Em caminho, mana Rita contou-me o que já sabe da carta de Tristão e da
resposta que D. Carmo lhe mandou. Sabe mais que eu. D. Carmo leu-lhe
as duas cartas. Tristão pede mil desculpas do longo silencio de annos
e lança-o á conta de tarefas e distrações. Ultimamente, já formado em
medicina, foi em viagem a varias terras, onde viu e estudou muito. Não
podendo escrever as viagens, contar-lh'as-ha um dia, se cá vier. Pede
noticias della e do padrinho, pede-lhes os retratos, e manda-lhes
pelo correio umas gravuras; assim tambem lembranças do pae e da mãe
que estão em Lisboa. A carta é longa, cheia de ternuras e saudades. A
resposta, disse-me mana Rita que é em tom verdadeiramente maternal.
Não sabe mostrar-se magoada; é toda perdão e carinho. Só lhe faz uma
queixa; é que, pedindo os retratos della e do marido, não lhe mandasse
logo o seu, o ultimo dos seus, porque os antigos cá estão. Diz muitas
cousas longas, lembra os tempos de infancia e de estudo, e no fim
insinua-lhe que venha contar-lhe as viagens. As gravuras são da casa
Goupil.
Rita esteve com ella no dia 15, entre uma e duas horas da tarde,
depois que a viuva saiu de lá para a casa do tio desembargador. Apezar
da separação desta e suas saudades, sentia-se alegre com a afeição
que cresce entre ambas, e igualmente alegre com a resurreição do
afilhado. Chama-lhe resurreição por imaginar que o moço inteiramente os
esquecera. Via agora que não, e parecia-lhe a mesma alma daqui saída.
Falando ou calando, tinha intervalos de melancolia, e, de uma vez, acha
mana Rita que lhe viu apontar uma lagrima, uma pequenina lagrima de
nada...
* * * * *