Eram oito horas da manhã do dia immediato, quando Luiz desceu para o
escriptorio.
Americo já andava dando as suas ordens para o embarque de uma porção de
saccas de café.
Os dois comprimentaram-se amigavelmente na apparencia, porém, com certa
reserva e um pouco de frieza, o que não era costume.
Luiz trazia no rosto a pallidez impressa pela vigilia d'uma noite
inteira; Americo os traços de quem tinha uma ideia a dominal-o.
E os dois socios de Jorge de Macedo dirigiram-se ambos ao escriptorio,
situado no fundo do armazem.
Luiz sentou-se a escrever; Americo começou a examinar a correspondencia
do dia anterior.
Os negros e os outros caixeiros andavam na labutação de pesar e ensacar
o café.
--Nao sei onde te meteste hontem, desde que nos separamos no Botafogo,
principiou Americo, passando a vista de umas para outras cartas.
--Eu é que te não tornei a vêr; respondeu Luiz placidamente, sem volver
os olhos dos livros, que tinha diante de si.
--Fui ao theatro.
--E eu vim para casa.
--Ah! exclamou Americo com certo ar intencional.
--Nao sei de que te admiras.
--Eu? de nada.
--Esse _ah!_ solto assim...
--Foi natural.
--Talvez, mas nao creio. Parece-me que queria dizer alguma coisa.
--Não. Já tiveste noticias de Magdalena!
--Noticias de Magdalena?! perguntou Luiz com certo ar d'altiva
admiração.
--Sim; ou não deixaste ainda as coisas n'essa altura?
--Gracejas de certo, Americo.
--Não gracejo, não. Então has-de negar que a não desfitaste um momento,
durante o jantar de hontem, e que lhe fizeste uma confissão d'amor, em
quanto passeiavas com ella pelo jardim?
---Não nego, nem affirmo.
--Calas; quem cala consente.
--Não sei. Mas d'um ou d'outro modo o que me parece é que nada deves ter
com isso.
--Outro tanto não digo eu.
--Não sei porque.
--Porque tambem sou pretendente.
--Ah! sim!
--Tu começaste; veremos agora qual dos dois acabará.
--Veremos.
--Mas porque não has-de ser franco comigo?
--Franco em que? e para que? És homem como eu; tens o campo aberto,
propões a lucta, acceito-a. Se tiver a franqueza de confessar-te que amo
Magdalena, retiras? Não. Ella é que escolhe; se algum de nós lhe
convier, o outro já sabe o que tem a fazer.
--E se eu fôr o escolhido?
--Paciencia. E se não fores tu?
--Hei-de empregar todos os meios.
--Todos?
--Todos, sim. Os da minha raça bem sabes que não recuam nunca, e se o
ignoras fica-o sabendo agora.
--Em todo o caso diz-me: Queres a mulher pelo dinheiro, ou queres a
mulher porque a amas.
--Quero-a por ambas as causas... principalmente.
--Comprehendo.
--Julgas, talvez, que na balança da conquista, o prato pende mais para o
teu lado? Enganas-te. Nós, os brazileiros, e sobre tudo os que, como eu,
teem na face a côr bronzeada do cruzamento das raças, estamos fartos de
vêr que os pobretões dos portuguezes nos venham, de tão longe, roubar as
mulheres e o dinheiro.
Luiz córou e pôz-se d'um pulo em pé.
--Insultas-me! exclamou elle.
--Não; digo a verdade.
--Dizes a verdade! bradou Luis com ironia. Havia de fazer engulir-te a
phrase se não conhecesse que fallas despeitado. Fallas dos pobretões dos
portuguezes! Que seria de ti e dos teus se não fossem elles! Morriam
todos de fome, haviam de ser uns miseraveis! Nós é que trabalhamos, nós
é que vos sustentamos, pódes ter a certeza d'isto. Se vos levamos o
dinheiro, levamos apenas uma parte do fructo do nosso suor, ficando tu e
todos os teus com a outra, com a maior, sem o minimo esforço de corpo e
de espirito; se nos ligamos com as vossas filhas é por que as merecemos,
é porque somos verdadeiramente dignos d'ellas, para não dizer que mais
honra lhes vai com estas allianças, do que a nós. Repito; eu queria vêr
o que seria de vós se não fossem os pobretões dos portuguezes; de vós,
que apenas nascesteis para vos bamboleardes na rêde, indolentes,
occiosos, tomando o vosso café e fumando o vosso cachimbo.
