Todos os pensadores progressistas são pois, accordes em reconhecer que
os Estados socialistas, de um futuro mais ou menos proximo, hão de ser
formados por republicas federadas, que, em si mesmo, não serão outra
cousa, senão uma estreita federação de communas, engrandecidas e
transformadas, politica e socialmente. Para essa concepção de fórmas
sociaes superiores se dirigem presentemente todas as vistas e todas as
escholas. Só os processos variam, segundo o individuo que os emprega ou
segundo o meio em que teem de actuar.
Vejamos, primeiro, como Augusto Bebel, um socialista republicano,
segundo a sua propria confissão, concebe as relações sociaes que hão de
vigorar n'um regimen socialista, isto é, n'uma sociedade futura.
[Gravura: Augusto Bebel]
A.--_A expropriação capitalista inherente ao novo regimen, será feita em
proveito de todos e no interesse de toda a sociedade. Realisada esta
expropriação, a sociedade assentará em novas bases e a existencia humana
mudará por completo. A organisação actual tornar-se-ha inutil, e o
proprio Estado se tornará desnecessario, tendendo a desapparecer, como
desappareceram as religiões, desde que deixou de existir a crença no
sobrenatural._
B.--_A lei fundamental da sociedade socialista é o trabalho para cada um
dos seus membros sem distincção de sexo._
Esta lei é justa e necessaria. Em primeiro logar, ninguem póde
satisfazer as suas necessidades sem trabalhar. Sendo valido, ninguem tem
o direito, por outro lado, de viver do trabalho do seu semelhante.
A organisação da sociedade, fundada sobre a liberdade e a legalidade, na
qual cada um responde por todos assim como todos respondem por cada um,
suscitará um sentimento de solidariedade, uma emulação e um desejo de
trabalho até hoje desconhecidos. D'esta fórma o trabalho tornar-se-ha
mais productivo e o producto aperfeiçoar-se-ha.
A falta de trabalho, tão frequente nos nossos dias, não poderá existir
na sociedade futura, que apenas produzirá para consumir, em harmonia com
os principios de justiça e tendo sempre em vista o bem geral.
C.--_Na sociedade futura, a producção, mudando de fórma, fará
desapparecer o commercio, apanagio da sociedade actual._
Em vez dos milhares d'intermediarios que hoje existem, teremos os
grandes estabelecimentos, e o transporte dos productos far-se-ha por uma
fórma completamente nova.
D.--_Na nova organisação as terras serão propriedade commum, assim como
o foram já no começo da civilisação, mas com fórmas sociaes superiores._
O bem estar de uma população depende do grau de cultura que o sólo
attingir. Emquanto a terra se conservar como propriedade privada, nunca
a cultura se aperfeiçoará. Os pequenos proprietarios não dispõem para
isso dos meios necessarios, e os grandes proprietarios, com as suas
florestas e os seus parques, deixam por cultivar uma grande parte das
suas terras.
Pela fórma indicada desapparecerá o contraste secular entre a população
das cidades e a população dos campos.
E.--_Com a expropriação do sólo e dos instrumentos de trabalho,
desapparecerá um grande numero de abusos e de males que nos affligem na
organização actual._
O que determina hoje a posição dos homens, na sociedade, é a quantidade
maior ou menor de dinheiro que possuem. No futuro estado socialista, a
sociedade fará tudo por si mesmo. Nem as pessoas nem as classes poderão
prejudicar-se entre si. O estado, tornando-se inutil, desapparecerá. Não
haverá pois, nada a governar nem a supprimir ou a opprimir.
Com o Estado desapparecerá naturalmente tudo o que o representa:
ministros, parlamentos, policia, prisões, exercito permanente,
procuradores, advogados, n'uma palavra, todo o apparelho da dominação
politica. A sociedade ficará na plena posse de si mesmo.
F.--_Na organisação actual reclama-se, para todos, o mesmo nivel
d'instrucção e de educação._
Ora esta egualdade é impossivel no regimen burguez, conforme o demonstra
Augusto Bebel. Para receber uma instrucção mediana é preciso ter
dinheiro e vagar. No Estado socialista as condições do desenvolvimento
physico, moral e intellectual serão as mesmas para todos. Cada um poderá
pois, instruir-se e viver, conforme as suas aptidões e os seus gostos.