A verdadeira causa-ou uma dellas, estava hoje no Flamengo, acabando
a marinha. Tristão lá estava tambem, e ambos faziam a estetica um
do outro. Elle admirava menos a tela que a pintora, ella menos o
expectaculo que o admirador, e eu via-os com estes olhos que a terra
fria hade comer.
D. Carmo dava-me a parte de atenção a que a cortezia a obrigava, mas
tão somente essa. Olhava para os dous a miudo, a espreital-os, e,
se fosse preciso, a animal-os. Mas já não era preciso. Um e outro
esqueciam-se de nós e deixavam-se ir ao som daquella musica interior,
que não é nova para ella.
Observando a moça e os seus gestos, pensei no que me disseram ha uma
semana, a ideia que ella teve de ir passar o verão em Santa-Pia, que
ainda não vendeu. Não lhe importaria lá ficar com os seus libertos;
faltou-lhe pessoa que a acompanhasse. Ultimamente pensou em ir para
Petropolis, mas ahi é provavel que fosse tambem Tristão, e a intenção
della era fugir-lhe, creio eu. Creio tambem que ella foi sincera em
ambos os projetos. Fidelia ouviu á porta do coração aquelle outro
coração que lhe bate, e sentiu taes ou quaes veleidades de trancar o
seu. Digo veleidades, que não obrigam nem arrastam a pessoa. A pessoa
quer cousa diversa e oposta, e o sentimento, se não é já dominante,
para lá caminha.
Uma impressão que trago do Flamengo é que D. Carmo despediu-se de mim,
quando me levantei, com o mesmo prazer que lhe dei ha dias, para ficar
a sós com elles. Não lhes terá dito nada com palavras, mas até onde
pode ir a alma sem ellas, foi de certo. Só a compostura da boa senhora
terá impedido que os abrace e lhes diga: Amem-se, meus filhos!
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