Acto I Scena final

+PORQUE TE AMO+

Amo-te porque és tão linda

Como é linda a luz do sol,

Tens o frescor da alvorada,

Tens a côr afogueada

Como os tons d'um arrebol.

Amo-te porque és tão bella

Como é bella a flôr mimosa

Que viceja n'um jardim,

A açucena ou o jasmim,

O lyrio, o cravo, uma roza.

Amo-te porque fascinas

Com esse olhar fulgurante

Que asseteia os corações,

D'esses olhos dois carvões,

A graça do teu semblante.

Amo-te porque és bonita

Com esse preto cabello,

Em anneis fulvos, sedosos,

Cobrindo os hombros formosos

Fulgurante, crespo, bello.

Amo-te emfim porque és meiga

Qual pomba que arrulha mansa,

Porque és boa e carinhosa,

E esta alma angustiosa

Precisa d'amor, creança.

Precisa d'amor! Não sabes

Que é luctar o viver?

O homem soffre amarguras

Por isso busca ternuras

No seio d'uma mulher.

Angra do Heroismo

1892

+A SAUDADE+

Era de tarde ao pôr do sol, a brisa

Vinha fagueira a remecher as flôres,

Iam velozes sobre a fronte liza

Do Tejo d'ouro de ideaes amores,

Ligeiros barcos, avesinhas mansas.

Desferidos em harpas geniaes,

Por virgens d'olhar meigo e loiras tranças,

Vinham threnos sublimes, ideaes.

O mundo todo pleno d'harmonia.

Eu, só, fitava a solidão do mar

Dominado d'ideal melancolia.

E que buscava então na immensidade?

É que me vinha fundo cruciar

O acerado espinho da saudade!

Lyra da Mocidade Primeiros Versos · 第 8 / 28 题