Lá estive ma casa Aguiar. Não falamos de cousas velhas, mas só das
futuras. No fim da noite adverti que falávamos todos, menos o casal
recente; esse, depois de algumas palavras mal atadas, entrou a dizer
de si mesmo, um dizer calado, espraiado e fundido. De quando em quando
os dous davam alguma silaba á conversação, e logo tornavam ao puro
silencio. Tambem tocaram piano. Tambem foram falar entre si ao canto
da janela. Sós os quatro velhos,-o desembargador com os tres,-faziamos
planos futuros.
Certo é que D. Carmo alguma vez acompanhou os dous com os seus olhos
inquietos, como a perguntar-lhes que parte viriam elles ter no futuro
que ella e nós imaginavamos; mas o receio de os interromper na
felicidade tapava-lhe a boca, e a santa senhora contentava-se de os
mirar e amar. Ao chá a conversação fez-se de todos, e Tristão referiu
alguns casos de Lisboa, casos de politica e de recreação.
Vindo para caza acudiu-me em caminho uma ideia, indiscreta, de certo,
mas felizmente não a disse a ninguem, e mal a deixo nesta folha de
papel. A ideia é saber se Fidelia terá voltado ao cemiterio depois de
cazada. Possivelmente, sim; possivelmente não. Não a censurarei, se
não: a alma de uma pessoa pode ser estreita para duas afeições grandes.
Se sim, não lhe ficarei querendo mal, ao contrario. Os mortos podem
muito bem combater os vivos, sem os vencer inteiramente.
* * * * *
Sem data.
Hoje foi a ultima recepção dos Aguiares, e eu quiz despedir-me dos
viajantes que embarcam depois de amanhã. Bastante gente, entre ella
o Faria e D. Cesaria, e a viuva do corretor Miranda, ainda abatida.
A nota geral da noite não era alegre, ao contrario: todos buscavam
ir pelo tom da caza, que era tristonha. A propria Fidelia parecia
definhar-se ao pé da amiga, e uma vez a mana Rita a foi achar que dizia
á outra:
--D. Carmo, porque não vem comnosco? Ainda é tempo de comprar bilhetes,
e se os não houver, Tristão adia viagem, e vamos no outro paquete.