--Foi um duelo entre mim e a velhice, que me disparou esta bala no
joelho; uma dôr reumatica. Já sei que vem jantar commigo?
O desembargador respondeu que não; disseram-lhe que eu estava doente
e vinha saber o que era. D. Carmo tambem está melhor do joelho,
disse-me. Já sae, mas pouco, pela praia do Flamengo, até á do Russell.
--Sempre com a amiguinha, não?
--Nem sempre; lá tem o seu Tristão que a acompanha de manhã. Fidelia
manda-lhe visitas, e pode ser que Aguiar venha cá hoje; souberam
hontem, á noite, como eu.
Logo depois contou-me Campos que a sobrinha queria ir passar algum
tempo á fazenda.
--Os libertos, apezar da amizade que lhe têm ou dizem ter, começaram a
deixar o trabalho, e ella quer ver como está aquillo antes de concluir
a venda de tudo.
Não entendi bem, mas não me cabia pedir explicação. Campos incumbiu-se
de me dizer que tambem elle não entendia bem a ideia da sobrinha, e
acrescentou que, por gosto, ella partiria já. A doença de D. Carmo
é que a fez aceitar o que lhe propôz o tio, a saber, que adiassem a
viagem para as férias.
--Iremos pelas férias, concluiu elle; provavelmente já o trabalho
estará parado de todo; o administrador, que não tem tido força para
deter a saida dos libertos até hoje, não a terá até então. Fidelia
cuida que a presença della bastará pare suspender o abandono.
--Logo, se fôr mais depressa... aventurei eu, querendo sorrir.
--Foi o argumento della; eu creio que não será tanto assim, e, como
tenho de a acompanhar, prefiro Dezembro a Outubro. Quer-me parecer que
ella teme menos a fuga dos libertos que outra cousa...
Não acabou; levantou-se para concertar um laço da cortina, e voltou
coçando o queixo e olhando para o tecto. Sentou-se e cruzou as
pernas. Eu, para me não deixar ir a perguntas, peguei do gesto do
desembargador, dizendo-lhe que elle acabava de fazer com as pernas o
que ainda me custaria um pouco; mas foi como se falasse á cortina, ao
laço ou á palhinha do chão. Campos não me respondeu nem provavelmente
me ouviu. Ergueu-se, disse que estimava as minhas melhoras e
despediu-se até breve. Teimei que jantasse.
--Não posso; tenho gente de fora; o Tristão janta commigo.
Para lhe mostrar que convalecia, fui ao patamar pizando rijo.
Agradeci-lhe o obsequio da visita, e tornei á sala, com a viuva deante
dos olhos, caminho da fazenda. Mas que terá que a faça ir meter-se
na fazenda, com meia duzia de libertos, se ainda achar alguns? Pouco
depois, outra visita, o Aguiar, que me trazia lembranças da mulher.
Estimou ver-me de pé, no meio da sala.
--Não valia a pena, disse-lhe; foi uma cousa de nada, estou quasi bom,
e hoje mesmo, se a chuva parar, como está querendo, lá vou leval-o á
casa, depois do jantar. Janta commigo?
--Não posso; tenho gente de fóra. Uma das pessoas não me impediria, é a
Fidelia, que lá janta comnosco, e é quasi da familia. Mas vae tambem um
colega do banco.
--Pois irei tomar chá.
--Vá, se quer, mas não faça isso, é o meu conselho. Ainda que não
chova, sempre haverá humidade, e para reumatismo...
--Mas D. Carmo tem saido, creio.
--Tem, e pode-se dizer que está boa. Apezar disso, já hoje não saiu,
por cousa do tempo. Vá, se quer; eu no seu caso não saía.
Aguiar não disse mais nada, e despediu-se. Pareceu-me (ou foi ilusão)
que elle queria acrescentar alguma cousa e não acabou de querer. Não
sei que seria. Não sentisse eu mesmo algum medo da humidade e iria
vel-os á noite, mas a humidade é certa, e creio que a chuva tambem.
Fico em casa. Se aparecer algum enxadrista, jogarei xadrez; se apenas
jogar cartas, cartas. Se não vier ninguem, atiro-me a compôr um poema
de cabeça.
* * * * *