Agora vai explicar-se tudo, e acaba-se o conto.
É o caso:
Lembre-se o leitor que o coronel Gervasio tinha dous irmãos ricos no
Brazil, ambos solteiros. Estes homens negociavam em brilhantes, e, na
ultima das suas excursões ao centro do imperio, foram assassinados por
salteadores, deixando um grande capital sem testamento.
Do Rio de Janeiro vieram logo averiguadores a Portugal para comprarem a
opulenta herança. Souberam em Lisboa que os herdeiros proximos, o
coronel, ou sua filha, tinham morrido sem successão.
Francisco de Proença estava então no Porto, e mais d'um amigo lhe
repetiu os pesames da fatal viuvez, que o privava d'alguns milhões.
Aqui está o nosso homem em embaraços de uma terrivel originalidade, ao
passo que uma chusma de parentes remotos de sua mulher se habilitam
pressurosamente!
A resurreição de Leocadia será possivel? A herança compensará a zombaria
com que a sociedade vai entrar no segredo dos seus ridiculos brios?
Não foi longo o interrogatorio que o tragico viuvo se fez. Feito o
escrutinio, os votos a favor da resurreição tinham a maioria. Proença
resolveu arrancar sua mulher dos limbos, e para isso mandou á provincia
o medico e a liteira.
Leocadia, como vimos, é conduzida ao Pastelleiro, e espera ahi tres
mezes a primeira visita de seu marido, depois de ter assignado algumas
procurações, cuja significação ella não entendeu. Francisco de Proença
fôra a Lisboa tractar de habilitar sua mulher.
Julgaram-no doudo porque a morte da filha do coronel era caso decidido
para as relações de ambos; e como o viuvo teimava em affirmar que era
casado, protestando apresentar sua mulher viva em presença de
testemunhas que a conhecessem de vista, a opinião da justiça foi que
viesse a Lisboa a supposta defunta, e ao mesmo tempo se averiguasse na
ilha da Madeira se alli, em tal mez, d'aquelle anno de 1828, fallecera a
mulher de Francisco de Proença.
O estranho successo foi estimulo de estrondosas gargalhadas na capital.
Havia grande ancia de conhecer o milagroso parvo, cujas anedoctas de
Coimbra reviveram com salgadas ampliações.
Os mais sisudos commentadores do estranho caso queriam, por amor da
moralidade, que se devassasse o tumulo de Leocadia, e dissesse ella,
visto que resuscitou, que morte fôra aquella de sete mezes, onde
estivera, e de que supplicios viéra resgatal-a a herança de seus tios.
O thaumaturgo não ousava apparecer na orda das suas relações. Ninguem,
se o conhecia, podia encaral-o com os labios seriamente fechados. O
apupado marido da mulher redeviva queria explicar a algum dos mais
impertinentes averiguadores do mysterio, aquella especie de catalepsia
de sete mezes, e então dizia:
«Pensei que fôra deslealmente deshonrado por minha mulher. O meu coração
cobriu-se de lucto, o punhal vingativo pedia o sangue da perfida, mas o
meu espirito era nobre de mais para sanccionar o assassinio d'uma debil
mulher. Quiz matal-a moralmente, e dei-a por morta moralmente para mim.
Fiz-lhe graça da existencia, para que o remorso lento me vingasse.
Vesti-me de lucto, disse que minha mulher morrêra; e, se alguem me
perguntasse particularidades da sua morte, eu responderia que uma campa
a separava de mim. O que hoje faz rir a sociedade seria então recebido
como um rasgo de heroismo na desgraça. Os maridos atraiçoados achariam
em fim a condigna penitencia da perfidia.
--Mas...--alguem lhe disse--tua mulher estava innocente?
A esta pergunta indiscreta Francisco de Proença titubeava, e não sabia
se lhe convinha decidir-se pela absoluta innocencia de Leocadia.
Lá se aveio como pôde com os importunos, até que um dia appareceu com
sua mulher resuscitada, e encartada no nome e appellidos que teve quando
foi viva.
A presença desta pobre senhora foi, só em si, uma accusação contra seu
marido. A desgraçada, quando lhe perguntaram, diante de testemunhas, se
era mulher de Francisco de Proença, respondeu:
«Dizem que sou.»
--E a senhora não diz o mesmo?
«Eu sou viuva» tornou ella.
--Então qual dos senhores é viuvo? É original a mania d'ambos--replicou
o jurisperito, rindo com os circumstantes, em quanto as lagrimas da
herdeira millionaria lhe desciam na face purpurina de pejo.
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Não me souberam contar o resto.
O que eu sei é que cinco mezes depois recebi uma carta datada em
Londres.
Resava assim:
«Prometti-lhe uma palavra: ella ahi vai: E MORRO. Chore-me.»
_Leocadia._
Em 1834 Francisco de Proença veio a Portugal. Viajára seis annos, e
vinha casado, em segundas nupcias, ou terceiras, dizia alguem com a
filha d'um correeiro de Manchester.
Está vivo, e velho como eu.
Acabou-se a historia.