4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros.

Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o

Marquez de Santillana, no § XV, diz que se recordava de ter visto,

quando era bastante menino, em poder de sua avó Dona Mecia de

Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas.... O

Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua avó Dona Mecia, na

companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418,

em Palencia. Em primeiro logar "o _grande volume de Cantigas_, e

_outros livros_" citados na carta, existiam em casa de D. Mecia de

Cisneros por que provinham de Garcilasso de la Vega, e de Pero

Gonzales de Mendoza, como claramente o affirma Amador de los Rios:

"passo su infancia en casa Doña Mencia de Cisneros, su abuela, donde

hubo de aficionar-se à la lectura de los poetas en los codices que

poseyeron Garcilasso de de la Vega y Pero Gonzales de Mendoza..."[3]

Garcilasso de la Vega, bisavó do Marquez, morrera em 1351, e esta

data, e as suas relações de parentesco com a aristocracia portugueza

explicam como a elle ou a Pedro Gonzales de Mendoza chegou o volume

das cantigas. Portanto esse grande cancioneiro não existia em Hespanha

antes poucos annos de 1351 e foi pouco antes de 1418 que o joven

Marquez de Santillana o consultou. Pedro Gonzales de Mendoza era

tambem poeta do côrte de Don Pedro e de Don Enrique (Amador de los

Rios, _op.cit._, p. 623), e isto mostra o interesse que o levaria pelo

seu lado a conservar o grande cancioneiro portuguez.

A descripção que faz o Marquez de Santillana d'esse codice, coincide

com o que existe na Bibliotheca do Vaticano em copia do seculo XVI:

_"un grande volume de Cantigas serranas e dizeres portuguezes e

gallegos"_. São ao todo mil duzentas e cinco cantigas compostas no

genero descripto por Santillana, e os poetas são em grande numero

galegos. Em seguida accrescenta: _"dos quaes a maior parte eram do rei

D. Diniz de Portugal"_. Effectivamente o trovador que mais canções

appresenta no codice da Vatícana é el-rei D. Diniz, cujas composições

estão compiladas entre o numero 80 e 208, sendo ao todo cento e vinte

nove. Accrescenta mais o Marquez de Santillana: _"cujas obras aquelles

que as liam, louvavam de invenções subtis, e de graciosas e doces

palavras"_. Esta affirmação, sobendo-se que o Marquez escreve sobre

uma recordação da sua infancia, não podia resultar se não dos gabos

ouvidos a Pero Gonzales de Mendoza, poeta do Cancioneiro de Baena,

gabos que fizeram com que o livro se conservasse em casa de D. Mecia

de Cisneros, e d'onde se tirara por ventura essa outra copia que hóje

existe em poder de um grande de Hespanha, segundo uma affirmação de

Varnhagem. N'esta mesma carta ao Condestavel de Portugal, allude o

Marquez aos talentos poeticos de seu avô e cita varias das suas

composições: _"E Pero Gonzales de Mendoza, meu avô, fez boas

canções"_. Crêmos que por esta via é que o cancioneiro foi copiado

para Castella, copiado dizemos nós porque se conforma com um grande

cancioneiro já organisado, de que o de Roma é um apographo terciario.

O Marquez de Santillana cita de memoria os principaes trovadores que

vira transcriptos n'essa vasta collecção: "Havia outras (sc. canções)

de _Joham Soares de Paiva_, o qual se diz que morrera em Galiza por

amores de uma infanta de Portugal; e de outro _Ferrant Gonçalves de

Senabria"_. Pela referencia a estes dois trovadores se vê qual o

estado do cancioneiro manuscripto ou volume de Cantigas de D. Mecia de

Cisneros. No apographo da Vaticana se acha uma canção de _João Soares

de Paiva_, quasi no fim da collecção, (n°. 937) ao passo que no

cancioneiro que pertenceu a Colocci e de que apenas resta o indice dos

trovadores (cod. vat. n°. 3217) se acha logo sob o numero 23 o nome de

_João Soares de Paiva_ com sete canções successivas. Em seguida a este

trovador cita _Ferrant Gonçalves de Senabria_, porem no Codice de

Colocci acha-se sob o numero 384 citado _Gonçalves de Seaura_ com dez

canções a seguir. Isto concorda com a phrase do Marquez, referindo-se

a essas canções: "Havia outras....." O motivo d'esta referencia

especial seria por ter este trovador o apellido de _Gonçalves_, de seu

avô, e por isso ainda pertencente á sua linhagem. No Codice da

Vaticana agora publicado, acha-se um fragmento de canções de _Fernão

Gonçalvis_, e só sob o numero 338 outra canção de _Fernão Gonçalves de

Seavra_, a qual corresponde segundo Monaci ao numero 737 do Codice

perdido de Colocci.

Portanto, o Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros era completo pelo que

se deduz da citação d'estes dois trovadores, cujas obras se achavam

antes da folha 42 do actual Codice Vaticano, na qual começa. No

Cancioneiro de Colocci, em vez de _cento e vinte nove_ canções, el-rei

Dom Diniz é representado com _setenta e outo;_ mas ainda assim era uma

grande collecção para o Marquez poder dizer d'ella em relação ao

volume das Cantigas _uma maior parte_. Em seguida a estas preciosas

referencias cita tambem na sua carta _Vasco Peres de Camões_, poeta do

Cancioneiro de Baena e contemporaneo de Pedro Gonçalves de Mendoza por

cuja via seria conhecido em casa de Dona Mecia de Cisneros, e pelos

eruditos que tinham o cuidado da educação do Marquez. Por ultimo,

infere-se que o Codice de D. Mecia era uma copia castelhana, por que

transcreve o nome de _Fernão_ em _Ferrant_, e o de _Seavra_ em

_Senabria_, o que se não pode attribuir a vicio de ortographia do

Marquez de Santillana. Estes topicos bastam para considerar a copia de

D. Mecia mais proxima do texto autographo do que a da Vaticana.

5. Cancioneiro de Angelo Colocci. (_Catalogo di Autori portoghesi

compilato da Angelo Colocci sopra un antico Canzoniere oggi ignoto._

Ms. 3217 da Bibl. Vat.)

O illustre editor Ernesto Monaci ao estudar o manuscripto do

Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano, n°. 4803, pelas referencias do

texto e paginação de um outro codice ali intercalladas, reconheceu que

deveriam ter existido duas fontes para este apographo. Nas suas

investigações na opulenta Bibliotheca do Vaticano teve a felicidade de

descobrir o Catalogo dos Trovadores portuguezes no manuscripto 3217, o

qual combina na maior parte com o dos Trovadores do Cancioneiro n°.

4803, sendo as emendas d'este ultimo codice da mesma letra do indice

escripto pelo philologo Angelo Colocci, erudito italiano do seculo

XVI. É certo que o Cancioneiro da Vaticana pertenceu primeiramente a

Colocci antes de vir a ser propriedade da Bibliotheca vaticana;

Colocci era um d'esses distinctos eruditos italianos do fim do seculo

XV, que colligiram manuscriptos de todos os paizes e cuja opulencia se

distinguia pela formação de ricas livrarias, taes como Leão X, Bembo,

Orsini, e outros tantos. Colocci morreu em 1549, tendo a sua livraria

soffrido bastante no saque de Roma pelo Condestavel de Bourbon em

1527. Por tanto, entre estas duas datas é que se teria perdido esse

grande cancioneiro, do qual apenas resta o _Catalogo dos Autores

portuguezes_, e que a Bibliotheca do Vaticano adquirira o cancioneiro

n°. 4803, apographo de um outro perdido, mas emendado pela mão de

Colocci sobre o exemplar hoje representado unicamente pelo indice.

