+AMOROSO+
Eu amo-te, amo-te tanto
Talvez não saibas o quanto
Meu coração fazes pulsar;
Talvez não saibas, ó linda,
Como a tua graça infinda
Me faz viver para amar.
Amo-te a face formoza,
Amo-te a boca de roza,
Amo-te o negro cabello,
Amo-te o gesto mavioso,
O sorrir casto e bondoso,
O olhar gracioso e bello.
Adoro-te a singelleza
Que é engaste da belleza,
Amo-te o lindo rubor
Com que te purpurizaste,
Quando tremula escutaste
As juras do nosso amôr.
Encontrei-te, o meu coração
Satisfez a aspiração
E tenho um novo viver.
Acho mais bellos os prados,
Os tons do sol mais dourados,
Em tudo o amor julgo vêr.
Oh! se o teu amôr assim
Fôr tão ardente por mim,
Não haverá nada igual
Á pura felicidade
Dos dias da mocidade,
Ao meu risonho ideal.
Angra do Heroismo,
1890
+A CARIDADE+
I
Caridade, quem és! Quem te inventou?
Para que serves, quaes os meios teus,
A tua agencia, assim, quem t'a arranjou,
Para que vens fallar-nos sempre em Deus!
Em Deus! Quando o universo elle creou
Legou a alguem riquezas ou tropheos!
Quaes foram os brazões, que bens doou?
Venderia indulgencias lá dos ceos?
Mentes, que nunca fez separações,
Nem fez a fome nem as privações,
O mundo concedeu á húmanidade.
Mas como é que ha então ricos e pobres?
Como é que existem os plebeus e os nobres?
Que significas pois, ó caridade?