dentro dos limites do respeito. Além de

que, qualquer d'elles se julgava culpado perante a propria consciencia.

Luiz ainda podia alliviar a culpa com a ideia do sentimento que o

dominava, do amor que lhe estava enchendo o coração. Americo, esse, não

tinha uma unica appellação.

Jorge voltou de novo ás duas horas e foi encerrar-se com Luiz no

escriptorio. Conversaram por largo tempo, e quando ás tres da tarde

sahiu para regressar á chacara, chamou Americo e disse-lhe:

--O senhor Luiz sahe amanhã no vapor das 8 horas para Macahé. Vai a

negocios meus. Quando vier a correspondencia abra e dê as suas ordens

como entender conveniente.

--Sim, senhor.

--Se até eu chegar, fôr preciso alguma coisa queira mandar-me aviso ao

Botafogo.

--Não ha de ter duvida.

--Adeus.

Apertaram as mãos e Jorge sahiu.

Americo exultou de contentamento com a inexperada sahida de Luiz. Eram,

pelo menos, quatro dias de demora, e em quatro dias podia, pensava elle,

conseguir derrubar o seu rival do throno aonde começava a sentar-se.

Luiz ficou triste com a noticia, pelo lado do coração. Assaltaram-o logo

as saudades por Magdalena, e, sobre tudo, a ideia de que o mulato

poderia aproveitar a sua ausencia para commetter alguma infamia.

Exultou, porém, pelo lado da consciencia, porque ia desempenhar uma

missão, em nome d'aquelle, a quem devia amisade, estima, confiança, e

fortuna até.

Estava d'um lado o amor, do outro o dever.

A ausencia ia ser por poucos dias e uma voz intima lhe segredava ao

coração, que havia de voltar a encontrar Magdalena, firme ainda no seu

juramento, constante no seu affecto.

Luiz confiava na pureza dos seus sentimentos, e tanto bastava para crêr

que um anjo bom havia de proteger a sua causa.

Demais, bem sabia elle que o cabinda olharia pela sua filha.

Todavia Luiz não queria partir sem annunciar a Magdalena a sua ausencia.

Ainda tinha tempo.

No dia seguinte, ás sete horas, já elle andava de pé.

O mulato passára a noite a fazer e a desfazer planos. A ausencia do seu

associado sorria-lhe fagueiramente. No entanto nada poude decidir

positivamente, porque tinha a certeza de que Luiz tomaria todas as

precauções.

Além d'isto, um dos maiores obstaculos que se levantavam, em face de

qualquer resolução tomada, era o negro, era o cabinda de quem tinha, sem

duvida, muito e muito a receiar.

A ultima resolução foi a de esperar o curso das cousas.

O mais provavel era que Luiz mandasse alguem a Magdalena, e n'esse caso

elle faria todas as diligencias para o evitar.

Luiz tambem não tinha outro recurso. Sahir sem avisar Magdalena não o

fazia de certo, não podia fazel-o. Ainda se a demora fosse d'um dia! mas

quatro pelo menos! Quatro dias era muito, sobretudo, para quem sente as

primeiras saudades que são sempre mais dolorosas, mais profundas.

Tomou a resolução de escrever a Magdalena, mandando-lhe a missiva por um

dos negros do armazem. Nunca o cabinda foi tão desejado, nunca!

Escreveu, pois, e incumbiu um dos escravos de chegar ao Botafogo, logo

que Jorge viesse da chacara.

Ás horas convenientes despediu-se friamente do mulato, que já andava de

vigia, e partiu para o local d'onde sahiam os vapores da carreira para

Macahé.

Luiz levava a dôr das suas saudades e os receios d'alguma infamia do

mulato...

Ás nove horas entrava Jorge no armazem.

Americo, depois dos cumprimentos do estylo, e d'alguns cavacos sobre a

correspondencia e negociações do dia, deixou-o no escriptorio e veio ao

armazem.

Chamou os negros, interrogou-os a todos, perguntando se algum fôra

incumbido pelo senhor Luiz de ir ao Botafogo levar algum recado.

Um d'elles respondeu que sim.

--A que? perguntou Americo.

--Levar isto á senhora moça.

--Deixa vêr.

E tomou das mãos do negro a carta fechada, que este lhe apresentou.

--Não é preciso ires, eu mandarei lá.

E guardou a carta, contente, n'uma alegria visivel, em que se traduzia o

sentimento d'uma vingança quasi realisada.

O mulato era um infame, e esquecia-se de que a Providencia vela sempre

pelos justos e pelos bons!

A grande questão d'Americo era, quando não conseguisse para si

Magdalena, empregar todos os meios para que Luiz a não conseguisse

tambem.

N'este desejo é que elle ia trabalhar, e, sobretudo, aproveitar os

poucos dias d'ausencia do seu socio, que, a bordo do vapor da carreira,

ia curtindo saudades, sempre com a imagem seductora e deslumbrante de

Magdalena a povoar-lhe a visão, e a apparecer-lhe em tudo!

A Filha do Cabinda · 第 24 / 36 题