Antes de examinar qual a riqueza da Livraria de Colocci em

manuscriptos portuguezes, surge a questão mais difficil de resolver:

Como vieram estes varios cancioneiros portuguezes para as Livrarias

italianas?

Sabe-se que os pontifices mais instruidos mandavam procurar em todos

os paizes os mais preciosos manuscriptos; de Leão X escreve Ginguené:

"Não poupava despezas nem rodeios junto das potencias estrangeiras

para fazer procurar nos paizes mais remotos e até nos estados do norte

_livros antigos ainda ineditos_."[4] O modo como estes rodeios eram

efficazes, explica-se pela prohibição de certos livros e pela

instituição da censura, que já no século XV se exercia em Hespanha e

em Portugal, como vêmos pelo _Leal Conselheiro_ de El-rei D. Duarte.

Os livros eram entregues á auctoridade ecclesiastica para serem

examinados, e sob qualquer pretexto de escrupulo não eram mais

restituidos. Basta vêr a quantidade de canções obscenas e irreligiosas

que o Cancioneiro portuguez da Vaticana encerra para se conhecer como

veiu a caír na mão da auctoridade ecclesiastica e como sob ordem

superior esse _livro antigo ainda inedito_ foi remettido para Roma.

Alem d'isto, a paixão pela Renascença da antiguidade, que começou no

seculo XV, fez com que nos diversos paizes decaísse repentinamente o

amor pelos seu monumentos nacionaes. D'esta falta de amor pelo proprio

passado proveiu para Portugal a perda de muitos manuscriptos, como o

da novella _Amadis de Gaula_, de muitos cancioneiros manuaes, como

relata Faria e Sousa, pelo que dizia o Dr. João de Barros no principio

do seculo XVI, que estas cousas se secavam nas nossas mãos. D'esta

falta de estima pelos monumentos nacionaes, veiu o dispersarem-se

pelas bibliothecas da Europa muitos thezouros da nossa litteratura,

como se prova pela existencia da _Demanda do santo Greal_ na

bibliotheca de Vienna, dos livros de Valentim Fernandes na bibliotheca

de Munich, do _Leal Conselheiro_ de D. Duarte, _Chronica de Guivé_ de

Azurara, e _Historia geral de Hespanha_ na bibliotheca de Paris, do

_Roteiro_ de D. João de Castro no Museu britanico, e do _Cancioneiro

do Conde de Marialva_, da _Satyra de infelice vida_ do Condestavel de

Portugal em Madrid. A saida do grande Cancioneiro de Portugal pertence

a esta forte corrente de dispersão. No fim do seculo XV alguns

portuguezes eruditos se distinguiam na Europa pelas suas riquezas

litterarias; em uma _Memória sobre as relações que existiam

antigamente entre os flamengos de Flandres, especialmente os de Bruges

e os Portuguezes_, cita-se: "João Vasques, natural de Portugal,

mordomo de D. Isabel de Portugal, Duqueza de Borgonha:--Vasques

possuía uma Bibliotheca, ou pelo menos diversos manuscriptos de

valor."[5] Entre esses livros figuravam _Histoire de Troie la grant_,

e alguns tinham as armas de Portugal na encadernação, como o velino

_Horae beatae Mariae Virginis_. Tambem no seculo XV figuravam no

estrangeiro os eruditos Diogo Affonso de Mangaancha, Vasco Fernandes

de Lucena, Achilles Estaço, e outros muitos amadores bibliophilos.

Cuidava-se em comprar livros impressos, por meio das Feitorias

portuguezas, mas os manuscriptos sobre tudo os da litteratura medieval

perdiam-se com a mais censuravel incuria. Sabe-se por uma carta de

João Rodrigues de Sá dirigida a Damião de Goes, que el-rei D. Affonso

V mandou vir de Italia Frei Justo, a quem fez bispo de Ceuta, com o

fim de escrever em latim a historia dos antigos reis de Portugal, e

que todos os documentos que lhe foram entregues se perderam na sua

mão, por ter repentinamente fallecido da peste. É natural que estes

subsidios historicos constassem tambem de varios cancioneiros, por que

a poesia fôra um facto importante nas côrtes de D. Affonso III, D.

Diniz e D. Affonso IV; alem d'isso o espolio d'este bispo italiano

seria arrecadado pela auctoridade ecclesiastica e remettido para Roma.

Por todos estes factos parece justificar-se a hypothese de existir na

bibliotheca do Vaticano, antes do saque de Roma em 1527, um d'esses

cancioneiros portuguezes, e que d'aí se dispersaram por essa causa: "A

bibliotheca do Vaticano, tão liberalmente enriquecida por Leão X, foi

saqueada; os livros mais preciosos foram preza de um furor ignorante e

barbaro, como os da bibliotheca dos Medicis em Florença."[6] Pelo

codice 4803, publicado por Monaci, se vê que este Cancioneiro foi

copiado de um outro cancioneiro ja bastante truncado, como observou o

critico editor pelas siglas antigas: _"Manca da fol. II infino a fol.

43"_; e na pagina 10: _"Fol. 97 desunt multa"_; e pela ultima pagina,

na qual se vê que ficou interrompida a copia.

Alem d'esta deducção, tira-se uma outra, isto é, que o Codice 4803 foi

comparado por Colocci com um outro mais rico e completo do qual só

resta agora o _catalogo dos trovadores_. Os biographos de Colocci

tambem consignam o facto de parte da sua opulenta bibliotheca ter sido

destruida no saque de Roma, em 1527. Este philologo italiano possuia

um decidido gosto pela poesia vulgar italiana, e conhecia a

importancia do estudo das litteraturas novolatinas, como se vê pelo

interesse com que procurava as Canções de Foulques de Marseille, e

pela posse de varios codices com os titulos _Libro spagnolo di

Romanze_, e _De varie Romanze volgare_, por ventura alguns d'elles

provenientes da acquisição de manuscriptos das collecções de Bembo e

de Orsini; seria algum d'estes livros o Cancioneiro da Vaticana, ou

esse outro cancioneiro de que apenas resta o catalogo dos auctores.

