I
A filha do cabinda é formosa como a visão d'um sonho celeste; meiga como
o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a
virgem da innocencia.
O cabinda é negro, e negro de raça fina, mas é branca a sua filha, e
filha, porque o velho escravo quer muito á senhora moça, que elle
beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina.
Revê-se n'ella, e n'ella se mira doido d'affeição o pobre negro, e tanto
a gravou na ideia, tanto a traz no coração, que chega até a esquecer-se
do trabalho, sujeitando-se ás reprehensões do seu senhor, para,
insensivelmente, se entregar a scismar n'ella, que é tão bondosa, tão
meiga e tão carinhosa para elle; n'ella, que, por uma destas illusões,
d'estas miragens, d'estas doidices, d'um grande affecto e d'uma viva
sympathia, chega a julgar realmente sua filha.
E _filha do cabinda_ lhe chama elle.
O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus paes, a sua
companheira, os filhos e a sua familia.
Um dia, não sabe como, achou-se com todos elles dentro d'um navio, que
começou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum
tempo, entre as duas immensidões, o mar e o céo, sem sentir saudades da
sua terra, porque levava ainda ao seu lado aquelles que lhe davam
alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a elle e aos seus
companheiros para uma grande casa, onde os brancos começaram a disputar
o preço por que haviam de compral-os.
O cabinda foi vendido e quizeram leval-o.
Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes?
Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor.
Tristissimo era o negocio da escravidão!
Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os
separavam d'elle.
Teve, então, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram,
ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade.
Fizeram-lhe, porém, estancar as lagrimas angustiosas as ameaças d'um
açoite, e o Cabinda lá partiu, sem esperanças de tornar a vêr os filhos
queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que elle
adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que elle respeitava
com a sua veneração selvagem.
Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as
affeições mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de
ser estimado, quasi como pessoa de familia, e não como escravo e negro
que era.
Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos,
que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da côr do
abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das
fadas boas das visões nocturnas das mattas virgens.
A convivencia foi-o affeiçoando áquella creancinha, que lhe sorria tão
innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e,
brincando, o abraçava carinhosamente pelas pernas.
O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia não sei que doçuras
n'alma, não sei que effluvios no coração, mas que deviam ser
gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de
tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um
sorriso de sincero e intimo jubilo.
E tomava-a no collo, sentava-se com ella á sombra das copadas
tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos,
entretecia-lhe corôas de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma
especie de adoração sublime e concentrada, talvez com a recordação nos
filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa
Magdalena.
Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua mãe.
Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro
affeiçoado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para tão
grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita?
O negro, que era dedicado á sua senhora, tanto como á pequenina
Magdalena, esqueceu-se da sua condição de escravo, e arrojou-se, em um
impeto de dôr e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos
momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento.
Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo
em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu
unico encanto n'este mundo.
Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle
edificio da sua ventura.
O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor
para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mãos postas, junto ao leito da
enferma, chorando como creança.
--Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vêl-o de
joelhos, alli, ao pé d'ella. Anda cá; vem vêr como se vai para o céo!...
--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.
--Ah! meu senhor! a mãe do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se
da sua senhora!
--Sahe, cabinda!
--Oh! não! não! supplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem
coração!
E abraçava a roupa do leito para abraçar a moribunda, chorava como
doido, soluçando em desespero e supplicando com ardor:
--A mãe do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a
chorarem saudades como o bemtevi do matto? Não, não nos deixes, mãe
senhora!
--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas
pelas lagrimas; o cabinda chora, não trates mal o cabinda, que é nosso
amigo.
--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito á sua filhinha,
quer muito á sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e não
tem familia a quem a dar. É, como a palmeira do morro, que não tem
coqueiro ao lado.
--O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peço muito
que fiques sendo a mãe da nossa Magdalena, não te esqueças tambem de que
o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.
--Não esqueço, minha Beatriz! soluçou Jorge.
--E elle não ha-de ser mais nosso escravo, não, papae?
--Não, minha filha.
--Mas o cabinda, atalhou o negro, não quer deixar a casa do seu senhor,
não quer viver longe da sua filha.
--Não, não nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a
creança, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da
consciencia:
--O negro tem a côr do urubú, mas tem alma de pomba rola!
Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao
Creador.
Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no coração, as dôres
da sua viuvez. O negro e Magdalena soluçavam, abraçados, a perda da
bondade da que tanto era mãe d'uma como anjo do outro.
Jorge conheceu, então, até onde ia a dedicação do seu escravo, a
grandeza da alma do negro, e começou a olhal-o, a tratal-o e a
querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um
ente, geralmente visto com desdem, com indifferença e até com desprezo.
O cabinda perdera a sua familia, de que tão barbaramente o separaram,
mas havia ganho muito pela sua dedicação.
Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem elle dizia
sempre:
--Agora não tem mãe, é filha do cabinda!