O leitor folhêa duzentas paginas d'este livro, e o amor de felicidade e
bom exemplo não se lhe depara, ou vagamente lhe preluz. Tres partes do
romance narram desventuras do amor de desgraça e mau exemplo. A critica,
superintendente em materia de titulos de obras, querendo abater-se a
esquadrinhar a legitimidade do titulo d'esta, póde embicar, e
ponderar--que o amor puro, o amor de salvação vem tarde para desvanecer
as impressões do amor impuro, do amor infesto.
Respondo humilimamente:
Amor de salvação, em muitos casos obscuros, é o amor que excrucia e
deshonra. Então é que o senso intimo amostra ao coração a sua ignominia
e miseria. A consciencia regenera-se, e o coração, rehabilitado,
avigora-se para o amor impolluto e honroso. Assim é que as enseadas
serenas estão para além das vagas montuosas, que lá cospem o naufrago
aferrado á sua tabua. Sem o impulso da tormenta, o naufrago pereceria no
mar alto. Foi a tempestade que o salvou.
Além de que a felicidade, como historia, escreve-se em poucas paginas; é
idyllio de curto folego: no sentir intraduzivel da consciencia é que
ella encerra epopeas infinitas;--em quanto que a desgraça não demarca
balizas á experiencia nem á imaginação.
Para o amor maldito, duzentas paginas: para o amor de salvação as poucas
restantes do livro. Volume, que descrevesse um amor de bem-aventuranças
terrenas, seria uma fabula.