N'este catalogo precioso descoberto por Monaci, sob o numero 44--

_Bonifaz de Jenoa_ segue-se esta referencia a manuscriptos de Bembo:

_"vide bembo Ms. bonifazio Calvo de Genoa."_ E sob o numero 456--_il

Rey don Affonso de Leon_, segue-se esta nota: _"bembo, dice di Ragona,

figlio di Berenghieri."_ A variante do Codice de Bembo _di Ragona_

seria _d'Aragone_ em vez de _Leon_, isto é, um dos codices parciaes d'

onde se formou o grande cancioneiro parece fixar-se por esta

circumstancia. Sob este mesmo numero segue-se: _"Alia lectio i

Portugal, rey Don Sancho deponit."_ Quer esta observação de Colocci

significar, que este rei D. Affonso em outro codice é citado como rey

de Portugal, o que depoz D. Sancho, facto que caracterisa el-rei Dom

Affonso III, que depoz seu irmão D. Sancho II. N'este caso este

monarcha tambem fôra trovador, o Colocci possuia algum cancioneiro

parcial. No mesmo Indice dos Trovadores, sob o numero 467 onde se

continha as canções de El-rei Dom Affonso rei de Castella e de Leão,

accrescenta-se: _"vide nel mio lemosino"_, no qual se attribuem as

mesmas cantigas de preferencia ao rei de Leão, isto é, em harmonia com

o titulo _di Ragona_, do numero 456. Em uma outra nota que o illustre

Monaci achou no Codice n°. 4817, de letra d'este erudito, se acha a

seguinte referencia a um codice portuguez: _"Messer Octaviano di

messer barbarino, ha il_ libro di portoghesi, _quel da_ Ribera _l'ha

lassato."_ Sabendo-se pela bibliographia, que o manuscripto da _Menina

e Moça_ de Bernardim Ribeiro, foi na primeira metade do seculo XVI

levado para a Italia, imprimindo-se em Ferrara em 1544, cinco annos

antes da morte de Colocci, parece que a phrase _quel_ (libro) _da

Ribera_ se refere a esta novella portugueza. Seria por este tempo que

o cancioneiro portuguez se tornou conhecido em Roma, como dá noticia

Duarte Nunes de Leão, nas palavras _"que em Roma se achou"_, mas sem

dizer que já pertencia á Bibliotheca do Vaticano. A epoca em que este

codice entrou n'esta rica bibliotheca pode fixar-se depois de anno de

1600, por que os livros e manuscriptos de Colocci foram adquiridos

pelo erudito Fulvio Orsini, que os deixou em testamento á Vaticana.[7]

Esta é a opinião de Monaci; não concordamos porém com a sua

interpretação do trecho de Duarte Nunes de Leão quando este escriptor

portuguez diz: "segundo vimos por um cancioneiro seu, que em Roma se

achou, em tempo de el-rei Dom João III..." deduzindo que Nunes de Leão

chegara _a vêr_ esse cancioneiro; em primeiro logar, Nunes de Leão

refere-se a um _Cancioneiro seu_, isto é unicamente de el-rei Dom

Diniz, e não geral, como o de que resta noticia pelo Indice de Colocci

e pelo apographo da Vaticana; isto já é uma prova da informação vaga

do chronista, e alem d'isso a phrase _segundo vimos_, significa: como

se prova, como se deduz. Nunes de Leão conhecia o codice das canções

de D. Diniz que no principio de século XVII se guardava na Torre do

Tombo, como elle diz: _"e per outro que está na Torre do Tombo..."_ ou

talvez pelo que pertencia aos Freires de Christo, de Thomar. Vivendo

no meado do seculo XVII, já o cancioneiro grande havia sido recebido

na Bibliotheca do Vaticano e poderia ter noticia da existencia do

Codice; porém o chronista refere-se principalmente a um _Cancioneiro

de Dom Diniz_, e as referencias de Sá de Miranda, de Ferreira e de

Camões são unicamente aos talentos poeticos de D. Diniz. Como chegou a

Portugal noticia do apparecimento em Roma? Sá de Miranda demorou-se na

sua viagem á Italia, entre 1521 e 1526, e conviveu com os principaes

eruditos italianos, Lactancio Tolomei e João Ruscula, e dava-se tambem

por parente da casa dos Colonas; é possível que, regressando a

Portugal en 1526, quando havia já cinco annos que D. João III reinava,

désse a noticia da descoberta de um cancioneiro em Roma, quando

visitara as principaes livrarias; o facto dos poetas da eschola

italiana alludirem ao talento poetico de D. Diniz, leva a induzir esta

noticia como communicada pelo que trouxe a Portugal esse novo gosto

litterario.

Em 1527 foi o saque de Roma, e a livraria de Colocci tambem soffreu

com essa devastação; por ventura algum dos cancioneiros acima citados

se perdeu, ou foi talvez adquirido algum d'entre os livros roubados

por esta occasião da Vaticana. É de presumir que o _Libro di

Portoghesi_ fosse o Cancioneiro de que só resta o Indice, e sendo

assim, perder-se-hia em poder de Messer Octaviano de messer Barbarino;

se o libro _da Ribera_ é o manuscripto de Bernardim Ribeiro, impresso

mais tarde em Ferrara, então pode fixar-se a perda do Cancioneiro

n'esse mesmo anno em que morreu Colocci. O inventario dos seus livros,

feito a 27 de Outobro de 1558, nove annos depois da sua morte,

explica-nos como os livros que estavam emprestados ficaram perdidos.

Pelo Indice d'este Cancioneiro, achado por Monaci, vê-se que elle

constava de mil seiscentas e setenta e cinco canções, mais quatro

centas e setenta, omissas no apographo da Vaticana, hoje publicado.

6. Il Canzoniere portoghese della Bibliotheca Vaticana, n°. 4803.

Messo a stampa de Ernesto Monaci. Halle, 1875.

Desde 1847, que o brasileiro Lopes de Moura publicou em Paris um

excerpto do grande Cancioneiro portuguez da Vaticana, contendo as

canções de el-rei Dom Diniz. Como se veiu a conhecer a existencia

d'este precioso codice em Roma? Desde o principio do seculo XVII que

elle entrara na Bibliotheca do Vaticano pela doação dos livros de

Fulvio Orsini; no seculo XVIII, segundo Varnhagem, era citado por um

bibliophilo hespanhol junto com outros codices de poesias catalans e

valencianas; o facto de existir com encadernação moderna e com a

insignia papal de Pio VII (1800--1823) explica-se pela reparação e ao

mesmo tempo pelo interesse que houve em conservar o cancioneiro

formado de cadernos differentes e incompletos, e escriptos com tinta

corrosiva que o pulverisa. Wolf, por intervenção do slavista Kopitar,

mandou fazer as primeiras investigações no Vaticano para descobrir

este codice de que tinha vago conhecimento pela vaga allusão de Nunes

de Leão; foram infructuosas as tentativas; o visconde da Carreira,

embaixador em Roma, avisado por um franciscano (por ventura o P.

Roquete, como se sabe pelo prologo da edição de Moura) conseguiu a

copia da parte publicada em Paris por Aillaud. Desde 1847 até hoje,

nunca o governo portuguez, nem a Academia real das Sciencias

comprehenderam o valor d'este monumento. A reproducção das nossas

riquezas litterarias têm sido sempre feita por estrangeiros, e a

publicação d'este importantissimo cancioneiro foi agora realisada por

um rapaz desajudado de subsidios academicos, mas animado pelo amor da

sciencia. A edição feita em Halle, appresenta todo o rigor

diplomatico, de modo que os erros do copista italiano do seculo XVI

podem restituir-se á leitura do portuguez do codice primitivo; apesar

d'este subsidio, Monaci tentou com um seguro tino critico uma tabella

dos principaes erros systematicos, e um indice das necessarias

restituições que se podem fazer em cada canção; em fim, tudo quanto é

preciso para a intelligencia do texto, existe ali. Monaci conservou a

disposição do manuscripto na reproducção typographica, já a uma ou a

duas columnas, com todos os vestigios das differentes numerações e

siglas referentes a outros codices analogos e mais antigos. Pelo seu

prologo, de uma precisão rigorosa, se vê toda a historia externa do

Cancioneiro. O Codice da Vaticana está em papel de linho, com trez

marcas de agua differentes, tal como se empregava nas edições do

Varisco; a letra é italiana, tal como a dos documentos do fim do

seculo XV e principio do seculo XVI, proveniente de dois copistas, um

que escreveu as poesias, algumas rubricas e notas, outro a maior parte

dos nomes, as numerações e algumas postillas, contando ao todo 210

folhas. Da descripção d'este cancioneiro conclue-se, pelo estado em

que se acha, que outro ou outros cancioneiros foram n'elle copiados ou

confrontados. A primeira nota que se depara ao abril-o é: "_Manca da

fol. IJ a fol. 43_;" isto quer dizer, que o cancioneiro foi copiado de

um outro codice que já se achava assim fragmentado, mas que mais tarde

foi confrontado com outro que estava completo, como veremos na relação

com o Indice de Colocci.

