ARTIGO 1.º

a) _Abolição de todas as leis sobre a imprensa, as reuniões e as

associações, e, em especial, da lei contra a Associação Internacional

dos Trabalhadores;_

b) _Suppressão do livrete, ferrete ignominioso da classe operaria, e de

todos os artigos do codigo que estabelecem a inferioridade do operario

perante o patrão e a inferioridade da mulher perante o homem._

Para que haja realmente liberdade, em materia de imprensa, não basta

legislar, impondo multas e prisão aos que d'ella _abusam_, attenuando e

modificando as penas, ou substituir o julgamento correccional pelo

julgamento de jury.--O que se torna indispensavel e urgente, é abolir

todas as leis existentes _contra_ e _sobre_ a imprensa, a começar pela

lei que condemna, por diffamação, sem prova dos factos allegados, e que

permitte assim aos ricos e aos poderosos de abusarem da situação

especial em que se encontram, relativamente aos que nada possuem e aos

que nada podem.

Para que haja realmente liberdade, em materia de reunião, não basta

substituir o regimen actual por um novo regimen, mais ou menos hypocrita

e mais ou menos sophismado, permittindo os comicios em recinto fechado e

prohibindo-os na rua e na praça publica.--O que se torna indispensavel e

urgente, é a abolição de todas as leis, que subordinam ás condições de

local, de tempo, de numero e de pessoas, o exercicio de um direito tão

rudimentar como o direito de reunião.

Para que haja realmente liberdade, em materia de associação, não basta

permittir o uso d'este direito aos que estão nas boas graças dos

governos, embaraçando-o e difficultando-o aos contrarios, pela exigencia

de formalidades, tão ridiculas como absurdas.--O que se torna

indispensavel e urgente, é a abolição de todas as leis sobre as

associações, qualquer que seja a sua natureza e o seu fim.

Mas a revolução não nos trouxe apenas a liberdade; deu-nos tambem a

_egualdade civil_. E é, em nome d'essa egualdade, que temos o direito e

o dever de reclamar a suppressão do «livrete», bem como todos os artigos

do codigo que estabelecem a inferioridade da classe operaria perante

a classe dos patrões.

O livrete que assemelha o productor de todas as riquezas á meretriz,

collocando-o no mesmo plano, sobre ser uma ignominia, é tambem infamante

e improprio dos nossos tempos. Se o ferrete foi abolido para os grandes

criminosos condemnados ás galés, como é que pode conservar-se para os

trabalhadores do mundo moderno? Apenas a fórma variou, por isso que,

sendo o livrete obrigatorio para todos os que são forçados a viver da

venda do seu trabalho, nenhum movimento da vida operaria poderá escapar

á policia. Para mudar de localidade e até para mudar de officina, são os

trabalhadores forçados a apresentar essa prova da sua identidade e do

seu comportamento anterior. De modo que aos patrões fica a liberdade

plena de os admittirem ou de os expulsarem das suas officinas, conforme

lhes aprouver. É uma inquisição de nova especie que se torna mister

abolir não só dos codigos, senão tambem dos usos particulares. O

operario será admittido em todas as officinas e em todos os

estabelecimentos, quer do estado quer de particulares, sem que os

patrões lhe possam exigir a minima formalidade. Condemnamos, por egual,

o livrete e os attestados individuaes, que collocam os trabalhadores na

mesma situação de inferioridade moral perante os seus superiores.

Ha, felizmente, paizes onde a licença para trabalhar não é já exigida.

Na explanação d'estes artigos, não nos dirigimos, porém, a este ou

áquelle paiz, a esta ou áquella localidade: fazemos a critica geral

do systema e apreciamos os factos que se assignalam e observam nas

modernas sociedades.

Na mesma ordem de reformas, entra a abolição dos artigos que estabelecem

a inferioridade da mulher perante o homem.

Que nos resta então da egualdade perante a lei--o novo evangelho da nova

civilisação--se, na ordem civil assim como na ordem politica, continuam

a coexistir duas leis differentes, uma para o homem e outra para a mulher?

Diz-se, geralmente, que a mulher nasceu para os trabalhos caseiros. Mas

essa limitação vae desapparecendo de dia para dia. E, hoje, a mulher

applica-se a muitos outros trabalhos que antigamente só pertenciam aos

homens, como correios e telegraphos, empregos e serviços dos grandes

armazens e dos grandes restaurantes, casas de modas, lojas, caminhos de

ferro e tantos mais que seria longo e superfluo ennumerar aqui.

O socialismo moderno não reconhece distincções fundadas e baseadas sobre

os sexos. Quer se trate de reuniões quer se trate de congressos, a

mulher é chamada e eleita, com os mesmos titulos, que o homem. Ao

partido operario--que é o partido de todos os explorados, sem distincção

de sexo nem de raça.--cabe pois, o dever de se associar ás suas

reivindicações.

Art. 2.º--_Suppressão do orçamento dos cultos e regresso á nação dos

bens, chamados de mão morta, que pertençam ás corporações religiosas,

comprehendendo todos os annexos industriaes e commerciaes destas

corporações._

Na grande republica dos Estados Unidos da America, a Egreja, ou, para

melhor dizer, as differentes egrejas nada teem com o Estado. Os cultos

constituem, naquella nação, uma industria particular, como a industria

das rolhas ou a industria da cortiça.

_Paga quem consome._

É este o principio, adoptado por todos os publicistas e pensadores da

escola avançada. A separação da Egreja e do Estado, faz hoje parte de

todos os programmas radicaes e constitue uma das principaes

reivindicações da philosophia moderna.

O regresso á nação da propriedade mobiliaria e immobiliaria das

corporações religiosas, encontrou um precedente na revolução operaria de

18 de Março. Tem, alêm d'isso, a vantagem de educar as massas,

ensinando-as a rehaver aquillo que lhes foi extorquido pela violencia e

pela fraude, isto é--na linguagem do programma socialista--ensinando-as

a _expropriar os seus expropriadores_.

O Primeiro de Maio · 第 30 / 101 题