Ao escriptorio commercial, onde o meu amigo trabalhava, chegou, ao fim
da tarde, do dia 15 de Julho de 1853, um empregado da embaixada
indagando a residencia do portuguez Affonso de Teive.
Sahiu com o esclarecimento em demanda d'outro portuguez, que se
apresentára ao ministro, com importantes recommendações de Lisboa. A
nota da residencia era _rua Vivienne, 104, 5.º andar, lado esquerdo_;
quem a recebeu da mão do encarregado foi uma senhora, que a passou logo
a um sujeito de cabellos brancos, trajado de sacerdote.
O leitor não se deixa surprehender mais tarde: já sabe que a senhora é
Mafalda, e o sacerdote é o capellão padre Joaquim de S. Miguel.
Padre Joaquim entrou n'um _fiacre_ com o guia posto á sua ordem pelo
ministro portuguez. Apearam ao portão do predio; perguntaram ao porteiro
se o morador do quinto andar, lado esquerdo, estava em casa. Sahiu do
interior da loja, residencia do porteiro, o criado de Affonso, o qual,
reconhecendo padre Joaquim, lançou-se a elle de modo que o ia afogando
ao primeiro abraço.
--Ainda vives, Tranqueira?--exclamou o clerigo--E sempre com o pequenito
de Ruivães!?...
--Até á morte, snr. padre mestre!... Pois por aqui? V. s.ª por estas
terras?... Que é feito do snr. Fernão? e da fidalguinha?
--Leva-me lá acima, homem, que pelos modos temos que marinhar--atalhou o
padre.
--Ponha-se aqui ás minhas costas, que eu levo-o lá, snr. padre
Joaquim!--disse o Tranqueira, ageitando-se para ser cavalgado.
--Estás doudo de alegria, velho! Deixa-me ir por meu pé. Vossês cá no
paiz da civilisação já andam uns ás cavalleiras dos outros?... Olha
lá... não avises teu amo. Quero vêr se me elle conhece ainda.
Affonso estava escrevendo a seu tio Fernão de Teive, quando o padre
entrou.
--Veja se se lembra, snr. Affonso!--disse o capellão.
--Lembro!--clamou Affonso erguendo-se a abraçar o clerigo--Vem de
Fonte-Boa? Que faz em Paris, padre Joaquim?
--Podemos ficar a sós?--perguntou o clerigo. O Tranqueira sahiu, e o
guia, esclarecido em francez por Affonso, retirou-se.
--Eu estava a escrever a meu tio Fernão...--disse Affonso...
--No outro mundo sómente se recebem orações, e não cartas--atalhou o
padre.
--Morreu meu tio!?--exclamou o moço.
--Lá se foi para Deus aquelle justo. Pouco antes de expirar, deixou-lhe
um abraço ao snr. Affonso. A snr.ª D. Mafalda foi a depositaria do
abraço...
Affonso escondera o rosto nas mãos a soluçar.
--Elle merecia-lhe essa saudade--continuou o padre--que era muito amigo
de v. exc.ª
--Minha desgraçada prima!--exclamou Affonso--que vida vai ser a d'ella
n'aquella solidão, sem pae, sem uma alma que a estremeça!...
--Sua prima não está em casa... Está em Paris.
--Como? em Paris!... onde está Mafalda?!
--Na hospedaria, esperando que vamos. Não se demore.
Affonso desceu a trancos as precipitosas escadas, sem dar tino de que o
padre as descia apalpando com a bengala, muito de espaço, exclamando:
--Sempre será bom que pare lá no fundo para me apanhar, se eu fôr de
rôlo, ó snr. Affonso!
A anciedade do moço confundia as perguntas acceleradas de modo que o
padre, no transito do _fiacre_ ao hotel de Mafalda, nem tempo teve de
deliciar mais que tres pitadas com o sorvo chromatico do seu costume.
Direitamente deve ser Affonso quem nos descreva o encontro:
«Entrei n'uma sala, a tempo que minha prima sahia d'uma camara contigua.
Caminhamos um para o outro, lavados ambos em lagrimas. Ella fitou-me com
um gesto de assombro, e disse:--Tens cabellos brancos, Affonso!... E és
da minha idade!... Como a tua vida terá sido amarga!...
«--E tu, Mafalda, tens a formosura que te deixei; preservou-t'a a
innocencia da tua santa vida!
«--Vida de muitas dôres, Affonso...--atalhou ella--Acabou-se-me tudo...
Faltou-me o amparo de meu pae...--e encostou-se ao meu hombro,
soluçando.
«Padre Joaquim acercou-se de nós, limpando os olhos, e disse:--É chorar
de mais... eu cuidei que este encontro seria para allivio e não para
maiores penas. Basta, por agora, menina... Faltou-lhe o amparo de seu
pae; mas o de Deus é que a ninguem faltou... A snr.ª D. Mafalda está
aqui para se entender com seu primo, sobre um passo muito do agrado do
Altissimo; mas eu peço perdão a Deus em a contradizer, e continuarei
sempre a oppor-me, por que...»