Ao começar o texto acha-se outra referencia: "_A fogli 90_" e segue-se

a canção de Fernão Gonçalves, o que parece significar, que n'este

cancioneiro existia outra disposição das poesias á qual se refere este

numero, que continúa a cotar successivamente outras canções,

entremeiando-se com numeros romanos, que parecem estabelecer

referencia a outro cancioneiro. Separemos estas duas ordens de

numeros, por onde deduzimos o confronto com dois cancioneiros; para se

localisar melhor a referencia que era de folhas e verso, indicaremos a

numeração actual das canções: Fol. 91 (canc. 8), 92 (canç. 11); _Fol.

97 desunt multa_ (canç. 43 fine); junto da canção 61, vem a sigla

_Desunt_; junto da 63 vem _car_. 106; junto da canção 299: _"Fol. 141

Al vo"_ (del volumen?); junto da canção 507 vem: "173 _a tergo"_ e

algumas canções com dois nomes de auctores, como _Martin Campina_ ou

_Pero Meogo_, como forme a attribuição de um ou outro texto (canc.

796.). Por fim termina com esta outra rubrica: _"A fol. 290 è

cominciata una Rubrica e non è finita di copiare"_. Tudo isto prova,

que se fez o confronto d'este apographo existente cum um codice mais

completo, seguindo-se o confronto até á folha 300 d'esse codice

perdido.

O confronto do Codice por meio da numeração romana não prosegue até ao

fim; apenas se acha LXXXVJ junto da canção 4; LXXXVIIJ junto da Canção

14; LXXXVIIIJ junto da canção 26 _fine;_ XCVJ junto da canção 39 a 45;

XCVIIJ coincide com a referencia anterior, junto da canção 49; XCVIIIJ

á canção 55; CXII á 62; CXIIIJ á canção 70; CXVIJ á canção 77. Esta

numeração romana adianta-se aqui mais do que a arabe, signal de que

havia divergencia entre os dois codices que serviam para confrontação

com o apographo publicado. É certo porem, que a numeração romana

termina antes do corpo das canções de el-rei Dom Diniz, d'onde se

poderá inferir, que até esta parte contribuiu um cancioneiro parcial,

e que de Dom Diniz só entrava no que era numerado em algarismos. Que

existiam diversos cancioneiros, pelas mesmas canções d'este codice se

pode conhecer, como pela canção de D. Affonso de Castella (canç. 76)

em que allude ao _Livro dos Sons_, que era um cancioneiro com que o

Dayão de Cales seduzia as mulheres. Na sua edição Monaci deixou

apontados em um indice fundamental todas as canções repetidas no

cancioneiro, ou aquellas que mutuamente se plagiavam. Da sua

comparação se podem tirar poderosas inducções, para se estabelecer

quantos pequenos cancioneiros haviam servido para formarem o

cancioneiro grande, do qual o apographo publicado é uma copia. É o que

vamos tentar.

_Pequenos Cancioneiros que entraram na formação do Cancioneiro da

Vaticano_.--A canção 4, de _Sancho Sanches_, apparece repetida com

mais duas estrophes e assignada por _Pero da Ponte_, sob o numero 569;

a 2ª e 3ª strophes da versão de Pero da Ponte, faltam na canção de

Sancho Sanches. As strophes communs têm as seguintes variantes:

_Sazom foi já_, que me teve em desdem (n°. 4)

_Tal sazom foi_, que me teve em desdem (nº. 569).

_Que com'é mais j'agora_ seu amor (n°. 4)

_Quando me mays forçava_ seu amor. (n°. 569).

E ora _já_ que pes'a mha senhor (n°. 4)

E ora _mal_ que pes'a mha senhor (n°. 569).

Evidentemente estas duas canções foram colligidas de dois cancioneiros

parciaes, e elles mesmos escriptos em grande parte de memoria.

A canção 13, de Mem Rodrigues Tenoyro, têm apenas uma estrophe, mas

repete-se sob o numero 319 com o nome do mesmo trovador e com mais

duas estrophes que a completam. Deve attribuir-se essa divergencia ao

ter sido colligida de dois cancioneiros, formado por diversos

collecctores.

A canção 29, assignada por João de Guilhade, repete-se sob o numero 38

com o nome do trovador Stevam Froyam; existem entre ellas leves

variantes, mas como estão immensamente deturpadas, só pelos dois

textos se reconstruem. Por este facto se vê, que houve compilação de

dois cancioneiros, e que o copista mal percebia a letra e fazia

selecção das canções.

A canção 116 e 174, do cancioneiro de Dom Diniz, são uma e mesma,

havendo entre estes dois numeros _variantes_, e sobretudo a 2ª e 3ª

estrophe alternadas. Não proviria isto dos originaes, escriptos por

esmerados copistas, que se guardaram na Bibliotheca de el-rei Dom

Duarte; este facto prova-nos, que o corpo das canções de Dom Diniz,

que na collecção Vaticana occupa dos n.'os 80 até 208 proveiu de

copias avulsas de differentes palacianos, e talvez do proprio Conde D.

Pedro.

A canção 241, do trovador Payo Soares, apparece com o numero 413

repetida sob o nome de Affonso Eanes de Coton (Cordu); tem apenas uma

rapida variante ortographica, mas tanto o facto da repetição, como o

da attribuição a dois trovadores differentes accusam duas colleções

parciaes.

A canções 457 e 469 pertencem a Ayres Nunes Clerigo e são uma unica,

com a differença que as trez strophes de que constam, tem os versos

baralhados sem systema; o que se explica pelo caracter jogralesco,

isto é, que foram duas vezes colligidas no tempo em que eram cantadas

a caprixo de Ayres Nunes ou de qualquer outro jogral, que as sabia de

cór; ou então, que provieram de dois cancioneiros onde as duas canções

se differenciavam pela razão acima indicada.

A sirvente 472 de Martim Moxa apparece sob o numero 1036, em nome de

Lourenço, jograr de Sarria, com variantes fundamentaes, que provam

compilação de dois cancioneiros diversos. O caracter sirventesco fez

talvez que varios jograes regeitassem a paternidade d'essa canção que

verbera os privados da côrte de D. Affonso III.

