Lisboa, 1891

+AMOROSO+

Eu amo-te, amo-te tanto

Talvez não saibas o quanto

Meu coração fazes pulsar;

Talvez não saibas, ó linda,

Como a tua graça infinda

Me faz viver para amar.

Amo-te a face formoza,

Amo-te a boca de roza,

Amo-te o negro cabello,

Amo-te o gesto mavioso,

O sorrir casto e bondoso,

O olhar gracioso e bello.

Adoro-te a singelleza

Que é engaste da belleza,

Amo-te o lindo rubor

Com que te purpurizaste,

Quando tremula escutaste

As juras do nosso amôr.

Encontrei-te, o meu coração

Satisfez a aspiração

E tenho um novo viver.

Acho mais bellos os prados,

Os tons do sol mais dourados,

Em tudo o amor julgo vêr.

Oh! se o teu amôr assim

Fôr tão ardente por mim,

Não haverá nada igual

Á pura felicidade

Dos dias da mocidade,

Ao meu risonho ideal.

Angra do Heroismo,

1890

+A CARIDADE+

I

Caridade, quem és! Quem te inventou?

Para que serves, quaes os meios teus,

A tua agencia, assim, quem t'a arranjou,

Para que vens fallar-nos sempre em Deus!

Em Deus! Quando o universo elle creou

Legou a alguem riquezas ou tropheos!

Quaes foram os brazões, que bens doou?

Venderia indulgencias lá dos ceos?

Mentes, que nunca fez separações,

Nem fez a fome nem as privações,

O mundo concedeu á húmanidade.

Mas como é que ha então ricos e pobres?

Como é que existem os plebeus e os nobres?

Que significas pois, ó caridade?

Lyra da Mocidade Primeiros Versos · 第 18 / 28 题