O CARACTER DE FRANCISCO DE PROENÇA.

É preciso virmos procural-o aos nossos ultimos annos.

Em 1828 o homem não era ainda feito á similhança do typo, que mais o

encantára, no romance.

Depois de 1834, é que as bibliothecas de novellas entraram por aqui

dentro a fecundar este chão bravio, como extravasantes do Nilo.

Era necessario ser-se excentrico, desde o ventre materno, para ser

romantico em 1828.

Francisco de Proença representa a vanguarda dos descabellados em

Portugal.

Desde criança, merecêra pelas suas escaramuças sanguinarias aos coelhos,

o cognome de «Attila de coelheira.»

Em Coimbra, chamavam-lhe o _chevalier sans peur et sans reproche_.

A sua principal mania era o brasão. Estava apparentado com as primeiras

casas da monarchia, por um tal Egas, filho de Mem, neto de Fuas, e

bisneto de Ruy que acompanhára D. Henrique a Cárquere, a cumprir um voto

d'uma perna torcida.

Depois, e em consequencia d'esta mania, tinha um requinte de brios que

lhe custou muito puxão d'orelha.

Desafiava a espadão todo o mundo, e quiz mandar um cartel a um doutor

octogenario que o reprovou em mathematica.

Na primeira carta a um namoro que tivera assignava-se o _commendador

Francisco de Proença_. A menina riu-se, e o fidalgo, no adro d'uma

igreja, perguntou-lhe se os trabalhos da cozinha a não deixaram

responder.

Tinha destas cousas.

Os seus bens de fortuna não eram o que elle precisava que fossem para

sustentar o seu orgulho.

Aceitou a mão da filha de seu padrasto, porque a paixão o acolheu de

subito. Leocadia, com o seu desdém, pisára-lhe a soberba. Proença foi

vencido pelo desprezo.

Sua mãi, de mais a mais, dissera-lhe que Leocadia era a presumptiva

herdeira de dous tios millionarios que tinha na America.

O _dinheiro commercial_ não lisongeava o fidalgo; todavia, esta

repugnancia pôde vencel-a o amor.

Casou, e não se póde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas

differenças são as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio

disfarçado as amabilidades de seu marido.

Para o não detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai

moribundo, e o crucifixo do juramento.

Leocadia habituára-se a viver fóra do seu corpo... A alma voava livre

onde a chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste

modo, affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a

chamava sua.

O traço, porém, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de

Proença, vai descobril-o um infeliz acontecimento.

Quando Leocadia sahia, encostada ao braço do capellão, o portal da

quinta dos Maldonados, Francisco de Proença, vindo da caça, atravessava

a azinhaga, assobiando aos perdigueiros.

Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proença pára

estupefacto, e Leocadia pára tambem. O fidalgo, que não conhecia o

padre, interroga-o:

«Quem é o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!

O padre tartamudeou:

--Eu sou capellão d'esta casa.

«Que casa é essa?

--De uma minha amiga--balbuciou Leocadia.

«É admiravel que eu não conheça as amigas da senhora! Como se chama essa

amiga?

O padre, aterrado pelo olhar soberano de Proença, disse:

--É a snr.ª D. Maria Maldonado.

O cavalheiro fixou attentamente sua mulher. Leocadia não levantava os

olhos do chão. A surpreza reduziu-a ao silencio, que confessa o crime, e

é já em si um principio de penitencia.

«Vamos, senhora!--disse Proença.

Decorreram tres dias, sem que Leocadia visse seu marido. Procurou-o,

deliberada a convencêl-o da sua innocencia com a sincera historia do seu

amor áquelle homem. Proença soubera tudo de sua mãi, e furtava-se ao

encontro com sua mulher.

Ao quarto dia, Leocadia foi avisada, da parte de seu marido, que

preparasse o seu bahú para viajar, com elle, no dia seguinte. Ella pediu

uma entrevista a Francisco de Proença. Respondeu-se-lhe que lá fóra

teriam sobejas occasiões. Replicou a infeliz que não podia, que estava

muito doente. Disse-se-lhe que em toda a parte havia uma sepultura.

A comitiva dos viajantes era unicamente Thereza. Esta criada convinha ás

intenções do marido.

Desembarcaram na Madeira. Durante a passagem, Leocadia nunca pôde

prender a attenção de seu marido dous segundos.

Quinze dias depois do desembarque, Francisco de Proença apresenta-se,

pela primeira vez, em rigoroso lucto diante de sua mulher.

--Quem lhe morreu?!--perguntou ella.

«A senhora!

--Como?! está delirando!

«Quem morreu foi minha mulher--» tornou elle com uma visagem

ridiculamente tragica.

--Pois se morri, eu vou morrer--disse ella com angelica mansidão--o

Senhor receba a minha alma.

«A sua alma condemnada ha-de continuar a existir n'um corpo impuro.

--Não quero entender a injuria--disse ella com firmeza--Antes a morte.

«Morreu para mim; mas ha-de viver para o remorso. Eu sou viuvo, senhora.

Em Portugal ha-de saber-se que eu sou viuvo. A que foi mulher de

Francisco de Proença, terá de hoje em diante outro nome. A senhora

jámais dirá que eu sou seu marido: o punhal está sobre o seu seio

esperando que essa palavra lhe passe os labios. Dou-lhe a vida, porque

vejo o coronel moribundo que me supplica este heroismo...

--E eu não aceito a graça--interrompeu Leocadia...

«Pois então, ha-de supportal-a como castigo. A senhora tem uma mesada,

para viver onde queira, com tanto que a sua companhia unica seja essa

criada que foi de sua mãi. Tenho a generosidade de conceder-lh'a; mas,

senhora, repare que eu vou mostrar em Portugal a certidão do seu obito.

No dia em que me desmentir, matei-a!

Leocadia pendeu a cabeça para o seio, e murmurou, sem lagrimas:

--Como quizer, senhor. Agora deixe-me em paz.

«Ainda não. Na provincia de Traz-os-Montes tenho um casal, situado entre

quatro montanhas: Quer habital-o?

--Sou sua escrava, senhor.

«Sabe que de hora em diante perdeu o nome que tinha?

--O que quizer, mas não posso ouvil-o.

«Nem eu vêl-a mais; porque minha mulher morreu!»

E retirou-se, solemne e sonoro nos passos, como a estatua de D. João

Tenorio.

Aqui está o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraçada.

Scenas da Foz · 第 86 / 89 题