O numero 613 e 639 são uma mesma canção de João Ayres, burguez de

Santiago; abundam as variantes entre estas duas composições, signal de

que provieram de duas copias resultantes da monomania dos cancioneiros

particulares. E sob o nome d'este mesmo trovador andam as duas canções

repetidas 634 e 138, tendo esta ultima alem das variantes mais uma

estrophe e um Cabo.

Em nome do jogral João Servando apparecem repetidas as canções 738 e

749 com variantes fundamentaes entre si:

Ora vou a Sam Servando,

donas, fazer romaria,

e nom me leixam com elas

hir, cá logo alá hiria

por que vem hy meu amigo. (738)

Donas vam a Sam Servando

muytas hoje em romaria,

mais nom quiz oje mha madre

que foss' eu hi este dia

por que vem hy meu amigo. (749)

As outras variantes nas demais strophes são menos reparaveis, mas no

numero 738 ha uma strophe a mais. A pequena distancia a que ficam uma

da outra estas canções, provam-nos que o copista italiano transcreveu

materialmente uma compilação já formada; e por tanto tudo quanto se

pode concluir sobre estas canções identicas liga-se á formação d'esse

cancioneiro perdido d'onde se trasladou o codice da Vaticana.

Dois casos especiaes se davam n'essa formação do antigo cancioneiro:

1° ou as canções se attribuiam na repetição a dois trovadores

differentes taes como Sancho Sanches e Pero da Ponte, João de Guilhade

e Stevam Froyam, Pay Soares e Affonso Eanes do Cotom, Martim Moxa e

Lourenco Jograr; 2° ou se repetiam em nome do mesmo trovador, como Mem

Rodrigues Tenoyro, el-rei D. Diniz, Ayres Nunes Clerigo, João Ayres, e

João Servando. Para o primeiro caso conclue-se que contribuiram para a

formação do grande cancioneiro pequenos cancioneiros trasladados de

cantares dispersos, por curiosidade, ou tambem apanhados na corrente

oral, porque um só collector notaria os plagiatos. Para o segundo caso

poderiam os jograes terem contribuido com os seus cadernos de cantos e

assim com lições differentes de um mesmo texto que se alterava pelas

continuadas repetições.

De todo este confronto se conhece a necessidade de estabelecer por

todos os meios possiveis ás relações entre este apographo da Vaticana

e os dois cancioneiros de Colocci, perdido, e o da Ajuda.

_Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo

Colocci_.--Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n°. 3217 o Indice

do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo

Colocci, ja elle determinara pela forma por que está escripto o

Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais

antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a

existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio

Colocci, quem é que tinha feito o confronto. O illustre Monaci

comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista

dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do

Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples

inspecção fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relações

entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e

setenta e cinco canções, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco,

isto é, quatrocentas e setenta canções a menos, por ventura as que

occupavam até a _fol_. 90. O numero das canções de cada trovador pode

tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canções de

Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador é

precedido pelo numero que limita as canções do antecedente. Assim,

como já acima vimos, as canções de D. Diniz são no Codice da Vaticana

cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas

_desunt multa_ provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais

rico, como se vê pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da

Vaticana:

Diego Moniz, que tinha ali uma canção; Pero Paes Bazoco, com sete

canções; João Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom

Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes

de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes

o Freyre; João Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de

Taveirós; Pay Soares de Taveirós; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual

existiam dezessete canções; João Coelho; Pero Montaldo; duas canções

do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonçalo Garcia; Dom

Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D.

Diniz, com quatro canções. No Codice de Colocci, as canções de D.

Diniz não estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro

composições destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem é

omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que aí se encontram outra vez

trovadores dos supracitados, como João Garcia, D. Fernam Garcia

Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de

Briteiros, Fernam Soares de Quiñones, etc. Pelo confronto do Indice de

Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da

Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante

do fim, por que só deixaram de ser copiadas algumas sirventes de

Julião Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1°. que o codice d'onde

se extraíu a copia da Vaticana differia no numero das canções e na sua

disposição do de Colocci; 2º. que as relações mutuas accusam fontes

communs, mas colleccionação arbitraria no agrupamento dos differentes

cancioneiros parciaes.

_Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda_. --

Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na collecção da Vaticana a

canção de João Vasques, _Muyt'ando triste no meu coraçom_, que existe

anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais

quarenta e nove canções communs aos dois codices, e nós mesmo ainda

viemos a encontrar mais seis canções repetidas. São ao todo cincoenta

e seis canções communs, facto importante para estabelecer as relações,

que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o

Cancioneiro da Vaticana foi já copiado de um codice truncado, como por

exemplo: a canção 43 tem a rubrica final: _"Fol.97 desunt multa"_ e a

canção seguinte está truncada no principio; porem estas canções de

João Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, canção n°. 272 e

273 (ed. _Trovas e Cantares_). Isto prova, que embora o Cancioneiro da

Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canções

do codice de Roma (_y_, das _Trovas_ == n°. 38, _Canc. da Vat._) ambos

provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis

canções communs existem notaveis variantes:

_Nostro senhor_, que lhe bom prez foi dar. (Vatic.)

_Deus_ que lhe _mui_ bom _parecer_ foi dar. (Ajuda)

N'esta variante o original do codice vaticano mostra-se mais archaico

na linguagem. Na canção 46, de Fernão Velho (no codice da Ajuda, n°.

92) no primeiro verso da 2ª strophe vem uma variante que denota erro

do copista portuguez conservado inconscientemente pelo antigo copista

italiano:

E _mha_ senhor fremosa de bom _parecer_ (Vatic.)

E _mia_ senhor fremosa de bom _prez._ (Ajud.)

_Prez_ é uma contracção de _preço_, e d'aqui resultou que o copista

portuguez traduziu inconscientemente; como organisado no paço, o

Cancioneiro da Ajuda seria formado directamente da contribuição dos

muitos trovadores que o frequentavam; o Cancioneiro de Roma era já

derivado de um apographo secundario, truncado no principio, meio e

fim, e em certos pontos mais archaico.

Na canção 47 da Vaticana (93 da Ajuda) pertencente a Fernão Velho,

vem:

Quant' eu, _mha senhor, de vós_ receei... (Vatic.)

Quant' eu _de vós, mia senhor_ receei (Ajud.)

E vos dix'o _mui_ grand'amor que ei (Vatic.)

E vos dix'o grande amor que _vós_ ei (Ajud.)

A canção 48 da Vaticana, apesar das imperfeições da copia italiana,

pode ser reconstruida pelo typo strophico, porem a nº. 94 da Ajuda

ficou incompleta:

_Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_

E mal dia naci, senhor, E mal dia naci, senhor,

Pois que m'eu d'u vós sodes, vou; pois que m'eu d'u vos sodes, vou;

Ca mui bem sou sabedor ca mui bem som sabedor

Que morrerei u nom jaz al; que morrerey hu nom ey al;

Pois que m'eu d'u vós sodes, vou. poys que m'eu d'u vos sodes, vou,

............. pois que de vos ei a partir _por mal._

............. E logo hu m'eu de vós partir

............. morrerey se me deus nom val.

