O romance tem cousa má!
É a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um
titulo sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar
de principiar pelo principio, começava no 2.º volume. O author,
respeitador do publico, explicava o contrasenso, dizendo que os romances
eram escriptos de modo que tanto fazia ao caso começar do 1.º volume
para diante, como do ultimo para traz.
Isto é rasoavel e persuasivo. Porém, incoherencias deste tamanho não se
desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do
coração, da experiencia, e feito expressamente para entrar em quinhão de
gloria com as «Reflexões de Phocion» com o «Manual de Epicteto» com os
«Excerptos gnomicos de Seneca» com os «Caracteres de la Bruyère»
excellentes repositorios de philosophia pratica, que eu hei-de lêr na
primeira occasião, porque me dizem que são livros de muito interesse,
que ensinam a procurar a felicidade, como agulha em palheiro, na
pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta ordem teem sempre
uma vida eivada de amarguras: isso é o que eu posso desde já affirmar,
sem os ter lido. Phocion soffreu morte dolorosa. Seneca, preceptor de
Nero, bem sabem que desastrado remate teve de vida. Epicteto é aquelle
escravo do «Thesouro de meninos» que exclama, erguendo a canella partida
por uma paulada: «não vos disse eu que m'a havieis de quebrar?» D'onde
infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de candeias ás
avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de engranzar
capitulos de romance, de modo que a historia vá bem contada, até ao fim,
que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso
de oleo de figados de bacalhau.
João Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os
seus numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a
honra de declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi
eliminado deste quadro de costumes porque havia n'elle frescura de
idêas, phantasia de côres, debuxos copiados da natureza viva, cousas, em
fim, tão verdadeiras, tão patriarchaes, tão nuas, que o seu editor,
depois de montar os oculos, e sorver duas pitadas conspicuas, disse que
não patrocinava com o seu nome um capitulo em que o mencionado supra
contava os factos como elles tiveram a impudencia de acontecer.
Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um
accordo com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente
escriptas do meu romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos
da natureza bruta com as doutrinas lucidas dos interpretes mais
abalisados dos mysterios do coração; doze paginas salpicadas d'uma
erudição exemplificativa que remontava á creação do globo, para provar
que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque, são dous entes
homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma obra, duas
creaturas em fim dos nossos peccados. N'esse capitulo, naufragado no
cachôpo da moral, tinha eu uma gorda nota comprovativa da minha opinião
ideologica a respeito de mulheres, rica de historia antiga, em que, sabe
Deus com que vigilias, entravam Salomão e Dalila, Pericles e Aspazia,
Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram como se ama
d'uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos
anhelitos da adolescencia, com a fé pura, candida, e immaterial do amor
de Voltaire a madame du Châtelet, do amor de Larochefoucault a madame de
Lafayete, do amor da minha visinha do terceiro andar, que, ás duas horas
da noite, desce, com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave,
que teima em chiar, apesar do azeite prévio, quando um Romeu de capote
de mangas lhe assobia a cavatina do «Trovador». Tudo isto, e muitas
cousas mais, vinham na nota, que prometto embetesgar na primeira cousa
que escrever, ainda que seja um artigo sobre o pulgão da batata.
Fortissimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido
capitulo XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram
antes e depois do fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826,
acontecimento grave e complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu
romance, se o editor ultra-honesto não teimasse em affirmar que o meu
romance não precisa de chave para abrir as portas da eternidade.
Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar o facto em estylo levantado,
allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das intelligencias
superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental, balsamico,
todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a
alma não tem nariz.
Era assim o meu fragmento:
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E a lua balouçava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.
E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a
folhinha secca da alga.
E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as
plumas affagadas por um raio de lua.
Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das
igrejas reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro
assobia o noitibó, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos
cardumes de bruxas tomam semicupios e dão gargalhadas de risos maleficos
e satanicos.
E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejão nocturno, roçou a
espadua pela padieira da porta, que se abriu.
Era da côr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a
haste melindrosa.
E a viração da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se
quizesse disputar á da manhã o prazer de beijar mais frescas rosas.
E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a
fronte incendida ao braço tremulo do senhor de sua alma, e foi!
Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?
Flôr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?
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E a lua passava no céo, velada e triste, como a Niobe antiga.
E o homem de Celorico, de braço dado com a virgem, como qualquer
caixeiro em baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta,
meditando em seu coração um crime, e adoçando nos labios a tenção
damnada que lhe fallava n'alma.
E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leão.
Homem! tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu
um dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos seculos, vergou
a fronte, e estalou pelas raizes.
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E a flôr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sôffrega,
pendeu as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos
homens de Celorico.
Fôra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil
duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos
jornaes!
E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas,
como os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a ella............
etc. etc.
E pouco mais continha a minha descripção em estylo oriental.
É realmente demasiado respeito ás conveniencias privar-se o publico d'um
fragmento assim! Não obstante, rasguei-o, protestando jámais querer
editor para as minhas obras.