XV.

O romance tem cousa má!

É a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um

titulo sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar

de principiar pelo principio, começava no 2.º volume. O author,

respeitador do publico, explicava o contrasenso, dizendo que os romances

eram escriptos de modo que tanto fazia ao caso começar do 1.º volume

para diante, como do ultimo para traz.

Isto é rasoavel e persuasivo. Porém, incoherencias deste tamanho não se

desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do

coração, da experiencia, e feito expressamente para entrar em quinhão de

gloria com as «Reflexões de Phocion» com o «Manual de Epicteto» com os

«Excerptos gnomicos de Seneca» com os «Caracteres de la Bruyère»

excellentes repositorios de philosophia pratica, que eu hei-de lêr na

primeira occasião, porque me dizem que são livros de muito interesse,

que ensinam a procurar a felicidade, como agulha em palheiro, na

pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta ordem teem sempre

uma vida eivada de amarguras: isso é o que eu posso desde já affirmar,

sem os ter lido. Phocion soffreu morte dolorosa. Seneca, preceptor de

Nero, bem sabem que desastrado remate teve de vida. Epicteto é aquelle

escravo do «Thesouro de meninos» que exclama, erguendo a canella partida

por uma paulada: «não vos disse eu que m'a havieis de quebrar?» D'onde

infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de candeias ás

avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de engranzar

capitulos de romance, de modo que a historia vá bem contada, até ao fim,

que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso

de oleo de figados de bacalhau.

João Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os

seus numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a

honra de declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi

eliminado deste quadro de costumes porque havia n'elle frescura de

idêas, phantasia de côres, debuxos copiados da natureza viva, cousas, em

fim, tão verdadeiras, tão patriarchaes, tão nuas, que o seu editor,

depois de montar os oculos, e sorver duas pitadas conspicuas, disse que

não patrocinava com o seu nome um capitulo em que o mencionado supra

contava os factos como elles tiveram a impudencia de acontecer.

Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um

accordo com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente

escriptas do meu romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos

da natureza bruta com as doutrinas lucidas dos interpretes mais

abalisados dos mysterios do coração; doze paginas salpicadas d'uma

erudição exemplificativa que remontava á creação do globo, para provar

que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque, são dous entes

homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma obra, duas

creaturas em fim dos nossos peccados. N'esse capitulo, naufragado no

cachôpo da moral, tinha eu uma gorda nota comprovativa da minha opinião

ideologica a respeito de mulheres, rica de historia antiga, em que, sabe

Deus com que vigilias, entravam Salomão e Dalila, Pericles e Aspazia,

Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram como se ama

d'uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos

anhelitos da adolescencia, com a fé pura, candida, e immaterial do amor

de Voltaire a madame du Châtelet, do amor de Larochefoucault a madame de

Lafayete, do amor da minha visinha do terceiro andar, que, ás duas horas

da noite, desce, com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave,

que teima em chiar, apesar do azeite prévio, quando um Romeu de capote

de mangas lhe assobia a cavatina do «Trovador». Tudo isto, e muitas

cousas mais, vinham na nota, que prometto embetesgar na primeira cousa

que escrever, ainda que seja um artigo sobre o pulgão da batata.

Fortissimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido

capitulo XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram

antes e depois do fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826,

acontecimento grave e complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu

romance, se o editor ultra-honesto não teimasse em affirmar que o meu

romance não precisa de chave para abrir as portas da eternidade.

Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar o facto em estylo levantado,

allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das intelligencias

superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental, balsamico,

todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a

alma não tem nariz.

Era assim o meu fragmento:

..........................................................................

E a lua balouçava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.

E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a

folhinha secca da alga.

E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as

plumas affagadas por um raio de lua.

Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das

igrejas reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro

assobia o noitibó, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos

cardumes de bruxas tomam semicupios e dão gargalhadas de risos maleficos

e satanicos.

E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejão nocturno, roçou a

espadua pela padieira da porta, que se abriu.

Era da côr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a

haste melindrosa.

E a viração da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se

quizesse disputar á da manhã o prazer de beijar mais frescas rosas.

E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a

fronte incendida ao braço tremulo do senhor de sua alma, e foi!

Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?

Flôr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?

..........................................................................

E a lua passava no céo, velada e triste, como a Niobe antiga.

E o homem de Celorico, de braço dado com a virgem, como qualquer

caixeiro em baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta,

meditando em seu coração um crime, e adoçando nos labios a tenção

damnada que lhe fallava n'alma.

E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leão.

Homem! tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu

um dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos seculos, vergou

a fronte, e estalou pelas raizes.

..........................................................................

E a flôr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sôffrega,

pendeu as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos

homens de Celorico.

Fôra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil

duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos

jornaes!

E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas,

como os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a ella............

etc. etc.

E pouco mais continha a minha descripção em estylo oriental.

É realmente demasiado respeito ás conveniencias privar-se o publico d'um

fragmento assim! Não obstante, rasguei-o, protestando jámais querer

editor para as minhas obras.

Scenas da Foz · 第 55 / 89 题