A canção 53 da Vaticana (Ajuda, nº. 99), tem uma strophe mais

imperfeita do que no codice da Ajuda; mas en compensação tem o _Cabo_,

que falta no codice portuguez:

_Ajuda: Vaticana:_

Meus amigos, muito me praz.... Meus amigos muyto mi praz _d'amor._

Cá bem pode partir da mayor Ca bem me pode partir da mayor

Coita de quantas eu oy falar, coyta de quantas eu oy falar,

De que eu fuy muyt'_y_ a soffredor; do que eu fuy muyt'ha sofredor

Esto sabe deus, que me foy mostrar _e sabe deus hu a vi bem falar_

Uma dona que eu vi bem falar e parecer, por meu mal, eu o sey.

E parecer por meu mal, e o sei.

............. Ca poys m'elles nom querem emparar

............. e me no seu poder querem leixar,

............. nunca por outra emparado serey.

A canção 395, de Payo Gomes Charrinho, repetida no cancioneiro da

Ajuda, n°. 276, tambem revela duas fontes diversas:

e nom lh'ousey mays _d'atanto_ dizer (Vatic.)

e nom lh'ousey mais _d'aquesto_ dizer. (Ajud.)

nem _er cuidey_ que tam bem parecia (Vatic.)

nem _cuidava_ que tambem parecia (Ajud.)

mays _quand'_eu vi o seu bom parecer (Vatic.)

mais _u_ eu vi o seu bom parecer. (Ajud.)

No codice da Vaticana tem esta canção apenas trez estrophes; porem no

da Ajuda termina com uma quarta:

E por esto bem consellaria

quantos oyrem-no seu bem falar

nom a vejam, e podem-se guardar

melhor ca m'end'eu guardei, que morria,

e dixe mal, mais fez-me deus aver

tal ventura, quando a fui veer

que nunca dix'o que dizer queria. (Ajuda)

Evidentemente as alterações de linguagem não foram do copista

italiano, porque, comparativamente, a expletiva _er_ é mais archaica;

e por tanto a omissão da 4ª strophe não foi casual, mas resultante do

estado d'outra fonte.

A canção 400, da Vaticana, tambem de Payo Gomes Charrinho, tem leves

variantes na canção 278 da Ajuda, mas importantissimas omissões; assim

no Codice de Roma, falta na primeira strophe o verso:

me quer matar e guaria melhor (Vat.)

e tambem faltam duas strophes completas com o seu Cabo.

A canção 428, ainda de Charrinho, tambem no Codice da Ajuda, n°. 285

offerece leves variantes; porem no Codice da Vaticana alternam-se a

segunda com a terceira strophe, e falta este Cabo da lição da Ajuda:

E entend'eu cá me quer a tal bem

em que nom perde, nem gaano en rem.

A canções 485, 486 e 487 da Vaticana, do trovador Ruy Fernandes,

acham-se nos pequenos fragmentos legiveis nas folhas do Cancioneiro da

Ajuda, que serviram de guardas á encadernação do Nobiliario; esses

fragmentos, seguindo a edição do Varnhagem são _m, n, o_; ainda assim

se conhece por elles que existiam divergencias entre os dois codices:

_Ajuda, (m):_ _Vaticana_, n°. 485:

A _guisa_ de vos elevar a _forza_ de vos elevar

Por mia morte nom _aver_. por mha morte nom _aduzer_.

_Ibid., (n):_ _Ibid._, n°. 486:

_Amigos_, começa o meu mal. _Ora_ começa o meu mal.

As canções de Fernão Padrom, n'os. 563, 564, 565, a que achámos as

analogas nos numeros 126, 127 e 128 do codice da Ajuda, tambem

apresentam variantes.

As canções n°. 566, 567, 568, 569 e 570, que andam em nome de Pero da

Ponte no codice da Vaticana e apparecem anonymas no Cancioneiro da

Ajuda, n'os. 112, 113, 114, 115 e 116 não appresentam mais variantes

que a simples modificação ortographica em _mha_ e _mia_, que poderia

provir das differentes epocas das copias. Esta conformidade entre o

texto da Vaticana e o da Ajuda, leva-nos a concluir que pequenos

cancioneiros entraram na coordenação de um grande cancioneiro, e que

as canções mais conformes são aquellas que andaram em menor numero de

copias antes de se agruparem na collecção geral.

Já com relação ás Canções de Vasco Rodrigues de Calvelo, apparecem

variantes e deturpações que não provêm do copista do seculo XVI, mas

de codices diversos ja corruptos; a canção 580 comparada com a 265 da

Ajuda tem uma lição menos pura, incompleta, mas differente:

_Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_

Per uma dona que quero gram bem ..... que quero gram bem.

Com'a mim _fez_; ca des _que eu_ naci Como a mim _faz_; que des _quando_ naci

nunca vi ome _en_ tal coita _viver_ nunca vi ome tal coita _sofrer_

como eu _vivo_ por melhor bem querer como eu _sofro_ por melhor bem querer

Com'_a mim fez muy_ coitado d'amor Com'el _faz mim muy_ coitado d'amor.

A lição da Ajuda termina com este Cabo, que falta no codice da

Vaticana:

Com'a mim fez, e nunca me quiz dar

Bem d'essa dona, que me fez amar.

A canção 581, tambem de Vasco Rodrigues de Calvelo, sob a designação

_e_ da lição da Ajuda (ed. _Trov. e Cant._) alem das mutuas variantes,

tem a 2ª e 3ª a strophes alternadas:

E se _soubess'_em qual coyta d'amor (Vatic.)

Se _lh'eu dissess'_em qual coita d'amor (Ajud.)

per nulha guisa, _pero m'_ey _sabor_ (Vatic.)

Per nulha guisa, _ca_ ey _gram pavor._ (Ajud.)

De mais no Codice de Roma falta este Cabo:

Mais de tod'esto nora lhi dig'eu rem,

Nem lh'o direy, cá lhe pesará bem.

Na Canção 582, do mesmo trovador, ha esta divergencia:

E rogo _sempre_ por mha morte a deus (Vatic.)

Et rogo _muito_ por mia morte a deus (Ajud.)

Na Canção 584, tambem de Calvelos, falta esta terceira estrophe, que

vem no codice da Ajuda:

Como vós quiserdes será

De me fazerdes mal e bem

E pois é tod'em vosso sen

Fazed'o que quizerdes já...

A canção 677, de Pero de Armêa, acha-se imitada no codice da Ajuda,

nº. 56, por forma que a da Vaticana apresenta um caracter de maior

vulgarisação, e por isso de proveniencia jogralesca:

_Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

Muitos me veem preguntar, Muytos me veem preguntar,

mia senhor, a quem quero bem; senhor, que lhes diga eu quem

e nom lhes queró end'eu falar est a dona que eu quero bem

com medo de vos pesar en, e com pavor de vos pesar

nem quer'a verdade dizer, nom lhis ouso dizer per rem,

mais jur'e faço lhes creer senhor, que vos quero bem.

mentira, por vos lhe negar.

Duas canções de Pedro Solás, confrontadas com as do codice da Ajuda,

acabam de separar definitivamente estes dois cancioneiros:

_Lição da Ajuda_ (nº. 123): _Lição da Vaticana_ (nº. 824):

Nom est a de Nogueira _E_ nom est a de Nogueira

A freira, que _mi poder tem;_ a freira que _eu quero bem,_

Mays _est_ outra _a_ fremosa mays outra mais fremosa

A que me _quer'eu mayor bem;_ _e_ a que _mim em poder tem;_

E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira

Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira.