«Mafalda fez-lhe um signal de silencio com implorante suavidade, e
voltando-se a mim com sereno aspecto, disse em termos balbuciantes que
desmentiam a forçada compostura do rosto:--Meu primo, a vida para mim
não promette contentamentos nenhuns. Faltou-me meu pae, e resolvi logo
entrar n'um convento; mas a inactividade dos conventos póde ser que
peorasse a minha tristeza. Ouvi dizer que está derramada pelo mundo uma
grande familia de mulheres devotadas ao remedio dos infelizes, por amor
de Deus. São as irmãs da caridade. Resolvi entrar n'este instituto; meus
paes abençoarão este modesto desejo de ser util a alguem, empregando os
annos de vida, que eu não sei nem posso consumir no desabrigo da casa
onde nasci. Agora, meu Affonso, venho pedir-te que dirijas em Paris os
meus passos para o conseguimento da minha entrada no instituto, e ao
mesmo tempo rogar-te encarecidamente, e em nome de tua santa mãe, que
aceites as tres quintas que vendeste, e de que teu bom tio era possuidor
quando morreu. Na intenção de t'as restituir foi que elle as comprou. Eu
cumpro a sua vontade, esperando que tu obedeças á vontade de meu pae.
Aceita o que teu era, meu querido Affonso, meu bom irmão; aceita, que é
meu pae e tua mãe que t'o pedem, e eu tambem com as mãos erguidas.
«Mafalda cessou de fallar, cortada a voz de soluços. Eu ajoelhei diante
d'ella, beijando-lhe as mãos, sem poder articular palavra. E ella,
abraçando-me pelo pescoço, exclamou com a meiguice infantil dos nossos
affectuosos abraços dos dez annos:--Tu fazes a vontade á tua Mafalda,
não fazes, Affonso? Posso agradecer a Deus a esmola de consolação, que
me dás?
«--Póde! exclamou padre Joaquim--póde, que o snr. Affonso não ha-de
desobedecer á vontade de seu tio! Vamos! a fidalga ainda lhe não deu o
abraço que o snr. Fernão de Teive deixou ao filho de sua santa irmã.
«Abraçou-me Mafalda. E eu apertei-a ao seio com arrebatamento, e senti a
sua face nos meus labios.
«--Agora, fallo eu--disse o clerigo--O instituto das irmãs da caridade é
um santo instituto, nenhuma duvida lhe ponho, pelo que tenho ouvido
contar dos heroismos de caridade, que as servas de S. Vicente de Paulo
praticam. Assim é; mas a conquista do céo consegue-se com a virtude, e a
virtude é uma em toda a parte, e em todas as situações. As irmãs da
caridade são bemquistas do Senhor; mas muitas almas elege o Senhor, sem
as submetter á prova dos sacrificios e abnegação do santo instituto do
servo de Deus. A snr.ª D. Eulalia, que Deus tem, era uma virtuosa, e
piamente creio que santa senhora. Pois a sua vida de esposa e mãe não
lhe tolheu que alcançasse o paraiso com muitas obras boas que fez, sem
as andar derramando pelo mundo. A mãe da snr.ª D. Mafalda foi outra
senhora casada e muito amante de seu esposo; pois, se a virtude é a
prophecia infallivel da bemaventurança, as duas virtuosas senhoras lá
estão com Deus. E agora lhes direi eu o que as santas pedem ao Senhor,
vendo assim os seus dous filhos a ouvirem o pobre padre pregar sem
encommenda do sermão. Eu lhes digo que ellas estão pedindo a Deus que os
case, que os encha de bençãos, e de filhos. Vamos! eu tambem levanto as
minhas mãos fazendo os mesmos rogos ao Senhor! Meu Deus! permitti que a
minha voz se ajunte á das santas que vos pedem a felicidade d'estes dous
filhos! Permitti que eu os veja ditosos, e que estas lagrimas de velho
m'as enxuguem elles com a sua alegria!
«Quando o sacerdote, magestoso pela postura, se voltou para nós,
latejava o meu coração na face de Mafalda; e eu inclinado sobre o rosto
pallido da virgem, murmurava estas palavras: «Sim, sim, meu Deus, ouvi
as preces de nossas mães!»
«Padre Joaquim de S. Miguel aproximou-se de nós, e disse com jovial
aspeito:--Eu não quero estar em Paris muito tempo, meninos. Vamos
embora, cuidar da dispensa, que leva algum tempo. Temos lá o outono do
Minho á nossa espera. Diga a fidalga o que determina.
«Mafalda olhou para mim com o sorriso de santa, que um esculptor
phantasiasse na contemplação e audição de anjos e harmonias do céo. O
padre acudiu logo, exclamando alegremente: «O noivo é quem decide! Snr.
Affonso, quando partimos d'esta barafunda de Paris, que me põe os miolos
a arder?...
«--Ámanhã!--respondi eu.--Ámanhã--exclamou Mafalda--Pois sim; meu
Affonso, ámanhã... Temos lá as nossas arvores... a nossa infancia...
«A nossa felicidade sem fim...--atalhei eu.