Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena
lagrimosa que presenceara em casa de Pantaleão. O meu honrado amigo não
hesitou, um momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde
muito seria marido de Hermenigilda, se a má fortuna da guerra lhe não
tolhesse o uso do corpo, pelos ferimentos graves que recebêra, e a
morosa convalescença que lhe custaram. Acrescentou o meu brioso amigo
que, obrigado a uma quasi solidão de quatro mezes, reflectira
maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se de que o
casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de materia,
e rica, era a posição que mais quadrava á sua alma, já desenganada das
loucas illusões da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda não
fosse muito--disse elle--isso não importava, porque o amor-habito viria
com o tempo encher o vacuo das grandes paixões. Louvei, como moralista e
humanitario, tão acertado expediente, tão ajuizada philosophia, e
fallamos largamente em planos de Bento de Castro, fundados sobre os
haveres da noiva. É certo que uma imaginação creadora tanto póde erguer
castellos no ar como em Amarante.
N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baião,
onde eramos esperados por um extraordinario successo.
Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente,
berregando muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas
palavras, que eu communiquei ao meu amigo.
Pantaleão sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que
parecia ter-se commovido com a minha revelação, antes de mais nada,
exclamou:
«Não esperava isto d'um fidalgo, que ainda é meu parente, snr. Bento! V.
s.ª portou-se muito mal, e não é digno de ser meu genro!»
D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos
berros, e disse com senhoril gravidade:
--O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é
de chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está
aqui para remediar o mal que fez.
«De certo, minha senhora--murmurou o meu amigo.
--Pois então--acudiu Pantaleão--trate-se já do casamento.
«Já?! não é possivel!--redarguiu D. Mafalda--A menina está... pois tu
não sabes como ella está?!
--E então que tem lá isso?!--replicou o fidalgo--Chama-se ahi o abbade
ao quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.
«Eu estou prompto a obedecer-lhe--disse Bento;--mas eu muito queria que
a minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa
existencia. Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo
seria eu o primeiro a lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se
por em quanto não ha receio, por que não ha-de o nosso casamento
espaçar-se para um dia mais alegre?
--Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...--disse D. Mafalda.
Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma
tal ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a
tempestade, e Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da
bocca eloquente de seu primo as proesas de Silveira, e as esperanças
seguras da queda da constituição.
D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha
chegado, ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o
levassem ao quarto, se isso não parecesse mal.
Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas
palavras animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da
sua ingratidão. O momento, porém, era improprio para arguições e
defezas. Hermenigilda estava pagando á natureza o doloroso preço dos
gosos maternaes. Bento sahiu com semblante melancolico, e propoz-me um
passeio no pinhal visinho.
«Sabes tu, João, (disse-me elle com poetica ternura) que começo desde já
a sentir o amor paternal?
Agora conheço que os prazeres singelos da vida domestica são os unicos
de que posso recobrar a minha felicidade perdida.
--Pois, parabens, meu caro Bento!
«Ha nada mais poetico--proseguiu elle, cada vez mais commovido--que o
espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe
desprende do seio o thesouro d'amor que será inexhaurivel de prazeres
para mim?!
--Oh! isso é arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da
minha particular devoção que me não dêem o prazer desse espectaculo; mas
se um dia eu vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e
trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no pescoço...
«Não podes imaginar o jubilo que me enche o peito...--atalhou o meu
amigo, que parecia não ter ouvido os doces prognosticos da minha
paternidade--Quem diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje
esperar metade da minha existencia menos infeliz que a outra. Se
Hermenigilda não é a mulher que possa corresponder bem ás precisões da
minha alma, o vacuo será preenchido com o amor de meus filhos. Se fôr
menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em Inglaterra; quero provar
que se póde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se fôr um rapaz, oh!
então... tu não imaginas o que ha-de ser meu filho!
A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se é pai
de certo perdoa ao meu amigo.
Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me
nas orelhas uma sensação desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que
fôssemos continuar as doces _réveries_ no nosso quarto.
Estavamos ainda a pé, duas horas depois. De instante, a instante,
chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a
informar-me, e voltava sempre com boas esperanças para o meu amigo.
Assistiam ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende,
um cirurgião das Caldas d'Arêgos, uma parteira de Canavezes, e D.
Mafalda, que parecia mais experiente que todos os outros.
Já de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que
Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes,
quando annunciam á Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho
de tal ou tal commendador, que nunca produz, em regra, meninos
enfesadinhos.
Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido á primeira pessoa que sahiu
do quarto: era D. Mafalda. Cousa extraordinaria! A velha fidalga sahiu
como assombrada; e á pergunta que lhe fiz, respondeu: «Isto é da gente
se benzer!»
--Que diz v. exc.ª, minha senhora?--repliquei eu--É menino ou menina?
«Eu sei cá... Santo nome de Deus!--balbuciou ella.
Sabem o que então me lembrou, não podendo atinar com o spasmo de D.
Mafalda? Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberração
da natureza, um monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas
minhas perguntas, e imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me
disse que o nascido era rapaz, mas...
«Mas o que, minha senhora, queira acabar...
--Mas é preto!--disse ella, escondendo o rosto nas mãos.
Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefacção de
nós ambos. Pergunta se Hermenigilda está perigosa. Eu fico perplexo; mas
o vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me até ao
fundo d'alma.
Tomo-lhe o braço, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:
--Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.
«Pois que é?!
--Já, já, é necessario sahir já d'aqui...
«Por quem és, explica-te, João.
--E eu pela tua honra te supplico que me não interrogues mais. Vamos
apparelhar os cavallos.
Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do
idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: «monta!» não
se moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpôr. Cobrei animo, e
disse-lhe:
«Estás disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...
--Se elle é meu filho...--murmurou elle.
«Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!
--Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!
N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma
filha da caseira:
«Nasceu um menino.
E a caseira respondia:
--Que seja para boa sorte.
«E a SORTE EM PRETO é a melhor...--murmurei eu, segurando o estribo do
cavallo de Bento.
O infeliz comprehendeu-me. Não sei como dizer o que vi na cara de
Castro. Partimos.