...................................................................

Se eu a _freira visse o dia _E_ se eu _aquella freyra

O dia que eu quizesse_ hum dia veer podesse_

Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo

Nem _mingua_ que houvesse nem _pesar_ que _eu_ ouvesse

E moiro-me ... e moyro-me ...

_Se m' ela mi amasse _E seu aquella freyra

Muy gram dereito faria, veer podess'um dia

Cá lher quer'eu mui gram bem nenhuã coita do mundo

E punh'y mais cada dia;_ nem pesar nom averia_

E moiro-me ... e moyro-me ...

Estas duas variantes são elaborações differentes do mesmo trovador em

epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provêm

effectivamente de duas fontes. A canção 825 da Vaticana, que se acha

sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta

estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois

cancioneiros, apresenta uma composição (1061 da Vaticana, 253 da

Ajuda) que pertence a João de Gaya, escudeiro da côrte de D. Affonso

IV, por onde se fixa não só a epoca da colleccionação do codice de

Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais

completa:

_Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

Conselho, e quer-_se_ matar Conselho e quer-me matar.

E assi me tormenta amor

de tal coyta, que nunca par

ouv'outr'ome, a meu cuydar,

assy morrerey pecador,

e, senhor, muyto me praz en

que prazer tomades por en

non no dev'eu arrecear.

E bem o _podedes fazer_ E bem o _devedes saber_, etc.

Por todos estes factos se vê, que umas vezes o Codice de Roma é omisso

com relação ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a

incuria do copista; esta hypothese não pode ter logar, porque o

Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omissões.

Por tanto essas cincoenta e seis canções communs aos dois codices,

entraram n'essas respectivas collecções provindo de codices parciaes e

de differente epoca.

_Relações do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente

possuido por um Grande de Hespanha_. -- No _Cancioneirinho de Trovas

antigas_, Varnhagem dá noticia no prologo, de ter encontrado em 1857

na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez,

que, pela canções de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o

procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n°.

4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao

confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Começavam ambas as

copias com a trova de _Fernão Gonçalves_, seguindo-se-lhe as duas

canções de _Pero Barroso;_ ambos os codices combinam nos mesmos nomes

de trovadores, na ordem das canções, e em geral nos erros dos

copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam

ambos do mesmo original? Não; apezar de Varnhagem não ser mais

explicito na descripção do codice madrileno e guardar no mysterio o

nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composições do

_Cancioneirinho_ se descobrem profundas _variantes_, que se não podem

attribuir a erro de leitura, ainda assim tão frequente em Varnhagem.

Copiamos aqui essas variantes, para que se conclua pela existencia de

um outro codice mais antigo, tambem perdido. Na canção II, a strophe

3ª _(Cancioneirinho)_ acha-se assim:

Os cavalleiros e cidadãos

d'aqueste rey aviam dizer

e se deviam com sas mãos poer

outrosi donas e escudeiros

que perderam a tam bem senhor

de quem poss'eu dizer, sem pavor,

que não ficou dal nos christãos.

Pelo codice de Roma vê-se a strophe construida da outro modo:

Os cavalleiros e cidadãos

que d' este rey aviam dinheiros

e outrosi donas e escudeiros,

matar se deviam por sas mãos ... (Canç. n°. 708.)

Na canção VI, a strophe segunda e terceira _(Cancioneirinho)_ estão

incompletas e interpolladas d'esta forma:

_Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

E as aves que voavam E as aves que voavam

Quando sayam canções quando saya _l'alvor_

Todas d'amor cantavam todas de amor cantavam

Pelos ramos d'arredor; pelos ramos d'arredor;

Mais eu sei tal que escrevesse mais nom sei tal que _i estevesse_

Que em al cuidar podesse que em al cuidar podesse

Se nom todo em amor. se nom todo em amor.

Em pero dix'a gram medo: _Aly stive eu muy quedo

quis falar e nom ousey_

em pero dix'a gram medo:

-- Mha senhor, falar-vos-ey -- Mha senhor, falar-vos-ey

Hum pouco, se m' ascuitardes um pouco, se m'ascuitardes

Mais aqui nom estarey. _e ir-m'ey quando mandardes_

mais aqui nom estarei.

(Canc. nº. 554.)

Pela lição da Vaticana, onde se vêem as duas strophes completas se

infere que o defeito no _Cancioneirinho_ provem de um texto imperfeito

e differente, porventura tirado do apographo hespanhol.

Na canção XV _(Cancioneirinho)_ vem uma strophe imperfeita, porque é

formada com duas, que lhe alteram o typo:

_Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

E foi-las aguardar E fui-las aguardar

E nom a pude ver; e nom o pude achar

e moiro-me d'amor. e moiro-me d'amor!

E fui-las atender,

e nom no pude veer

E moiro-me d'amor.

A canção XVII do _Cancioneirinho_ tem só trez strophes; na lição do

Codice da Vaticana, ha mais esta:

Estas doas mui belas

el m'as deu, ay donzelas,

nom vol-as negarey;

mas cintas das fivelas

eu nom as cingirei.

Com certeza esta deficiencia proveiu do apographo madrileno. Na canção

XXI, a strophe 4ª está interpollada, e segundo a lição da Vaticana é

que se conhece a proveniencia de outro codice:

_Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

Cá novas me disserom Ca novas me disserom

Que vem o meu amigo ca vem o meu amado

C'and'eu mui leda. e and' eu mui leda,

poys migu'é tal mandado;

_E cuido sempre no meu coraçom poys migu'é tal mandado

Pois nom cuid'al, des que vos vi, que vem o meu amado.

Se nom en meu amigo,

E d'amor sei que nulh'ome tem,_

Pois migo é, tal _mandades;_

Que vem o meu amado.

Os versos sublinhados do _Cancioneirinho_, são visivelmente d'outra

canção, porque tem outro typo strophico, e essa interpolação não se

pode attribuir a erro de leitura de Varnhagem.

Na canção XXV, ha uma 4ª strophe, que é repetição da 1ª; na lição da

Vaticana não existe esta forma; evidentemente o editor do

_Cancioneirinho_ seguiu aqui o codice madrileno.

Na canção XLV falta esta strophe, que pela lição do texto da Vaticana

se vê que é a segunda:

Nom ja em al d'esto som sabedor

de m'algum tempo quizera leixar

e leix'e juro nom a ir matar

mays poys la matam, serey sofredor

sempre de coyt'em quant'eu viver,

cá sol y cuido no seu parecer

ey muyto mais d'outra rem desejar.

Na canção XLVI, falta esta 4ª strophe da lição da Vaticana:

Por en na sazom em que m'eu queixey

a deus, hu perdi quanto desejei

oy mais poss'en coraçom deus loar;

e por que me poz em tal cobro que ey

por senhor a melhor de quantas sey

eu, que poz tanto bem que nom ha par.

A canção XLVIII encerra a prova definitiva de que o codice madrileno

serviu de base da edição do _Cancioneirinho_, e que esse codice

proveiu de uma fonte diversa do da Vaticana; aí se acham essas duas

strophes, que faltam no codice de Roma:

O que se foi comendo dos murtinhos

E a sa terra foi bever os vinhos,

Nom vem al Maio.

