Toda a theoria, como toda a civilisação, diz Benoit Malon, tem a sua
dominante, pela qual se julga e afere. A dominante da sociedade
contemporanea encontra-se na pratica do individualismo universal, pelo
odioso _cada um para si e pela guerra de todos contra todos_.
De todas as questões que o socialismo pretende resolver, é, sem duvida,
a questão da propriedade a mais importante. Da sua solução depende o
juizo a fazer sobre o pensamento social contemporaneo. O collectivismo
derivou do modo de conceber a apropriação das cousas. Ha mais de
quarenta annos que os socialistas procuram explicar a significação
d'esta palavra, e, sem embargo, o vulgo ainda muitas vezes confunde
o collectivismo com o communismo, não obstante haver uma differença
radical entre um e outro.
No _communismo_, as forças productoras e os productos, postos em commum,
ficam sob a gestão directa do Estado; o _collectivismo_ não é senão a
inalienabilidade das forças productoras, collocadas sob a tutella do
Estado, que, por seu turno, as confia, temporariamente e mediante
indemnisação, aos grupos profissionaes. N'estes grupos a repartição
faz-se pelo _prorata_ do trabalho. O consumo é inteiramente livre. Cada
um gasta, conforme lhe apraz, o equivalente que lhe cabe, do producto do
seu trabalho, depois de satisfeitos os encargos sociaes.
O collectivismo é pois, uma concepção socialista que comporta:
1.º--A apropriação em commum, mais ou menos gradual, da terra, dos
instrumentos de producção e da troca;
2.º--A organisaçao corporativa, communal ou geral, da producção e da troca;
3.º--A faculdade para cada trabalhador de dispôr, a seu bel prazer, do
equivalente de maior valor por elle creado;
4.º--O direito ao desenvolvimento integral para as creanças; o direito á
existencia para os invalidos do trabalho; e a garantia, para todos os
validos, de um trabalho remunerador na associação da sua livre escolha.
Querer isto--affirma muito bem Malon--não é perfilhar os erros do
communismo utopico: é combinar simplesmente a necessidade do concurso
para a producção com a justiça economica e as justas exigencias da
liberdade humana.
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