Não duvido que o Tristão visse com prazer o Rio de Janeiro. Quaesquer
que sejam os costumes novos e ligações de familia, e por maior que
tenha sido a ausencia, o logar onde alguem passou os primeiros annos
hade dizer á memoria e ao coração uma linguagem particular. Creio que
elle esteja realmente encantado, como me disse hontem. Demais, lá fora
ouvia a mesma lingua daqui; a mãe é a mesma paulista que o gerou e
levou comsigo, e está agora em Lisboa, com o pae, ambos velhos.
Eu nunca esqueci cousas que só vi em menino. Ainda agora vejo dous
sujeitos barbados que jogavam o entrudo, teria eu cinco annos; era com
bacias de madeira ou de metal, ficaram inteiramente molhados e foram
pingando para as suas cazas. Só não me acode onde ellas eram. Outra
cousa que igualmente me lembra, apezar de tantos annos passados, é o
namoro de uma visinha e de um rapaz. Ella morava defronte, era magrinha
e chamava-se Flor. Elle tambem era magro e não tinha nome conhecido; só
lhe sabia a cara e a figura. Vinha ás tardes e passava tres, quatro,
cinco e mais vezes de uma ponta á outra da rua. Uma noite ouvimos
gritos. Na manhã seguinte ouvi dizer que o pae da moça mandára dar por
escravos uma sova de páu no namorado. Dias depois foi este recrutado
para o exercito, dizem que por empenho do pae da moça; alguns creram
que a sova fôra um simples desforço eleitoral. Tudo é um; amor ou
eleições, não falta materia ás discordias humanas.
Que valem taes ocurrencias agora, neste anno de 1888? Que pode valer a
loja de um barbeiro que eu via por esse tempo, com sanguesugas á porta,
dentro de um grosso frasco de vidro com agua e não sei que massa? Ha
muito que se não deitam bichas a doentes; ellas, porém, cá estão no meu
cerebro, abaixo e acima, como nos vidros. Era negocio dos barbeiros e
dos farmaceuticos, creio; a sangria é que era só dos barbeiros. Tambem
já se não sangra pessoa nenhuma. Costumes e instituições, tudo perece.
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