Tudo nos leva a crer que não tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral
publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para
com ella, nós, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios,
soláus, e varias outras feições do folhetim--a moral publica, dizia eu,
quer que um romance acabe bem. Acabar bem é triumphar a virtude, punir o
crime, incitando o coração do leitor á pratica do bem, e ao horror do
mal. N'este romance, se tal nome é bem cabido n'uma biographia de
personagens ainda vivas, excepto Pantaleão, não ha nada que seduza
corações inexpertos, trajando o vicio de gallas seductoras, depravando o
paladar com o uso do absyntho das paixões licenciosas. Aqui é tudo posto
no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido, ascoso, lazarento de
lepra, e parecido com o diabo, de quem é filho. A virtude, vestida com
singelas louçanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce favo
de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flôr da
virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que
tão farto e nedio trazia o coração de Hermenigilda, e outras creaturas
da mesma tempera.
SCENAS DA FOZ é um livro d'ouro. Peço licença para dar ácerca da minha
obra o meu juizo independente, recto, desataviado de encomios
immerecidos, e depurado de emulação mesquinha. O author é quem mais
convincente testemunho póde dar da sua obra. Os nossos primeiros
litteratos, desde 1830 até 1840, excepto A. Herculano--que escreve
sempre com a mira posta na posteridade, e crê, como deve crer, na
perpetua florencia da sua reputação--excepto esse, os nossos primeiros
litteratos, para se pouparem ás avaliações incompletas das suas obras,
escreviam elles as criticas. Os elogios appareciam ao mesmo tempo em
quatro gazetas; e tão bem escriptos eram, tão portugueza e elegante a
phrase, tão bonito para ver-se o guindaste que topetava com as nuvens a
nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o thuribulario
crear-se-hia uma reputação capaz de correr parelhas com a do idolo.
Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal
consolidou; e, se os authores não tivessem o direito congenito de
escrever e julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje
nos limbos da velha academia.
Seja permittido a João Junior crear-se uma reputação tambem. O meu
romance é a historia do coração humano. É um miudo exame das
vicissitudes do espirito, e algumas vezes da materia. É o telescopio que
alcança os astros do universo moral. É uma amalgama de historia, de
philosophia racional e moral, de geographia e physiologia, a retina
finalmente do grande olho da sciencia, que apanha n'um ponto os raios
luminosos de todos os conhecimentos humanos. É esta a opinião do leitor
illustrado, e tambem a minha.
Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente
soêzes, e outros hypocritamente pudibundos. Os primeiros dizem que o meu
romance é uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem verosimilhança, nem
idéa fundamental, ou nucleo philosophico. São uns pataratas.
Outros, os segundos, acham que o conto está cheio de palavras
estrangeiras, e não é tão bonito como as _historias proveitosas_ do
Trancoso de que fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me
pena.
Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos
vicios, a descautella com que a parte carnal do idealismo humano se
mostra aos olhos das leitoras incautas, menores de cincoenta e seis
annos. Guardai-vos destes moralistas, pais de familias!
Duas velhas já me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar
fraquezas que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam
a innocencia. Valha-me Deus! Porque nos andamos nós a enganar uns aos
outros com meia duzia de palavras convencionaes? _Alphonse Karr_ não
conhece creanças; o que nós chamamos creanças chama elle _mulheres
pequeninas_. A civilisação tem alterado muito o valor intrinseco de
certas palavras antiquissimas, como, _verbi gratia_, pudôr, honra,
amisade, amor, patriotismo, innocencia, e as demais que o leitor sabe.
Eu creio na _innocencia_ das mulheres como synonimo de _pureza_; mas de
_simplicidade_, não. O conhecimento precoce dos segredos mais rebuçados
da vida é um segundo instincto com que vieram á luz as mulheres do
seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem estudar, no collo, as
suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos pueris inducções que
me levam á illusão de que tenho no meu collo as mulheres pequeninas do
author de _Les Femmes_.
Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecações na alma, zango-me
quando as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade--e mais se
doem do pungir do espinho que já se lhes não esconde em flores...
Lembram-me então aquelles versos de Béranger:
Prudes, qui ne criez plus
Lorsqu'on vous viole,
Pourquoi prendre un air confus
A chaque parole?
Não obrigueis o romancista a escrever os fastos do coração como os
chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia está dispensada
de ser caritativa.
Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com
deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades;
querer ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes
buscar o desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel,
é renunciar á verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que
não existe, arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.
O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma
paixão perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa,
e coberto de flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma
irreligiosa philosophia.
Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds
melancolicamente piegas.
Não verterei nas almas o nectar libidinoso do _Sophá_ de Crébillon.
Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua
philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão
flexiveis, tão dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira
que não leu o Plutarcho, nem o Tasso.
Não direi, como Goethe, aos infelizes que se matem; e, se fôr
necessario, provarei que Werther foi um tolo, se existiu; Gilbert,
Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e
Nerval, Jorge Arthur[3], não foram mais espertos que o seu modêlo.
O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma
o melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a
humanidade se submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos
dados pelo Creador a todas as alimarias do universo. Detesta a
philosophia que faz os homens maiores ou mais pequenos do que elles são.
Abomina os escriptores que precisam enganal-os para engrandecel-os.
Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro barro: não nos persuadamos que
o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o d'outros em Champagne. As
paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros n'um diwan de
molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu
Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda,
nascida e baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.
O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada
importante. O que vem é de certo o melhor de todos.
[3] Jorge Arthur é um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de
1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem
um monumento no cemiterio do _Repouso_, com o seguinte epitaphio
que não diz nada:
Saudade perennal, geme, e avalia
Thesouro de que é cofre a sepultura.
Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um
sinete com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o
amor... da morte. Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha
talento, e publicou poesias, propheticas do seu destino. Teve
muitas elegias; foi muito sentida pelos rimadores a sua morte.
Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua. Era de noite.
Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão medonho.
Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné
de velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia
legar...