10 de Fevereiro.

Hontem, indo jantar a Andarahy, contei a mana Rita o que ouvi ao

desembargador.

--Elle não disse nada da sobrinha?

--Todo o tempo foi pouco para falar da gente Aguiar.

--Pois eu soube o que me faltava de Fidelia; foi a propria D. Carmo que

me contou.

--Se a historia é tão longa como a della...

--Não, é muito mais curta; diz-se em cinco minutos.

Tirei o relogio para ver a hora exata, e marcar o tempo da narração.

Rita começou e acabou em dez minutos. Justamente o dobro. Mas o assunto

era curioso, trata-se do cazamento, e a viuva interessa-me.

--Conheceram-se aqui na Corte, disse Rita; na roça nunca se viram.

Fidelia passava uns tempos em casa do desembargador (a tia ainda era

viva), e o rapaz. Eduardo, estudava na Escola de Medicina. A primeira

vez que elle a viu foi das _torrinhas_ do Teatro Lirico, onde estava

com outros estudantes; viu-a á frente de um camarote, ao pé da tia.

Tornou a vel-a, foi visto por ella, e acabaram namorados um do outro.

Quando souberam quem eram, já o mal estava feito, mas provavelmente o

mal se faria, ainda que o soubessem desde principio, porque a paixão

foi repentina. O pae de Fidelia, vindo á Corte, teve noticia do caso

pelo proprio irmão, que cautelosamente lhe disse o que desconfiava, e

insinuou que era boa ocasião de fazerem as pazes as duas familias. O

barão ficou furioso, pegou da moça e levou-a para a fazenda. Você não

imagina o que lá se passou.

--Imagino, imagino.

--Não imagina.

--Pôl-a no tronco?

--Não, protestou Rita; não fez mais que ameaçal-a com palavras, mas

palavras duras, dizendo-lhe que a poria fora de casa, se continuasse

a pensar em tal atrevimento. Fidelia jurou uma e muitas vezes que

tinha um noivo no coração e cazaria com elle, custasse o que custasse.

A mãe estava do lado do marido, e opoz-se tambem. Fidelia resistiu

e recolheu-se ao silencio, passava os dias no quarto, chorando. As

mucamas viam as lagrimas e os sinaes dellas, e desconfiavam de amores,

até que adivinharam a pessoa, se não foi palavra que ouviram aos

proprios senhores. Emfim, a moça entrou a não querer comer. Vendo isto,

a mãe, com receio de algum acesso de molestia, começou a pedir por

ella, mas o marido declarou que não lhe importava vel-a morta ou até

douda; antes isso que consentir na mistura do seu sangue com o da gente

Noronha. A oposição da gente Noronha não foi menor. Ao saber da paixão

do filho pela filha do fazendeiro, o pae de Eduardo mandou-lhe dizer

que o deixaria na rua, se teimasse em semelhante afronta.

--Como inimigos eram dignos um do outro, observei.

--Eram, concordou Rita. O desembargador soube o que se passava e foi

á fazenda, onde viu tudo confirmado, e disse ao irmão que não valia

opor-se, porque a filha, chegada á maioridade, podia arrancar-se de

caza. Ninguem obrigava a humilhar-se deante da gente Noronha, nem

a fazer as pazes com ella; bastava que os filhos cazassem e fossem

para onde quizessem. O barão recusou a pés juntos, e o desembargador

dispunha-se a voltar para a Corte, sem continuar a comissão que se dera

a si mesmo, quando Fidelia adoeceu deveras. A doença foi grave, a cura

dificil pela recusa dos remedios e alimentos... Que sorriso é esse? Não

acredita?

--Acredito, acredito; acho romanesco. Em todo caso, essa moça

interessa-me. A cura, dizia você, foi dificil?

--Foi; a mãe resolveu pedir ao marido que cedesse, o marido concedeu

finalmente, impondo a condição de nunca mais receber a filha nem

lhe falar; não assistiria ao cazamento, não queria saber della.

Restabelecida, Fidelia veiu com o tio, e no anno seguinte cazou. O pae

do noivo tambem declarou que os não queria ver.

--Tanta luta para não serem felizes por muito tempo.

--É verdade. A felicidade foi grande mas curta. Um dia resolveram ir

á Europa, e foram, até que se deu a morte inesperada do marido, em

Lisboa, donde Fidelia fez transportar o corpo para aqui. Você lá a

viu ao pé da sepultura; lá vae muitas vezes. Pois nem assim o pae,

que tambem já é viuvo, nem assim quiz receber a filha. Quando veiu á

Corte a primeira vez, Fidelia foi ter com elle, sosinha, depois com

o tio; todas as tentativas foram inuteis. Nunca mais a viu nem lhe

falou. Eu, mais ou menos, já contei isto a você; só não conhecia bem as

particularidades da resistencia na fazenda, mas ahi está. Agora diga se

ella é viuva que se caze.

--Com qualquer, não; pelo menos, é dificil; mas, um sujeito

fresco,-continuei enfunando-me e rindo.

--Você ainda pensa...?

--Eu, mana? Eu penso no seu jantar, que hade estar delicioso. O que me

fica da historia é que essa moça, além de bonita, é teimosa; mas a sua

sopa vale para mim todas as noções esteticas e moraes deste mundo e do

outro.

Ao jantar, contei a Rita o que me dissera o desembargador sobre haver

ido a sobrinha passar alguns dias ao Flamengo, e perguntei-lhe se era

assim a intimidade na casa.

--Certamente que é. Já uma vez Fidelia adoeceu no Flamengo e lá se

tratou. Tendo perdido a esperança do filho postiço, o Tristão, que

os esqueceu inteiramente, ficaram cada vez mais ligados á viuva. D.

Carmo é toda ternura para ella. Você lembra-se das bodas de prata, não?

Aguiar não lhe chama filha para não parecer que usurpa esse titulo ao

pae verdadeiro; mas a mulher, não tendo ella mãe, é o nome que lhe dá.

Nem Fidelia parece querer outra mãe.

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Memorial de Ayres · 第 21 / 174 题