--Seja como fôr; não discuto nobrezas de nacionalidade. O que te digo é
que hei-de empregar todos os meios para conseguir Magdalena.
--E eu affirmo-te que nem um só vingará.
--Veremos.
--Veremos. Declaras-te meu inimigo, atiras-me a luva, levanto-a. Conheço
agora que has-de usar de todas as armas, desde a hypocrisia, desde o
ardil apurado até á infamia, até ao crime refinado. Pouco importa.
Hei-de bater-te com a verdade, só com ella te hei-de derrotar. Todavia,
recommendo-te prudencia, porque se o meu braço se envergonhar de
castigar-te, talvez haja quem o faça sem que o esperes.
--Ameaças-me?
--Não; previno-te.
--Pois bem; eu me defenderei.
--Mas de modo que não vás ferir aquelle que ainda hontem, além de nos
sentar á sua meza como amigos, nos elevou á dignidade de partilharmos da
sua fortuna. A lucta é comigo, e só comigo, e se me encontras disposto a
combater-te, não me encontrarás disposto a tolerar-te a minima coisa que
possa, mesmo de leve, ferir Jorge de Macedo, que é hoje meu socio, meu
protector e meu amigo, finalmente. Mais ainda, Americo, e isto vale uma
ameaça. Magdalena é uma pessoa sagrada para mim, e exijo que o seja para
ti. A menor falta de respeito da tua parte, a menor insolencia que lhe
dirijas, pagal-a, bem paga, fica certo d'isso. A contenda é comigo e só
comigo, ainda uma e ultima vez t'o digo.
--Pouco me importam as tuas ameaças, e respondo a ellas com uma
gargalhada.
--Bem sei que vai até ahi o teu cynismo e a tua cobardia.
--Luiz!...
--Cobardia, sim! affirmou Luiz perfilando-se destemido em face de
Americo.
Este ia, n'um impeto de raiva, a lançar-se ao guarda livros, mas ao
vêl-o tão resoluto, ao vêr-lhe nos olhos a chamma da valentia e a
coragem com que o esperava, recuou, deteve-se, e volveu-se, saindo a
dizer:
--Ia-me zangando! A occasião não era propria, e nem mesmo valia a pena.
Tenho tempo de desforrar-me.
--Ou de levares uma licção que te aproveite, canalha! respondeu Luiz.
Dois minutos depois, já Americo andava ordenando e vigiando o trabalho
dos negros e mais caixeiros do armazem, e Luiz continuava escrevendo,
como se nada lembrasse a cada um d'elles d'aquella scena que o mulato
havia provocado.
No entanto Luiz estava livido, d'esta lividez produzida pela raiva
sopeada, e Americo, no meio da labutação dos seus subordinados, trazia
nos olhos espelhado claramente, o pensamento, o desejo de vingança, que
lhe avultava no seio.
A imagem, formosa sempre, e sempre sympathica de Magdalena, lá estava,
apesar de tudo, interposta entre os dous, a separal-os, a affastal-os, a
lançal-os, sem mesmo ella o pensar, em uma lucta tremenda, que devia
necessariamente terminar muito mal para um d'elles, pelo menos.
Luiz via-a com os olhos do seu amor, do seu affecto, da sua virtude;
Americo com os olhos dos seus desejos desenfreados de vingança, com os
olhos da sua ambição e do seu calculo.
Magdalena era o centro d'uma linha nos extremos da qual se agitavam
convulsivamente sentimentos inteiramente oppostos.
Teriam ambos a mesma força?
Qual d'elles tinha de attrahil-a?
É facil prevel-o. A imagem de Luiz já lhe enchia o seio, já lhe havia
povoado os sonhos da primeira noite d'amor, aquelles sonhos porque ella
passára accordada, solitaria na sua janella, com os olhos cravados na
lua, e a alma a sentir o _gosto amargo_ d'uma saudade indefinida.