22 de Maio.

Em caminho, mana Rita contou-me o que já sabe da carta de Tristão e da

resposta que D. Carmo lhe mandou. Sabe mais que eu. D. Carmo leu-lhe

as duas cartas. Tristão pede mil desculpas do longo silencio de annos

e lança-o á conta de tarefas e distrações. Ultimamente, já formado em

medicina, foi em viagem a varias terras, onde viu e estudou muito. Não

podendo escrever as viagens, contar-lh'as-ha um dia, se cá vier. Pede

noticias della e do padrinho, pede-lhes os retratos, e manda-lhes

pelo correio umas gravuras; assim tambem lembranças do pae e da mãe

que estão em Lisboa. A carta é longa, cheia de ternuras e saudades. A

resposta, disse-me mana Rita que é em tom verdadeiramente maternal.

Não sabe mostrar-se magoada; é toda perdão e carinho. Só lhe faz uma

queixa; é que, pedindo os retratos della e do marido, não lhe mandasse

logo o seu, o ultimo dos seus, porque os antigos cá estão. Diz muitas

cousas longas, lembra os tempos de infancia e de estudo, e no fim

insinua-lhe que venha contar-lhe as viagens. As gravuras são da casa

Goupil.

Rita esteve com ella no dia 15, entre uma e duas horas da tarde,

depois que a viuva saiu de lá para a casa do tio desembargador. Apezar

da separação desta e suas saudades, sentia-se alegre com a afeição

que cresce entre ambas, e igualmente alegre com a resurreição do

afilhado. Chama-lhe resurreição por imaginar que o moço inteiramente os

esquecera. Via agora que não, e parecia-lhe a mesma alma daqui saída.

Falando ou calando, tinha intervalos de melancolia, e, de uma vez, acha

mana Rita que lhe viu apontar uma lagrima, uma pequenina lagrima de

nada...

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Memorial de Ayres · 第 44 / 174 题