O que da guerra se foi com espanto

E a sa terra se foi armar manto

Nom vem al Maio.

Por outro lado no codice madrileno tambem faltam cinco strophes, por

que são omissas no _Cancioneirinho:_

O que da guerra se foi com'emigo

pero nom veo quand'a preyto sigo

nom vem al Maio.

O que tragia o pendou a _aquilom_

e vendid'é sempr'a traiçom

nom vem al Maio.

O que tragia o pendou sen oyto,

e a sa gente nom dava pam coyto,

nom vem al Maio.

E no final da canção:

O que tragia pendom de cadarço

macar nom veo no mez de Março,

nom vem al Maio.

O que da guerra foy por recaùdo

macar em Burgos fez pintar escudo,

nom vem al Maio.

Indubitavelmente o codice madrileno provém de uma outra fonte, por que

tem omissões e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da

Vaticana; mas a ordem das canções e os nomes dos trovadores, communs

aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros já

organisados dos quaes um era já apographo. A circumstancia de

começarem ambos pela trova de _Fernão Gonçalves_, e de se lêr no

codice do Roma a nota: _"Manca da fol. ij in fino a fol. 43"_

provam-nos que o original primitivo já andava truncado e é isto o que

dá a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido

que era a cópia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava

ainda completo. Monaci não desconheceu o valor das variantes do

_Cancioneirinho_.

Depois de toda esta discussão sobre os diminutos vestigios que restam

de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a

aproximação de numerosos factos secundarios, e as inducções que se

formam sobre elles, exigem uma recapitulação clara para que se possam

tirar a limpo algumas conclusões geraes. Representamos os cancioneiros

que são conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia

se pode inferir pelas variantes são notados por letras minusculas; com

estes signaes formaremos uma tentativa de filiação de todos esses

cancioneiros em um schema, que poderá, ser modificado á medida que se

descobrirem novos subsidios:

A.] _O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_,--citado no seu

testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o

genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice

da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o _Livro

das Cantigas_ não era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilação

sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canções do Conde, de

Affonso XI e grupos de canções do Codice da Ajuda em numero de

cincoenta e seis assignadas por fidalgos da côrte de D. Diniz.

B.] _O Cancioneiro de D. Diniz (Livro das Trovas de Elrei Dom Diniz;_

existiu separado em volume pelo que se sabe pelo Catalogo dos Livros

de Uso de el-rei Dom Duarte. Foi encorporado no codice da Vaticana

depois da canção 79. B¹.] Outro, dos Freires de Christo de Thomar.

C.] _O Cancioneiro da Ajuda_, começa em folhas 41, a parte anterior

está perdida e o final não chegou a ser terminado. Isto explica as

pequenas relações com o Codice de Roma.--As 24 canções achadas na

Bibliotheca de Evora e as guardas da encadernação do Nobiliario provam

o muito que se perdeu d'este cancioneiro. Não se chegou a escrever a

musica das canções, nem a inscrever-lhes os nomes dos auctores que as

assignavam, e por isso conclue-se que não chegou a servir para a

collecção de Roma, que é assignada. Não chegaram a entrar n'elle

canções de el-rei D. Diniz, e portanto entre este e o Cancioneiro de

Roma pode fixar-se a existencia de outro cancioneiro hoje

desconhecido.

D.] _O Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros_, grande volume de cantigas

visto pelo Marquez de Santillana, que o descreve; já continha o

cancioneiro de D. Diniz, e os trovadores do Codice de Roma citados

pelo Marquez. Seria a primeira compilação geral, feita mesmo em

Hespanha?

E.] _O apographo de Colocci_, perdido talvez pela occasião do saque de

Roma em 1527, e do qual só se conserva o Indice dos Autores. Tinha

intimas relações com o codice de D. Mecia. No principio apresentava

varios _lais_ no gosto bretão e pelos _Nobiliarios_, vemos que o Conde

Dom Pedro se refere ás tradições bretãs, e tambem el-rei Dom Diniz.

Seria esta parte assimilada do _Livro das Cantigas_ do Conde de

Barcellos?

F.] _Cancioneiro da Vaticana, nº_. 4803; este é menos completo do que

o antecedente, o que prova que foi copiado de outra fonte. Colocci por

sua letra o emendou pelo codice hoje perdido. Tem este cancioneiro 56

canções similhantes no Cancioneiro da Ajuda, com variantes notaveis,

signal que ambos os Codices se derivam de duas fontes diversas. Tem

uma parte relativa a successos da côrte de Dom Affonso IV, que provem

de cancioneiros extranhos e posteriores ao Cancioneiro da Ajuda. A

ordem dos trovadores não é a mesma do Indice de Colocci.

G.] _Copia ms. de um Grande de Hespanha_.--Em cincoenta canções

reproduzidas por Varnhagem acham-se variantes fundamentaes com

relações á lição do codice de Roma, signal de que a copia alludida

provém de uma fonte extranha e de epoca differente.

Os cancioneiros desconhecidos, mas intermediarios aos supracitados são

hypotheticamente:

a, b.] Cancioneiros anteriores ás collecções da côrte de D. Diniz, com

que se formou e, d'onde se trasladou o Cancioneiro da Ajuda, como se

justifica pelas variantes dos 56 canções reproduzidas no de Roma.

c.] Cancioneiro perdido, d'onde se não chegou a copiar nem a musica

das canções nem o nome dos trovadores para o Cancioneiro da Ajuda.

d.] Cancioneiro onde se encorporaram o _Livro das Cantigas_ e

_Cancioneiro de D. Diniz_, o que justifica as differenças entre o

Codice de Dona Mecia e o de Colocci.

e.] Cancioneiro perdido, cuja existencia se induz das variantes entre

o Cancioneiro da Vaticana, o de Colocci e o do grande de Hespanha.

Eis por tanto a nossa tentativa de schema de filiação dos cancioneiros

portuguezes dos seculos XIII e XIV:

a b

\-------/

c

C ABB¹

\---------/

D d

/---------\

E e

\-/

G F

É provavel que esta connexão ache contradictores, porém aí ficam todos

os elementos que pudemos agrupar, para que outros estabeleçam uma

filiação mais verosímil. Só depois de estudada a historia externa do

Cancioneiro da Vaticana é que se pode entrar com desassombro no

desenho da grande epoca litteraria que elle representa. Bem o

desejaramos fazel-o diante dos que estudam as producções do fim da

edade media, para reconstruirmos de novo o livro dos _Trovadores

galecio-portugueses_, escripto antes da posse de tamanhas riquezas. Á

medida que em Portugal fôr renascendo o amor pela tradição nacional, o

nome de Ernesto Monaci figurará como de um benemerito, que restituiu a

este paiz um dos mais bellos monumentos do seu passado historico.

[1] Fernão Lopes, _Chron. de D. Pedro_ I, cap. 31.

[2] _Leges Wallice,_ p. 779, 861.

[3] _Obras del Marquez de Santillana,_ p. XX.

[4] _Hist. litter. de l'Italie,_ t.IV, p.17.

[5] _Op. cit_, p.8.

[6] _Ginguené, Hist. litt_, t. IV, p. 41.

[7] _Tiraboschi, Storia della Letteratura italiana_, t. VII, 246.

O cancioneiro portuguez da Vaticana · 第 5 / 5 题