O SNR. ANTONIO RODRIGUES DE FREITAS

+LYRA DA MOCIDADE+

Os versos na mocidade

Todos fazem, e a razão

É serem necessidade

Aos risos do coração.

O futuro côr de roza,

O mundo cheio de encantos;

A nossa alma jubilosa

Não chorou amargos prantos.

Desde o ar que se respira,

Ao ceo da côr de saphira,

Tudo ri e diz--Amar!

E contemplando a belleza,

O sorrir da natureza,

Sabemos todos cantar.

+ELLA+

O busto esculptural e primoroso,

O braço torneado, a linda mão,

O rosto avelludado e tão mimozo

Que da roza assemelha-se ao botão.

O cabello d'um negro tão lustroso,

A boquinha vermelha, ó perfeição!

O olhar d'um fulgôr tão radioso,

Que belleza e ternura d'expressão!

Ao vêl-a devaneio, fico louco,

Creio que o meu amôr todo inda é pouco

Lembrei-me, e se deixasse de a adorar?

Pode deixar d'amar-se os astros lindos,

Do ceo e terra os dons os bens infindos,

A luz doce e tão pura do luar?

Angra do Heroismo,

1890

+O MAR+

Gigante irrequieto, immenso mar,

Inspira-me tão funda nostalgia

O teu sonoro e doce murmurar!

Quando ao sol posto a areia luzidia

Tu vens traquillamente rebeijar

N'alma despertas maga poesia.

O teu esverdeado transparente

Fala-nos meigamente d'esperança

A ondular poetico, dolente,

Beijado pelas auras da bonança;

Parece-me o brincar puro, innocente,

Inofensivo e meigo da creança!

* * * * *

Mas quando agitas o teu seio immenso

No voltear das vagas alterosas

Rugindo com fragor enorme, intenso,

Já não tem expressões harmoniosas

Teu palpitar e n'essa hora eu penso

Em coisas bem sinistras, pavorosas.

Ó monstro, no teu seio tens sumido

Victimas aos milhões, causas terror,

Tens navios, cidades engulido.

Será um côro de vingança e dôr

Das victimas, ó mar, o teu rugido,

Ou do remorso o pávido clamor?

Angra do Heroismo

1890

+31 DE JANEIRO DE 1891+

Lyra da Mocidade Primeiros Versos · 第 4 / 28 题